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Evolução do Brasil em campo. Evolução do Brasil fora de campo

Julio Gomes

15/06/2013 18h46

A estreia do Brasil na Copa das Confederações é fácil de ser analisada. O time consegue replicar em campo o que faz nos treinos, o que é obviamente um grande mérito de Luiz Felipe Scolari. E gols no início de cada tempo são cruciais, fundamentais, rompem jogos de futebol.

O duelo começou com um 1 a 0 em uma jogada primorosa, que é mais técnica do que coletiva. A construção do gol passa por um lance rápido, que dificilmente se replica em treinamentos: o lançamento de Marcelo para Fred. Esse é o grande diferencial de Daniel Alves e Marcelo, os dois laterais brasileiros, que alguns consideram os melhores do mundo em suas posições, outros não. Nenhum lateral do mundo (exceto Daniel Alves) faz o lançamento arriscado que Marcelo deu para Fred. Uma bola reta, rápida, de difícil interceptação e, também, domínio.

Aí entra a mistura de técnica e coletiva. O domínio de Fred vira um passe para Neymar. E aí entra a pura técnica, com aprimoramento em treinamentos e situações de jogo. O chute acertado por Neymar. Brilhante, primoroso.

Na semana passada, escrevi que Hulk estava jogando mais do que Neymar (hoje, por sinal, jogou de novo). Muitos interpretaram que eu estava dizendo que Neymar deveria sair do time. O que eu estava dizendo é que discutir Neymar não deveria ser um dogma. Muitos argumentaram que, como ele era o jogador mais talentoso, nunca poderia ser sacado. Pois bem. Esses ganharam pontos de razão hoje, pois poucos jogadores conseguem acertar o chute que Neymar acertou, e gols a 2 minutos de jogo mudam toda a dinâmica planejada no vestiário. Neymar foi decisivo, como dele se espera. Gostaria de ver um Neymar mais coletivo e tático, mas isso só virá ao longo da próxima temporada.

No restante do primeiro tempo, o Japão juntou as linhas e dificultou a vida do Brasil. A seleção ainda tem um problema, e este problema não é só da seleção, é do futebol brasileiro. As transições são lentas, a construção de jogo não sai com automatismos, diagonais e lances trabalhados. A bola fica muito no pé dos zagueiros, às vezes dos volantes, mas o time raramente vai ganhando metros, raramente consegue invadir o campo rival sem bolas diretas. A grande virtude é a velocidade aliada à técnica no um contra um, quando a bola é roubada no campo rival ou quando o adversário faz bobagem. Nesses lances, o Brasil sempre será agudo e levará perigo, pois há talento de sobra na frente.

A dinâmica do segundo tempo poderia ter sido qualquer uma. Não importa, porque o segundo gol mata o jogo. Daniel Alves, que estava sendo bastante cornetado nas redes sociais, cruza para Paulinho. Não pelo gol, mas pelo posicionamento em campo, considero Paulinho o melhor jogador em campo. No fim, Jô fez o terceiro somente para me quebrar, pois eu tinha 2 a 0 no bolão. O jogo estava morto, e, talvez, a longuíssima viagem que o Japão fez há poucos dias tenha passado fatura.

O Japão é uma seleção organizada, e pode roubar pontos da Itália e do México, ajudando o Brasil. Os 3 a 0 contribuem demais em um grupo equilibrado e que pode ter o saldo de gols como fiel da balança. Ao contrário do jogo contra a França, essa foi uma partida melhor do Brasil. A evolução é nítida em campo, especialmente na solidez defensiva. O Brasil evolui.

Evolui também fora de campo.

Em muitos anos de carreira, me acostumei com vaias a figuras públicas em eventos esportivos, mas nunca vi nada igual a hoje, em Brasília. As vaias a Joseph Blatter, primeiro, e a Dilma Rousseff, depois, foram impressionantes.

É muito fácil cair na tentação e politizar o que ocorreu. "Com os ingressos caros, só havia 'coxinhas' e 'reacionários' no estádio, eleitores tucanos, e consequentemente, as vaias a Dilma".

Me parece raso, muito raso, achar que não havia eleitores passados e futuros de Dilma nas arquibancadas. Me parece um chutômetro incrível achar que, fossem os 70 mil pobres e operários, a presidenta seria aplaudida de pé. Isso é típico da nossa maneira de dividir tudo entre esses e aqueles. Como se não fosse possível estar de acordo com o governo Dilma globalmente, mas em desacordo no caso específico da Copa e dos estádios construídos com dinheiro público.

O fato é que esse país está cansado. Está cansado de quem governa, de quem já governou e de quem se propõe a governar, está cansado de governo e oposição. Está cansado da política, da palhaçada que vemos todos os dias nos Congressos, Assembleias e tribunais. Joseph Blatter "exigiu" fair play em seu discurso. É exatamente assim que a Fifa agiu até agora e seguirá agindo, mandando e desmandando, exigindo que todos baixem a cabeça a seus caprichos. Os governantes podem ter sucumbido, mas as 67 mil almas que vieram ao estádio deram o seu parecer. Blatter pediu fair play e ouviu o que deveria ter ouvido há muito tempo. Falou o que quis, ouviu o que não quis – finalmente.

A senhora Dilma Rousseff, a quem não avaliarei aqui, para que o debate não se distorça, precisa entender que ela está fazendo parte de uma gigante palhaçada. É possível gostar do futebol, mas ficar revoltado com uma Copa do Mundo superfaturada. É possível querer estádios bacanas e modernos, mas que eles não sejam feitos com derrame de dinheiro público, ausência de planos de viabilidade e licitações para lá de duvidosas.

O governo federal e os estaduais (estes, de diversos partidos, governistas e de oposição) foram partícipes ou coniventes com tudo isso. A festa é legal, mas quem paga a conta somos nós, e quem leva o dinheiro dessa conta são poucos, muito poucos. Em regra, não são meus amigos. E nem teus, leitores. Eu sou a favor da Copa no Brasil e, ao mesmo tempo, fico revoltado com os despejos e com o descaso com o que realmente importa, o legado para as cidades envolvidas.

Vocês acham que o que acontece em São Paulo acontece por causa de 20 centavos? Os protestos em Brasília só porque foi gasto dinheiro demais no estádio? As vaias de hoje só porque o estádio era dominado por anti-petistas?

Pois bem. Continuem achando. Vivam nesse maniqueísmo tosco que domina nossa sociedade, do bem contra o mal, o preto ou o branco. Esse país está virando um barril de pólvora, porque as pessoas não aguentam mais. E Copa das Confederações, Copa do Mundo e Olimpíada são o fósforo perfeito para esse fogo chegar ao barril. Hoje, os políticos tiveram um cheiro. Eles ainda têm um ano para buscar a redenção. Que busquem, pois.

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Sobre o Autor

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

Sobre o Blog

Este blog fala (muito) de futebol, mas também se aventura em outros esportes e gosta de divagar sobre a vida em nossa e outras sociedades.


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