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As três derrotas de Cristiano Ronaldo
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Julio Gomes

Eu não teria dado o prêmio de melhor do mundo a Luka Modric.

Veja, isso não é dizer que o croata não mereça. É um jogador espetacular, destes raros, que são ao mesmo tempo carregadores de piano, talentosíssimos, corajosos. Pode ser um 5, um 8, um 10, pode ser o que o treinador precisar. Um jogador coletivo e, não se enganem, fundamental para o Real Madrid ter quebrado um jejum grande (para o tamanho do clube) e ter vencido quatro das últimas cinco Champions League.

O Real não teria feito nada disso sem Cristiano Ronaldo? Verdade. Mas também não sei se teria feito sem Modric.

Modric é fantástico. Fez uma Copa do Mundo enorme. E aí chegamos ao X da questão. Em prêmios de votação popular, como este da Fifa, uma competição como a Copa do Mundo ganha um peso grande demais. É como se todo o resto da temporada servisse, no máximo, de desempate.

Por isso sempre defendi que a grande chance de Neymar ser eleito melhor do mundo seria na Copa, com a seleção. Não era necessário deixar o Barcelona e sair da sombra de Messi, mas, sim, fazer algo grande com a camisa amarela. Veja, Modric nem mesmo precisou ser campeão do mundo para levar.

Zidane, em 98, Ronaldo, em 2002, Cannavaro, em 2006, não foram os melhores do mundo naqueles anos. Mas foram os melhores daquelas Copas. As exceções foram 2010 e 2014, quando a popularidade de Messi e Cristiano Ronaldo era tão grande que não deu para um espanhol ou para um alemão.

O prêmio Fifa, com votação de técnicos e capitães de todos os países do mundo, ou seja, votos de um monte de gente que não acompanha de perto, não atua, não vive e não conhece o futebol de alto nível, acaba sendo mais ou menos uma enquete popular. Famosos sempre vão sobressair. E, em anos de Copa, o peso do Mundial será absoluto.

Modric perdeu um pênalti na prorrogação das oitavas de final da Copa contra a Dinamarca. A decisão foi para os pênaltis, e o goleiro Subasic salvou a pele da Croácia. E se a Dinamarca tivesse passado? Modric seria melhor do mundo? Claro que não. OK, o “se” não joga. Vieram os jogos contra Rússia, Inglaterra e França. Modric fez tanto assim nesses três jogos para ser o “the best”? Na minha opinião, não.

Eu votaria em Salah, porque creio que a temporada do egípcio foi a mais fora da curva, a mais difícil de ser realizada, dados o time em que atua, o campeonato onde joga e suas próprias limitações técnicas. Salah acabou, de forma bizarra, com o prêmio de gol do ano. Convenhamos, um gol tão belo quanto comum.

O natural seria Cristiano Ronaldo ganhar os dois prêmios. O Puskas, pela bicicleta perfeita que arrancou aplausos da torcida adversária em Turim, em um dos maiores clássicos do futebol mundial. E o prêmio de melhor do mundo também.

A impressão é que o mundo da bola não quis dar a Cristiano um título de melhor do mundo a mais do que Messi. Não quis desequilibrar o equilíbrio histórico entre eles.

Cristiano, competitivo como é, deve estar P da vida. Não deve estar considerando justas as duas derrotas.

Mas, mesmo que ele ache tudo isso, ele nunca poderia ter deixado de comparecer à premiação. Ele era uma finalista, oras bolas. Ele é o Cristiano Ronaldo. O cara jogava ao lado de Modric até outro dia, ganharam tudo juntos. É muito conversinha para boi dormir não ir ao prêmio porque tem jogo quarta-feira (um “gigante” Juventus x Bologna pela sexta rodada da Série A). Acredite nessa quem quiser acreditar.

Cristiano não foi porque quis boicotar o prêmio. Acabou desrespeitando os próprios companheiros de profissão. Boicotando a própria imagem.


Klopp é o técnico que melhor entende o futebol da atualidade
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Julio Gomes

Pep Guardiola, José Mourinho, Diego Simeone, Zinedine Zidane. Não são poucos os técnicos badalados do mundo, e possivelmente todos eles mereçam os elogios e salários que recebem. Mas será que não subestimamos Jurgen Klopp?

O homem é o último a ter derrubado o Bayern de Munique na Bundesliga. Ficou a minutos de vencer a Champions com o Borussia Dortmund. Perdeu outra final, a de meses atrás, porque seu goleiro fez as lambanças que fez contra o Real Madrid. É a nêmesis de Guardiola, considerado por muitos, inclusive este escriba, o gênio dos gênios.

Creio que, neste momento, não haja técnico que entenda melhor o espírito do futebol mundial. O jogo se transformou. Hoje, há muita intensidade física, a disputa não para e os atletas precisam se multiplicar. Os torcedores, no estádio ou pela TV, querem ver correria e gols.

Não é à toa que os torcedores dos times de Klopp amem o alemão de paixão. Além de seus times serem legais de ver, eles vencem jogos e o treinador vive cada minuto da partida como se fosse o último da vida. A entrega dele é total. E a de seus comandados, logicamente, também.

Há outros técnicos que conseguem arrancar isso de seus jogadores. Mas talvez não consigam divertir as pessoas que estejam assistindo aos jogos.

O Liverpool foi o melhor time em campo durante todo o jogo contra o Paris Saint-Germain, neste dia de abertura da Liga dos Campeões da Europa. Venceu por 3 a 2, com um gol de Firmino nos acréscimos, mas poderia ter goleado. Estamos falando de dois dos favoritos ao título. Foi um jogaço.

O Liverpool é um time que pressiona demais o adversário. Quando tem a bola, imprime velocidade, empurra, joga com muita verticalidade. Quando não tem a bola, morde o tempo inteiro e em todas as linhas, em todas as partes do campo. É alucinante, a 200 por hora o tempo todo.

Letal no ataque e seguro na defesa, coisa que não era antes da chegada de Van Dijk. Talvez o detalhe a ser corrigido seja a falta de atenção nos 15 minutos finais das partidas. Tem que matar antes ou então saber se defender melhor no fim.

O Liverpool fez 2 a 0 no primeiro tempo sem muitos problemas contra o PSG e só levou um gol de Meunier porque o trio de arbitragem não apontou o impedimento de Cavani no lance – chega a ser surreal que a Champions não tenha o bendito VAR.

No segundo tempo, o normal seria vermos o PSG pressionar em busca do empate. Pode até ter tentado. Não conseguiu. O Liverpool foi o melhor time em campo e teve várias chances de ampliar o marcador.

Vou inventar uma frase nova agora: quem não faz, toma. O jogo estava mortinho. Um passe errado de Salah foi suficiente para, em um roubo de bola de Draxler, Neymar acelerar a jogada e ela sobrar para Mbappé empatar. O Paris mal sabia como tinha conseguido chegar ao 2 a 2.

Mas a intensidade dos times de Klopp é inesgotável. Apesar da ducha de água fria, o Liverpool foi para cima, empurrou e chegou ao merecido 3 a 2.

O Paris começou a temporada passada atropelando o Bayern e acabou sendo eliminado logo nas oitavas pelo Real Madrid. Perder hoje não quer dizer muita coisa. Mas há muito o que corrigir. Não tem muito sentido Neymar jogar como armador, ele precisa de espaço, de campo, do 1 contra 1, precisa estar perto do gol para fazer o que sabe fazer melhor: gol.

 


Neymar teve seus melhores anos após Copas. Será a Champions da redenção?
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Julio Gomes

Era o dia 22 de junho de 2011. Pacaembu. Final de Libertadores da América. Neymar fez um gol, o Santos ganhou do Peñarol e voltou a conquistar o título que não via desde os tempos de Pelé. Menos de um ano antes, era disputada a decisão da Copa do Mundo da África. Uma Copa em que a seleção brasileira foi eliminada nas quartas de final e para a qual Neymar possivelmente devesse ter sido convocado por Dunga.

Vamos agora a 6 de junho de 2015. Berlim. Final de Champions League. Neymar fez um, o Barcelona ganhou da Juventus e voltou a conquistar a Europa. Menos de um ano antes, era disputada a decisão da Copa do Mundo do Brasil. Uma Copa em que a seleção brasileira foi eliminada nas semifinais, naquele 7 a 1 contra a Alemanha que não teve participação de Neymar, pois ele se machucara nas quartas, contra a Colômbia.

Finalmente, chegamos a 2018. O Brasil acaba de cair na Copa da Rússia nas quartas de final, e Neymar saiu do Mundial como piada, por seus exageros e simulações. Daqui a menos de um ano, em junho de 2019, será disputada, em Madrid, a final da Champions, que dá o pontapé para sua fase de grupos nesta terça-feira.

Começa o torneio de futebol mais importante do mundo. E Neymar busca, pela enésima vez na carreira, a redenção. O tempo, para quem busca glória e conquistas pessoais, está passando rápido.

Para o Paris Saint-Germain, clube que contratou o jogador na maior transação da história e que virou um protagonista no mercado com o dinheiro do Catar, não estar nessa final de 2019 será nada menos do que uma enorme frustração. Um fracasso.

Em 2010, logo após a frustração de não ir à Copa, Neymar levou o Santos ao título da Copa do Brasil e começou com tudo sua história na seleção (chamado por Mano). No primeiro semestre de 2011, foi artilheiro do Santos e terceiro goleador da Libertadores na campanha do título. Em 2014, logo após a frustração da Copa em casa e de um ano de adaptação ao Barcelona, Neymar voou, fez 10 gols na campanha do título europeu, dividiu a artilharia com Messi e Cristiano Ronaldo e se colocou como postulante a melhor do mundo.

Neymar vem de nova frustração em uma Copa. E de um ano de adaptação ao PSG. Ele pode se agarrar a vários paralelos. Indiscutivelmente, os 11 meses que se seguiram aos Mundiais de 2010 e, depois, 2014, foram os melhores de sua carreira. Em 2011, se reivindicou como uma realidade nacional. Em 2015, internacional.

E em 2018/19, o padrão de sucesso pós-Mundial será mantido?

Não importam os gols e as vitórias fáceis na França. O que importa para o Paris é a Champions. E o time é um dos favoritaços a levantar a taça.

Nas casas de apostas, o principal favorito é o Manchester City, de Guardiola. Depois, vêm o Barcelona, de Messi, a Juventus, de Cristiano Ronaldo, e o PSG, de Neymar (ou de Mbappé?). Atrás deles todos, o tricampeão Real Madrid. Ou seja, os algoritmos consideram que a mudança de CR7 para a Itália é suficiente para catapultar a Juve e jogar o Real para a condição de quinta força. Logo atrás, vêm o Bayern de Munique e o Liverpool.

O Liverpool, algoz do City e finalista da Champions na temporada passada, se reforçou, ganhou os cinco jogos que fez até agora na Premier League (lidera com o Chelsea) e é o primeiro adversário do Paris, no grande jogo desta terça.

Sabemos que a fase de grupos da Champions tem reservado poucas surpresas. Ser primeiro do grupo é sempre uma vantagem, pois aumenta as chances de enfrentar um rival mais fácil nas oitavas ou, pelo menos, decidir em casa contra um rival de mesmo porte.

Na temporada passada, o Paris, primeiro de um grupo que tinha o Bayern, acabou emparelhado com o Real Madrid nas oitavas e dançou. Entre um jogo e outro, Neymar se machucou, escapando da eliminação em casa – assim como escapara do 7 a 1, em 2014.

Ser primeiro do grupo, pois, não é obsessão de quase ninguém na Champions. Mas jogos como este Liverpool x PSG desta tarde servem para medir forças logo no início da temporada. É o grande duelo do dia e da primeira rodada.

Depois do papelão na Rússia e da frustrante primeira temporada com o PSG, Neymar começa mais uma caminhada de redenção. Desta vez, não só esportiva, mas a redenção de sua imagem perante o mundo e os fãs. O ano em que Neymar precisa, de todas as formas, aparecer no noticiário somente pela enorme bola que joga.

Será que ele cumprirá a missão que lhe foi dada a peso de ouro pelos donos do clube? Será que, menos de um ano após uma Copa, ele estará, pela terceira vez, com as mãos em um troféu de relevância gigantesca?

Meu palpite é que sim. Mas a caminhada é longa. E é grande o desafio de controlar a fogueira das vaidades dentro de um clube que tem menos peso do que o vestiário. É arriscado o palpite. Mas é um bom palpite. Neymar já fez isso antes.

 


Espanha, o desperdício do ano, voa pós-Copa
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Julio Gomes

A Europa resolveu transformar seus sonolentos amistosos na tal Liga das Nações. Já parece ser uma boa ideia. Quer queira quer não, é uma competição. É possível treinar, testar e ao mesmo tempo competir. Sem a pressão absurda da Copa do Mundo ou da Euro.

Por ser jogo “para valer”, torna mais interessante a goleada de 6 a 0 que a Espanha enfiou na Croácia nesta terça. É verdade que havia desfalques, que a intensidade é diferente e tudo mais, mas foi 6 a 0 na vice-campeã do mundo. Com Modric.

No fim de semana, a Espanha já havia vencido a Inglaterra, em Wembley, por 2 a 1.

Croácia e Inglaterra fizeram uma semifinal de Copa do Mundo dois meses atrás, avançaram em uma chave que havia ficado toda aberta para a Espanha (enquanto França, Brasil, Bélgica, Argentina, Uruguai e Portugal estavam todos do outro lado). Só que a seleção espanhola caiu nos pênaltis para a Rússia antes de poder enfrentar croatas e ingleses.

É impossível não pensar no que teria sido a Copa da Espanha, não fosse o “caso Lopetegui”. A demissão do treinador na véspera do Mundial.

Lopetegui negociou sua ida ao Real Madrid achando que ninguém ia ficar sabendo. E o presidente da Federação Espanhola, Luis Rubiales, transformou a dor de corno em uma reação desmedida. Por mais absurda que tenha sido a negociação Madrid-Lopetegui e a forma como ocorreu, demitir o treinador só prejudicaria a própria seleção seleção.

Não tinha como dar certo. Apesar de ter sido eliminada de forma invicta, a Espanha nunca engrenou no Mundial. Sem técnico, não se ganha o mundo.

Com a quantidade de jogadores bons, gente como Asensio, Isco, etc, jogadores prontos para explodir, a Espanha jogou no lixo uma chance relativamente fácil de chegar a outra final de Copa do Mundo.

Vamos lembrar que antes, nos amistosos do primeiro semestre, havia enfiado 6 também na Argentina. Na Liga das Nações, agora sob comando de Luís Enrique, já está virtualmente classificada para o “final four” do ano que vem, após as duas vitórias em dois jogos.

A Espanha foi o grande desperdício da Copa. Talvez da década.


Champions tem fases de grupos cada vez mais previsíveis
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Julio Gomes

OK, OK, temos um grupo que arregala os olhos de todo mundo! Barcelona, Tottenham, Internazionale e PSV Eindhoven.

Uau! Talvez, apenas TALVEZ, se a Inter realmente acertar uns bons jogos, esse grupo saia do trivial, que seriam as classificações de Barcelona e Tottenham. Sim, certamente iremos assistir atentamente aos duelos entre esses três. E fingir que o PSV pode ameaçar alguém, afinal, já foi time de Romário e Ronaldo um dia…

(suspiro)

A Champions não é mais a mesma. Pelo menos na fase de grupos. Na era das superpotências, a competição ficou extremamente previsível antes do mata-mata. A classe média da Europa está tão achatada quanto nossa classe média da vida real no Brasil.

Ela olha para cima, para os ricaços, achando que um dia pode ser um deles (ou voltar a ser). Mal percebe que, na realidade, está muito mais perto do grupo gigantesco de pobres, sem chance alguma na vida.

Benfica, Ajax, PSV… eles já ganharam a Europa um dia. Hoje, não ameaçam mais do que Hoffenheim, Brugge ou Viktoria Pilsen.

O grupo citado, com Barcelona, Tottenham, Inter e PSV, é o grupo B. Como já disse, surpreendente será se a Inter conseguir tirar Barça ou Tottenham – que é fortíssimo e no ano passado jogou o Real Madrid para o segundo lugar de seu grupo.

O grupo C é o outro que está sendo chamado de “da morte”, pois tem PSG, Liverpool, Napoli e o Estrela Vermelha, campeão de 1991 e que recebe os jogos no caldeirão de Belgrado, chamado por eles de “Marakana”.

Mas esse grupo é da morte só para o Napoli, mesmo.

No grupo A, difícil não imaginar que Atlético de Madrid e Borussia Dortmund deixem Monaco e Brugge para trás.

O D é o mais equilibrado, sem favoritos entre Lokomotiv Moscou, Porto, Schalke 04 e Galatasaray. Quaisquer dois podem passar – para dificilmente avançarem após as oitavas. É imprevisível porque não tem nenhum grande time, ou seja, tão imprevisível quanto desinteressante.

No grupo E, o Bayern passa com folgas, Benfica e Ajax fazem o outrora clássico pela “glória” de chegar às oitavas. Olharemos com carinho para os duelos clássicos entre Bayern e Benfica, Bayern e Ajax, relembraremos dias maravilhosos dos anos 60 e 70, apenas para tomarmos um choque de realidade com o placar final desses jogos.

No grupo F, o Manchester City passa com folgas e deixa para Lyon, Shakhtar e Hoffenheim a briga pelo segundo lugar. No grupo G, o Real Madrid não terá problemas contra Roma ou CSKA Moscou. Esses dois, City e Real, possivelmente estarão mesclando titulares e reservas nas rodadas finais, lá para novembro e dezembro.

E o grupo H é parecido com os grupos B e C. Tem cara de grupo da morte… do Valencia. Juventus e Manchester United estão léguas à frente em termos de time, orçamento, etc, e qualquer coisa que não seja a classificação dos dois será surpreendente.

A fase de grupos terá vários jogões. Juventus x Manchester United, PSG x Liverpool, Barcelona x Tottenham, Atlético x Dortmund… mas em regra essas partidas mais decidirão primeiro lugar dos grupos, o que nem é tão visto na Europa como a coisa mais relevante do mundo. A competitividade é baixa nesta fase do torneio. Sobram clássicos entre favoritos, mas que são jogos sem transcendência.

A que isso se deve? Fácil apontar o dedo para a Uefa e a decisão de colocar mais campeões nacionais (de países de futebol muito abaixo) na fase de grupos. Mas o buraco é mais profundo do que isso. Mesmo se estivessem aqui camisas mais conhecidas que foram ficando pelo caminho (Spartak Moscou, Fenerbahce, Celtic) ou que entrassem mais times médios dos grandes centros… que diferença faria? Nenhuma.

Fair play financeiro, teto de gastos e salários, grupos maiores… sei lá. Alguma solução a Uefa vai precisar dar. Ou os clubes. Competição esportiva precisa de organização, qualidade, tudo isso. Mas também de um pouco de imprevisibilidade.


A hora de Vinícius Jr vai demorar. O Real, agora, é o time de Bale
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Julio Gomes

Cristiano Ronaldo se foi. E, depois de 18 anos, o Real Madrid perdeu uma final internacional – os 4 a 2 para o Atlético de Madrid, Supercopa da Europa. Claro que Cristiano não jogou todas as finais nestes 18 anos, mas a maioria delas.

Com Zidane, que ficou dois anos e meio no clube e ganhou três Champions, nunca o Real havia levado quatro gols. Eu sempre digo que, enquanto os outros dão presentinhos (Bayern, Liverpool), o Real Madrid não entrega nada de graça para ninguém. Ontem, entregou. Navas no primeiro gol, Marcelo no segundo, Varane no terceiro… foram muitas (raras) falhas individuais.

A Supercopa da Europa é apenas o primeiro jogo oficial para os times madrilenhos, começo de temporada. Mas já dá para observar algumas coisas.

Os que estavam empolgados com a pré-temporada de Vinícius Jr precisam sossegar. Há uma fila. E nela estão Asensio, Lucas Vázquez, Ceballos…

Isso sem contar Benzema e Isco, que devem ser titulares o ano todo e, claro, Bale.

Agora a bola está com ele. Depois de lesões, de perder espaço, de ficar, segundo alguns meios de imprensa europeus, perto de sair do Real, Bale tem agora a chance que nunca teve enquanto CR7 estava na área. A chance de ser dono do time.

Fica mais fácil depois de ter metido o gol de bicicleta que meteu na final na Liga dos Campeões, contra o Liverpool. Nesta quarta, contra o Atlético, o time jogou mais pela esquerda, com Marcelo e Asensio, no primeiro tempo. Mas foi de Bale que saiu o cruzamento perfeito para o primeiro gol, de Benzema.

O Real Madrid é uma das interrogações da temporada europeia. Já sabemos o que esperar do City, do United, do Liverpool, do PSG, do Bayern, até mesmo do Barcelona. Mas Arsenal, Chelsea e Real Madrid, e este é o tricampeão europeu, portanto, mais relevante, são clubes de técnico e filosofia novos.

Lopetegui fazia um ótimo trabalho na seleção espanhola, mas não foi bem quando passou pelo Porto. Ganhou um goleiraço em Courtois, o melhor do mundo, mas Navas é também ótimo. A base vencedora está mantida, só que se foi o melhor jogador do time, responsável por um número bizarro de gols. Esses gols precisam ser feitos para o time se manter no topo. Quem os fará?

Não vai ser Vinícius Jr. Aliás, a não entrada dele ontem contra o Atlético, com o time perdendo e sem ser uma Copa de grande relevância, mostra que a hora do menino ainda vai demorar bastante para chegar.

Este, a partir de agora, é o time de Bale. Será que o galês está à altura da ocasião?

 


Como alguém pode desprezar a bola de Diego Costa?
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Julio Gomes

É natural que o caráter de Diego Costa seja contestado. Alguém pode não aceitar a atitude que o sergipano de Lagarto tem em campo. É, de fato, um jogador duro, provocador, muitas vezes sujo. Mas não é normal que o futebol dele seja tão contestado por tanta gente.

Diego Costa é uma peça cada vez mais rara – portanto, valiosa – no futebol de hoje. Um “9 de garantias”, como eles gostam de falar na Espanha. Não faz só gol, é muito mais do que isso.

Contra o Real Madrid, nesta quarta, Diego Costa foi o grande nome da virada do Atlético de Madrid, campeão da Supercopa da Europa.

Diego Costa abriu o placar com um golaço sem ângulo e, na reta final do jogo, empatou a partida – o Real havia virado o marcador. Assim como nas finais de Champions de 2014 e 2016, Real e Atlético iam para a prorrogação.

Desta vez, no entanto, a história foi diferente. Se, em 14 (com Diego machucado), o Real chegou à décima e, em 16, à décima-primeira, primeiro na prorrogação e depois nos pênaltis, agora o Atlético foi quem se deu bem.

O terceiro gol nasce de uma roubada de bola de Thomas (bobeada de Varane, francês campeão do mundo) e uma ótima tabela com Diego Costa antes do maravilhoso sem pulo de Saúl. O quarto gol também passa por ótimo passe de Diego Costa antes do chute de Koke.

Ou seja, o hispano-sergipano fez dois e participou de outros dois. Não é só goleador, é brigador, preparador de jogadas, abridor de espaço, garçom. Além, claro, de levar os adversários à loucura com seu estilo agressivo em campo. Ele tira os caras do sério.

É inacreditável que Antonio Conte tenha preterido um jogador como esses no Chelsea, dispensado por SMS.

E talvez esse jeito de ser não combine mesmo com a “boazinha” seleção espanhola – reportagem do El País apontou, após a Copa, que o grupo de jogadores estava rachado em função da preferência de Lopetegui e, depois, Hierro, por Diego Costa.

Mas, se tem um time em que o estilo de Diego Costa é “match” perfeito, esse time é o Atlético de Simeone.

Ele flerta com expulsão o tempo todo, mas quase nunca vê o vermelho. É 100% tensão, 100% intensidade. É o Simeone 2.0 com gols, potência e bem mais talento.

O título da Supercopa não representa, nem de perto, o mesmo que ganhar uma Champions. Mas o torcedor do Atlético começa a temporada de alma lavada, metendo 4 no maior rival e levantando mais uma taça, o que já não é raridade para o clube.

Além de ter mantido Griezmann, o MVP da final da Copa do Mundo, o Atlético reforçou demais o elenco, com gente como Lemar, Rodri, Arias, Gelson Martins, Kalinic.

E, claro, “acharam” Lucas Hernández, que era reserva, na Copa (Filipe Luís vai ficar bastante tempo no banco). O ótimo Saúl está mais experiente, Corrêa também. Diego Costa e Vitolo estão lá desde o início da temporada. É elenco para ser campeão de qualquer coisa.

Se conseguir manter o embalo inicial de temporada e não deixar pontos bobos pelo caminho, o Atlético é candidatíssimo a desafiar o Barcelona no Espanhol. Mais até do que o Real Madrid. Aliás, a final da Champions, ano que vem, é no estádio do Atleti…


Manchester City começa Inglês do jeito que acabou: arrasando
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Julio Gomes

Começou o Campeonato Inglês do jeito que se esperava. O Manchester United ganhou com sofrimento na sexta-feira, coisa que virou característica fundamental dos times de Mourinho nos últimos anos. O Chelsea começou ganhando e jogando bem, a vida com Maurizio Sarri será muito mais divertida para jogadores e torcedores do que era com Conte. O Liverpool, em busca de um título inédito (na era Premier League), contratou bem e começou com uma goleada contundente – a chave será encontrar equilíbrio e consistência semana após semana.

E o melhor ficou para o fim da rodada. O Manchester City foi a Londres e fez fáceis 2 a 0 sobre o Arsenal, de técnico novo (Unai Emery, ex-amiguinho dos brasileiros do PSG – contém ironia).

É estranho ver o Arsenal sem Arsene Wenger no banco após mais de duas décadas. Mas o time, em campo, foi igualzinho ao dos últimos anos. Pouca atitude competitiva em vários momentos da partida, derrota para um time melhor sem dar muita luta, sem ameaçar, sem conseguir trazer a torcida junto.

Mas ainda é cedo para criticar o Arsenal. Até porque do outro lado estava o time a ser batido, o melhor do último ano (apesar de ter ficado sem o título máximo, a Champions). O Manchester City dos 100 pontos começou a temporada atual fulminante, do mesmo jeito que acabou a outra.

Guardiola montou o City com uma linha de 4, usando Mendy pela lateral-esquerda. O francês, campeão do mundo, mesmo sem jogar, era para ser titular na temporada passada, mas sofreu grave lesão. Do lado direito do ataque, Mahrez, grande nome do Leicester daquele milagre. Ou seja, o timaço da temporada passada agora tem dois baita reforços.

Passou por cima do Arsenal sem dó e sem De Bruyne, David Silva, Gabriel Jesus, Sané…

É muita força, muito jogador bom, muitas opções e uma ideia muito clara de jogo, difícil de ser enfrentada pelos outros. O City joga com posse, controle, velocidade, se defende bem e com seriedade, é um time quase perfeito. Vamos ver como a temporada se desenrola. Haverá mais altos do que baixos, e a Champions é uma conta pendente de Guardiola nestes anos de Bayern e City.

Na Inglaterra, não sei se terá pro cheiro, não.


Europeus precisam fazer algo para criar imprevisibilidade
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Julio Gomes

Falar que as ligas europeias estão em declínio pode parecer um devaneio. Estádios cheios, muito dinheiro envolvido, os maiores craques do futebol mundial, grandes salários e volume de dinheiro em transferências. O interesse global é inegável. Mas, se olharmos com lupa, tem algo que não está certo. E que fatalmente vai exigir mudanças no futuro próximo. A previsibilidade.

Neste fim de semana, começam os campeonatos na Inglaterra e na França. Semana que vem, Espanha, Itália e Alemanha. São as cinco ligas domésticas mais importantes da Europa. Se você quiser apostar agora em Manchester City, PSG, Barcelona, Juventus e Bayern de Munique campeões nacionais, a chance de acerto beira os 100%.

O único risco maiorzinho aí é apostar no Barça. Afinal, o Real Madrid, mesmo em transição e sem Cristiano Ronaldo, está no mesmo campeonato. Mas os outros quatro… é difícil, muito difícil, quase impossível, imaginar que um deles não será campeão.

Vivemos a era das grandes potências. O que ela tem gerado? Na Champions League, uma fase de grupos monótona e previsível. E um mata-mata espetacular, porque é quando, afinal, esses times todos se enfrentam. E, no mata-mata, os (um pouco) mais fracos podem superar os mais fortes. Como aconteceu na temporada passada, com o Liverpool eliminando o Manchester City (no Campeonato Inglês, o City ficou 25 pontos na frente do Liverpool, o que dá a dimensão da diferença entre os times).

O espetacular mata-mata envolvendo todas as potências europeias nos faz pensar que tudo está bem. Poucos notam que, em fevereiro/março, quando começam estes confrontos, as ligas domésticas estão todas resolvidas. Até por isso é raro vermos lá debates sobre poupar ou não poupar jogadores, um debate que pega fogo aqui no Brasil nestes dias.

Quando olhamos os jogos dos timaços e os clássicos domésticos na TV nos fins de semana, parece que as ligas domésticas europeias são só alegria. Mas, fora de Inglaterra e Alemanha, tem muito estádio vazio e jogo despertando interesse zero

Apenas como medida do tamanho do favoritismo dos times citados em suas ligas domésticas, o blog foi buscar em site de apostas (o Bet365) as cotações para títulos neste início de temporada. Os números abaixo se referem ao valor retornado para cada unidade apostada. Se o apostador colocar 1 dólar no título da Juventus na Itália, por exemplo, irá receber como retorno 1,40 dólar.

Compare as cotações da Champions League (imprevisibilidade total) com as ligas domésticas (previsibilidade máxima):

Champions League: Man City 6,50, Barcelona 7, Juventus 7, Bayern 8, PSG 8, Real 8, Liverpool 12, Atlético de Madrid 15, Manchester United 15.

Inglês: Manchester City 1,66, Liverpool 4,50, Manchester United 11

Espanhol: Barcelona 1,75, Real Madrid 2,62, Atlético de Madrid 9,50

Italiano: Juventus 1,40, Inter 7,50, Napoli 8

Alemão: Bayern de Munique 1,16, Borussia Dortmund 6,50, Leipzig 29

Francês: PSG 1,11, Lyon e Marselha 13

Percebam que um título europeu do Atlético de Madrid ou do Manchester United tem retorno próximo a um título doméstico destes dois. No Bet365, todos os campeonatos acima, exceto o espanhol, tem a possibilidade extra para o apostador adivinhar o “campeão do resto”. Ou seja, Inglês sem City, Italiano sem Juventus, Alemão sem Bayern, Francês sem PSG.

Andei conversando com muitos jornalistas e amigos europeus sobre isso nestes dois meses que acabo de passar na Europa. Não há movimento algum para mudar o estado das coisas. Mas todos concordaram que a chatice das ligas domésticas é tremenda e vai, mais cedo ou mais tarde, exigir mudanças.

Não é normal que o PSG ganhe as três competições domésticas na França e a temporada seja considerada um fracasso, pela derrota na Champions. Não é normal o Barça conseguir tantos dobletes na Espanha, coisa que era raríssima no passado, e pouca gente dar bola para isso.

Não é novidade que historicamente alguns times dominam algumas ligas. Mas nunca foi tão fácil, tão previsível. O abismo entre o Bayern e o resto do pacote, hoje, não é muito menor do que o abismo entre o Bayern e os times sul-americanos, por exemplo.

Um alto dirigente da Juventus já andou falando, recentemente, sobre diminuir as ligas domésticas e criar uma Champions League com grupos maiores antes do mata-mata, mais datas europeias, mais confrontos entre os grandes.

Este é um caminho mais realista, me parece, do que outros, do tipo criar mata-matas nas ligas domésticas ou então tetos orçamentários para diminuir o abismo – que é a fórmula encontrada nos esportes americanos, entre outros mecanismos.

A distribuição mais justa de dinheiro cria, na Premier League inglesa, uma situação de times médios e pequenos mais fortes, mais competitividade rodada após rodada. O domínio do City no ano passado (e possivelmente neste) não é corriqueiro. Mas a Premier League é a exceção que comprova a regra.

O futebol brasileiro vive realidade oposta à das ligas europeias. Por aqui está tudo tão errado (calendário, amadorismo, etc), mas tão errado, que, mesmo com as diferenças bizarras de dinheiro recebidas pelos clubes de Série A, a imprevisibilidade é a grande marca do nosso futebol. É ruim, mas é bom. Os espetáculos são, em sua maioria, uma tristeza. Mas não saber quem vai ganhar é um componente muito importante de qualquer disputa esportiva.

Não há nada o que possamos ensinar aos europeus. A imprevisibilidade daqui é decorrência de problemas, não de alguma solução. Mais cedo ou mais tarde, no entanto, eles terão de fazer alguma coisa.


CR7 foi só a primeira peça de um mercado que vai pegar fogo
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Julio Gomes

A grande interrogação era Cristiano Ronaldo. Onde ele jogaria? Porque já estava claro que os dias de Real Madrid estavam contados…

PSG e Manchester United pareciam ser as única opções – desconsiderando, claro, os mercados milionários periféricos, como China, EUA ou Oriente Médio. Mas Cristiano escolheu a Juventus.

Por um lado, aumenta o abismo entre Juve e outros no futebol italiano. Por outro, coloca um clube gigante de volta a uma briga que não estava parecendo mais dela, pela coroa europeia. E volta a trazer o calcio ao centro das atenções. Talvez a própria liga italiana se beneficie, com jogadores querendo atuar no mesmo campeonato de CR7.

A partir daqui, teremos semanas frenéticas. Na Premier League inglesa, a janela de contratações será fechada em 9 de agosto, por decisão dos clubes. Nos outros mercados importantes da Europa, a data segue sendo 31 de agosto.

O Real Madrid gastou pouco nas últimas temporadas, vai viver uma reconstrução com o novo técnico, Lopetegui, e sem Cristiano. Já sabemos que é um clube ultra agressivo no mercado. Todos os sinais apontam para Neymar. Mas a coisa não é tão simples.

Por um lado, a ausência de multa rescisória e o orgulho dos homens do Catar não farão fácil essa negociação. Por outro, o PSG vai receber um Neymar menor e um Mbappé muito maior após a Copa. Será o clube de quem? Não seria mais fácil apostar em Mbappé, que é francês, tem só 19 anos e não quer sair do clube? (ao contrário de Neymar).

Mas, pelo prisma do staff Neymar, forçar uma saída agora pode ser uma armadilha. Chegar ao Real Madrid tricampeão europeu e sem Ronaldo… qualquer coisa que não seja ganhar a Champions de novo será um fracasso retumbante. Além de adicionar a imagem de mercenário à já arranhada imagem do jogador pós-Copa.

Talvez tenha mais sentido esperar um ano. Minha aposta é que o casamento Real Madrid-Neymar só será celebrado no próximo mercado, em 2019.

Eu, se fosse apostar minhas fichas, apostaria em uma investida fortíssima do Real sobre Hazard, um namoro antigo, e Kane. Ambos nomes importantes da Copa, em clubes ingleses de relevância, mas que não se comparam ao gigante espanhol. Hazard, convenhamos, está fazendo hora-extra no Chelsea.

Pogba, outro que cresce na Copa, não parece feliz no Manchester United de Mourinho. O que será de Dybala e Higuaín na Juventus, com a chegada de Cristiano? São jogadores com alto valor de mercado e que podem sair, contra a vontade deles ou não.

É como um gigante dominó com as peças de pé, formando um desenho de cifrão. A primeira peça era Cristiano Ronaldo. A partir de agora, cairão todas as outras. Vai pegar fogo!