Blog do Júlio Gomes

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Humildade em falta nas análises de Rogério e sobre o Palmeiras
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juliogomes

No domingo, São Paulo e Palmeiras levaram chacoalhadas importantes. A classificação de ambos para a final do Paulistão ficou muito, muito difícil. Por mais que se fale que o Paulistão não vale nada, o fato é que o torcedor adora ganhar de seus maiores rivais. O São Paulo está na fila desde 2005, o Palmeiras só ganhou um dos 20 últimos estaduais que jogou, e o Paulista acaba sendo uma prova importante para técnicos “novatos”.

Rogério Ceni nunca se notabilizou na carreira de goleiro pelo excesso de humildade. Foram raras as falhas admitidas. Como treinador, apesar de ainda ser um estágio muito inicial, o caminho vai sendo parecido.

Mano Menezes, após a vitória cruzeirense no Morumbi na última quinta-feira, disse que “o futebol nos dá lições de humildade a cada dia”.

O jogo de quinta foi horrível. O resultado mais justo seria o 0 a 0, mas o Cruzeiro teve lá seus méritos ao achar dois gols de bola parada. No domingo, o São Paulo voltou a enfrentar um rival bem postado defensivamente. O mundo sabia que o Corinthians faria o que fez. E o time de Ceni voltou a levar um 0 a 2 na tampa.

Assistindo às coletivas de Ceni após o jogo, percebe-se uma dificuldade para admitir os problemas importantes do São Paulo. O discurso de quinta foi repetido no domingo.

As declarações do técnico sobre a postura de Cruzeiro e, depois, Corinthians, passam para alguns um tom de menosprezo. A impressão que muitos têm, ouvindo Rogério, é de que o São Paulo dominou ambos os jogos, massacrou e perdeu por puro azar, por lances fortuitos dos adversários.

Não foi bem assim. O São Paulo foi bem marcado por ambos e ofereceu pouca dificuldades para os sistemas defensivos bem postados de Mano e Carille. Apresentou futebol pobre. Foi um time de pouca movimentação, pouca velocidade, poucas associações, poucas jogadas, muito chuveirinho. Cássio ainda fez boas defesas para o Corinthians, já o Cruzeiro só precisou afastar cruzamentos.

O que Rogério Ceni quer implantar no São Paulo é louvável. Não é fácil! O Real Madrid, com o elenco que tem, vive sérios problemas de criação de jogo e é ultradependente de bolas paradas. Construir é dificílimo, ganhar com um estilo próprio é algo que requer tempo.

É muito bom que um técnico novo e inegavelmente influente e inteligente queira implementar um futebol ofensivo, de posse e qualidade. O Brasil precisa disso.

Os que acompanhamos mais de perto o futebol de altíssimo nível técnico e tático jogado na Europa estamos sedentos por algo assim no Brasil. Chega de resultadismo. Times precisam buscar identidade e desempenho, e é isso que Rogério tenta.

Mas não funcionou contra o Cruzeiro nem contra o Corinthians. É normal que não funcione. Falta tempo, faltam peças, faltou até sorte nos jogos. E faltou Rogério reconhecer, pelo menos de forma mais contundente, os méritos e virtudes das propostas adversárias, os erros e falhas da proposta dele. O discurso transparece certa arrogância, pouca humildade.

Como pouco humildes são os que colocam esse elenco do Palmeiras na estratosfera.

E aqui quero deixar claro que não vejo ninguém do próprio Palmeiras, nem técnico nem jogadores, adotar postura de arrogância e superioridade.

Mas é incrível como muitos colegas jornalistas e torcedores estão falando do Palmeiras como se fosse um Real Madrid ou um Barcelona. Calma lá!

Sim, é verdade que o elenco do Palmeiras é mais farto que outros. Fartura e quantidade não significam que haja esse abismo todo de qualidade. Eu não me espanto pelo Palmeiras ter sofrido tanto para vencer seus dois jogos em casa pela Libertadores e nem que tenha levado três da Ponte Preta.

Será que o 11 do Palmeiras é tãããão melhor assim que o da Ponte? Calma lá! Nada que um bom sistema defensivo, com contra ataques bem armados, não possa resolver. Já faz muito tempo que o futebol sul-americano está nivelado, sem um time dominante.

“Se o Barcelona conseguiu reverter contra o PSG, por que o Palmeiras não pode reverter contra a Ponte?”

Vocês duvidam que ouviremos a frase acima ao longo da semana?

Pois é.

Parece que querem criar um Palmeiras dominador que ainda está muito distante da realidade.

O risco é o torcedor acreditar mesmo que haja tal superioridade. E cobrar de time e técnico o que eles não poderão entregar. Talvez a sova de Campinas venha em boa hora para o futuro do Palmeiras no ano.

 


Palmeirenses tinham obrigação de avisar o juiz do erro ao expulsar Gabriel
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O árbitro Thiago Duarte Peixoto fazia uma bela partida em Itaquera. Era o melhor em campo, até. Em um horroroso Corinthians x Palmeiras, que não honrou toda a ação que os clubes fizeram antes da partida, com vídeos bonitos, times perfilados de forma intercalada para o hino nacional, etc.

O jogo começou violento. Com atletas pouco preocupados em jogar bola, mais preocupados em jogar para a torcida (única). Carrinhos e mais carrinhos. Incrível a necessidade de mostrar “raça” hoje em dia.

E o árbitro conseguiu controlar o ímpeto violento inicial. Não contemporizou. Amarelo para Felipe Melo, amarelo para Raphael Veiga, amarelo para Gabriel (com uma jogada de atraso, mas OK, foi dado). Segurou o jogo. A partir daí, a violência diminuiu. Continuamos sem ver bola, porque aí já é pedir demais no nosso futebol. Mas o árbitro controlou a coisa.

Infelizmente, no finalzinho do primeiro tempo, cometeu um erro. Um erro que certamente terá grandes consequências para ele na carreira.

Quando Keno avançou no campo de ataque palmeirense, foi seguro por Maycon. Era amarelo para Maycon e segue o jogo.

Mas, no momento em que apita a falta, o árbitro Thiago Duarte Peixoto olha para o lado esquerdo. Quando olha para a jogada de novo, Maycon havia saído de cena e Gabriel estava no lugar em que Maycon estaria, não tivesse continuado correndo.

Não quero aqui minimizar o erro. Mas os caras são até parecidos no porte físico, tem uma barbicha parecida. O juiz obviamente não olhou o número 30 às costas de Maycon no momento da falta. Ele se confundiu, nada mais do que isso. E expulsou Gabriel.

Os jogadores do Corinthians tentaram desesperadamente avisá-lo do erro.

O que mais me incomodou no lance foi ver todo o banco palmeirense e também alguns jogadores tentando evitar que alguém passasse a informação correta para o árbitro ou para o quarto árbitro. Tentando evitar a tal “interferência externa”.

O que é pior? A irregularidade da interferência externa para ajudar o árbitro em um lance em que não há margem para dúvida? Ou a irregularidade de expulsar um jogador que não merecia ser expulso?

Oras.

Na boa? Podem me chamar de exagerado. Mas é por essas coisas que temos a sociedade que temos.

O que é certo é certo, oras. Keno até pode ser perdoado, estava de costas no momento em que sofre a falta. Mas ninguém mais viu que foi Maycon, e não Gabriel, até outro dia companheiro desses palmeirenses todos, que fez a falta? Dudu, por exemplo, estava de frente para o lance.

Será sonhar demais esperar pelo dia em que o banco do Palmeiras será o primeiro a avisar o juiz de seu erro?

A lisura não é mais importante do que a vitória? O que é certo não é certo e ponto final?

Não, não estou dizendo que “se fosse ao contrário” o banco do Corinthians faria de outra forma. Acho até que não. Mas isso pouco importa. É infantil ficar usando o argumento do “se fosse ao contrário”. Assim como é infantil comparar com um lance de pênalti em que o árbitro é “enganado” pelo atacante. São naturezas bem diversas. O futebol é um jogo de engano mesmo, mas não esse tipo de engano.

Será que nunca vamos entender que fazer as coisas certas é o mais importante nessa vida? Que ganhar não é tudo?

O juiz errou feio. Por mais que seja “ao vivo”, tudo muito rápido, etc, ele é treinado e tem técnicas para não cometer esse tipo de erro. Mas errou, oras. Como todos nós erramos. Uma imagem da Globo que permitiu leitura labial mostrou que o quarto árbitro avisou: “não foi o Gabriel!”. Errou de novo ao não confiar no colega (se é que ouviu o colega).

No fim, foi salvo pelo resultado. O Palmeiras achou que ganharia a qualquer momento, perdeu chances no segundo tempo e, no único bom contra ataque do Corinthians, após um erro grotesco de Guerra, Jô fez o gol da vitória. O Corinthians mereceu por ter mostrado mais vontade em campo.

Mas, pior que o erro do árbitro, foi o erro de quem não ajudou a consertar.

Em um jogo sem a menor importância para o campeonato, convenhamos.

Imaginem que linda seria a cena de alguém do Palmeiras avisando o árbitro do erro? Iria rodar o mundo, seria um exemplo de fair play. Quem estava vestido de verde, percebeu o erro e não falou nada perdeu uma grande chance na vida.


São Paulo impressionou pela personalidade na Vila
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Eram 16 clássicos paulistas seguidos sem vencer fora do Morumbi. Eram mais de sete anos sem vencer o Santos na Vila Belmiro, 11 jogos.

O São Paulo de Rogério Ceni já quebra tabus.

Mais do que isso ou até mesmo que os três pontos, o mais interessante para o torcedor são-paulino foi ver tanta personalidade em campo.

O São Paulo só se acuou quando já vencia por 2 a 1, Dorival fez uma substituição ofensiva (e arriscada) e o Santos pressionou bastante por alguns minutos.

Sidão fez uma grande defesa. Evitou o empate, logo depois ligou o contra ataque e, no primeiro que encaixou, o São Paulo matou o clássico.

Luiz Araújo, que entrou no intervalo, foi muito mais eficiente que Neílton. Fez dois gols e ameaçou o tempo todo. Está claro que vai se firmar como titular.

No primeiro tempo, após levar o 1 a 0, o São Paulo não sentiu o golpe. Colocou a bola no chão, trocou passes, rodou, rodou, rodou. É raro ver o Santos ser empurrado para trás na Vila. Faltava ao São Paulo o passe mais agudo.

O empate saiu em um pênalti infantil de Zeca sobre o Gilberto, anotado por Cueva. O Santos melhorou depois do empate, criou uma chance e chegamos ao intervalo.

No segundo tempo, a tônica foi a mesma. O São Paulo controlou a posse de bola. Mesmo longe da área, era quem ditava o ritmo do jogo. Mas foi em outro lance que nada teve a ver com isso que chegou à virada.

Lucas Lima perdeu bola no meio do campo, Gilberto deu rápido passe para Luiz Araújo, que avançou e marcou. Depois da pressão do Santos em busca do empate, vieram o 3 a 1 e chances para fazer até o quarto.

Ainda é início de temporada. Mas é daqueles jogos importantíssimos para a sequência de um trabalho inicial. O mito já é cada vez mais mito no coração do torcedor.


Álvaro Pereira: boa estreia, ótima atitude
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O calor não pode ser ignorado na vitória de 2 a 1 do São Paulo sobre o Oeste, pelo Paulistinha. Não dá para não levar em conta uma temperatura na casa dos 30 graus em um jogo de início de temporada.

Não dá, também, para ignorar o fato de o calor valer para todos, para os dois times. Somos um país quente no verão (às vezes até no inverno, em muitos lugares), e jogadores de futebol estão habituados a estas condições.

No intervalo do jogo do Morumbi, após um modorrento primeiro tempo, eu aguardava as entrevistas e observações sobre o calor. Um jogador, somente um, poderia encher a boca para falar dos 30 graus: Álvaro Pereira, que acaba de desembarcar do frio de Milão, onde vinha treinando e jogando. A adaptação, para ele, é obviamente mais sofrida.

Que nada!

Nem uma palavrinha sobre o calor. “Tem que fazer cada jogo como se fosse uma final”, foi o que ele disse. “O jogo não está ganho, temos de tomar cuidado”.

As duas frases me pareceram exageradas.

A segunda, ele acertou em cheio. O São Paulo jogou com o freio de mão puxado, Luis Fabiano perdeu um pênalti, o Oeste achou um golzinho e foi um pega pra capar nos 10 minutos finais. Não fosse uma ótima defesa de Dênis, o Oeste teria empatado.

A primeira frase é muito mais simbólica. É a atitude do jogador uruguaio, a forma de pensar e encarar um jogo de futebol. Claro que nem todo cidadão uruguaio é guerreiro e nem todo jogador de futebol brasileiro é preguiçoso. Estamos falando de generalizações que se adequam a boa parte dos casos.

Álvaro, na estreia, já virou o homem das bolas paradas – dos pés dele, saiu o cruzamento para o segundo gol de Antônio Carlos. Apoiou e marcou com consistência. Não reclamou do calor. E só saiu de campo quando desabou, já aos 30 e tantos do segundo tempo, com cãimbras.

Por que os torcedores gostam tanto de uruguaios?

A resposta me parece fácil. É a atitude, o esforço, a entrega, o respeito pela camisa que veste. Nós, brasileiros, costumamos prezar muito mais a classe do que a raça. Mas classe é algo que está bastante em falta por aqui. Aparece aqui e ali, mas já não é, há tempos, a marca do futebol praticado em nossos campos. Pouco a pouco, o gosto popular foi se transformando. Hoje, um grosso raçudo vale muito mais do que um bom de bola preguiçoso.

Se for bom e raçudo, então, aí cai nas graças de qualquer torcida. Parece ser o caso de Pereira.

Viva o intercâmbio! Assim como com Seedorf, tenho que certeza que os jovens das bases do São Paulo, os companheiros, os adversários, os jornalistas e torcedores têm muito a aprender com este uruguaio de seleção, de Copa do Mundo.

Álvaro aprenderá, no entanto, que não é necessário jogar todas as partidas do Paulistinha como uma final. Basta a ele ler o regulamento…

 


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