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Espanha, Sérvia, Alemanha e Inglaterra estão com o pé na Copa-2018
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A rodada do fim de semana classificou a Bélgica para a Copa do Mundo, após a vitória por 2 a 1 na Grécia. Além da anfitriã, a Rússia, a seleção belga é a única europeia já confirmada.

Mas a rodada dupla deste início de setembro deixou também Espanha, Inglaterra, Alemanha e Sérvia com um pé (e uns dedinhos) na Copa do Mundo do ano que vem. Nas eliminatórias europeias, as seleções vencedoras dos nove grupos ganham vaga direta, e oito segundos colocados disputam quatro vagas no mata-mata.

A Espanha, depois da ótima partida de sábado contra a Itália, no duelo direto que, de fato, decidiu tudo, massacrou Liechtenstein nesta terça por 8 a 0. Foram quase 80% de posse de bola e gols de quase todo mundo: Morata e Aspas fizeram dois, Isco, Sergio Ramos, David Silva e Deulofeu, um cada. A Espanha vai virando “o time de Isco”, o que não é mau negócio.

Com 22 pontos, a Espanha mantém três de frente para a Itália, que ganhou de Israel por 1 a 0 com um gol de Immobile. Foi uma partida preguiçosa da Itália, que parecia desmotivada em campo. Melhorou no segundo tempo, mas não foi suficiente para ampliar o marcador.

A Espanha não deve tropeçar nem contra Albânia nem contra Israel e tem 17 gols a mais de saldo que a Itália. Pode até perder uma. Não vai acontecer, a vaga para a Roja virá em outubro. E a Itália que se vire na repescagem.

Em uma “final” pela vaga direta, a Sérvia foi a Dublin e conquistou uma vitória enorme sobre a Irlanda. 1 a 0, com gol de Kolarov, ex-Manchester City, hoje na Roma. A Sérvia jogou quase 30 minutos com um homem a menos e segurou o resultado.

Nos outros jogos do grupo D, a Áustria se despediu ao ficar com 1 a 1 com a Geórgia, e o País de Gales ganhou por 2 a 0 em Moldova. Agora, faltando duas rodadas, a Sérvia tem 18 pontos, Gales tem 14 e a Irlanda tem 13. Mas a vaga está nas mãos dos sérvios, que enfrentam as fracas Áustria (fora) e Geórgia (casa) nos últimos jogos.

Na última rodada, Gales e Irlanda se enfrentarão em Cardiff por uma vaga na repescagem. Talvez o empate sirva para Gales, talvez para ninguém (o pior segundo colocado fica fora).

Além de Espanha e Sérvia, outras duas seleções praticamente garantidas são Alemanha e Inglaterra, que venceram seus jogos na segunda-feira.

A Alemanha tem cinco pontos a mais que a Irlanda do Norte e, mesmo que perca o confronto direto entre elas, depois se despedirá em casa contra o Azerbaijão. Já deve se garantir na próxima rodada, mesmo jogando na Irlanda. Os norte-irlandeses vão para a repescagem.

A Inglaterra tem cinco pontos de vantagem para a Eslováquia e seis para Eslovênia e Escócia. Também pode até tropeçar uma vez, já que a Inglaterra pega a Lituânia na última rodada. As outras três seleções jogam por uma vaga na repescagem. A Escócia tem duelos diretos em casa contra a Eslováquia e fora contra a Eslovênia. Se não perderem na Escócia, os eslovacos têm tudo para ficarem com a vaga no mata-mata derradeiro.

Outras potências

Depois de perder na estreia para a Suíça, um ano atrás, Portugal, campeão europeu, fez sua parte. Ganhou todos os jogos. Mas a Suíça também. Na próxima rodada, em outubro, Portugal vai ganhar de Andorra e a Suíça, em casa, não deve perder da Hungria. Na última rodada, em 10 de outubro, Portugal recebe a Suíça. Se vencer, vai para a Copa e jogará os suíços para a repescagem. A Suíça jogará pelo empate para ir ao Mundial.

A outra finalista da última Euro, a França, perdeu a chance de se garantir ao empatar com Luxemburgo, domingo. Com 17 pontos, comanda um grupo que tem a Suécia com 16, Holanda com 13 e Bulgária com 12. Na próxima rodada, jogam Bulgária x França e Suécia e Holanda têm jogos fáceis. Na última rodada, a França recebe Belarus, enquanto a Holanda recebe a Suécia.

A tendência é a França ganhar o grupo e a Suécia ser segunda, por ter um saldo muito melhor que o da Holanda. Mas é um grupo em que está tudo aberto – graças ao tropeço inesperado dos franceses domingo.

Grupo embolados

O grupo I teve jogos fundamentais nesta terça. A Turquia sobreviveu ao vencer a Croácia por 1 a 0, e a Islândia, Cinderela da última Euro, fez 2 a 0 na Ucrânia.

Agora, Croácia e Islândia têm 16 pontos, Ucrânia e Turquia têm 14. As quatro tem um jogo tranquilo, contra os rivais mais fracos do grupo. E tudo será definido em dois confrontos diretos: na próxima rodada, Turquia x Islândia e, na última, Ucrânia x Croácia. Um empate servirá para a Croácia e, talvez, para a Islândia. A turcos e ucranianos, bastará uma vitória para garantir, pelo menos, repescagem. Vai pegar fogo.

No grupo E, a Polônia tem 19 pontos, Montenegro e Dinamarca têm 16. A Polônia tem tudo para ficar com a vaga, joga fora com a Armênia e em casa contra Montenegro. Na próxima rodada, se enfrentam Montenegro e Dinamarca – na última rodada, os dinamarqueses recebem a eliminada Romênia. O jogo de Montenegro é fundamental, e um empate é bom negócio para a Dinamarca.

Além de Bélgica, Espanha, Sérvia, Alemanha e Inglaterra, conseguirão vagas diretas possivelmente França, Polônia, Portugal ou Suíça e, vou arriscar, a Croácia.

A repescagem está se desenhando com Suécia, Portugal ou Suíça, Irlanda do Norte, País de Gales, Montenegro ou Dinamarca, Eslováquia, Itália, Grécia e Turquia ou Islândia. Um deles, de pior campanha, ficará fora. E os outros se matam-matam por quatro vagas.

 


Argentina, França e cinco potências locais jogam contra a parede
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juliogomes

As eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018 terão dias cheios e decisivos entre amanhã, quinta, e terça-feira que vem. Por enquanto, só Rússia, Brasil e Irã estão garantidos, mas todos os continentes podem ter mais classificados saindo nos próximos dias.

Chama a atenção, no entanto, que algumas potências mundiais, como França e Argentina, e outras locais, como Japão, Coreia do Sul, Camarões, Gana e até Estados Unidos jogarão contra a parede. Precisam dos resultados, sob pena de ficarem fora do Mundial ou caírem em perigosas repescagens. Destas, as duas africanas são as que vivem situação mais dramática.

O blog separou alguns jogos nos quais todos precisamos ficar de olho:

AMÉRICA DO SUL – Uruguai x Argentina (quinta, 20h)

Com o risco de ficar fora da Copa, em uma competição tão parelha como as eliminatórias sul-americanas, a Argentina trocou Bauza por Sampaoli. Essa é a esperança. Que o novo técnico encontre química com os jogadores e faça o time produzir o que ele pode.

Na América do Sul, são quatro vagas, mas o quinto é virtual classificado, pois enfrentará uma seleção da Oceania (a Nova Zelândia, possivelmente) na repescagem. O Brasil está garantido, e depois está um bolo só: Colômbia (24 pontos), Uruguai e Chile (23) seriam os classificados hoje; a Argentina (22) iria pra repescagem; mas não podemos descartar Equador (20), Peru (18) e Paraguai (18).

Faltam quatro rodadas. Se perder do Uruguai, a Argentina precisará vencer Venezuela e Peru em casa e muito provavelmente decidirá seu futuro contra o Equador, na altitude, na última rodada.

Para o Uruguai, que começou tão bem, não seria bom perder. Mas tampouco seria dramático. Pois os últimos jogos são contra Paraguai e Venezuela fora, e depois Bolívia em casa. Olhando para a tabela, é provável que Colômbia, Chile e Uruguai não fiquem fora das cinco primeiras posições.

A chave para a Argentina é evitar um confronto de tudo ou nada na altitude. E, para isso, precisa somar alguma coisa no Centenário. Com toda a rivalidade envolvida e a necessidade de ambos, este é o jogo mais imperdível de todos.

EUROPA – França x Holanda (quinta, 15h45)

A França é tida como uma das candidatas ao título mundial. Mas, antes, precisa chegar na Copa. E o caminho ficou tortuoso após a inesperada derrota para a Suécia, em junho, com a falha de Lloris no final. O grupo A das eliminatórias europeias tem Suécia e França com 13 pontos, Holanda com 10 e Bulgária com 9.

Nesta quinta, jogam França x Holanda e Bulgária x Suécia. Depois disso, faltarão três jogos para cada. Apesar do favoritismo, a França pode perder em casa para Holanda e se complicar de verdade. Um empate já seria ruim, pois pode deixar a Suécia com o comando em busca da vaga direta (o segundo do grupo vai ter de jogar repescagem).

Nos outros grupos, destaco um Hungria x Portugal, no domingo. Portugal está contra a parede desde que perdeu da Suíça na primeira rodada e não pode tropeçar. Alemanha, Bélgica e Polônia podem já se classificar nessa dobradinha de jogos, mas pode ser que isso só aconteça nas duas últimas rodadas, em outubro.

E no sábado, 15h45, tem um Espanha x Itália enorme. As duas lideram o grupo G com 16 pontos, mas a Espanha tem um saldo melhor. Não há muita expectativa de tropeço para ambas nas três rodadas finais. É um jogo em que basicamente quem vencer irá para a Copa, jogando a outra para a repescagem. Um empate é melhor para a Espanha, porque tem mais saldo e mais facilidade para golear, mas não seria um fim do mundo para os italianos, ainda mais jogando fora de casa.

ÁSIA – Japão x Austrália (quinta, 7h30)

Se vencer, o Japão estará classificado para a Copa com uma rodada de antecipação. Seria a quarta seleção com passaporte carimbado e deixaria para a Austrália a responsabilidade de golear a Tailândia na última rodada do grupo A asiático (terça) para ficar à frente da Arábia Saudita e entrar também.

O problema para o Japão é se não vencer a Austrália nesta quinta, e este é um resultado para lá de plausível. Neste caso, faria um confronto direto com os sauditas, fora de casa, no último jogo, terça que vem. Um empate bastaria para os japoneses, mas uma derrota deixaria a Arábia na Copa e jogaria o Japão para duas repescagens – a primeira contra um asiático (possivelmente o Uzbequistão, mas podendo ser a Coreia do Sul) e a segunda contra um representante da Concacaf.

A última vez que o Japão ficou fora de uma Copa foi a de 94, quando tomou um gol do Iraque no último minuto do último jogo das eliminatórias. A última vez que precisou passar por uma repescagem para garantir a vaga foi para a Copa de 98, ganhando justamente do Iraque na prorrogação.

Aquele Mundial de 98 foi o primeiro da história do futebol japonês e, de lá para cá, sempre se classificou sem o drama que pode viver nestes próximos dias. Amanhã cedo, é vaga ou tensão.

Já a Coreia do Sul, que jogou oito Copas seguidas (de 1986 para cá), pode até se classificar na próxima rodada. Para isso, precisa vencer o já garantido Irã (9h desta quinta) e torcer por uma derrota do Uzbequistão na China. O mais provável, no entanto, é que o duelo direto entre Uzbequistão e Coreia do Sul, na outra terça, defina quem entra na Copa e quem vai pra repescagem.

Podemos ter, portanto, um inesperado confronto entre Japão e Coreia na repescagem asiática, se as duas potências continentais não fizerem o que se espera delas nestas últimas duas rodadas.

ÁFRICA – Nigéria x Camarões (sexta, 13h)

As eliminatórias africanas têm um “grupo da morte” reunindo Nigéria (6 pontos), Camarões (2) e Argélia (1), três seleções que estiveram na Copa de 2014. Só uma delas irá à Rússia ano que vem.

Camarões, que em janeiro sagrou-se campeã continental, é a seleção africana com mais presenças em Mundiais – foram sete de nove desde a Copa de 82. A Nigéria vem logo atrás, com cinco participações (sempre presente desde 94, exceto na Copa de 2006).

As duas potências continentais se enfrentam nesta sexta, na Nigéria, e depois segunda-feira, em Camarões. A seleção camaronesa precisa, no mínimo, de quatro pontos nestes confrontos diretos para se manter com vida. Se vencer uma das duas partidas, a Nigéria encaminha a vaga.

Outra seleção tradicional contra as cordas é Gana, que esteve nos últimos três Mundiais e foi quadrifinalista em 2010. Após duas rodadas do grupo E, Gana tem só um ponto, contra seis do Egito e quatro de Uganda.

A última vez que o Egito esteve em uma Copa foi em 1990, apesar de desde então ter vencido quatro vezes a Copa Africana das Nações (é o maior campeão, com sete títulos, seguido de Camarões, com cinco, e Gana, com quatro).

Nesta quinta (16h), jogam Uganda x Egito. Na sexta (12h30), Gana recebe o Congo. Na terça, os jogos se repetem, com mandos invertidos. Gana, para sobreviver, precisa ganhar seus dois jogos e torcer para o Egito não fazer mais do que três pontos nos duelos contra a seleção de Uganda.

 

A Tunísia, fora das últimas duas Copas, enfrenta a República Democrática do Congo, que quando se chamava Zaire jogou o Mundial de 74. Sexta o duelo é na Tunísia, terça no Congo. Ambas têm seis pontos e, se alguém ganhar os dois duelos ou fizer quatro pontos neles, ficará com um pé na Copa-2018.

 

CONCACAF – EUA x Costa Rica (sexta, 19h)

Os Estados Unidos estão na terceira posição, com só 8 pontos. O México tem 14 e deve se garantir com três rodadas de antecipação se vencer o Panamá (7 pontos), também na sexta à noite. A Costa Rica vem logo atrás, com 11. O quarto colocado do hexagonal precisará jogar repescagem com uma seleção asiática.

Os EUA levaram um sonoro 4 a 0 da Costa Rica menos de um ano atrás e não estão em posição tão confortável assim. Se perderem em casa, na sexta, estarão contra a parede no duelo com Honduras, fora de casa, terça-feira. Os norte-americanos se classificaram para os últimos sete Mundiais. Honduras esteve nos últimos dois, e o Panamá busca classificação inédita.

 

 


A um ano da Copa, França parece ser o maior obstáculo para a seleção
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juliogomes

Vamos começar pelo fim? Assim ninguém se dá ao trabalho de malhar o analista nos comentários. Sim, eu sei que a Copa do Mundo é uma competição rápida e que em um jogo qualquer coisa pode acontecer. Nos dias de hoje ainda mais, pois há muito equilíbrio entre times e seleções no futebol globalizado e da velocidade da informação. Não há segredos. Há padrões. Zebras acontecerão cada vez mais em competições internacionais curtas. Times organizados ganham jogos.

Dito tudo isso, não quero me furtar de tentar prever o futuro com base no presente, no passado e nas próprias perspectivas de futuro. Hoje, considero a seleção brasileira a mais forte do mundo. E, entre as europeias, a França, e não a Alemanha ou a Espanha ou a Itália, é quem promete ser o maior obstáculo para o hexa.

Brasil e França podem perder de QUALQUER UM. Isso é óbvio. Não ficarei aqui colocando o óbvio como “porém” ao analisar seleções e seus momentos. A Alemanha era a melhor seleção do mundo em 2014, disparado. E quase tropeçou na Argélia. Acontece. É uma questão de encaixe, seleções que tentam se dar bem na fraqueza alheia. Muitas vezes funciona.

Em 20 jogos contra aquela Alemanha, aquela Argélia ganharia um. Quase foi na Copa. Mas não podemos ignorar a superioridade alemã e nos escorar no “não tem favorito” para analisar e prognosticar um jogo de futebol. Claro que tinha e claro que tem.

O que faz da seleção brasileira tão forte? Uma série de fatores que simplesmente se encaixaram com a chegada de Tite. Ótimo treinador, antenado e atualizado com métodos e formações do futebol atual, ótimos jogadores em todas as posições, jogadores que compraram a ideia do técnico e rapidamente adotaram um estilo de jogo coletivo e participativo, muito uso de informações, estatísticas, vídeos, etc. Tudo isso em uma das camisas mais poderosas da história do futebol.

A França, já não é de agora, montou uma seleção muito boa e também tem um técnico competente, Deschamps, que conseguiu unir jogadores historicamente divididos. Uma seleção que viu dois jogadores promissores ganharem status de estrelas mundiais em Pogba e Griezmann.

A França parou na Copa do Mundo de 2014 na Alemanha, como era de se esperar. Mas superou a mesma Alemanha ano passado, na Eurocopa. Realmente faltou vencer Portugal (sem Cristiano Ronaldo desde o início do jogo) na decisão. E este é um ponto negativo que não pode ser deixado de lado. Que time é esse que perde um Europeu em casa, daquele jeito?

Mas algumas coisas aconteceram nesta temporada, que acabou oficialmente com estas partidas de seleções.

Algumas coisas tipo o Monaco, campeão francês e semifinalista da Champions.

Mbappé, já comparado com Henry, é um fator X nesta seleção francesa. Um jogador em claras condições de explodir rumo à estratosfera nesta temporada que vem e que mostrou um pouco disso no amistoso desta quarta-feira, na vitória sobre a Inglaterra (3 a 2 mesmo com um jogador a menos).

Mbappé é o que Neymar poderia ter sido na Copa de 2010, por exemplo. Um jogador muito jovem, de apenas 18 anos, que foi convocado pela primeira vez em março e que traz para um bom time aquele algo mais. Coragem, talento, velocidade, capacidade de desmontar esquemas.

Mas tem mais além dele. A temporada brutal do Monaco deu a Deschamps jogadores muito confiantes em Lemar, Sidibé e Mendy. Além deles, surgiu também Dembélé, que explodiu com a camisa do Borussia Dortmund (na foto acima, abraçado a Mbappé). Nenhum destes estava na Euro, um ano atrás.

Lloris, que era apenas um bom goleiro, ganhou status de um dos melhores do mundo com a número 1 do Tottenham. Descarte a besteira que ele fez no fim de semana contra a Suécia, pelas eliminatórias. E Kanté, depois da temporada brilhante no Leicester, foi para o Chelsea e transformou-se no melhor jogador da Premier League. É o Makelele 2.0. E ainda tem a dupla de zaga, Umtiti e Varane, mais do que consolidados e aprovados após esta temporada, titulares de Barcelona e Real Madrid, respectivamente.

Enfim. Uma França que já era forte na Copa de 2014 e na Euro de 2016, ganhou um punhado de jogadores que podem dar “algo a mais” no ano que vem. É uma claríssima candidata.

Imaginem um confronto entre Brasil e França na Copa? Daria calafrios, não é mesmo? Depois de 1986, 1998 e 2006, pode até haver um bloqueio pelo histórico. Convenhamos, o Brasil já entra ganhando contra um monte de seleções. Justamente pelo medo que impõe. Não contra a França. Com medo, eles não jogarão.

Mas e as outras seleções?

Temos muito tempo para dissecá-las. A Alemanha cumpriu um ciclo em 2014. Era uma seleção montada, que bateu na trave nas Euros de 2008 e 12, além da Copa de 2010. Desde o tetra, perdeu Lahm, Schweinsteiger, Goetze não explodiu, Draxler ainda é mais promessa que realidade. É uma seleção fortíssima, sem dúvida. É a campeã e é a Alemanha, oras bolas. Tem Neuer. Tem Kroos. Mas ainda passa por uma transição e hoje é menos forte do que era.

A Espanha está na mesma. Tem ótimos talentos. Jogadores pedindo passagem, como Isco e Asensio, um camisa 9 de muito respeito em Diego Costa, goleiraço, ótima dupla de zaga. Maaaaaas. Ainda não encaixou com Julen Lopetegui. O ciclo novo foi sendo adiado, demorou para começar e não sei se conseguirá encontrar a química necessária antes do Mundial.

A Itália tem mais camisa e sangue vencedor do que propriamente um time. A Bélgica, exatamente o contrário. Tem time, um baita time, mas falta aquela competitividade necessária para ganhar a Copa. A Argentina tem craques do meio para frente, muitos problemas atrás, mas ganhou um treinador fantástico em Sampaoli.

Todas estas podem ganhar a Copa. Até o México de Osorio pode ganhar a Copa! Até Portugal. Até a Croácia. Até o Uruguai. É mata-mata (ou melhor, só “mata”) e hoje há um equilíbrio brutal no futebol.

Mas, neste momento, a um ano do Mundial, ninguém parece mais pronto e com mais poder de fogo do que o Brasil e seu eterno nêmesis: a França.

 


Marcelo comemora 10 anos de Real com brilho. Maior que Roberto Carlos?
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Não me lembro exatamente a data. Acho que era fim de 2007, começo de 2008, por aí. Tocou meu telefone e apareceu o nome “Paco”. Era um assessor de imprensa do Real Madrid. No início, achava uma mala sem alça. Depois, foi parecendo mais gente boa. Estranhei. Por que Paco estaria me ligando?

Atendi e ele logo saiu falando. “Olha, sei que você é brasileiro e tradutor e estamos precisando de alguém para ajudar em uma entrevista coletiva do Real Madrid com um jogador chamado Marcelo. Você está disponível?”.

Achei muito estranho. Paco me conhecia, sabia que eu era repórter, não tradutor. E que eu estava dia sim, dia não no CT do clube, em Valdebebas, sentado junto com os outros jornalistas, fazendo perguntas aos jogadores e muitas vezes filmando as coletivas – eu era correspondente da Band na época. Havia uma porta ali na sala de imprensa por onde chegavam os jogadores. Eu nunca havia passado por aquela porta. Era estranha a sensação de estar sendo convidado para entrar na sala junto com o jogador.

Notei que Paco não tinha percebido que aquele Julio-brasileiro era o único que ele conhecia, não outro. Esclareci. E o assessor do Real Madrid de repente se viu em uma encruzilhada. Estava desesperado, a coletiva começaria em horas. As coletivas do Real nunca tinham tradutor, exceto quando Beckham falava (raríssimo). E, claro, não queria que eu estivesse lá sentado na bancada. Seria esquisito. E se tem uma coisa que esses caras não gostam é de dever favor.

Eu me adiantei. “Paco, não se preocupe. Estou indo para Valdebebas e ajudo vocês nessa”.

Marcelo era uma criança. Um garoto acanhado, que, mesmo em português, mais murmurava do que falava. Eu achava um bom menino, talentoso, mas não via como ele poderia triunfar em um clube como aquele, um demolidor de pessoas tímidas. Para jogar no Real Madrid, não bastava ser bom de bola. Era preciso ter uma atitude à altura do clube.

A coletiva foi um fiasco para quem dependia daquela entrevista para o noticiário do dia. Marcelo jogava pouco, quase não conhecia o clube, não havia nenhuma crise em curso. Não havia o que perguntar para ele, em resumo. E as poucas perguntas que eram feitas eram respondidas com frases de no máximo umas cinco ou seis palavras. E ele respondia olhando de lado para mim, murmurando em português, sem ficar de frente para as câmeras.

Eu lembro que as minhas traduções se resumiam a “sí” e “no”.

O Real seria campeão naquela temporada com Schuster. Roberto Carlos havia deixado o clube, e Marcelo passou a ter mais minutos do que tivera em seu primeiro ano, com Fabio Capello.

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Poucas vezes encontrei Marcelo depois daquilo. Sempre foi um rapaz simpático, pelo menos comigo. Mas, mesmo à distância, foi fácil perceber como ele cresceu, amadureceu, ganhou personalidade. Ganhou o tamanho do Real Madrid e do futebol dele. Me parece mais vítima do que vilão nos problemas com Dunga e hoje exerce a justa titularidade absoluta na seleção brasileira de Tite.

Marcelo estreou no Real Madrid em 7 de janeiro de 2007. Portanto, 10 anos atrás. Nas tribunas do Bernabéu, neste sábado, estavam alguns nomes históricos do clube. Isso porque Cristiano Ronaldo recebeu e mostrou sua Bola de Ouro. Mas serviu também como uma homenagem a Marcelo. Que prestou sua auto homenagem ao fazer uma jogada linda e cruzar na cabeça para que Cristiano Ronaldo deixasse o dele nos 5 a 0 sobre o Granada.

O Real Madrid só perde esse Campeonato Espanhol se quiser. Se consumado, será o quarto título nacional de Marcelo no clube – para acompanhar duas Champions (com Mundiais), duas Copas do Rei, duas Supercopas da Espanha e outras duas da Europa.

É inevitável comparar Marcelo com Roberto Carlos. Ambos brasileiros, ambos laterais esquerdos, ambos com uma linda carreira no clube mais vencedor da história. Roberto Carlos também chegou ao clube quando Fabio Capello era o técnico e ficou 11 anos no Real. Conquistou quatro títulos espanhóis, três Champions, dois Mundiais, três Supercopas da Espanha e uma da Europa.

Percebemos, pois, que em termos de conquistas Marcelo já está no mesmo nível de Roberto Carlos em um período parecido dos dois no clube.

Mas quem foi maior ou melhor? Quem foi mais relevante nessas conquistas todas?

Eu ainda colocaria Roberto Carlos acima de Marcelo na história do clube e do futebol.

Roberto Carlos foi, durante todo seu período no Real Madrid, titular absoluto, indiscutível. O melhor do mundo na posição durante praticamente todo esse tempo, sendo também peça importante em muitos títulos da seleção brasileira. Não à toa, é o estrangeiro com mais partidas com a camisa do Real. Não se machucava nunca, jogava sempre.

Roberto fez parte de um Real Madrid que, em 1998, quebrou um jejum de 32 anos sem títulos europeus. E em uma época em que não havia supertimes, como hoje. As coisas eram muito mais equilibradas na Europa.

Já Marcelo chegou a jogar com um meia ou ponta esquerda por muito tempo com Juande Ramos e Manuel Pellegrini. Depois, com José Mourinho, era basicamente titular nos jogos em que o Real tinha a obrigação de atacar (na liga doméstica, por exemplo) e dava lugar ao português Coentrão nos jogos grandes, quando Mou se preocupava mais em defender.

Foi só nos últimos dois anos que Marcelo assumiu, de vez, a condição de titular absoluto e incontestável do clube na lateral esquerda. Ainda com alguma falha defensiva, mas essencial para a construção do jogo ofensivo do time pelo lado esquerdo. Fez até gol na final da Champions de 2014, quebrando jejum de 12 anos sem títulos europeus – em tempo, foi reserva de Coentrão naquela final, Ancelotti mandou o brasileiro a campo no segundo tempo, quando precisava buscar o resultado.

Não estou, de forma alguma, minimizando Marcelo. Pelo contrário. Um grande jogador, estabelecido no clube, parte da história, parceiro de Cristiano Ronaldo e caminhando para sua segunda Copa do Mundo como titular.

Roberto Carlos não tinha o mesmo talento para a construção com a bola nos pés. Os tempos também eram outros. Mas, por ser um “cavalo” fisicamente, conseguia compor melhor o sistema defensivo. E suas patadas, em faltas ou com bola rolando, eram uma arma e tanto do Real Madrid ao longo dos anos.

Roberto fez muito mais gols que Marcelo no Real, mais que o dobro (68 a 26). No entanto, Marcelo deu muitas assistências (54 em 382 jogos).

Imagino que na cabeça do torcedor brasileiro lendo esse texto, relembrando dos anos de Roberto Carlos na seleção, a comparação seja esdrúxula. Mas é preciso sair da caixa “Brasil”.

Eu acho a comparação justa e válida. Acho um ótimo debate de mesa de bar. No fim, ainda dou meu voto a Roberto Carlos. Tanto no peso histórico com a camisa do Real Madrid, pelos muitos mais anos de consistência e titularidade, quanto como jogador de futebol.

Mas Marcelo ainda tem tempo. Está no auge, jogando bola demais. Ee merece todas as palmas do mundo por completar 10 anos em clube exigente como o Real Madrid.

 


Com Buffon e Pellè, a Itália é toda uma instituição
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Falar que a “era espanhola” acabou será chover no molhado. Elogiar muito Buffon vai fazer parecer que a Itália foi massacrada no jogo desta segunda. E notar que a Itália tem Pellè vai parecer piada.

Mas como escrever sobre o jogo mais relevante das oitavas de final da Euro sem falar destas três coisas?

A Espanha já aportou muito para o futebol mundial. Mais o Barcelona do que a Espanha, na verdade. E mais nos anos de Guardiola do que em outros, ainda que esta “era” já dure seus 10 anos.

Marcação adiantada, participação dos atacantes em todas as facetas táticas defensivas do jogo, posse de bola como recurso primordial, aproximações entre jogadores, maiorias criadas por todo o campo, triangulações, privilegiar a técnica em vez da força. O futebol não está mudando, ele já mudou. E a Espanha tem tudo a ver com isso.

E quer prova maior do que a forma como a Itália jogou?

A Itália não deu chutões. Se defendeu com firmeza e ocupação de espaços, como sempre fez. Mas, com a bola, confundiu completamente a Espanha. Porque jogou. Não só com bolas longas, esticadas no “seja o que deus quiser”. Mas, sim, com aproximações, qualidade, ultrapassagens, técnica.

Conte é um baita treinador. Sorte do Chelsea. Del Bosque não analisou bem o que a Itália fizera na estreia, contra a Bélgica. Azar dele.

A Itália foi mais Espanha que a Espanha nesta tarde. Fez o primeiro gol e teve várias ocasiões para matar a partida. Duas absurdamente claras no segundo tempo.

Naturalmente, na meia hora final de jogo o time que tem que buscar o resultado vai atacar mais e pressionar. A Espanha, daqueles times que ganharam a Copa e duas Euros, ainda tem uma boa defesa. Mas, sem Xabi Alonso e Xavi, perdeu muito no meio de campo. E, sem Villa e Torres, perdeu muito poderio ofensivo. Vai precisar se reencontrar, e não acredito que seja com Del Bosque. Um ótimo gestor de estrelas, mas que não é o mais brilhante e moderno taticamente.

Quando a Espanha empurrou a Itália contra o próprio gol, apareceu Buffon. Três defesas espetaculares. Uma delas, em um toque de Piqué à queima roupa nos últimos minutos, foi monumental.

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Buffon é simplesmente um monstro. Um dos grandes goleiros que já vimos jogar. Se seguir Zoff, capaz que ainda fique uns bons anos por aí. Tomara. Além de ser tecnicamente perfeito, não ter falhas em seu jogo, é um líder. É carismático. Uma instituição do tamanho de um camisa com quatro estrelas no peito.

Para o perfeito jogo defensivo da Itália, ao longo da história, faltava só um Pelé mesmo.

Não tem Pelé, mas tem Pellè. Desculpem, a piadinha é inevitável.

Como inevitável era o segundo gol, dado que a azzurra domina como ninguém a arte de contra atacar.

A Itália ganhou da Alemanha na semifinal da Copa de 2006. E na semifinal da Euro 2012. Os alemães mesmos costumam se auto declarar “fregueses” dos italianos, a nível de clubes e seleções. A Itália ainda entrou em campo com 10 pendurados contra a Espanha, mas só um deles está suspenso do próximo jogo, o reserva Thiago Motta.

Desafio maior não haverá para a campeã do mundo. Sábado que vem. Não dá para perder.


Daniel Alves superou até Roberto Carlos no futebol espanhol
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juliogomes

Pergunte para qualquer um no Brasil. Roberto Carlos ou Daniel Alves? A resposta será quase unânime: “Roberto Carlos”. Alguns ainda dirão: “Compare com Cafu, não com Daniel Alves, por favor…”.

Justo, justo. Roberto Carlos tem muito mais moral por aqui. Porque ganhou uma Copa do Mundo, coisa que Daniel Alves não fez. Porque foi mais dominante por mais tempo em sua posição. E porque construiu carreira aqui no Brasil. Os anos de Palmeiras-Parmalat foram gigantescos, Roberto Carlos já foi à Europa por cima, consagrado como grande jogador que era.

Mas na Espanha, mesmo na Europa, eu garanto que tal pergunta renderia respostas divididas.

Eu me lembro perfeitamente quando vi Daniel Alves em ação pela primeira vez. Não foi nas seleções de base, infelizmente não tive a perspicácia de observá-lo. Foi em um dia 9 de novembro de 2003. Fazia apenas um mês que eu havia desembarcado em Madri para um período de um ano de estudos (acabei ficando cinco anos). Estava em um bar, com os colegas de mestrado que acabara de conhecer, tomando umas cañitas (cervejinhas).

Era assim que víamos futebol. TV à cabo era muito caro, então vivíamos nos bares da cidade para ver as ligas domésticas e Champions. Naquela noite, na tela, Sevilla x Real Madrid. Era apenas a 11a rodada do campeonato, e o Real Madrid era o dos Galácticos, com Beckham, Figo, Zidane, Raúl e Ronaldo. Era o campeão europeu, o Barcelona estava nas vacas magras e todos os olhos do planeta estavam naquele time.

Pois bem. Mal chegamos no bar – estávamos ainda na primeira cerveja – e com 11 minutos de jogo o Sevilla metia 3 a 0 nos galácticos. O terceiro gol, de um tal Alves, que já havia participado dos outros dois e estava matando um lateral esquerdo chamado Rubén (Roberto Carlos não jogou aquela partida). Olhei para a TV e comentei com os amigos. “Esse aí tem pinta de ser brasileiro…”.

Pois é. Era.

O jogo acabou 4 a 1 para o Sevilla, com golzinho de honra do Fenômeno no segundo tempo. Foi a primeira humilhação do Real galáctico – outras viriam, a ponto de contratarem Luxemburgo um ano depois e o presidente renunciar um tempo depois.

E saberíamos melhor logo depois quem era o tal Alves. No fim daquele mesmo ano, foi um dos destaques do Brasil campeão mundial sub-20. Vitória por 1 a 0 na final, gol de Fernandinho, contra a Espanha de Iniesta, Gabi, Juanfran.

Entrevistei Daniel Alves pela primeira vez em 2005, já trabalhando na TV Bandeirantes. Fui a Sevilha porque havia um monte de brasileiros por lá. A reportagem principal, se não me engano, era com Júlio Baptista, que saíra do São Paulo como volante para virar centroavante goleador na Espanha. Tinha o Renato por lá também, campioníssimo com o Santos, e o Adriano na outra lateral sevillista. No vizinho Bétis, estavam Marcos Assunção, Ricardo Oliveira, Edu (ex-São Paulo), Denílson.

Na ordem, Daniel Alves não era nem um dos cinco mais importantes para serem entrevistados. Mas olhem a carreira de todos eles e me fale qual foi a mais relevante…

Daniel Alves me chamou a atenção. Ele olhava para baixo, falava baixinho, baixinho. Se bobear foi a primeira entrevista que ele deu para uma TV nacional brasileira. Sentia dificuldades com o idioma, misturava muito o português (mal aprendido) com o espanhol (idem). Era um garotinho de 20 e poucos anos que mal sabia o que estava fazendo por lá. Uma criança tirada do interior da Bahia, sem filtros, direto para a Europa.

Entrevistei Daniel Alves muitas outras vezes. No Sevilla, no Barcelona, na seleção. Foi impressionante a mudança. A criança virou adulto. Me surpreendia a cada vez que batia um papo com ele, e tenho certeza que aconteceria o mesmo hoje (não nos falamos há muitos anos). Passou a falar os dois idiomas perfeitamente, trocando a chavinha quando quisesse. Passou a falar olhando no olho. E a falar com propriedade, sem medo, sem filtros, sem medo de polemizar ou de incomodar. Ganhou gosto pela moda, cultivou imagem, testou óculos e paletós. Buscou protagonismo fora do campo também.

Não, não virou mascarado. No meu caso, sempre me tratou com respeito e profissionalismo. Mas já sabem, aqui no Brasil costuma-se facilmente misturar “personalidade” com “máscara”. Se o cara fala o que pensa, na tua cara, é tido como arrogante. Daí pra baixo. Daniel Alves ganhou corpo sem perder a humildade. A impressão que sempre tive. Daí, talvez, muitos contestem sua carreira na seleção. Mas vejam que entra técnico, sai técnico, e ninguém consegue abrir mão dele.

Dentro de campo, Daniel Alves tornou-se importantíssimo no Sevilla. Um time pequeno da Espanha que foi alçado a médio europeu. E tudo começou com as duas primeiras conquistas de Europa League, em 2006 e 2007.

Não à toa, foi contratado pelo Barcelona por mais ou menos 40 milhões de euros. Por um lateral direito! Ele chegou junto com Pep Guardiola, no meio de 2008. E tornou-se uma peça fundamental na revolução que o treinador implementou por lá.

Porque Daniel Alves teve uma raríssima capacidade de associação com outros jogadores e encaixou perfeitamente no jogo de passes e diagonais do Barça. Xavi, Messi, Eto’o, Suárez, Ibra, Neymar, Iniesta, Pedro, Villa, Rakitic. Escolha. Todos receberam assistências dele. Com Xavi, era brincadeira. Se entendiam sobre o que fazer na jogada 5 minutos antes de os adversários perceberem o que estava acontecendo.

Daniel Alves fez 391 jogos e ganhou 23 (VINTE E TRÊS) títulos em oito anos no Barcelona. Não, na lista de títulos não tem os Ramóns de Carranza da vida, não. Vamos lá, acompanhe comigo:

– 3 Champions League
– 6 Ligas espanholas (em 8 anos)
– 4 Copas do Rei
– 3 Mundiais de Clubes
– 3 Supercopas da Europa
– 4 Supercopas da Espanha

Isso para somar às duas Europa Leagues, uma Copa do Rei e uma de cada uma das Supercopas vencidas com a camisa do Sevilla. São 28 títulos no total em 13 temporadas na Espanha. Sendo protagonista na maior parte deles, não coadjuvante que fazia parte do elenco por acaso. É muita coisa.

Vamos comparar com Roberto Carlos? Não gosto muito dessas comparações, porque os caras não jogam sozinhos, mas somente para termos um parâmetro.

Atuou 11 anos pelo Real Madrid e ganhou 13 títulos:

– 3 Champions League
– 4 Ligas espanholas
– 0 Copas do Rei
– 2 Mundiais de Clubes
– 1 Supercopa da Europa
– 3 Supercopas da Espanha

Na seleção, Daniel Alves ganhou uma Copa América e duas Copas das Confederações. Roberto ganhou duas Copas Américas e uma Copa das Confederações – além, claro, do Mundial 2002. O que, junto com os títulos nacionais e regionais pelo Palmeiras em 1993 e 94, além daqueles gols antológicos de falta, o colocam tão acima de Dani Alves no imaginário popular.

Individualmente, acredito que Roberto Carlos tenha sido melhor mesmo do que Daniel Alves. Com mais recursos e, talvez, um pouco melhor defensivamente. No entanto, taticamente o impacto de Daniel Alves no Barcelona foi maior do que o de Roberto Carlos no Real Madrid. Ele fez parte de uma mudança de jeito de jogar.

Vou explicar nas palavras de Martín Ainstein, jornalista argentino baseado em Madri e que fez a análise a pedido do blog:

“Roberto e Dani são, sem dúvidas, os dois melhores laterais da história da Liga. Daniel Alves foi mais um ponta do que um lateral no Barcelona. Ele tinha uma dinâmica, uma rebeldia para ir ao ataque que nenhum outro lateral tinha na liga espanhola. Tinha a capacidade de se associar com todos os meias criativos e atacantes do Barcelona, ele entendia muito bem o que tinha que fazer para facilitar o jogo do time e criar circuitos ofensivos. Bom no passe curto, cumplicidade absoluta com nomes como Xavi e Messi e semelhanças com o nível técnico de outros jogadores que passaram por lá. Era um segundo atacante disfarçado de lateral. A parte defensiva nunca foi seu forte, mas como no Barça manter a posse de bola era a maneira de defender, ele era importante para fazer com que isso funcionasse perfeitamente”.

Daniel Alves, portanto, criava dinâmicas de jogo no Barcelona que iam muito além do que costuma fazer um lateral comum.

Foi um jogador que extrapolou as tarefas da posição.

Somado ao alto nível técnico e à quantidade bizarra de conquistas… sim, superou qualquer outro lateral que já tenha atuado na liga espanhola, Roberto Carlos incluído.

E que bom que foi para a Juventus, não se encher de dinheiro na China. Que os bons continuem entre os bons enquanto for possível.


O maior título de Simeone: ensinar o Atlético a vencer o Real
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juliogomes

Comecei a escrever este post no intervalo de Real Madrid x Atlético e Madri. O jogo poderia ter acabado 4 a 0 para o Real. Não teria mudado uma linha.

Acabou 1 a 0 para o Atlético, o que dá mais força para as linhas abaixo. Teve susto? Claro que teve. Mas toda a pressão do Real, jogando diante de sua torcida, não foi suficiente para furar o melhor sistema defensivo da Europa. Desde o final da década de 40, o Atlético não ganhava três seguidas no Bernabéu. Só isso.

Eu vivi em Madri entre 2003 e 2009. Foi no meio de um período de 14 anos (14 anos!!) sem o Atlético ganhar um jogo sequer contra o Real. Eles eram chamados de “pupas”. Numa tradução livre, seriam os “patos”, os “fracos”, os “trouxas”.

Não poderia haver freguesia maior, humilhação maior. Não era só ver o Real montando times fortes. Era não ganhar uminha sequer. Mesmo quando não valesse muito.

Eu, como torcedor da Portuguesinha, sei bem o sabor de ganhar uminha. Você sabe que seu time não vai ser campeão de nada. Então os “títulos” são jogos isolados aqui e ali. Aqueles 7 a 2 no Pacaembu, aqueles 4 a 0 em Campo Grande… o torcedor do Atlético passou mais de uma década sem ter nem mesmo isso.

simeone

Desde que El Cholo Simeone chegou ao Atlético, em dezembro de 2011, há quatro anos e pouquinho, foram vários títulos conquistados: uma Europa League alguns meses depois, em 2012; a Supercopa da Uefa, também em 2012; a Copa do Rei, em 2013; a Liga da Espanha e a Supercopa, em 2014; e só não ganhou a Champions (a Champions!) naquele mesmo 2014 por um gol sofrido nos minutos derradeiros.

Mas nenhum título, nenhum, foi tão importante quanto a relação virada de cabeça para baixo contra o Real Madrid. O maior título da “era Simeone” foi deixar de entrar em campo derrotado contra o Real Madrid e passar a entrar em campo com a certeza da vitória. Às vezes ela veio, às vezes não, mas a mudança de mentalidade foi uma das coisas mais brutais que já vi no futebol.

Com o resultado de hoje, o Atlético já está há seis jogos sem perder do Real Madrid no Campeonato Espanhol. Três temporadas completas.

Tudo começou com aquele gol de Miranda na prorrogação da final da Copa do Rei, em 2013. Título em pleno Santiago Bernabéu em cima do Real de Mourinho. E aí outras vitórias vieram. Na Liga, na Supercopa, na Copa do Rei… Sim, é verdade que o Real ganhou aquela Champions de Lisboa em 2014, mesmo com jogo perdido, graças ao empate de Sérgio Ramos no finalzinho. É verdade que no ano passado o gol de Chicharito, também no finalzinho, botou o Real nas semis da Champions e eliminou o Atlético.

Mas a mudança da era Simeone faz, e isso é o mais incrível, esses jogos mais terem pinta de pontos fora da curva do que o contrário. Nos últimos 15 jogos entre eles, são 7 vitórias do Atlético.

Pense, cara leitora, caro leitor, na dificuldade que é mudar um apelido. A dificuldade de apagar um rótulo estampado na testa. Muitos jogadores passaram, foram e vieram, e o Atlético continua com a mesma pegada, a mesma mentalidade. “Pupas”? Pupas, nunca mais. Quem tem coragem de chamá-los de pupas hoje em dia?

É um erro enorme menosprezar a qualidade técnica dos jogadores do Atlético de Madri. Ótimo goleiro, muito bons zagueiros, meio campistas “todo terreno”, um atacante especial. É um muito bom time. Mas a eficiência tática, a entrega em campo são tão grandes que é impossível fugir daquela análise: o Atlético faz muito mais do que supostamente poderia fazer.

É impossível não comparar com os elencos estrelados de Barcelona, Real Madrid e Bayern de Munique, não considerar o Atlético “abaixo tecnicamente”.

Talvez falar em “abismo técnico” já possa ser considerado um erro. Mais preciso falar em “abismo criativo”, já que o Atlético não tem jogadores que individualmente pareçam capazes de resolver tudo, como têm Barça, Real e Bayern. Mas o que dizer da parte tática? Da entrega física? Da força anímica? Da fortaleza mental?

Não é um time tosco que só se defende. É um time que se defende como nenhum outro. E que joga bola, propõe jogo, busca as vitórias.

O Atlético deveria servir de inspiração até mesmo para as sociedades mundo afora. Em tempos de mais transparência, em que vemos como somos pequenos perto dos desmandos dos peixes grandes, o Atlético mostra como é possível sobressair mesmo contra todas as probabilidades. Coração, coragem e dedicação ainda fazem diferença neste mundo.

Na Liga espanhola, a diferença está grande demais para o Barcelona. Mas este é um time muito, mas muito perigoso mesmo para a sequência da Champions League.

O Atlético é a personificação do termo “time cascudo”. Só que ele é muito mais do que isso. É um time capaz – que acredita nisso, pelo menos – de enfrentar qualquer um. Inclusive o Real Madrid.


Atlético sublime. Mas 2 erros deixam a Liga no colo do Barça
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juliogomes

Muita gente já tentou marcar o Barcelona lá em cima ao longo dos anos. Algumas vezes, gols saíram assim. Pressão nos zagueiros e goleiro, erro de passe, pum. Gol.

Muita gente já tentou marcar o Barcelona se defendendo com 11 dentro da área. Estacionando o ônibus, fechando a casinha, montando o ferrolho, há muitas definições para esse método de defesa.

O difícil é encontrar um meio termo entre os dois sistemas, que funcione ao longo de toda uma partida. Foi o que o Atlético de Madri fez neste sábado no Camp Nou, nos primeiros 25 minutos de jogo. Diego Simeone montou o sistema defensivo mais sólido do planeta atualmente. Podemos até dizer que o sistema mais sólido dos últimos três, quatro anos.

É fácil mandar o time marcar na frente ou atrás. O que não é nada fácil é sincronizar movimentos para que as duas coisas aconteçam. Quando a bola ficava muito afundada nos pés de Piqué, Mascherano e Bravo, o Atlético avançava com quatro, cinco, seis jogadores. Quando o Barça saía do sufoco, de repente, os 11 homens colchoneros já estavam fechando todos os espaços em três linhas compactas. É muito treino, muita coragem e muito esforço coletivo.

Com justiça – e com um providencial roubo de bola no campo de ataque -, o Atlético vencia o jogo na primeira metade do primeiro tempo. O Barça não fazia absolutamente nada em campo.

Mas pouco a pouco foi ganhando terreno e envolvendo Iniesta. Rakitic abriu seu posicionamento, Messi voltou para buscar jogo. E as coisas começaram a mudar. Se de um lado havia uma defesa sublime, do outro tem um ataque sublime. A linha de passe funcionou, espalhou a defesa do Atlético e Messi, que parecia querer jogo desde o início, empatou.

Aí ocorreram os dois erros que acabaram com o jogo do Atlético e jogaram a Liga no colo culé.

Primeiro, o do jovem zagueiro uruguaio Giménez. Que permitiu um lance básico do ataque do Barça. Bola em profundidade para Suárez, que invade a área e bate cruzado. Jogada repetida diversas vezes ao longo do último ano e meio. 2 a 1.

filipeluisDepois, Filipe Luís. O lateral brasileiro já havia cometido quatro faltas no jogo e deveria ter cartão amarelo. Em um lance bobo no meio de campo, solou a bola e pegou o joelho de Messi na sequência. Não vi maldade no lance. Mas foi uma jogada temerária, perigosa e essencialmente burra. Undiano Mallenco deu vermelho direto. Exagerado, a meu ver. Mas, como Filipe Luis já devia ter visto amarelo antes, a expulsão fez justiça ao conjunto da obra. Por sorte, Messi não sofreu nada no lance.

Ali, acabou a partida. Os erros de Giménez e Filipe definiram uma partida enroscada e equilibrada.

É verdade que Griezmann ainda perdeu gol feito no segundo tempo. Mas, mesmo antes da expulsão de Godín, era difícil imaginar que o Barcelona não fosse buscar mais gols.

O campeonato, agora, fica nas mãos do Barcelona. São três pontos de vantagem para o Atlético, com um jogo a menos e ainda a vantagem nos confrontos diretos (se acabar o campeonato empatado com o Atlético, é campeão, pois este é o primeiro critério de desempate). E são sete pontos de vantagem para o Real Madrid, e também com a vantagem do empate (goleou no turno, não será goleado no returno).

Na prática, o Barça tem sete pontos de frente para o Atlético e oito para o Real Madrid. Só perde o bicampeonato se quiser.

Apesar do milagre de 2014 nos pontos corridos, o Atlético de Madri parece representar mais risco em uma competição de mata-mata, como a Champions League.

Mostrou, nos primeiros 25 minutos no Camp Nou, que pode encarar qualquer um. Com 9, perdeu só de 2 a 1 contra o melhor ataque do mundo e teve goleiro na área tentando gol de cabeça aos 44min do segundo tempo. Pode ganhar partidas de futebol de várias maneiras diferentes. É um time brilhante, dentro de sua limitação. Montar esquema vencedor com um monte de jogador bom não é fácil. Mas fazer o mesmo com jogadores, digamos, “mundanos”, tem muito mais mérito.

Os primeiros 25 minutos foram, também, uma espécie de cartilha para quem quiser tirar o título europeu do Barcelona. Não há dúvidas que servirão como material de estudo, especialmente para o Bayern de Munique e Pep Guardiola.

Só que, como vimos, 25 minutos não são suficientes. É preciso defender de forma sublime por 90 ou até 180 minutos para parar o Barcelona.


Prazer em conhecer, este é o novo Barça. E ele até lembra o velho Real…
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juliogomes

Se havia alguma dúvida, agora já não existe mais. O Barcelona da posse de bola, aquele time que encantou e ganhou muito com uma filosofia de jogo bastante específica e marcante, não existe mais. O superclássico espanhol desde domingo, no estádio Camp Nou, teve uma curiosidade.

O Barça, que ganhou por 2 a 1, lembra mais o Real Madrid da época de José Mourinho do que o próprio Madrid atual, campeão da Europa com Carlo Ancelotti. Em apenas três anos, os papéis de inverteram.

Isso é boa ou má notícia? Possivelmente, nem uma coisa nem outra. É apenas sinal dos tempos.

O Barça mudou o futebol mundial com seu jogo técnico, de pressão e posse como essência. Muitos times e seleções do mundo se inspiraram nele, o jogo sofreu uma alteração de rumos a partir do caminho mostrado pelos catalães. E, lá em 2013, quando o Bayern de Munique simplesmente massacrou o Barça na semifinal da Champions League, já havia ficado claro que o modelo estava ultrapassado. Ou melhor, havia sofrido evoluções que foram simplesmente ignoradas pelos criadores.

Muitos elementos, como a priorização da técnica (em vez da força), a valorização do controle da bola e, especialmente, a pressão, com envolvimento dos jogadores mais talentosos nas tarefas defensivas, foram incorporados por praticamente todos no mundo do futebol. Outros elementos apareceram, no entanto. E o jogo foi ganhando verticalidade, como o próprio Bayern e o Real Madrid nos mostraram.

Foi Gerardo Martino quem primeiro tentou atualizar o jogo catalão. O argentino chegou ao Barcelona quase dois anos atrás e quis implementar um futebol mais direto. Apanhou de todos os lados. Em muitos momentos, o Barça parecia um time sem identidade. Não era nem uma coisa nem outra. Trocou o plano sem trocar as peças. Nenhuma transição é fácil, e esta parecia quase impossível de ser concretizada.

Martino se foi, Luis Enrique chegou e o discurso se manteve. Que o Barça tem uma identidade, um estilo, etc, etc, etc, etc e tal. A real é que peças mais apropriadas para um jogo novo chegaram. E, pouco a pouco, o Barcelona foi ganhando força na temporada com um jogo mais, digamos, comum. Mais próximo do já praticado por outras forças europeias (incluindo o Bayern de Guardiola)

No clássico, o Barça fez exatamente o que o Real Madrid costumava fazer. Gols do nada. Omeletes sem nem quebrar os ovos.

O primeiro gol saiu de uma bola parada. Messi levantou na área, Mathieu fez de cabeça. Mathieu, um zagueiro/lateral para lá de comum, contratado no início da temporada. Mas vejam. Faltavam jogadores altos, o Barça sofria muito nas bolas aéreas. Anos atrás, a falta na lateral da área nem mesmo se transformaria em uma bola alçada. Possivelmente, seria dado um passe de lado e o jogo recomeçaria. O Barça atual cruza a bola e ainda se dá ao luxo de meter gols de cabeça.

O Real Madrid, apesar do gol, dominou completamente o jogo no primeiro tempo. Controlou o meio de campo, mostrou-se mais coeso e teve, no croata Modric, a figura que Xavi representava no velho Barça. Empatou em uma jogada à la Barça das antigas, com troca de passes, penetração, muita qualidade. E quase virou o jogo, não fosse um milimétrico impedimento de Cristiano Ronaldo. No segundo tempo, a toada era a mesma. Um Real dominante, um Barça perdido e com linhas muito distantes.

Até que…

Daniel Alves encontrou um belo lançamento para Luis Suárez. Lançamento. Coisa que não existia no Camp Nou até 2013. Alguns chamariam até de chutão. Mas Suárez se desloca como poucos entre linhas. Rompeu o impedimento e, com o bico da chuteira, fez um domínio brilhante, suficiente para habilitá-lo a chutar no contrapé de Casillas, fazendo o 2 a 1. Um golaço.

O Barcelona não fazia nada. E, assim, de repente, estava à frente no placar. Como o Real Madrid dos velhos tempos fazia. Gols que saíam do nada.

Aí sim, com o 2 a 1, o jogo mudou. O Real se perdeu em campo, sentiu o golpe e o Barcelona, que em outros tempos priorizaria o comando do jogo, tirando velocidade dele, fez exatamente ao contrário. Acelerou e foi criando uma chance de gol atrás da outra. Messi, Suárez, Neymar, Alba, todos tiveram chances. Não goleou porque falhou muito (especialmente Neymar, tomando decisões erradas nos momentos decisivos) e porque Casillas impediu um par de anotações.

Para dar aquela ratificada em tudo o que estou contando, Luis Enrique ainda fez duas substituições emblemáticas. Tirou os armadores, Iniesta e Rakitic, e colocou Busquets (proteção aérea) e Xavi em campo.

O novo Barcelona passou de sua prova de fogo. A mudança de rumos e mentalidade está implementada e é esse Barça que abre quatro pontos na liderança do Campeonato Espanhol e caminha firme rumo à reconquista do título nacional.

Tem torcedor do Real Madrid que vai lamentar a derrota, mas mostrar-se satisfeito pelo futebol brilhante apresentado na maior parte do jogo. Tem torcedor do Barça que vai lamentar o estilo perdido, mas comemorar a vitória.

Quem diria.

Sinal dos tempos, nada mais.


O Real Madrid e suas (discutíveis) escolhas para a temporada
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juliogomes

Em time que está ganhando, não se mexe.

Uma das frases mais batidas do futebol é também das que mais me irrita. No futebol, como em qualquer setor de atividade, em time que está ganhando se mexe, sim senhor. Mexe-se em busca da evolução, mexe-se para que a concorrência não te alcance, mexe-se porque quem tem espírito vencedor sabe que ficar parado é o pior dos recursos.

No futebol, curioso, parece que a roda gira de forma contrária a de um investidor em mercado de valores, por exemplo. No mercado, compra-se na baixa para vender na alta. No futebol, é vetado vender na alta.

Os anos passam e, claro, aí as análises ficam fáceis. O Corinthians do Tite foi campeão mundial e depois desabou porque não se livrou dos veteranos! O Barcelona de Guardiola, o Real Madrid os Galácticos, o Milan de Maldini…

Falar depois é fácil.

O difícil é mudar time que está ganhando. Pois bem. Foi o que fez o Real Madrid para a temporada que está começando. O time que conquistou a “Décima” perdeu dois dos três integrantes de seu meio de campo titular: Xabi Alonso e Angel di María.

Para o lugar deles, vieram Tony Kroos e James Rodríguez. Ou melhor (e isso muda tudo): primeiro, vieram esses dois. E depois saíram os outros dois. O clube abriu mão de quem tinha em função de quem passou a ter.

O meio com Xabi, Modric e Di María agora terá Kroos, Modric e James. O ataque segue com Cristiano Ronaldo, Bale e Benzema. No gol, Casillas voltou a ser titular absoluto também nos jogos de liga. Diego López foi embora, e o contratado Keylor Navas esquentará banco.

A priori, pois, o Real Madrid fez o que clubes nunca fazem, mas deveriam fazer mais. Ganhou, trocou.

Mas será que trocou bem?

Di María, o melhor jogador da final da Champions League, contra o Atlético de Madri, foi para o Manchester United por 100 milhões de dólares. É verdade que nunca o Real havia vendido alguém por tanto dinheiro. É verdade que nunca um clube inglês havia desembolsado tanto por alguém. Soa como um grande negócio.

Mas Di María, ao contrário de outros tantos que vemos e vimos por aí sendo vendidos por uma grana substancial, é um jogador de muito futuro pela frente. Somente 26 anos de idade, poucas lesões, muito futebol.

Um atleta perfeitamente adaptado ao clube e à liga espanhola, completíssimo, que pode atuar como atacante, ponta pelos dois lados, organizador de jogada, lateral, que tem drible para desmontar retrancas e que defende muito bem. Um jogador de alta quilometragem e veloz tanto nas transições ofensivas quanto defensivas. Não dá para encontrar muitos atletas mais completos e adaptados ao futebol que se joga hoje em dia.

Vale 100 milhões de dólares? Pelo que vimos nos últimos anos, na Champions e na Copa do Mundo com a Argentina, e pela maneira como o futebol de hoje em dia é jogado, a resposta é um retumbante “sim”. Não tem a espetacularidade de Neymar. Não tem a velocidade e a quantidade de gols que entrega Bale. Mas faz mais coisas que os dois. Talvez mais que os dois juntos.

James Rodríguez, o “substituto”, nunca foi, no Porto ou no Monaco, o brilhante meia que vimos na Copa do Mundo. Possivelmente só o holandês Robben tenha jogado mais do que James, individualmente, em terras brasileiras. Provou que tem um potencial incrível, mas nunca mostrou a consistência.

James custou ao Real mais ou menos os mesmos 100 milhões de dólares. Tem variável aqui e ali, comissão, câmbio, etc. Para resumir. O Real vendeu Di María pela mesma grana que gastou para comprar James. Um jogador de 23 anos, portanto 3 a menos. Mas com repertório menor do que o de Di María. Talvez não ofensivamente, mas definitivamente no jogo de campo inteiro.

O James da Copa do Mundo atuava solto, com total liberdade, quase como um segundo atacante no sistema ofensivo da Colômbia. O que atuou neste domingo, contra a Real Sociedad, pela segunda rodada da liga espanhola, ficou preso ao lado direito do campo. Não ajudou na defesa e pouco apareceu no ataque. Vai ter de se adaptar a um posicionamento com o qual Di María tem absoluta familiaridade – e eficiência.

O Real Madrid já vencia a Real Sociedad por 2 a 0 com 10 minutos de jogo. Que máquina! Placar final? 4 a 2 para a Real Sociedad. Em um campeonato em que as disputas com o Barcelona costumam ser tão ponto a ponto até o fim, esta é uma derrota que pode custar caro. Não porque seja absurdo perder pontos em San Sebastián. Mas pelo modo como a virada ocorreu.

A Real Sociedad usou e abusou dos cruzamentos para a área e, assim, chegou ao placar. Cruzamentos que não saíam dos pés adversários tão facilmente quando Di María ajudava Marcelo (atropelado neste domingo) ou quando Xabi Alonso fechava como peça de apoio. Cruzamentos que tampouco levavam tanto perigo com a presença de Diego López, um goleiro com mais qualificação na bola aérea do que Iker Casillas.

Com Bale e Cristiano Ronaldo, que não estava no domingo, dois dos mais velozes jogadores do mundo, raramente um time à frente no placar permite viradas. Ainda mais com um lançador quase perfeito, como Xabi Alonso (ops!).

À frente da defesa, durante todo o segundo tempo, o Real Madrid deixava um enorme buraco. Tony Kroos, no Bayern, não jogava como primeiro volante único. Sempre teve companhias, especialmente de Lahm ou mesmo Schweinsteiger. No sistema de Guardiola, com mais posse e menos verticalidade, Kroos poderia ser primeiro volante por muitos momentos. Na maneira como joga o Real Madrid, ele e Modric não serão suficientes para ajudar o time defensivamente. São parecidos, não se complementam. O general era Xabi Alonso.

Tony Kroos é contratado para ser o “Xavi do Real Madrid”. Mas vejam. Xavi desponta no Barcelona dentro de um contexto de jogo, praticado por anos desde as categorias de base. As coisas não são tão simples. É óbvio que o investimento em Kroos, um campeão do mundo, é mais do que justificado. Mas ele não é um jogador “plug and play”. Perder Xabi Alonso não deveria estar nos planos.

Ambos, Xabi e Di María, saem por não se sentirem importantes no novo ciclo que se inicia. Mais por uma questão de valorização profissional do que um valor aqui ou ali.

Marcelo, um ótimo lateral ofensivo, mas longe de ser completo. Benzema, um atacante que faz mais gols pela circunstância do futebol na Espanha do que outra coisa. O próprio Casillas, um ícone, mas não tão confiável e milagreiro como antigamente. Khedira, um volante normal e valorizado pelo título alemão. Mesmo Modric, que vale hoje o que nunca mais valerá.

Talvez fosse possível mexer no “time que está ganhando” de forma mais inteligente. Fazer caixa com quem, em alguns anos, talvez não valha o mesmo que vale hoje.

Perder Di María e Xabi Alonso, ao que parece, fará o Real Madrid pagar certo preço nesta temporada. E talvez nas próximas.