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Cinco razões pelas quais o Bayern é favorito a vencer o Real Madrid
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Bayern de Munique e Real Madrid fazem o maior clássico da Europa. É isso mesmo que você leu. Não há jogo maior no mundo envolvendo times de países diferentes. Muito se deve ao fato de ambos serem os maiores campeões de seus países e dois dos maiores do continente. Mas o grande fator que faz esse jogo tão grande é o fato de terem se enfrentado tantas vezes em horas tão importantes.

Bayern e Real farão nesta quarta o 23o jogo entre eles – um recorde entre clubes em competições europeias. Até hoje, foram dez duelos de mata-mata, com cinco classificações para cada um. Só falta mesmo uma grande final, que nunca ocorreu (foram seis semifinais).

Junto com o Barcelona, os dois têm dominado o futebol europeu recentemente. São os três times apontados como favoritos desde o início da Liga dos Campeões. No entanto, este blog considera o Bayern bastante favorito para o jogo contra o Real, e o time alemão tem a chance de deixar a eliminatória encaminhada. Aqui estão as cinco razões.

1- Técnico

É o típico confronto entre mestre e pupilo, com a diferença que o aprendiz não parece nem um pouco perto de superar o professor. Zidane foi auxiliar de Ancelotti quando o italiano passou pelo Real Madrid. O próprio Zidane credita muito de seu estilo como técnico ao que aprendeu neste período.

Por mais que tenha conquistado a Champions League no ano passado, no entanto, Zidane ainda tem muito para provar. Seu time joga o arroz com feijão e é ultradependente das bolas aéreas. Com o que tem em mãos, poderia fazer muito mais. Sem dúvidas, Zidane fala a linguagem da boleirada, entende o Real Madrid, o torcedor, as necessidades. São fatores que não tiro da lista de méritos dele. Por outro lado, é nítida a dificuldade para ler partidas durante os 90 minutos e fazer alterações que melhorem o time. É quase sempre o seis por meia dúzia, tudo muito previsível.

Já Ancelotti, um mestre da arte, conhece o elenco do Real Madrid de trás para frente e sabe como explorar os pontos fracos. Tampouco se notabilizou na carreira pela criatividade, mas é bastante mais refinado que Zidane na leitura de jogo.

2- História

O passado pode não servir para garantir o futuro, mas certamente nos indica tendências. E, nos confrontos entre Bayern e Real, historicamente quem joga em casa se dá bem. O Bayern recebeu o rival espanhol 11 vezes em Munique: ganhou nove, empatou uma e perdeu só uma, a última, aqueles 4 a 0 de 2014 que levaram o Real à decisão. É bom lembrar que aquele era um jogo de volta – após o Real vencer na ida – e que Guardiola escancarou o Bayern para os contra ataques madridistas.

Das cinco vezes em que o jogo de ida de um mata-mata entre eles ocorreu em Munique, o Bayern venceu quatro.

O Real Madrid é um clube que se considera o maior do mundo. Os torcedores dizem não ter medo de nada nem ninguém, o clube já se mostrou capaz de tudo – e acreditar nisso certamente ajuda. Mas é inegável que o Bayern é o clube mais temido pelo Real, talvez o único. Não à toa, há faixas, camisetas e cachecóis em Munique com os dizeres “La bestia negra”. Eles adoram o apelido dado pelos próprios madrilenhos.

3- Defesa desfalcada

O Real Madrid já não tinha Varane e perdeu Pepe para o jogo e para a temporada, com duas costelas quebradas. Nacho atuará na zaga ao lado do Sergio Ramos, uma considerável queda de qualidade. Nacho entrou no dérbi, sábado, e logo teve posicionamento falho que permitiu a Griezmann empatar o jogo para o Atlético de Madri.

Na imprensa de Madri, Nacho é muito elogiado. Natural, é o único jogador do elenco que subiu da base para o time principal sem passar por outros clubes – a prata da casa é sempre valorizada e precisa ter a confiança do torcedor. Pelas muitas lesões dos outros, foi titular em 25 dos 47 jogos. Não é um completo novato, mas não tem a bagagem de um Pepe. Além do mais, Sergio Ramos jogará a ida pendurado, o que limita muito sua atuação em Munique. É um Real sem reservas para a zaga, no limite da improvisação.

4- BBC? Ou RLR?

Eu ODEIO essa sopa de letrinhas que inventaram na Espanha. BBC, MSN, PQP. Seria ridículo apelidar o ataque do Bayern de RLR, não é mesmo? O que não é ridículo é o futebol que estão mostrando Robben, Lewandowski e Ribèry.

Robben e Ribèry juntos e saudáveis, uma raridade. O Bayern sofreu demais sem os dois em boa forma na hora H das últimas três temporadas. Agora, não só estão bem como têm entre eles o que talvez seja o melhor camisa 9 do mundo hoje: Lewandowski. Até gol de falta ele anda fazendo, um atacante completo e que já destruiu o Real Madrid quando jogava no Dortmund.

A fase do ataque é tão boa (39 gols nos últimos 11 jogos) que mal nos lembramos que o Bayern tem um certo Thomas Mueller no elenco – em má temporada, é verdade, mas um jogador que já mostrou muito valor em partidas enormes.

Atualização: Algumas horas antes do jogo, o Diário Marca noticia que Lewandovski não jogará, por problemas no ombro. Mueller em seu lugar. Sensível baixa técnica para o ataque do Bayern, mas um substituto de peso.

O contraponto é o trio do Real Madrid. Cristiano Ronaldo não consegue fazer a mesma temporada de outros anos, e Bale não entrou nos eixos após a lesão que lhe deixou três meses sem jogar. Tanto não funciona como em outros anos que o principal “atacante” do Real Madrid, nos momentos mais agudos, foi Sergio Ramos. Morata pede passagem ou até mesmo uma formação diferente, mas Zidane insiste com o BBC.

5- Jogo coletivo

O Real tem problemas defensivos (só deixou de sofrer gols em 3 dos últimos 21 jogos) e de construção. É nítido que o time sofre demais quando Kroos e Modric são bem marcados. A bola não chega no trio de ataque e, por isso, o Real tem dependido tanto da bola parada para ganhar jogos. Sim, são 52 jogos seguidos fazendo gols, um mérito inegável. Mas quantos deles tiveram a ver com o “jogo jogado”?

Na temporada, o Real Madrid fez 132 gols e levou 56 em 47 partidas. O Bayern fez 109 gols e levou 24 em 41 jogos. Tem números ofensivos parecidos, mas sofre muito menos gols.

É um jogo coletivo mais fluido, com um meio de campo formado por jogadores capazes de tudo: destruir, cobrir laterais, construir com passes curtos ou longos, chegar à frente e marcar gols. Xabi Alonso, Vidal e Thiago são completos e vivem grande momento de forma.

O alicerce de qualquer time é o meio de campo. O do Bayern está melhor conectado com as linhas de trás e de frente do que o (também ótimo) meio de campo do Real Madrid.

 


Real Madrid deixa interrogações, Atlético deixa certezas
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O jogo do Real Madrid era para lá de completo. O time tinha uma grande atuação contra um grande adversário. Mas o recuo exagerado nos 15 minutos finais foi punido. O Atlético de Madri buscou o empate, e o dérbi madrilenho acabou em 1 a 1.

O Real Madrid chega a 72 pontos. E a grande sorte que teve no dia veio mais tarde, já que o Barcelona perdeu por 2 a 0 do Málaga e ficou três pontos atrás. O Real ainda tem um jogo a menos, então segue com gordura antes do superclássico do dia 23.

O grande problema para o time de Zidane são as dúvidas que ele deixa no ar. É um time capaz de empurrar, dominar, criar. Mas passa a impressão de só fazer gols de bola parada. E de não ter a mesma intensidade o tempo todo, como fazem times como o Atlético. Zidane não consegue fugir do arroz com feijão nas substituições.

Bale era o pior jogador do time durante toda a partida. Mas o francês tirou Kroos para colocar Isco. A substituição certa era tirar Bale e reforçar um meio de campo que estava sendo atropelado pela intensidade atlética.

O Real, previsível, tem agora dois confrontos “só” contra o Bayern de Munique. Haverá momentos para um lado e para o outro nos dois duelos. Mas será que o Real conseguirá derrubar o mais completo elenco da Europa só com bolas paradas?

O número de gols de bola parada que o Real Madrid fez na temporada é brutal. O amigo Vítor Birner, companheiro blogueiro aqui no UOL, criou um apelido: Zidanebol.

De fato, em muitos jogos da temporada o Real Madrid não fez absolutamente nada e encontrou a vitória depois de uma falta ou escanteio levantados na área. Foi deste jeito que o Real achou o gol no dérbi deste sábado. Para não ser injusto, Zidanebol seria se o Real Madrid fizesse apenas isso. Se levantar bolas na área fosse o recurso único. Não foi o caso contra o Atlético. Ainda assim, foi só desse jeito que saiu o gol.

O Atlético de Madri é um baita time de futebol. Se o Real sai do dérbi com interrogações, o Atlético sai com certezas. Vive seu melhor momento na temporada e tem tudo para passar o carro em cima do Leicester e chegar a mais uma semifinal europeia.

Não dá chutão. Não adianta ser tão bom defensivamente, recuperar bolas e dar uma bicuda para ver o que acontece. Era assim três, quatro anos atrás, ainda com Diego Costa. Ao longo das últimas temporadas, o Atlético foi desenvolvendo esse jogo de bola no chão, passes curtos, saída rápida e com qualidade.

Alterna marcação alta com marcação mais recuada, sempre com incrível sincronia. Sabe sair trocando passes de trás, sabe alongar para a velocidade nas costas dos laterais. O Atlético sabe, enfim, levar partidas de futebol de muitos modos diferentes. É mais imprevisível. Tem mais recursos táticos do que o Real Madrid sob Zidane.

O primeiro tempo neste sábado foi um grandíssimo jogo de futebol, apesar do 0 a 0. O Atlético fechou as linhas de passe para Modric e Kroos, deixando a bola sobrar para Casemiro e os zagueiros. Mesmo assim, o Real Madrid conseguiu mandar no duelo. E foi pelo meio, primeiro após uma tabela, depois com bola roubada por Modric, que o Real quase chegou ao gol. Benzela obrigou Oblak a fazer uma defesaça, e Cristiano Ronaldo teve gol certo salvo em cima da linha por Savic.

Ao Atlético, faltava a conexão final com Griezmann e Torres. O time marcava bem, saía bem da marcação do Real, mas não conseguia conectar com os homens de frente – até porque Saúl fazia péssima partida, errático nos passes, e Carrasco estava muito afastado do campo de ataque.

Ainda assim, Griezmann chegou a obrigar Navas a fazer ótima defesa e algumas bolas paradas levaram perigo.

O segundo tempo começa com mais uma defesaça de Oblak contra Benzema. E, aos 7min, vem a falta infantil de Saúl, colocando a mão na bola em um lance bobo na intermediária. Quem dá bolas paradas de graça para o Real Madrid paga o preço. O cruzamento de Kroos foi na medida para o gol de Pepe.

Neste momento, o Real tinha o jogo a seu dispor. Mas o Atlético é um time tão bom e experiente que não caiu na armadilha. Não foi desesperado para frente, dando o contra ataque que o Real tanto ama.

Numa enfiada pelo meio, Torres ficou cara a cara, e Navas fez ótima defesa. Saíram Saúl e Torres, os piores do Atlético. A entrada de Correa deu mais do que certo. O argentino e Thomas conseguiram trabalhar entre as linhas do Real, sobrecarregando Casemiro. Zidane perdeu Pepe, que levou uma joelhada de Kroos, e tirou o próprio alemão.

O Real Madrid recuou demais na expectativa de contra atacar. Não agrediu. Quis segurar o 1 a 0. E aí o Atlético, que sabe jogar também com a bola nos pés, tomou conta do jogo. Em uma enfiada de Correa, Griezmann, um dos atacantes mais quentes do momento, empatou. Nacho, que entrou no lugar de Pepe, não parece ter a capacidade de ser o zagueiro titular ao lado de Ramos. Mas com Varane e, pelo jeito, Pepe fora de combate, é o que Zidane tem para hoje.

O Real Madrid quis fazer o que não sabe. Não é um time que domina todas as facetas do jogo, como seu rival de hoje.

O Atlético dominou os minutos finais, contra um Real Madrid aturdido em campo. É intensidade demais para um jogo só.

Desde que Simeone chegou ao Atlético, no fim de 2011, foram 22 dérbis: 8 vitórias do Real, 7 do Atlético, 7 empate. São três vitórias atléticas e um empate nos últimos quatro jogos entre eles pela Liga espanhola no Bernabéu.

O Atlético era freguês de carteirinha do maior rival. Hoje, é uma pedra de sapato quase que intransponível.


Pedra no sapato, Atlético é barreira para o Real voltar a ganhar a Liga
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Muitos se espantam e demoram para assimilar esta informação: o Real Madrid ganhou somente uma das últimas oito ligas espanholas.

Precisaríamos voltar à década de 40, no período pós-Guerra Civil espanhola, para encontrar uma seca de títulos domésticos comparável. É por isso que, apesar de o Real Madrid ser o rei da Europa, com 11 títulos máximos continentais, e amar de paixão a Champions League, nesta temporada especificamente muitos considerem mais importante ganhar a Liga.

Para isso, o time de Zidane chega neste fim de semana a um duelo crucial: o dérbi contra o Atlético de Madri (sábado, 11h15 de Brasília). O dérbi eram favas contadas quando Zidane jogava pelo Real. Mas as coisas mudaram um pouquinho depois da chegada de um certo argentino.

O Real tem 71 pontos na tabela, 2 a mais que o Barcelona e com um jogo a menos. Ou seja, está no comando. Mas um tropeço no dérbi deixaria o time sem margem de erros antes do superclássico do dia 23, contra o Barça, em Madri.

O Barcelona vive seu melhor momento na temporada após a virada sobre o PSG e com o crescimento fenomenal de Neymar em março. O Atlético de Madri também vive seu melhor momento na temporada, com cinco vitórias consecutivas no campeonato e o reencontro com a solidez defensiva que marca o time desde a chegada de Simeone, no fim de 2011.

Já o Real Madrid, apesar de também vir de cinco vitórias seguidas e de ter feito gols nos últimos 51 jogos oficiais que realizou, ainda deixa dúvidas. Sofre muitos gols (só deixou de ser vazado em 3 dos últimos 20 jogos) e depende demais da bola cruzada na área para conseguir vitórias na marra. Chega uma hora em que ímpeto e confiança não são suficientes para compensar a falta de volume de jogo, de criação, de alternativas ofensivas.

Zidane, campeão europeu, foi inteligente ao apostar no arroz com feijão. Foi depois da derrota no dérbi para o Atlético, no Bernabéu, em fevereiro de 2016, que ele voltou a colocar Casemiro no time. O problema é que muito arroz com feijão enjoa. E o francês vai cada vez mais dando argumentos aos que desconfiam de sua capacidade de mudar jogos e criar alternativas táticas.

Do outro lado, está “El Cholo” Simeone. Muito já se falou disso, mas é impossível deixar de lembrar. Há um antes e depois de Simeone na história recente dos dérbis madrilenhos.

No início do século, o Atlético vivia o fundo do poço, amargurou dois anos da segunda divisão. Voltou à elite na temporada 2002/2003 e, se fizermos o recorte aqui, veja que dado interessante encontramos.

Nos 21 dérbis após a volta do Atlético, o Real Madrid ganhou 16 e empatou 5 – por todas as competições. Eram sete vitórias consecutivas do Real quando Simeone chegou ao banco do Atlético. Desde então, foram disputados outros 21 dérbis por todas as competições: 7 vitórias do Atlético, 8 do Real e 6 empates.

O aproveitamento de pontos do Atlético nos dérbis subiu de 8% a 43% com Simeone. Alguma coisa, não é mesmo?

É claro que a memória recente das duas finais de Champions League vão nos remeter à imagem dos jogadores do Real Madrid com a “orelhuda” em mãos. Mas o fato é que o Atlético passou a jogar os dérbis de igual para igual, passou a ser uma pedra no sapato do primo rico da cidade.

O Atlético passou a ser um time com escalação conhecida por qualquer pessoa mais atenta. Tem uma espinha dorsal formada por jogadores que não pretendem “subir um degrau”, trocando o Atlético por um clube maior na Europa. Jogadores, muitos deles, campeões da Espanha três anos atrás, finalistas de Champions, que sentem a camisa do clube e que se sentem capazes de tudo. Confiam cegamente no treinador e realizam todas (e mais algumas) tarefas requisitadas.

Juanfran, Godín, Gabi e Koke jogaram, juntos, em 18 dos 21 dérbis sob Simeone. Filipe Luís compôs a linha defensiva em 9 destes 18 jogos (passou uma temporada fora). Atrás, o time é o mesmo há anos. Tem um goleiraço, Oblak, e muita sincronia defensiva. Entrosamento a toda prova.

Na frente, sim, o time foi mudando. Para melhor. Ganhou qualidade, acrescentou jogadores técnicos como Carrasco e Griezmann. No meio, apareceu o ótimo Saúl. Na frente, o resgate de Torres, a chegada de Gameiro. É um Atlético que já há tempos não vive só de se defender, como gostam de falar os críticos de Simeone. Um time sem medo algum de ter a bola, que se adapta e joga o jogo de várias formas diferentes ao longo de 90 minutos.

Simeone comandou o Atlético nove vezes no Bernabéu, ganhou quatro e perdeu três. Os colchoneros ganharam no estádio rival nos últimos três campeonatos, coisa que clube algum havia conseguido na história do futebol espanhol.

 

O Real Madrid sabe que ganhar a Liga passa por quebrar essa pequena escrita e ganhar o dérbi.


Real arruma mais um ponto milagroso; Barça arruma tranquilidade
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O Campeonato Espanhol ferve. Depois de um fim de semana em que o Barcelona ganhou sabe-se lá como do Atlético de Madri e o Real Madrid precisou de uma ajudaça da arbitragem para virar um jogo em Villarreal, a rodada de meio de semana acabou representando mais gasolina na fogueira.

Em um espaço de poucos minutos, Luís Enrique anunciou que não será mais técnico do Barcelona ao final da temporada. Bale foi expulso por perder a cabeça. O Real Madrid perdia em pleno Santiago Bernabéu para o modestíssimo Las Palmas. E arrumou mais um empate com DOIS GOLS nos minutos finais.

É incrível como é difícil ganhar do Real Madrid. Não existe clube no mundo com um espírito tão competitivo. Para jogar no Real Madrid, a primeira credencial de qualquer atleta é nunca achar que não dá. Para o Real Madrid, sempre dá.

Com 0-2 em Villarreal, um pênalti bizarro significou o 2-2, logo depois veio o 3-2. Com 1-3 contra o Las Palmas, mais um pênalti bem duvidoso representou o segundo gol – para ser justo com o juiz, pênalti tão duvidoso quanto o dado para o Las Palmas fazer o segundo dele. Eu daria ambos.

O Las Palmas é um time de meio de tabela, que vinha de quatro derrotas seguidas, em seu pior momento. Havia visitado o Bernabéu 32 vezes na história do campeonato, tinha ido embora 28 vezes derrotado e outras 4 com um empate. Perde a chance de ouro de ganhar lá pela primeira vez.

No Bernabéu, o Real não perde um jogo de Liga espanhola há exatamente um ano – o 1 a 0 para o Atlético de Madri que colocou interrogações no trabalho de Zidane – interrogações que pairam como nunca. Foram 15 vitórias e 3 empates no período.

Todos esses dados apenas nos fazem ver o quão improvável seria uma vitória do Las Palmas em Madri nesta quarta-feira.

E servem para expor também um Real Madrid que não consegue mais resultados sem criar jogo. É um time que depende demais de chuveirinhos, que alterna boas partidas com outras horrorosas. Os dois gols do empate milagroso saíram de cruzamentos na área. Um resultou em pênalti, o outro, de um escanteio também duvidoso, acabou em gol de cabeça de Cristiano Ronaldo.

Um Real que passou a temporada inteira tomando gols demais – primeiro, colocavam a culpa nos desfalques defensivos. Agora, difícil não apontar o dedo para Zidane. Casemiro não jogou contra o Las Palmas. Não é possível um time como o Real Madrid depender tanto de Casemiro para ter algum equilíbrio defensivo. Com todo respeito ao ótimo volante, estamos falando do clube mais vencedor e mais rico da Europa.

Por outro lado, o Barcelona vai conseguindo afastar seus fantasmas.

Depois da debacle europeia em Paris e as fortes críticas a Luís Enrique, tanto por seu trabalho e a falta de jogo do time quanto por sua má educação no trato com a imprensa, o Barça reencontrou um caminho.

A vitória sobre o Atlético em Madri e a goleada tranquila sobre o Sporting Gijón, nesta quarta, mostram que o time encontrou certa tranquilidade no campo. A construção de jogo é problemática, mas, com Messi, Suárez e Neymar, é possível imaginar que o Barcelona fará muitos gols e terá raros tropeços na Liga.

O anúncio da saída de Luís Enrique também ajuda. É melhor a imprensa passar semanas especulando quem será o próximo técnico do que ficar debatendo se Luís Enrique fica ou não fica.

Já falou, vai sair, acabou a novela.

De alguma forma, dentro da bomba que é o anúncio de Luís Enrique, o Barcelona ganha certa paz para a reta final da Liga. O técnico sai dos holofotes.

Quer queira quer não, o Barça é o líder, um ponto na frente do Real Madrid. É verdade que o Real ainda tem um jogo a menos. Mas, no atual momento, não dá mais para garantir que o Real ganhe jogo algum.


O segredo de Zidane para levar o Real da humilhação ao Mundial em um ano
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Com a vitória dramática na prorrogação por 4 a 2 sobre o Kashima Antlers, neste domingo, no Japão, o Real Madrid tornou-se o primeiro a conquistar cinco títulos mundiais. Nada estranho para o clube mais vitorioso da história. Ainda assim, incrível imaginar, 13 meses atrás, que tudo isso aconteceria.

Em novembro do ano passado, o Real Madrid levava 4 a 0 do Barcelona em pleno Santiago Bernabéu, mais uma humilhação em casa para o maior rival. Poucos meses após a inexplicável demissão de Carlo Ancelotti e a contestada contratação de Rafael Benítez, o técnico já balançava. Caiu 45 dias depois, com o time em terceiro lugar no campeonato.

Zinedine Zidane assumiu em 4 de janeiro. Em menos de um ano, levou o Real Madrid ao título da Champions League, o Mundial da Fifa e estabeleceu a maior sequência sem derrotas da história do clube – já são 37 jogos sem perder, somadas todas as competições.

É preciso bater palmas de pé para o Kashima Antlers, que foi melhor do que o Real Madrid durante todo o jogo e não se limitou a uma retranca, como vêm fazendo os times sul-americanos de uns 15 anos para cá. O Real foi beneficiado pelo árbitro, que afinou quando ia expulsar Sergio Ramos no segundo tempo. Levou sufoco nos minutos finais do jogo e levou bola no travessão na prorrogação. Mas aí Cristiano Ronaldo decidiu – apesar dos três gols dele, foi Benzema o melhor em campo. O mesmo Benzema que muitos na imprensa de Madri queriam ver no banco – preferem o “local” Morata.

2016 foi o ano em que o futebol ficou de pernas para o ar. Teve Leicester, Portugal, Palmeiras e Grêmio quebrando longos jejuns por aqui, seleção olímpica. Só não teve zebra mesmo para os lados do Real Madrid. Nos pênaltis, na Champions, e na prorrogação, no Mundial, o clube mais vencedor de todos os tempos fez valer a máxima do “no fim, o grande sempre ganha”. A sorte não para de sorrir para Zinedine Zidane. Mas a sorte também precisa ser merecida, não cai no colo de qualquer um.

Zidane não tinha experiência alguma como técnico. Foi alçado à condição em janeiro muito mais como um recurso de defesa do presidente Florentino Pérez, como contei neste mesmo blog à época. Vaiado pelas arquibancadas, Pérez se blindou chamando um dos maiores ídolos do clube, que, quando jogador, era a encarnação do jeito de ser madridista em campo.

Poderia ter dado muito errado. Poderia ter jogado um ídolo na fogueira. Deu certo. Muito certo. A lenda só aumenta.

Costumo dizer que não há um modelo ideal de técnico de futebol, que sirva para qualquer situação. Há diferentes situações, que exigem mais ou menos do cardápio de qualidades e virtudes de treinadores. Às vezes, o melhor que um técnico pode aportar a um clube é sua capacidade de entender e atacar o mercado. Às vezes, conhecimentos tático, técnico e físico. Muitas vezes, a capacidade de motivar jogadores.

No caso dos gigantes clubes europeus, com elencos estrelares, e especificamente no caso do Real Madrid, creio que a principal virtude de um técnico é saber fazer os jogadores estarem felizes e comprometidos. São craques em todas as posições, gente de países diferentes, culturas diferentes. Não é necessário inventar rodas taticamente. O Real Madrid passará a temporada inteira ganhando jogos antes até de entrar em campo.

Não estou aqui falando que qualquer um pode ser técnico lá e que não é preciso conhecer tática, métodos de treinamento, etc. Estou falando que o que Zidane trouxe, como técnico, é o mais importante que um técnico pode trazer a um clube com essas características.

O francês trouxe calma ao ambiente, diálogo. Trouxe simplicidade, não complicações. Ele foi jogador até outro dia, sabe o que os caras querem e precisam. Sabe a linguagem necessária para motivar e formar um grupo unido e coeso. Sabe como dar bronca, como valorizar, como massagear egos – e em vários idiomas.

A característica de Zidane no comando não é a de “paizão”, como gostam de atuar os treinadores brasileiros de uma ou duas gerações atrás. Estrelas do futebol mundial não querem um paizão e nem treinadores que deem pitis na beira do campo ou mandem recadinhos em entrevistas coletivas. Zidane é um colega, um cara que entende o que eles sentem e passam, porque também era uma superestrela.

Empatia é a palavra chave aqui.

Quando um gênio, com toda essa história na bagagem e um jeito calmo e comedido de falar resolve te chamar para uma conversa…. você ouve!

E aí, claro, entra a parte tática – que o cara não precisa resolver sozinho, pois há uma equipe de trabalho.

Nos melhores anos de Zidane no Real Madrid, que desembocaram no título da Champions de 2002, havia uma carregador de piano que limpava a barra para todo mundo. Chamava-se Claude Makélélé. No fim da temporada 2003, Florentino Pérez não só dispensou Vicente del Bosque, amado pelos jogadores, como não valorizou Makélélé, que se mandou para o Chelsea.

Zidane sabe bem que ali foi o começo do fim da era “galáctica”. Um craque sabe muito bem valorizar quem faz o trabalho sujo para ele.

Quase dois meses após a estreia como técnico, em fevereiro, Zidane perdeu no Bernabéu o dérbi para o Atlético de Madri. E, a partir daquele jogo, Casemiro virou titular do time. As características são diferentes, mas ele encontrou ali o seu Makélélé. Um jogador para trazer equilíbrio a um time cheio de gente capaz de desequilibrar na frente.

Isso já estava nos planos de Benítez. E Ancelotti já fazia isso com Xabi Alonso em 2014. Não foi uma genialidade de Zidane, mas ele foi humilde para realizar o ajuste após o mau início.

Três meses após a estreia, veio a vitória sobre o Barcelona, no Camp Nou – eram 39 jogos de invencibilidade dos catalães, recorde histórico do futebol espanhol que está com pinta de cair em breve. Logo depois, a derrota por 2 a 0 para o Wolfsburg nas quartas de final da Champions – seria a última de Zidane, em 6 de abril. Desde então, nove meses sem derrotas. Os 3 a 0 para cima dos alemães logo depois e a classificação no jogo de volta acabaram por consolidar Zidane no cargo. Viria, então, a “undécima” e, agora, o “Mundialito”, como eles chamam lá.

Zidane fez o arroz com feijão tático. Com Casemiro, a defesa fica mais segura, o jogo aéreo ganha força, Modric e Kroos ganham liberdade, a ligação fica mais fluida com o trio de ataque. E fez o arroz com feijão também no vestiário, trazendo as estrelas de volta a um ambiente de comprometimento com a instituição.

O Real Madrid de Zidane sofre muitas vezes, como sofreu contra o Kashima Antlers. Precisou da sorte em muitos momentos, precisou de pênaltis para ganhar a Champions, encontrou gols milagrosos em minutos derradeiros. Zidane ainda parece ter um longo caminho tático a percorrer. Na decisão do Mundial, por exemplo, quando se viu 1-2 abaixo, adiantou o posicionamento de Marcelo – nada mais ousado foi feito para buscar o resultado. Mas, para variar, ele veio.

Quando eu morava em Madri, no fim de cada ano minha esposa recebia da empresa em que trabalhava uma peça de jamón ibérico. O tal “pata negra”, o melhor presunto cru do mundo, uma coisa espetacular. Íamos ao mercado municipal, entregávamos o jamón e ele voltava fatiado e embalado a vácuo. Dava para o ano inteiro. Mas a cereja do bolo era um saquinho que o cara do mercado me entregava com os ossos.

Um dia, inventei de, ao cozinhar uma feijoada, colocar alguns dos ossos durante o cozimento. Eu apelidei de “feijoada ibérica”. Era, sem dúvida, a melhor coisa que eu fazia na cozinha. Um desbunde.

Fazer arroz com feijão não é difícil. E quando você tem nas mãos ingredientes espetaculares, até um básico arroz com feijão, se bem conduzido, torna-se um prato para lá de maravilhoso.

2016 foi um ano triste para muita gente. Um ano horroroso em muitos aspectos. Para o torcedor do Real Madrid, porém, foi só de alegrias. O Real de Zidane não brilha como poderia, mas vence como deveria.

 


Real leva 3 na Polônia; defesa de Zidane segue sendo uma peneira
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No Real Madrid, qualquer pequena sequência de tropeços vira uma crise – ou um início de crise. Não importa se quase bateu recorde de vitórias seguidas na Espanha, se ganhou a última Champions. É daqueles clubes gigantes em que cada semana é uma semana.

Nos últimos anos do Zidane jogador, o Real era conhecido na Europa por ser um clube cheio de estrelas, mas sem carregadores de piano, sem jogadores dispostos a sacrifícios. Assim, tomava muitos gols, perdia jogos surpreendentes, não chegava mais às fases agudas na Europa. Isso só foi mudar em 2010, com a chegada de Mourinho.

Com Mourinho e Ancelotti no banco, o Real Madrid ganhou consistência defensiva, sistema tático – as coisas sempre funcionaram na frente e melhoraram atrás. Voltou a frequentar semifinais de Champions e beliscou a Décima, finalmente, em 2014. Com Zidane técnico e poucos meses de carreira, veio a segunda Champions em três anos.

Mas o que vemos na atual temporada é um Real Madrid voltando aos velhos problemas defensivos. Depois de uma vitória com drama e sorte na abertura da Champions (sobre o Sporting) e uma sequência de quatro empates em setembro, com uma minicrise se aproximando, o Real Madrid embalou e ganhou cinco seguidas em outubro, sendo quatro por goleada. Mas com um detalhe: tomou gols em todos esses jogos.

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Nesta quarta, nem todos os desfalques defensivos justificam que o Real Madrid sofra três gols do Legia Varsóvia, ainda mais com portões fechados na Polônia. O Real só não perdeu o jogo, após estar vencendo por 2 a 0 e sofrer virada, porque conseguiu empatar a cinco minutos do final.

É verdade que Pepe, Sergio Ramos, Marcelo, Casemiro, Modric estavam todos fora. Defesa e meio remendados. Mas… contra o Legia Varsóvia??!!

Somando todas as competições, o Real Madrid de Zidane sofreu gols nos últimos 10 jogos que disputou. São 14 gols sofridos no período – o último jogo sem tomar gols foi em 18 de setembro, 2 a 0 sobre o Espanyol. Na temporada, são 16 jogos oficiais, e o Madrid levou pelo menos um gol em 14 deles. É muito difícil ser campeão de qualquer coisa levando tantos gols – é o óbvio problema que o ainda novato Zidane precisa resolver.

Desde 2008 o Real Madrid não chega à última rodada da fase de grupos da Champions sem estar matematicamente classificado. E isso pode muito bem acontecer nesta temporada, após o tropeço inacreditável com o fraco time polonês.

O Borussia Dortmund lidera o grupo com 10 pontos, o Real tem 8, o Sporting tem 3, o Legia tem 1. Na próxima rodada, Sporting e Real se enfrentam em Lisboa. Uma vitória do Sporting deixa o grupo aberto, pois o Real pega o Borussia na última rodada. Na partida de estreia na Champions, o Real virou sobre o Sporting com dois gols depois dos 44 do segundo tempo.

Não vejo a classificação em si tão ameaçada, a diferença entre os times é grande e o Sporting tampouco vive um momento tão brilhante. Mas agora, com o tropeço na Polônia, o Real se vê obrigado a não só garantir a vaga, mas vencer em Lisboa. Se não ganhar o jogo, muito provavelmente chegará à última rodada sem chances matemáticas de tirar o Borussia da primeira posição do grupo.

Nas últimas seis Champions League, desde que o Real voltou a ser verdadeiramente competitivo no torneio, a única vez que ele não ficou em primeiro na fase de grupos foi em 2013 – justamente ficou atrás do Borussia Dortmund. Acabou tendo uma pedreira nas oitavas (Manchester United). Passou, mas seria eliminado pelo Dortmund nas semifinais.

Outros grupos

Mais um brasileiro teve destaque na Champions. Paulo Henrique Ganso, afinal, estreou como titular na competição, e o Sevilla passou o carro do Dínamo Zagreb: 4 a 0. O fato é que o Sevilla é forte demais em casa, e isso vem sendo assim há um bom tempo.

No outro jogo do grupo H, a Juventus bobeou e empatou com o Lyon por 1 a 1. Higuaín perdeu um daqueles gols estilo Higuaín quando o jogo estava 1 a 0.

Mas vejam como ficou o grupo: Sevilla com 10, Juventus com 8, Lyon com 4 e Zagreb com 0. Na próxima rodada, um jogão: Sevilla x Juventus. Mesmo que perca, a classificação da Juve não está ameaçada, pois recebe o fraco time croata em casa na última rodada. Mas o fato é que o Sevilla tem a faca e o queijo na mão para ser o primeiro colocado no grupo e jogar a Juve aos leões no sorteio de oitavas de final.

Um empate em Sevilla, no entanto, jogará para o time espanhol a responsabilidade de vencer em Lyon na última rodada para ser primeiro no grupo.

No grupo G, o Leicester perdeu os 100% ao empatar em Copenhague. Agora tem 10 pontos, contra 7 do Porto e 5 do campeão dinamarquês. Na próxima rodada tem Copenhague x Porto, na última tem Porto x Leicester.

Já outro inglês, o Tottenham, se complicou no grupo E ao perder em casa do Bayer Leverkusen. O grupo tem Monaco com 8, Bayer com 6, Tottenham com 4 e CSKA com 2. Se o Tottenham não vencer em Monaco na próxima rodada dificilmente conseguirá passar de fase.


Zidane e o sucesso do arroz com feijão
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juliogomes

Não foi uma grande final de Champions League.

O Atlético de Madri talvez tenha sentido o peso de não ser um “azarão” antes da partida. Não entrou em campo no primeiro tempo. Faltava tudo: linhas compactas, atenção nas bolas aéreas, bons passes e, o principal, a marca do time: intensidade.

O Real Madrid chegou ao gol em uma bola na área, com Sergio Ramos em impedimento. Mas já havia quase marcado com Casemiro e fatalmente marcaria de outro jeito. O Real fez o que costuma fazer. Adiantou linhas, usou Modric e Kroos livres para armar com a segurança de Casemiro atrás dele. Foi empurrando o adversário, conseguindo faltas e escanteios que sempre levavam perigo. O que surpreendeu foi a facilidade com o que o meio de campo do Real conseguiu se mover contra o Atlético.

O segundo tempo começa com um pênalti (mal marcado) de Pepe que poderia ter mudado tudo. Era um achado para o Atlético, tudo o que precisava. E aí Griezmann perde o pênalti, assim como Muller havia perdido para o Bayern, contra o Atlético, em lance que teria mudado a semifinal.

A partir do pênalti perdido, o Atlético desapareceu de vez do campo. E foi o Real Madrid que decepcionou. Não apertou, não empurrou. Sentou no 1 a 0, em vez de dar o golpe fatal a um adversário abatido e perdido em campo. Levou o castigo, o empate a 10 minutos do final. E deu sorte, pois Sergio Ramos deveria ter sido expulso nos minutos finais do tempo normal ao parar um contra ataque de três contra um com uma voadora.

Na prorrogação, ninguém quis nada. Estava na cara desde o primeiro minuto do tempo extra que aquilo acabaria em pênaltis. Faltou ao Atlético, superior fisicamente naquele momento, a vontade de ganhar. E aí como falar em loteria? O Real Madrid foi lá e meteu os cinco para dentro, todos com qualidade. Contribuiu o fato de Oblak não saltar em uma bola sequer – vai entender. Quis cair de pé, talvez.

A final foi o contrário da de 2014.

Dois anos atrás, o Atlético fez um jogo completo, com intensidade e concentração. O Real Madrid apertou, criou muitas chances e recebeu o prêmio com o gol nos acréscimos. Na prorrogação, contra um Atlético destruído fisicamente, goleou. Já em Milão, no sábado, nenhum dos times fez um bom jogo. Foram dois 1 a 1 (no tempo normal) completamente distintos. E o Atlético não fez, na prorrogação, o que o Real fizera em Lisboa.

Foram 10 anos, os últimos, em que o Barcelona foi o clube a ser batido na Europa. Ainda assim, no mesmo período, o Real Madrid conseguiu tirar da cartola duas Champions League (contra quatro do maior rival). É um poder impressionante. São 11 títulos europeus, léguas de distância para o segundo maior vencedor. Mais que o dobro do Barça.

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A temporada começou péssima para o Real Madrid.

O presidente Florentino Pérez fez a inexplicável burrada de dispensar o ótimo (e adorado pelo grupo) Carlo Ancelotti para contratar um contestado Rafael Benítez. Após mais uma humilhação caseira diante do Barcelona, corrigiu o erro de forma populista, jogando para a torcida. Colocou no cargo um dos maiores ídolos da história do clube, alguém que não poderia ser massacrado por torcida e imprensa. Colocou um muro entre o erro dele, por ter trazido Benítez, e as críticas.

Zinedine Zidane não tinha histórico como treinador, era um novato. Mas alguém que conhece bem como as coisas funcionam no Real Madrid.

E ele provou, mais uma vez, que o arroz com feijão é a receita infalível nos grandes clubes, com elencos recheados, cheios de egos e estrelas, imprensa em cima, torcida exigente. O melhor é não arriscar mesmo. É fazer o básico.

Por básico, entende-se: tratar os jogadores como eles gostam, misturando autoridade e amizade. Fazer o lógico taticamente, deixando a coisa fluir mais do que tentar inventar moda. Respeitar o estilo de jogo que agrade a torcida. Dar liberdade para seu melhor jogador se sentir útil, importante e prestigiado.

Ancelotti, em 2014, e mesmo Benítez, em seu curto período no clube, perceberam que era necessário ter um homem de corte defensivo no meio de campo para trazer equilíbrio ao time. Modric e Kroos tinham que fazer parte do sistema defensivo, mas também eram fundamentais para a construção de jogo. Precisavam de alguma liberdade para isso. Zidane “inventou moda” no começo. Quis usar Isco, James. Abriu mão de Casemiro.

Mas foi sábio suficiente para fazer o que muitos técnicos não fazem: corrigir o erro. E rapidamente. Deixou o orgulho de lado e, após uma derrota para o Atlético na liga espanhola, em pleno Bernabéu, voltou atrás. Talvez tenha se lembrado de como era importante Makelele naquele time do Real Madrid em que ele foi campeão europeu. Dispensado por Florentino, assim como Vicente del Bosque, outro grande exemplo de técnico que triunfa com o arroz com feijão.

Zidane se lembrou de Del Bosque. De Ancelotti. Do fracasso da era “galáctica”, sem carregadores de piano. E fez o básico. Menos é mais, já diria o outro.

Na final contra o Atlético, o Real Madrid jogou um futebol básico. Correu riscos pela falta de “punch” no segundo tempo. Mas saiu com a taça.

O que será de Zidane? Não sabemos. O que será de Simeone e do cholismo? Terá o Atlético desperdiçado, pela segunda vez, a chance de uma vida? Veremos nas próximas semanas.

Com Casemiro segurando as pontas e Cristiano Ronaldo resolvendo na frente (menos na final), o Real Madrid chega à décima primeira Copa da Europa. Deu sorte no caminho rumo à decisão. Foi nos pênaltis. Foi com gol impedido e o melhor em campo não deveria mais estar em campo. Não é a mais inesquecível das 11, enfim.

Mas a taça está no Bernabéu mais uma vez. O resto da Europa que se vire para alcançar. O museu do Real Madrid vai arrumar um espacinho para mais uma. E nas ruas de Madri já se fala da “Duodécima”. Porque esse clube vive disso: ser o maior da Europa.


Cinco razões para apostar no Atlético na final contra o Real Madrid
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juliogomes

Final é final. Em um jogo só, apostar em favoritos é pedir para se dar mal. Mas não sou de me esconder ou morar em cima do muro. Hoje, o Atlético de Madri é superior ao Real Madrid coletivamente e, tecnicamente, não fica atrás.

Não, o Atlético não tem Cristiano Ronaldo. Seus outros atacantes possivelmente sejam um pouco inferiores aos do Real. Mas o meio de campo é tão bom quanto com a bola, melhor na marcação e, defensivamente, não há nem comparação entre os times – o Atlético está anos-luz à frente.

Desde a chegada de Simeone, Atlético e Real se enfrentaram 19 vezes em partidas oficiais: 7 vitórias para cada lado e 5 empates. Equilíbrio.

Em maio de 2013, há três anos, aquele gol de Miranda na prorrogação dava a Copa do Rei ao Atlético em pleno Bernabéu. O primeiro título em 17 anos e a primeira vitória sobre o Real Madrid em 14 anos (eram 25 jogos de seca). A partir dali, tudo mudou. A mentalidade mudou. O Atlético entrava em campo derrotado nos dérbis, e isso passou a não acontecer mais – pelo contrário.

Há dois anos, naquela final da Champions em Lisboa, o Atlético ganhava o jogo até os 48 minutos do segundo tempo. Estava na mão.

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Desde então, foram 10 partidas entre eles, com 5 vitórias do Atlético, 4 empates e 1 do Real Madrid – justamente na Champions do ano passado, quartas de final, gol no finalzinho de Chicharito Hernandez. Nas últimas três ligas espanholas, a atual e as duas anteriores, foram seis jogos entre eles, com zero vitórias do Real.

O que isso mostra? Que o Atlético não só aprendeu a ganhar do Real Madrid como consegue fazer os duelos entre eles acontecerem como ele quer que aconteçam. É um tipo de jogo que encaixa.

Cicatrizes de anos anteriores costumam forjar times campeões. Criam casca. A tristeza vira energia, motivação, a milha extra a ser percorrida. O cara corre mais para não passar pela mesma dor do passado. Parece pouco, mas é muito.

O Real Madrid de 2014 perdeu Xabi Alonso (que não jogou a final), Di María e o técnico Ancelotti. No lugar deles, em 2016, Casemiro, Kroos e um novato Zidane. Um técnico que ainda não se mostrou capaz de, por exemplo, mudar os rumos de uma partida no meio dela. Ainda não sabemos do que Zidane é capaz, na verdade, além de pacificar o vestiário e copiar o que aprendeu com Ancelotti taticamente.

O Atlético de 2016 tem a mesma base sólida de 2014: Juanfran, Godín, Filipe Luis, Koke e Gabi. No meio de campo, as adições de Saúl e Carrasco dão mais técnica e dinamismo do que Tiago e Raúl García, que jogaram a final, ou mesmo Arda Turan, que esteve ausente em Lisboa. No ataque, Griezmann é melhor que Diego Costa, Torres está vivendo um final de carreira mais produtivo do que Villa. E Simeone cresceu – e como cresceu.

O Atlético de 2016 é melhor, e o Real de 2016 é pior que o de 2014.

Pelas cicatrizes históricas e recentes.

Pelo futebol dominante apresentado nos duelos diretos entre eles nos últimos dois anos.

Pelo fato de o Atlético ter eliminado Barcelona e Bayern, enquanto o Real teve um caminho para lá de tranquilo até a decisão.

Porque a torcida do Atlético engoliu a do Real naquela final de 2014 e fará o mesmo em Milão.

Eu estava no estádio em Lisboa, dois anos atrás. Não havia como evitar o pensamento de que o Atlético nunca mais chegaria até lá. Nunca mais teria uma chance como aquela. São poucos os times e esportistas que têm pela frente uma segunda chance. É uma dádiva.

Por tudo isso. Tem cheiro de ser a hora do Atlético.

Não estou desprezando as chances do Real Madrid, um clube histórico, multicampeão e com jogadores capazes de acabar com qualquer final.

Maaaaaas…. É o Real que tem que se virar para encontrar uma maneira de ganhar a decisão em Milão. Porque o Atlético está esfregando as mãos, com o guardanapo no pescoço, batendo garfo e faca em cima da mesa. Ele já sabe o caminho das pedras.

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Zidane comete erros comuns, Real se complica
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juliogomes

Nada mais falso do que o velho “em que time que está ganhando, não se mexe”. Se mexe, sim senhor. Se melhora, aprimora, adapta em função dos adversários.

Zidane, um treinador novato, cometeu um erro recorrente entre técnicos de futebol. Mais do que um, na verdade. Elogiei a atuação dele no Camp Nou, critico na Champions.

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Primeiro, achou que tinha encontrado a fórmula do sucesso. Não necessariamente o que deu certo em Barcelona daria em Wolfsburg. E, de fato, não passou nem perto.

O meio de campo com Casemiro, Modric e Kroos por trás do trio Bale-Benzema-Cristiano Ronaldo funcionou nos 4 a 0 sobre o Sevilla e nos 1-2 do Camp Nou. Mas as circunstâncias de jogo eram completamente diferentes das que seriam encontradas na Alemanha.

O Wolfsburg deu a bola ao Real e apostou na transição rápida, o futebol vertical que se vê aos montes na Bundesliga, mas não tanto na Espanha. Os mais de 60% de posse de bola renderam somente três finalizações certas ao Madrid o jogo todo, um número irrisório. Com menos, o Wolfsburg fez mais. Muito mais.

O fato é que, sem James nem Isco, o Real Madrid sofre com falta de criatividade quando enfrenta rivais postados desta maneira. Uma coisa é você jogar para contra atacar o Barcelona, outra é ser contra atacado. O plano de jogo praticamente ignorou a característica do adversário.

Não bastasse ter sido fácil observar tal fato no primeiro tempo, Zidane cometeu então o outro erro recorrente de treinadores. Demorou para reagir. Por que esperar até os 18 minutos do segundo tempo para mexer no time, quando tinha o intervalo para isso?

Quantas vezes já não vimos técnicos fazerem o mesmo?

O Real empurrou mais na etapa final, mas viveu de chuveirinhos. Passou mais perto de tomar o terceiro do que de fazer o dele. Foi uma atuação pífia, coletiva e individual. De quebra, Benzema saiu machucado, o que fez Cristiano Ronaldo jogar como pior rende, no comando do ataque.

Jogar na Alemanha nunca foi tarefa fácil para o Real Madrid. Até 2014, o histórico mostrava 1 vitória em 24 jogos (!!). Agora, no total, em 29 partidas contra diversos clubes por diversas competições europeias ao longo das décadas, são 19 derrotas. Um retrospecto inacreditável, estamos falando do Real Madrid.

No entanto, o clube e a imprensa vão ser segurar em quatro remontadas contra alemães após derrotas na partida de ida. A mais épica, em 85: após levar 5-1 do Borussia Moenchengladbach fora, fez 4 a 0 em casa e passou. É uma das mais lembradas quando citadas as noites de remontadas no Bernabéu e o medo que isso supostamente provoca nos rivais.

Foi em 2002 que o Real Madrid, justamente contra um alemão, o Bayern, deu a volta em uma eliminatória europeia após perder a partida de ida. Desde então, foram oito eliminações neste cenário.

O jogo de volta terá uma tônica clara. O Real Madrid sufocando e pressionando desde o início, dentro da área do Wolfsburg. O time alemão certamente terá duas, três, quatro chances claras em contra ataques. O aproveitamento destas ocasiões determinará o destino da eliminatória.

São quatro duelos completamente abertos nas quartas de final da Champions.

 


Zidane e contexto explicam vitória do Real em Barcelona
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juliogomes

No primeiro turno, Rafael Benítez fez o que não queria. Escalou um Real Madrid ultraofensivo contra o Barcelona, sucumbiu à vontade do presidente. Deixou espaços, levou 4 em casa e acabou demitido.

Zidane tem mais moral, pelo menos por enquanto. Fez o que Benítez queria fazer. Congestionou o meio, fortaleceu a marcação para que Iniesta e Rakitic não fizessem o jogo fluir. Casemiro foi impecável.

É verdade que, sem os meias criativos, o Real criou um buraco para a transição com Cristiano Ronaldo e Bale – estes, por sinal, dois que mostraram espírito coletivo e foram fundamentais na marcação lá atrás, no campo de defesa. Ainda assim, as conexões rápidas em velocidade deram certo no segundo tempo.

A vitória do Real, quebrando uma impressionante invencibilidade de 39 jogos do Barcelona em todas as competições (recorde histórico), teve muito a ver também com o contexto.

Foi um jogo em que claramente as equipes jogaram com o freio de mão puxado. Olho na Champions League, nos duelos importantes da semana que vem, e sabedores de que o resultado do Camp Nou não mudaria nada na liga espanhola.

A vantagem do Barcelona é de 6 pontos para o Atlético e 7 para o Real, mas, além disso, o Barça tem a vantagem no confronto direto contra ambos. Então pode acabar empatado em pontos que ainda assim será campeão. A liga espanhola está decidida faz tempo.

Estes fatores fizeram com que víssemos um Barça quase desinteressado em campo na maior parte do jogo – não é justificável, mas é uma explicação. E o Real Madrid só acordou de vez mesmo quando achou o gol de empate. A partir daí, um time continuou em marcha lenta (mesmo com um homem a mais, devido à expulsão tardia de Sergio Ramos), enquanto o outro time quis buscar a vitória. E buscou.

O Real fez não só um, mas dois gols (o primeiro, de Bale, anulado, foi uma vergonha. Erro brutal do árbitro).

O resultado não significa que o Barcelona esteja acabado nem nada do tipo. Outros times fizeram um trabalho até melhor do que o do Real Madrid para parar o Barça recentemente. Mas enfrentaram um rival mais inspirado na tentativa de conseguir o “impossível”.

Messi, Suárez e Neymar, não fizeram nada em campo. Os mais novos talvez não saibam, mas não há calmaria que não seja chacoalhada por uma derrota no clássico. Poderiam e deveriam ter mostrado mais vontade.

O fim da invencibilidade pode representar um peso que sai das costas do time. Mas também pode representar uma injeção de confiança para os rivais na reta final da Champions League.

Na Europa, o Barcelona terá de levantar a cabeça contra um time para lá de complicado, o Atlético de Madri. Já o Real Madrid ganha paz e moral antes de um duelo relativamente fácil, contra o Wolfsburg.

Paz.

Zidane conseguiu em pouco tempo o que raros técnicos do Real Madrid tiveram enquanto comandavam o clube.