Blog do Júlio Gomes

Arquivo : Zé Roberto

Obrigado, Zé Roberto. Tua história é mais digna que a da Portuguesa
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Julio Gomes

O Palmeiras não quis que Zé Roberto jogasse a Série A2 pela Portuguesa. Ou talvez o próprio Zé Roberto não queira se meter nessa roubada. Se for a primeira opção, só temos a lamentar a pequenez do presidente palestrino. Se for a segunda, é mais do que compreensível.

De qualquer forma, a despedida de Zé Roberto com a camisa da Lusa e do futebol deu-se mesmo na tal Copa Rubro-Verde. Vencida pela Portuguesa carioca. Sem a chance de Zé Roberto bater nem o pênalti decisivo para a Lusa, porque os craques anteriores mandaram duas cobranças quase para fora do estádio. Era uma festa para ele levantar um troféu. Não rolou.

Enfim, a cara da Portuguesa.

Um clube que foi ao longo dos anos dividido em clãs. Explorado por famílias gananciosas que se acham donas da Portuguesa e do legado português em São Paulo. Que enriqueceram. Que ocuparam o clube e ocupam até hoje. Afinal, ainda falta uma última grande oportunidade de fazer dinheiro: a tal venda do terreno todo onde está o estádio do Canindé. Então as moscas seguem lá rodeando o estrume.

Em 2011, por obra quase do acaso, a Portuguesa fez uma das melhores campanhas da história da Série B no Brasil. O time foi apelidado de “Barcelusa”, pois aquele foi também o ano mais brilhante do Barcelona de Guardiola.

Finalmente de volta à primeira divisão, havia ali uma luz no fim do túnel. Bons jogadores, torcida de volta, bom ambiente. Alguma perspectiva. Enquanto a Barcelusa ganhava a Série B, Zé Roberto jogava no Al-Gharafa, lá no mundo árabe, no que ele mesmo achava que seria seu último contrato. Ele tinha já 37 anos.

Ali, a Portuguesa, uma instituição cheia de “quases” na história, de momentos em que “se tivessem feito isso ou aquilo”, deixou passar mais uma.

Ali, no fim de 2011, o clube deveria ter resgatado Zé Roberto. Estava fácil. Ele viria na hora. Nunca teria ocorrido, por exemplo, o rebaixamento no Paulista de 2012. Zé Roberto teria jogado alguns bons anos no seu clube de coração. E o ganho esportivo teria sido imenso, basta ver o rendimento dele nestes seis anos de Grêmio e Palmeiras.

Mas a Portuguesa é isso aí. Vamos lembrar que lá em 97, após o clube dar aquela sorte tremenda de quase ganhar um Campeonato Brasileiro, o dinheiro das vendas do próprio Zé Roberto e de Rodrigo Fabri para o Real Madrid foi parar no Uruguai. E grandes prédios e padarias apareceram por São Paulo.

Vamos lembrar que após a vergonhosa escalação irregular de Heverton, em 2013, o clube, mesmo com diretoria nova (um dos clãs), empurrou o caso para baixo do tapete, nunca investigou, nunca quis saber o que tinha acontecido – ainda que nas alamedas do clube todos falem com certeza sobre o que ocorreu. Quiseram guardar o esqueleto dentro do armário.

Mas o esqueleto virou um fantasma, que se multiplicou em forma de rebaixamentos, processos, dívidas e vexames, fazendo o Canindé ser hoje uma verdadeira casa mal assombrada.

A Portuguesa foi responsável por Zé Roberto ter todos os dentes da boca, como ele mesmo disse. Um grande homem, uma grande pessoa, que mostrou gratidão. Gratidão esta que essas famílias exploradoras não sabem mostrar. Já que fizeram tanto dinheiro com o clube, por que não vão embora simplesmente? Por que não somem?

Eu queria levar minhas filhas ao estádio no domingo. Não levei porque chovia muito, não seria adequado para crianças de 1 e 4 anos. Queria levar minhas filhas para ver Zé Roberto. Não para ver a Portuguesa. Porque essa está presa no passado, dentro de uma caixa qualquer, jogada no fundo de alguma sala empoeirada, cheia de ratos, baratas e morcegos tomando conta.

Na primeira metade da década de 50, a Portuguesa talvez tenha tido o melhor time do Brasil. Foi um clube enorme. Revelou grandes jogadores, cedeu muitos para a seleção brasileira. Teve repiques nos anos 70, 80 e 90. Nos apaixonou. Mas a dignidade foi sendo perdida com o tempo, com a omissão, com as falcatruas, com a falta de visão. O verdadeiro torcedor luso, que nada tem a ver com as políticas e politicagens, é quem paga o pato. Mas o clube, de fato, não merece mais do que tem hoje.

Obrigado, Zé. E desculpas. Creio que é tudo o que posso falar.

 


Quatro gênios que abrilhantam e depõem contra o Brasileirão
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Julio Gomes

Seedorf, Alex, Zé Roberto e Juninho Pernambucano. A ordem dos nomes segue a ordem dos respectivos times na tabela do Brasileirão, apenas para usar um critério qualquer. Quatro nomes, quatro craques, quatro gênios do futebol nos últimos 20 anos. Quatro atletas profissionais (olho, porque nem todos são) e que escancaram o nível do Brasileirão. Que não é baixo e nem alto. É medião mesmo.

A semana passada foi a rodada dos estrangeiros. Agora, a rodada dos “velhinhos”. Tem algo esquisito aí…

O Botafogo é o líder do campeonato. O que isso significa? Significa que vem fazendo bem seu trabalho enquanto o campeonato não ganha o viés maratônico, quando jogadores começam a se machucar e tomar cartões. É essa hora que um elenco reduzido e com atrasos salariais deve perder fôlego e “cair” para a briga por Libertadores, não por título. O que não é pouco, dado o orçamento do Botafogo frente a outros clubes (muito) mais ricos da cidade e do futebol brasileiro. E isso só é possível porque Seedorf exerce uma liderança técnica e também comportamental no vestiário.

Alex, o meia mais eficiente que já vi jogar. Quando digo eficiência, me refiro a números que ele entrega, ou seja, quantidade de gols e quantidade de assistências. O Coritiba, não se enganem, não irá brigar pelo título. E acho difícil demais que brigue por Libertadores, por orçamento e tamanho de elenco. Se isso ocorrer, será pelos 20 a 25 pontos que Alex dará ao clube com seus gols e passes de gol. É o que tira o time de uma luta contra o rebaixamento para colocá-lo em outro patamar na tabela.

Zé Roberto pode ser a chave para o Grêmio brigar pelo título. E Juninho Pernambucano, pelo que vimos no Maracanã, deverá ser o fator decisivo para tirar o Vasco da incômoda parte de baixo da tabela e jogá-lo para o meio.

O gol de Juninho contra o Fluminense. O de Zé Roberto contra o Criciúma. Os de Alex contra o Santos. O de Seedorf, semana passada. São gols de gente que sabe o que está fazendo. Calma, precisão, experiência de quem já fez muito gol e já perdeu muito gol também. Que já viu goleiros caírem para um lado, para o outro, não caírem. É uma mistura de vivência com QI futebolístico alto, e a inteligência dentro de campo é o que mais se deveria buscar no trabalho de base em qualquer lugar. Há tempos, o futebol é mais jogado com a cabeça do que com os pés.

Gostei demais da declaração de Juninho sobre o gol no Maracanã. “Naquele lance eu precisava atacar a bola. Não era fácil, tinha que atacar e pegar firme”. Uma coisa, amigos, é fazer algo espetacular com uma bola de futebol. Outra coisa é fazer e saber por que fez e como fez. Uma coisa é a prática. Outra, bem mais valiosa, é a prática aliada à teoria do jogo.

Os quatro jogadores citados neste post combinam liderança técnica com liderança de postura dentro do vestiário. São ícones. São ultraprofissionais, não faltaram com os clubes por onde passaram e sempre entenderam que não haveria carreira sem uma aliança fiel com seus respectivos corpos. Tem muito jogador histórico de quem todos têm pena pelas lesões. “Que azarado”, “que falta de sorte”, “que infelicidade”. Alguns casos são tudo isso, outros, não. Jogador que se cuida fora de campo, jogador comprometido com o corpo diminui as possibilidades de um contratempo físico. Isso, os quatro sempre tiveram.

Outra coisa em comum entre eles é que o mercado europeu, pelo menos o mercado de alto nível, não está mais aberto. A genialidade de cada um ainda teria valor na Europa, mas perderia espaço em um jogo tão físico, altamente técnico, intenso e veloz. No Brasil, a maioria dos jogos têm elementos táticos e de intensidade ainda incipientes. Neste futebol, disputado de área a área, com tantos metros e segundos disponíveis, Seedorf, Alex, Zé Roberto e Juninho conseguem estender suas brilhantes carreiras e ainda fazer diferença.

Com um olho, me alegro. Já falei com os quatro na vida, são grandes caras e fico feliz em vê-los se divertindo por mais tempo do que haviam planejado. Com o outro olho, me preocupo. O tamanho do protagonismo destes “vovôs” é o maior recibo que pode passar um campeonato que se orgulha de seu equilíbrio, mas não deveria se orgulhar nem um pouco dos níveis técnico e tático.

Torço também pelos olhos de Felipão, que tem uma seleção boa, com alto potencial, mas muito jovem e inexperiente. Que tal Alex na Copa? Que tal Zé Roberto? Que tal os dois? Jogadores que podem dar uma contribuição valiosíssima fora de campo e, por que não, dentro também em algumas situações.

PS – quando elogiei os vovôs no Twitter (www.twitter.com/juliogomesfilho), alguns amigos falaram de Ronaldinho e Danilo. Vejam. Ronaldinho teve momentos na carreira, entre 2004 e 2006, de um nível nunca atingido pelos quatro jogadores citados. Mas não teve o mesmo comprometimento, com clubes e corpo, por onde passou. Não teve a mesma consistência na carreira. Já Danilo, a quem respeito demais, é um vitorioso, um jogador de grupo e importantíssimo. Mas que não atingiu o nível técnico dos quatro. Eu não avalio jogadores por títulos conquistados, o futebol é mais complexo do que isso. No Brasileirão de hoje, com a saída de Neymar, ninguém supera o valor agregado do pacote Seedorf, do pacote Alex, do pacote Zé Roberto e do pacote Juninho.

 


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