Blog do Júlio Gomes

Arquivo : Futebol europeu

Zidane dá mais uma lição de grandeza e humildade
Comentários Comente

Julio Gomes

E Zidane “se fué”. Convocou uma coletiva, avisou que estava deixando o Real Madrid e deixou o mundo de queixo caído.

Pode parecer inacreditável para nós – para os espanhóis, para todo mundo, enfim – que alguém deixe seu posto no auge. Vamos lembrar. Zidane nunca havia dirigido uma equipe profissional. Assumiu o Real Madrid na roubada, há dois anos e meio, depois da má escolha e da demissão de Benítez. Em duas temporadas e meia, ganhou três Champions League. Um fenômeno.

Por que ir embora? O cara pode ganhar o salário que quiser, pode fazer e desfazer no vestiário, tem a faca e o queijo na mão, é amado pela torcida, talvez seja o maior nome da história do madridismo. Por que?

A resposta talvez seja mais fácil do que parece. Porque Zidane é um gigante. Grandeza e humildade, coisa que poucos têm. A humildade para reconhecer que o ano não foi bom – acabou com um título europeu quase acidental, se olharmos para a trajetória da temporada. A humildade para reconhecer que possivelmente não seja capaz de reverter o viés de queda do time. A grandeza de deixar o lugar para outro. A grandeza de não enganar o clube com falsas promessas e expectativas.

O Madrid está de luto, dirigentes e jogadores possivelmente estejam zonzos com a notícia. Mas parece que só Zidane, neste momento, consegue compreender o que é melhor para o clube. Com a classe de sempre. Sem polêmicas nem intrigas.

O melhor é abrir caminho para a transição com três Copas da Europa em sequência. Muito melhor do que fazê-lo no meio de uma tempestade.

A transição, está claro, não será apenas de treinador. Bale tem pinta de que vai embora. Uma troca Cristiano Ronaldo por Neymar com o PSG está fervendo, com todos os sinais possíveis de que ocorrerá. Não se sabe se Navas continuará com a confiança do clube. Para Sergio Ramos, a idade vai chegando. Asensio e outros jovens pedem caminho.

Haverá mudanças, isso está claro. E Zidane não se sente na melhor posição para comandar a revolução e seguir fazendo o Real vencedor.

O que tinha toda pinta de ser uma hegemonia de anos se transformou em domínio continental, mas não doméstico. Pode parecer para nós, brasileiros, que os europeus tratem suas Ligas como nós temos tratado os estaduais. Não é bem assim. E a prova é que, em sua despedida, Zidane disse que seu maior momento como treinador do Real Madrid foi conquistar o Espanhol, ano passado.

Para reconquistar a Liga local, o Real vai ter de remar muito e se ajustar rapidamente às mudanças de elenco que possam se produzir. Não é uma conta fácil nem previsível.

Zidane se vai como chegou. De forma rápida e inesperada. Veio dos livros de história e escreveu páginas ainda mais triunfais. Foram 9 títulos (de 13 possíveis) em 876 dias. Estamos diante de um grande. Uma pessoa completamente diferente, um ponto fora da curva.


Por que ninguém fala deste Real Madrid como o melhor time da história?
Comentários Comente

Julio Gomes

Basta ler a coluna na Folha do grande PVC, também blogueiro aqui do UOL, para entender o tamanho da história feita pelo Real Madrid.

É o primeiro tricampeão da era Champions League (já era primeiro o bicampeão), uma era em que é muito mais difícil ganhar o torneio. Antes, enquanto tínhamos o formato de Copa dos Campeões da Europa, o difícil mesmo era disputar o torneio – era necessário ser campeão nacional. A característica da era Champions é que todos os grandões estão sempre na disputa, porque, claro, raramente não ficam entre os três ou quatro primeiros nas ligas domésticas.

Real Madrid, Barcelona, Bayern de Munique, Juventus, Manchester United, agora os “ricos” Chelsea, City, PSG, enfim. A galera toda está sempre lá, salvo uma ou outra exceção. E é isso que faz da Champions uma competição tão difícil de ser vencida.

Que o Real tenha vencido quatro europeus em cinco anos é um fato estrondoso. Muito mais relevante que o penta do próprio Real lá nos anos 60, quando a competição é criada, ou os tris de Ajax e Bayern e, claro, mais relevante que as quatro conquistas do Barcelona entre 2006 e 2015, com uma espinha dorsal e um jeito de jogar característico.

Quando o Barcelona de Guardiola, Messi, Xavi e Iniesta ganha do jeito que ganha em 2011 – e considerando que aquele time era base e inspiração para uma Espanha campeã do mundo em 2010 e campeã da Europa em 2008 e, depois, em 2012 -, parecia claro que estávamos diante do maior time da história. Maior que o Real de Di Stefano e do Santos de Pelé, pela competição maior de hoje em dia, pelo fato de o futebol ser globalizado (ou seja, os melhores do mundo realmente estão na Champions) e por deixar uma marca, uma impressão digital, quando parecia impossível inventar algo novo no jogo. O resgate triunfal do “jogo bonito”.

Por que podemos discutir se o Barça de Guardiola e Messi é o melhor de sempre, mas não vemos discussões desse tipo sobre o Real Madrid de Zidane e Cristiano Ronaldo?

Não seria a hora de olharmos para Sergio Ramos como um dos grandes zagueiros da história? Não seria a hora de percebermos que, exceção feita à Copa do Mundo, Marcelo tem uma carreira maior que a de Roberto Carlos? Não seria a hora de colocarmos a dupla Kross-Modric em um patamar parecido ao de Xavi-Iniesta? Não seria a hora de vermos que Cristiano Ronaldo é o maior atacante de todos os tempos?

Eu desconfio de alguns fatores que fazem com que muita gente seja tão reativa à ideia de considerar este Real Madrid de 14-18 o maior time de todos os tempos.

É um time que neste mesmo período ganhou seu campeonato doméstico apenas uma vez – neste ano, por exemplo, acabou em terceiro, a 17 pontos do Barcelona. As ligas domésticas, com 38 rodadas, apontam que times conseguem ser mais consistentes, dominantes em todos os jogos, enquanto o mata-mata, claro, dá margem a muito mais coisa.

O Barça de Guardiola, o Real de Di Stefano, o Santos de Pelé eram todos absolutamente dominantes nas competições domésticas.

Guardiola é um gênio do ofício, um cara que consegue enxergar muito além, abstrair, pensar fora da caixa. É desses que deixam a digital, um legado. Qual é até agora a marca de Zidane?

E uma comparação parecida envolve o embate Cristiano-Messi. Os números e a capacidade do primeiro são inegáveis. Mas Messi é fantasia, é genialidade, é fazer aquilo que ninguém espera, aquilo que conexões cerebrais não conseguem enxergar.

Cristiano e Zidane ganham. Messi e Guardiola encantam. Mais ou menos por aí.

Os detratores do Real Madrid vão também olhar para a sorte, para os adversários do mata-mata, para erros de arbitragem que favoreceram o clube nestes quatro títulos. Mas, se olharmos na lupa, o mesmo que argumento que poderia servir para diminuir os feitos do Real pode ser usado para outros. Nos últimos anos, o Barcelona tem sido mais ajudado por arbitragens europeias que o Real Madrid, por exemplo. Em três dos quatro títulos, o Real passou pelo Bayern. Enfim. Não tem muito como ficar colocando “poréns”.

Talvez o título deste ano tenha sido mesmo o menos brilhante, com tantos presentes dados pelos adversários. Mas azar dos outros.

O Real Madrid, eu já disse aqui, só dá presente para a própria torcida, não para os rivais.

Ainda que eu seja um “Messista”, eu também sou “Cristianista”. O cara ruma à sexta Bola de Ouro, faz mais gols que qualquer um, foi campeão europeu com Portugal, ganhou tudo com dois clubes diferentes, mostrando que se adapta a qualquer lugar.

É fácil defender a tese de “Cristiano é o maior de todos”. Muito mais fácil do que defender a tese de “este Real Madrid é o maior time de futebol da história”.

Eu entendo que você não goste dessa ideia. Mas está na hora de, no mínimo, debatê-la. Acho que esse time aí faz por merecer, não fez?

 


Marcelo x Salah é o duelo chave da final da Champions
Comentários Comente

Julio Gomes

Chegou a hora. Real Madrid e Liverpool vão decidir amanhã, em Kiev, o título europeu. O Real Madrid tenta se transformar no primeiro a vencer a competição máxima do continente por três vezes seguidas desde o Bayern dos anos 70 – já é o primeiro a ganhar dois seguidos na “era Champions”. O Liverpool, que nunca conquistou o Inglês na “era Premier League”, pode voltar a ser coroado após o “milagre de Istambul”, em 2005, para cima do Milan.

Muito se fala do duelo Cristiano Ronaldo x Salah. A vitória na final seria um passo decisivo rumo à Bola de Ouro – ainda que falte “só” a Copa do Mundo para ser jogada.

Quando todos esperavam o ano de Neymar, após a chegada triunfal ao PSG, foi um egípcio que saiu do nada para se meter entre Messi e Cristiano Ronaldo, dominantes há 10 anos.

Mas não é Cristiano Ronaldo quem irá parar Salah na final deste sábado. A responsabilidade é coletiva. E o setor é o de Marcelo.

Este é o grande duelo da decisão. Marcelo x Salah. Marcelo vive um momento sublime na carreira e é de seus pés que costumam sair as jogadas mais perigosas do Real Madrid.

Pode ser um drible que rompa uma das linhas e gere profundidade. Pode ser uma finalização certeira de fora da área, como a contra o Bayern m Munique. Pode ser uma tabela com um dos atacantes. Pode ser uma daquelas magníficas viradas de jogo, que gera um contra um pelo outro lado do campo.

Muitas vezes o jogo do Real nasce por ali, e Salah é o primeiro jogador a dar o combate.

Não podemos perder de vista que Marcelo está longe de ser perfeito na defesa. Ainda que tenha evoluído, é um ponto fraco do Real e precisa de muita ajuda por ali. É o lado de Salah, um jogador que faz uma temporada surreal.

Há muitos outros duelos que podem definir o jogo, mas é por ali que a final será jogada, estudada, pensada. Quem, entre os dois, ganhar a batalha nas fases ofensiva e decisiva, deixará seu time muito bem encaminhado.


Time de Champions, Atlético de Madrid cumpre papel na Liga Europa
Comentários Comente

Julio Gomes

O Atlético de Madrid, na era Simeone, se transformou em um clube top da Europa – tanto que chegou a duas finais de Liga dos Campeões, depois de já ter vencido duas Ligas Europa. Não era esperada a eliminação ainda na fase de grupos da Champions 17/18.

O Atlético estava em um grupo duro, com Chelsea, Roma e Qarabag, do Azerbaijão. Foram dois tropeços contra o patinho feio da chave que atrapalharam a vida do Atlético, que teve uma primeira metade de temporada esquisita, alternando bons e péssimos jogos. Acabaram passando Chelsea e Roma – esta, chegou à semifinal.

O fato é que o Atlético acabou “caindo” para a Liga Europa, onde foi imediatamente considerado principal favorito ao título pelas casas de apostas. E confirmou o favoritismo. Tudo bem que estavam lá Arsenal, Borussia Dortmund, algumas outras camisas importantes do continente.

Mas o fato é que, na era Simeone, o Atlético ganhou novo status. Era quase obrigação ganhar o torneio, após a primeira fase da Champions decepcionante. Eu não gosto muito do termo “obrigação”, porque o que jogador tem a obrigação de fazer é atuar com vontade e dedicação. Mas, digamos, o Atlético cumpriu seu papel de favorito – como fizera o Manchester United no ano passado.

O Olympique de Marselha até teve uma chance clara com 0 a 0 (Germain perdeu cara a cara), antes de entregar de presente o gol para Griezmann fazer o primeiro. No segundo tempo, já depois do segundo gol de Griezmann, o Olympique acertou a trave – botaria fogo no jogo. No fim, Gabi fez o 3 a 0.

Foi um time bravo, o Olympique, como brava é sua torcida. O choro sentido dos jogadores ainda no campo mostra como o título seria importante para a região de Marselha, cheia de imigrantes, pessoas que estão sentindo na pele o ambiente de segregação que se espalha como um câncer na Europa.

Mas não tem jeito. O Atlético é simplesmente muito mais time. É time de Champions. Mesmo sem Griezmann (que deve ir ao Barcelona), a permanência de Simeone nos garante: na próxima temporada, eles voltarão a incomodar.

Em 2010, ainda antes de Simeone, quando o Atlético ganhou sua primeira Europa League, aquilo parecia o teto para o clube. Aquele título foi comemora em êxtase absoluto. Mas aí chegou o argentino. Vieram finais de Champions, título da Liga doméstica, da Copa do Rei, mais duas, com essa, Europa Leagues, Supercopas da Europa e da Espanha. Os tempos mudaram nestes quase sete anos.

O Atlético de hoje é grande como nunca.


Nunca Barcelona e Real Madrid foram tão pequenos no mesmo dia
Comentários Comente

Julio Gomes

Já tivemos muitos e muitos clássicos mais importantes do que o Barcelona-Real Madrid deste domingo. Não só na história toda, mas mesmo nos últimos anos. O de hoje foi dos menos importantes. O Espanhol está decidido para o Barcelona, o Real Madrid não joga mais nada nesse campeonato, não vivemos o auge da tensão política Espanha-Catalunha…

Então, com licença aos gols de Cristiano Ronaldo e Messi, um em cada tempo, e também com licença ao fato de o Barcelona ter mantido a invencibilidade no campeonato, se aproximando de um feito histórico, o clássico do Camp Nou foi vergonhoso.

Não havia razão para tanta pancada, tantas entradas, tanta provocação, tanta picuinha. Não há rivalidade que justifique.

Tem gente que adora. Muita gente, aliás. “Isso é futebol”. “Os caras não têm sangue de barata”. “Vai lá assistir vôlei”. Esses são os (profundos) argumentos prediletos da turma.

Não é como eu vejo o jogo, não é o que me apaixona no jogo. Sou um crítico frequente deste “futebol machão” que vemos na América Latina, não tem por que poupar o maior clássico do mundo de críticas.

Todos sabemos perfeitamente que existe tensão dentro do campo de futebol, não precisam estar jogando Barcelona e Real Madrid para termos conhecimento disso. O problema é quando descamba. E ainda mais em um jogo assim, assistido no mundo inteiro, por zilhões de pessoas.

Que exemplo dá Messi para o mundo ao dar uma entrada maldosa em Sergio Ramos, como uma forma de vingança após um cotovelo deixado por Ramos no peito de Luis Suárez?

O juiz deu amarelo a Ramos (justo) e a Suárez (também justo, pela reclamação ostensiva, aquele show de sempre). O que mais queria Messi?

Vamos dar um pequeno desconto a Messi, porque em tantos anos de carreira nunca o vimos fazer esse tipo de coisa?

Até podemos. Mas imaginem se fosse Neymar a fazer o que Messi fez? Teria perdão? Messi é grande quando faz o golaço que fez no segundo tempo, é pequeno quando resolve fazer justiça com as próprias mãos (ou pés).

Aliás, em nosso país estamos vivendo a era dos justiceiros. Todo mundo quer e acha que pode fazer justiça com as próprias mãos. O pequeno microcosmo do futebol nos mostra o quanto isso é a barbárie.

Messi deu a senha. No minuto seguinte, Bale deixou a sola na panturrilha de Umtiti, de forma igualmente maldosa. No mínimo, amarelo. Outro minuto, e Sergi Roberto dá um soco em Marcelo (recebeu o vermelho). Não dá nem para chamar o fraco juiz de justiceiro seletivo, porque no segundo tempo Suárez fez falta clara em Varane no lance do gol de Messi. E depois, já com 2 a 2, o árbitro ainda deixou de dar pênalti claro de Alba sobre Marcelo.

O árbitro se perdeu e cometeu erro atrás de erro. Mas a confusão toda começa antes disso e é exclusivamente culpa dos jogadores. Gente que, hoje, perdeu a noção do que representa. De como são copiados no mundo inteiro.

Nos minutos finais ainda teve a briguinha pelo tal fair play. Suárez cai, Busquets não joga a bola para fora, depois o Real Madrid tampouco e vira bate boca. Após o apito final, claro, sorrisinhos de Ramos, Piqué e os outros jogadores da seleção espanhola. Do tipo “os bobocas aí devem ter se divertido com nossas briguinhas”. Foi um “El Clássico” deprimente.

Vamos lembrar que a vergonha já havia começado antes da partida. Na Espanha, existe uma tradição de muitas décadas. Depois de um time ser campeão, ele é homenageado em sua partida seguinte. O adversário da vez faz um corredor (o “pasillo”) para render homenagem aos jogadores campeões, que entram em campo sob aplausos.

Em dezembro, o primeiro jogo do Real Madrid após a conquista do Mundial de Clubes foi o clássico contra o Barcelona. Alegando que não havia disputado o mesmo torneio, o Barça resolveu não fazer o tal pasillo. Um argumento discutível, pois o Barça havia disputado a Champions, vencida pelo Real e que deu o direito ao time de Madri jogar o “Mundialito”. Picuinha pura.

O Real Madrid, que se orgulha de ser um clube “señor”, acima do bem e do mal, classudo, devolveu como? Não fazendo o pasillo neste domingo, apesar de o Barça ter sido campeão espanhol na rodada passada. Ou seja, uma atitude pequena, mesquinha. Picuinha pura.

Faltou classe a todo mundo. Menos ao pobre Iniesta, que se despediu dos clássicos em um jogo para ser esquecido.

Nunca Barcelona e Real Madrid foram tão pequenos, juntos, no mesmo dia.


Liverpool foi o único capaz de vencer final do Real nos últimos 52 anos
Comentários Comente

Julio Gomes

Real Madrid e Liverpool farão, no próximo dia 26, em Kiev, a final mais premiada da história da Liga dos Campeões da Europa. São 17 títulos somados – 12 do Real, 5 dos ingleses.

Mas os dois não são apenas supercampeões. Eles são também supervencedores de finais.

Se levarmos em conta um mínimo de três finais disputadas, para tirarmos da conta os que venceram a uma ou duas decisões que jogaram, encontraremos em Real Madrid e Liverpool os dois clubes com melhor aproveitamento em finais.

O Real Madrid ganhou 12 e perdeu apenas 3, um aproveitamento de 80%. O Liverpool ganhou 5 e perdeu 2, ou seja, 71,5% de sucesso. Curiosamente, foi o próprio Liverpool que impôs ao Real uma dessas raras derrotas em finais: 1 a 0 na decisão de 1981, disputada em Paris.

O Real ganhou as cinco primeiras Copas da Europa, entre 56 e 60, os anos de Di Stefano, Gento e companhia. Depois perdeu duas finais – em 62, para o Benfica de Eusébio, e em 64, para a Inter de Milão. Voltou a ser campeão em 66. Depois disso, o time da capital espanhola demorou 32 anos para voltar a ser campeão continental, já entrando na era moderna da Champions League.

Entre o hexa, em 66, e o hepta, em 98, a única final disputada pelo Real foi a de 81, quando perdeu para um Liverpool em seu auge europeu.

O Liverpool era dominante na Inglaterra no fim dos anos 70 e início dos 80. Foi campeão europeu em 77, 78, 81 e 84, perdendo a decisão de 85. Depois, na era Champions, conseguiu o milagre de Istambul em 2005, contra o Milan, para depois perder do próprio Milan em 2007 – nestes anos, como agora, o Liverpool não era cotado para chegar à decisão.

Na era Champions League, o Real Madrid ganhou as seis finais que jogou – duas contra a Juventus (98 e 2017), duas contra o Atlético de Madrid (2014 e 16), uma contra o Valencia (2000) e uma contra o Bayer Leverkusen (2002). Somados, todos esses adversários derrotados pelo Real tinham apenas dois títulos máximos europeus (ambos da Juventus, que, ao contrário dos finalistas deste ano, é o clube com pior aproveitamento em decisões).

Portanto, em 10 de seus 12 títulos, o Real enfrentou um time que, na ocasião, nunca havia sido campeão.

Quando os dois gigantes disputaram a final em 81, a competição tinha outro formato, apenas com os campeões nacionais e eliminatórias desde o início. Falando o português claro, era mais difícil entrar no torneio, mas mais fácil chegar até o fim – o que aumenta os méritos do Real Madrid da atualidade.

Em 80/81, o Liverpool havia passado por Oulun (FIN), Aberdeen (ESC), CSKA Sofia (BUL) e Bayern de Munique. O Real Madrid havia passado por Limerick (IRL), Honved (HUN), Spartak Moscou (RUS) e Inter de Milão.

O Liverpool entrou em campo na decisão com oito ingleses e três escoceses. O Real Madrid tinha nove espanhóis, um alemão e um inglês. O que dá bem a noção de como os tempos eram outros. Alan Kennedy fez o gol do título, aos 37min do segundo tempo.


Iniesta deixa o Barcelona como maior jogador da história da Espanha
Comentários Comente

Julio Gomes

Andrés Iniesta é um mito. Um gênio da bola. Mas é mais do que isso.

E talvez esse “plus a mais”, como diria o outro, é que faça a despedida dele do Barcelona após 16 temporadas, anunciada nesta sexta-feira, tão revelante e emocionante.

Iniesta não é o melhor jogador de todos os tempos do Barcelona. Lá estiveram Messi, Cruyff, Romário, Xavi, só para citar alguns. Sem dúvida ele está no top 10 da história do clube, afinal, fez parte da era mais vitoriosa da história do Barça.

No domingo, com um empate em La Coruña, o Barça deverá garantir por antecipação mais um título da Liga espanhola. Será o nono de Iniesta. O nono em 14 anos, desde que começou a fazer mesmo parte do time. É um absurdo. Bote aí na conta também seis Copas do Rei, quatro Liga dos Campeões da Europa, três Mundias de Clubes, três Supercopas da Uefa, sete da Espanha. É um escândalo.

Mas o que faz de Iniesta o maior jogador espanhol de todos os tempos, como eu cravo no título deste post?

Oras, entre outras coisas, os feitos com a seleção espanhola, é óbvio. Duas Eurocopas e uma Copa do Mundo, com direito ao gol do título naquela prorrogação de Johanesburgo. Um gol de título de Copa do Mundo é coisa para poucos.

Mas vamos além disso. Afinal, a seleção espanhola campeã de tudo é formada por outros jogadores de igual importância. Xavi, Sérgio Ramos, Casillas, Piqué, etc.

Depois de fazer aquele gol em Johanesburgo, Andrés Iniesta sacou a camisa em êxtase e, por baixo da “roja”, mostrou uma camiseta em que homenageava Dani Jarque – morto um ano antes, aos 26, após um ataque do coração, Jarque era capitão do Espanyol, rival local do Barcelona.

Gente. Vamos ser sinceros. Ninguém mais lembrava de Dani Jarque. Não é que passaram o mês da Copa inteiro falando dele. Aquela foi uma homenagem inesperada. Maravilhosa. Humana. Sincera.

É o paralelo a Cafu se lembrando do Jardim Irene. Só os verdadeiros humildes conseguem voltar tantas casinhas no tempo justo no momento em que estão vivendo seu ápice.

Iniesta, o autor do gol do título espanhol, passou a ser aplaudido por todos os campos da Espanha. Sempre, em qualquer jogo do Barcelona. E isso é assim há quase oito anos. Só porque ele fez o gol? Só por causa da homenagem a Jarque?

Não, não só. Pela atitude em campo, por ter sido sempre um exemplo de cavalheirismo e fair play em campo, por nunca ter dado pernada nem cotovelada em ninguém, por jogar muita, mas muita, mas muita, mas muita bola – o jeito de jogar que o espanhol venera e ama. E, claro, por não ter sido um divisor em anos de divisão e tensão.

Iniesta sempre foi uma voz apaziguadora ou silenciosa no auge da rivalidade Barça-Madrid e também neste momento de independentismo catalão à flor da pele. Ele não é catalão. Ao contrário do que muitos pensam, Iniesta é de Castilla La Mancha, uma região bem “espanhola”, e foi cedo para as bases do Barça. Mas nunca insuflou e nem menosprezou o separatismo catalão – ao contrário de Xavi, Piqué ou Sergio Ramos, por exemplo.

Não vou debater quem jogou mais. Acredito que Xavi tenha sido um jogador mais completo taticamente, uma influência mais importante em campo para o Barcelona e para a Espanha. Mas Iniesta foi mais genial, mais decisivo. Eles estão ali, pau a pau.

Como disse hoje Julio Maldini, o melhor jornalista de futebol da Espanha, escolher entre Xavi e Iniesta é como escolher entre papai e mamãe. Ou seja, não dá para escolher. Mas, olhando de fora, eu percebo que a admiração por Iniesta é nacional e unânime. Xavi, pela questão extra-futebol, não é uma unanimidade.

Junte tudo isso ao gol na final da Copa, aos títulos, à classe, etc, e temos o maior jogador da história da Espanha. Eu gosto de usar “maior”, em vez de “melhor”, porque gosto de abranger mais do que as quatro linhas para elencar jogadores em seu lugar na eternidade da bola.

E olho. Porque o homem se aposentou do Barça, mas não do futebol. E algo me diz que essa Espanha, com a tabela que tem, o time que tem, a confiança adquirida por essa geração e com Iniesta em campo… vai dar o que falar na Copa da Rússia.

Hasta pronto, Andrés. Y muchas gracias.

 


Real Madrid é uma máquina de fazer times pagarem por seus pecados
Comentários Comente

Julio Gomes

Quantas vezes já vimos essa história? O time joga bem contra o Real Madrid. Pode ser um pequeno, de forma surpreendente. Pode ser um gigante, tipo Bayern de Munique. Perde um gol. Perde outro. Domina. E…. pumba.

Foi a história do jogo desta quarta, em Munique. Uma cidade em que o Real Madrid havia perdido nas dez primeiras visitas que fizera na história, mas onde ganha agora a terceira de forma consecutiva. O Bayern era a “bestia negra”. Virou freguês em casa.

Zidane montou o Real de forma cautelosa, sem Benzema ou Bale, com Cristiano Ronaldo isolado na frente e Lucas Vázquez no time para marcar pelo lado. Povoou o meio de campo. Até conseguiu ter a posse de bola nos primeiros minutos. E ainda deu a sorte de ver o Bayern, com uma formação ultraofensiva, perder Robben, machucado, no comecinho do jogo.

Mas o Bayern se acertou, fez o gol em um contra ataque improvável, com Kimmich, e a partir daí encontrou os espaços no meio de campo. Teve várias chances de gol, a melhor delas com Ribery, outras em escanteios que poderiam ter acabado com bola na rede. Era jogo para 2 a 0 no primeiro tempo.

Mas o Real Madrid faz todo mundo pagar por seus pecados. Todo. Mundo. Até o Bayern.

Bastou uma falha na intermediária e Marcelo acertou um chute lindo para empatar o jogo. No intervalo, Zidane tirou Isco, sacrificado pela esquerda, e colocou Asensio, um jogador mais incisivo. Subiu a marcação, incomodou a saída de bola do Bayern e fez seu time ser muito superior no segundo tempo.

Foi Rafinha, que fazia uma ótima partida pela esquerda, que deu o presente que Asensio não desperdiçou. 2 a 1 para o Real Madrid. Asensio, o mesmo que decidiu a eliminatória contra o PSG. Futuro e presente do Real Madrid.

O Bayern ocupou o campo de ataque, mas o Real Madrid, fechadinho, apesar da frustração de Cristiano por ficar tão isolado na frente, conseguiu fazer o seu jogo funcionar.

O Bayern havia perdido também Boateng por lesão no primeiro tempo. Heynckes ficou sem margem de manobra tática. Talvez, quando o Real perdeu Carvajal, pudesse ter trazido Rafinha para direita, aberto Kimmich na frente e jogado Thomas Muller para dentro da área. Uma área em que Lewandowski passou o jogo inteiro enrolado no meio de três, quatro, cinco adversários.

Quando Ribery conseguia fazer algo pela esquerda, mesmo com a língua de fora a seus 35 anos de idade, não havia ninguém na área para concluir. Faltou presença ofensiva ao Bayern no posicionamento dos meias e de Thomas Muller.

No segundo tempo, não apareceram chances ótimas como no primeiro. A melhor foi aos 43min, mano a mano de Lewandowski com Navas, que o polonês tocou pessimamente, para fora.

O Bayern perdoou no ataque, errou no lance do segundo gol. E o Real Madrid, como sempre, fez o adversário pagar o preço.

Não é uma eliminatória definida, claro que não. No ano passado, o Real ganhou por 2 a 1 em Munique, mas o Bayern devolveu o placar em Madri e levou o jogo para a prorrogação. A expulsão equivocada de Vidal deu ao Real a possibilidade de fazer três gols na prorrogação e se classificar.

Tem jogo. O Bayern tem gente suficiente para reverter. Mas, neste momento, é difícil imaginar uma final de Champions League diferente de Real Madrid x Liverpool.

 


Salah é o melhor jogador do mundo, será injusto se não for Bola de Ouro
Comentários Comente

Julio Gomes

A primeira coisa que é importante ressaltar, antes de seguir com este post. O prêmio de melhor jogador de futebol do mundo não pode ser dado para quem “é” e, sim, para quem “está”. É um prêmio de melhor do ano. Para premiar a temporada, não uma avaliação geral de todos os atributos e potencial que os jogadores têm na vida.

Dito isso, será uma das grandes injustiças da história se não for Mohamed Salah, um egípcio, um herói improvável, o jogador encarregado de quebrar os 10 anos de domínio de Messi e Cristiano Ronaldo dividindo a premiação de melhor do mundo.

Desde que Kaká foi eleito, em 2007, o argentino e o português ficaram com cinco prêmios cada. No meio do caminho, a Fifa “comprou” a Bola de Ouro, uma premiação mais técnica e com mais credibilidade – afinal, a votação da Fifa é povoada de jogadores, técnicos e jornalistas da periferia da bola, mais sujeitos a votar em nomes famosos.

Agora, Bola de Ouro e Fifa estão separadas novamente. Não consigo prever o que acontecerá na premiação da Fifa, creio que dependerá demais da Copa do Mundo.

Mas acredito que dificilmente a Bola de Ouro sairá das mãos de Mohamed Salah. E será injusto se não for assim.

Salah já foi eleito o melhor jogador da Premier League por seus pares – um indicativo importante, em um campeonato tão dominado por um time, o Manchester City, que não é o dele.

Na temporada toda, são 43 gols em 47 jogos para Salah. Uma enormidade. E ele ainda produz um número significativo de assistências.

Nesta terça, contra a Roma, Salah fez dois e deu dois passes para gol. Os dois gols foram os dois primeiros. E foram dois golaços. Este é outro detalhe. O cara virou o Messi de um ano para o outro. É gol de canhota no ângulo, de cavadinha… é só golaço. Sem contar a função tática pela esquerda, fechando espaços e criando muitos problemas com tanta velocidade.

Quando saiu de campo, o Liverpool relaxou e tomou dois gols que ainda fazem a Roma sonhar. No fim, 5 a 2 para o time inglês. É muito difícil a classificação para a final europeia escapar, mas futebol é futebol.

No dia 15 de junho, o Egito vai estrear na Copa do Mundo contra o Uruguai, em Ekaterimburgo. Será o primeiro jogo do Egito em Copas desde 1990. Será o dia do aniversário de 26 anos de Salah, que não é nenhum garotinho.

Foi contratado pelo Chelsea quatro anos atrás, não deu certo, foi emprestado para a Fiorentina, vendido para a Roma. Na Itália, eu costumava chamá-lo de “uma espécie de Mirandinha”. Velocista, ciscador, mas péssimo na tomada de decisões. Meio burro, falando o português claro (“ou corro ou penso, professor”). Eu, como muitos, achei um absurdo o Liverpool pagar mais de 200 milhões de reais por ele.

Eu, como muitos, estávamos errados. Ele não só provou seu valor na Premier League como passou a tomar todas as decisões corretas. Passa quando tem que passar. Finaliza quando tem que finalizar. E faz gols. Um caminhão deles.

O Liverpool perdeu seu (suposto) melhor jogador em janeiro, Philippe Coutinho, e foi criticado por trazer um zagueiro (Van Dijk) por outro caminhão de dinheiro. Resultado? Acertou o sistema defensivo, manteve a velocidade na frente, já praticamente se garantiu no top 4 da Premier, derrubou três vezes seguidas o badalado time de Guardiola e está virtualmente na final da Champions League.

Tudo isso passa por um monte de gente. A coragem de Klopp, a grande fase de Firmino, a presença de Van Dijk, etc. Mas tudo isso passa essencialmente pelo Faraó. Por Salah.

Messi é o Pelé dos nossos tempos. Cristiano Ronaldo é o melhor atacante que já vimos. Os dois elevaram o nível do futebol a tal ponto que é muito difícil olhar para outro jogador e colocá-lo acima deles.

Mas lá está Salah. No topo da pirâmide.

 


Uma Juventus covarde deixa o Napoli sonhar com o milagre
Comentários Comente

Julio Gomes

Dez dias atrás, vimos uma Juventus heróica quase conseguir um milagre em Madri, na Champions League. Neste domingo, vimos uma Juventus covarde deixar o Napoli se aproximar de um milagre na Itália.

É incrível como alguns técnicos viajam na maionese. Allegri decidiu que a Juventus passaria o jogo inteiro se defendendo, em casa, contra o Napoli. Se vencesse, a Juve mataria o campeonato, abrindo sete pontos de vantagem e ficando a poucos passos do hepta italiano, com quatro rodadas para o fim.

É verdade que o empate deixaria a Juve com o título nas mãos – seriam quatro pontos e a vantagem do desempate. Mas por que arriscar? Ou melhor. Por que não arriscar? Por que não tentar o máximo e se acomodar com o mais ou menos? Especular é a senha para o fracasso.

E quem tem medo de perder perde a vontade de ganhar. Não é o que dizem? O futebol de hoje em dia, ainda bem, tem visto os corajosos se darem bem, em detrimento dos covardes.

Toda a ousadia de Madri virou covardia em Turim, no estádio em que a Juve perdeu tão poucas vezes.

O Napoli não foi brilhante – e nem tem sido assim nas últimas semanas, o time claramente perdeu fôlego. Mas controlou o jogo e foi o único time que buscou a vitória. O único time que atacou, agrediu, que quis vencer. E venceu com um gol improvável, de escanteio, aos 45min do segundo tempo.

A comoção da torcida do Napoli presente ao Allianz Stadium e dos jogadores em campo fala muito sobre o tamanho do gol de Koulibaly.

Qual a situação agora?

A Juventus tem um ponto de vantagem (85 a 84) e um saldo de gols superior (58 a 48). Mas, além do momento favorável com esta vitória, o Napoli tem uma tabela melhor pela frente.

A Juve pega a Inter, em Milão, na próxima rodada. Depois recebe o Bologna, joga a final da Copa da Itália contra o Milan e logo depois enfrenta a Roma, fora de casa. Na última rodada, recebe o Verona. Portanto, são duelos fora de casa contra Inter e Roma, que disputam ponto a ponto com a Lazio as duas posições que dão vaga na próxima Champions.

Para ser campeã, a Juve terá de ganhar todas. Porque isso é possivelmente o que o Napoli fará na reta final. São jogos contra Fiorentina (fora), Torino (casa), Sampdoria (fora) e Crotone (casa). São três times de meio de tabela, que não jogam a vida nestas rodadas, a o Crotone, que pode chegar salvo ou rebaixado à última rodada.

Cabe ao Napoli fazer sua parte e torcer. Vale lembrar os dois únicos títulos de Série A do Napoli vieram em 87 e 90, anos de Maradona. É esse o tamanho do tabu. É esse o tamanho do milagre que busca o time azul.