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Arquivo : Seleção brasileira

Que jogadores convocados chegarão (ou não) à Copa-2022?
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Julio Gomes

Começou ontem o novo ciclo da seleção brasileira, visando Copa América e Copa do Mundo. Tite chamou 24 jogadores (23 + um sub-20, o goleiro Hugo, do Flamengo) e, destes, 13 estavam no último Mundial, 11 não estavam.

Creio que haverá mais novidades nas próximas listas, outro jogadores serão testados e outros veteranos serão resgatados – eles são importantíssimos para mostrar o caminho das pedras aos novatos. No ano que vem, as convocações serão voltadas para o título da Copa América, o que indica maior presença de “veteranos”. Depois da Copa América, serão mais frequentes os mais jovens e vão ficando pelo caminho os jogadores sem idade para a Copa do Catar.

Segundo levantamento do Globo Esporte, nos últimos cinco ciclos de Copa do Mundo foram mantidos para o Mundial seguinte, em média, 9 jogadores que apareciam na primeira convocação realizada pós-Copa. É pouco. Só que tem um detalhe: em três destes ciclos o técnico responsável pela primeira chamada nem mesmo durou até a Copa.

Aqui, faço um exercício de adivinhação. Quais jogadores convocados por Tite ontem, para os amistosos contra EUA e El Salvador, chegarão ao Mundial de 2022? E quais ficarão pelo caminho?

Considerando que Tite se manterá no comando da seleção da CBF até lá e, claro, ignorando a aleatoriedade das lesões, este é meu palpite.

Chegam a 2022 na seleção: Alisson, Marquinhos, Casemiro, Fred, Arthur, Philippe Coutinho e Neymar.

Tite vai manter pelo menos meio time-base de 2018 para 2022 – e é excelente ideia fazê-lo. Finalmente temos um ciclo que não começa com terra arrasada. Do meio para frente, a base está mais do que clara.

Jogadores que não chegam na Copa, principalmente pela idade: Neto, Fágner, Filipe Luís, Thiago Silva, Dedé, Felipe, Renato Augusto e Willian.

A grande chave da lista acima é a presença de zagueiros. O sistema defensivo, e podemos incluir Miranda e Marcelo aqui, que certamente serão chamados de novo mais para frente, tem idade avançada. Chegam com sobras na Copa América, mas para o Catar a coisa é mais complexa. A renovação, no entanto, é problemática tanto nas laterais quanto na zaga.

Talvez um par desses jogadores até durem até a Copa-2022, seriam os “vovôs” do elenco. Mas não me arrisco a dizer quais seriam eles.

E deixo a interrogação para os outros convocados: Fabinho, Alex Sandro, Andreas Pereira, Paquetá, Douglas Costa, Éverton, Pedro e Firmino.

A maioria deles têm idade para chegar, são novinhos, mas ainda tem muita bola para mostrar, principalmente os que apareceram há só alguns meses e só atuaram no Brasil – casos de Paquetá, Pedro e Éverton. Ainda vão aparecer nas convocações Richarlison, Malcom, Vinícius Jr, David Neres, etc. Vamos ter de esperar para saber quem agarrará a chance e quem é fogo de palha.

Um caso à parte é Fabinho, que na minha visão, principalmente após a lesão de Daniel Alves, deveria estar na última Copa, por jogar como lateral e volante – assim se destacou no Monaco e assim jogará no Liverpool. Tite não quis. Achei que não gostasse dele, mas pelo jeito quer ver o jogador de perto. Sábia decisão, tem só 24 anos e é ótimo.

Entre a Copa de 2014 e a de 2018, foram mantidos seis jogadores: Marcelo, Thiago Silva, Fernandinho, Paulinho, Willian e Neymar. Destes, acredito que só Neymar dure até 2022 para outro Mundial. Possivelmente teremos algo em torno de meia seleção repetida entre Rússia e Catar – uns 10 a 12 atletas.

Da lista da Copa da Rússia, que não constaram na lista de ontem, mas creio que estão nos planos para o ciclo de 2022: Ederson e Gabriel Jesus, talvez Danilo.

E você, o que acha? Quem chega a 2022? Quem fica pelo caminho? Aqueça tua bola de cristal e deixe teu palpite!

 


E agora, dirigentes? A culpa do calendário é também de vocês
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Julio Gomes

Tite convocou a seleção brasileira para os primeiros amistosos pós-Copa do Mundo. São muitos nomes interessantes, as novidades. Alguns que talvez já devessem estar antes, tipo Fabinho, agora no Liverpool.

Mas quero focar em Paquetá, Dedé e Fágner. O Flamengo ficará sem o primeiro, o Cruzeiro ficará sem o segundo, o Corinthians ficará sem o terceiro na primeira partida semifinal da Copa do Brasil. Talvez eles até joguem, aquela coisa, pega avião, chega em cima da hora, vai para campo. Mas logicamente não nas condições ideais para seus técnicos.

Bom para o Palmeiras, “melhor elenco do Brasil”, mas com zero jogadores convocados.

E agora, dirigentes? Como é que fica?

Logicamente Paquetá é mais importante para o Flamengo do que Fágner para o Corinthians, ainda que isso seja discutível. Mas o fato é que a cartolagem brasileira, eternamente de mãos dadas com a CBF (mesmo com esta vivendo os escândalos que vive extra-campo), agora vai vir a público reclamar da vida, como se nada tivesse a ver com isso.

O calendário bizarro do futebol brasileiro faz com que o campeonato principal do país seja jogado um dia após a final da Copa, seja jogado em datas Fifa, tenha a semifinal da Copa do Brasil um dia após amistoso da seleção. Depois não entendem por que as pessoas cada vez mais têm bronca da seleção.

Só os clubes podem mudar isso. Mas eles seguirão fingindo que são vítimas, e não co-responsáveis.

PS – falei aqui da Copa do Brasil, mas haverá rodadas do Brasileiro no meio dos amistosos. O Grêmio, por exemplo, além de Everton, já perdeu Kannemann para a Argentina. E outros virão.


Diário da Copa: Neymar e as matrioskas
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Julio Gomes

Na feirinha de Izmailovo, famosa em Moscou por ser o lugar ideal para comprar bugigangas típicas russas ou do período soviético, as matrioskas dominam o cenário.

São aquelas bonequinhas russas fofinhas. Você abre uma, aparece outra. E depois outra e outra e outra… tem algumas com três peças, com cinco, até com quinze! Algumas mais bonitas, outras nem tanto. A sacada deles é que fazem matrioskas de gente famosa.

Então tem matrioska do Lenin, do Putin, do John Lennon, do Obama, do Michael Jackson e por aí vai. Claro, tem também dos jogadores mais conhecidos. Cristiano Ronaldo, Messi, Neymar, a turminha de sempre.

Nesta reta final de Copa, a feira é dominada por turistas em busca das lembrancinhas finais para a família toda. Muitos brasileiros e muitos latinos. Os vendedores, espertos como só eles, já sabem todos os números e palavras-chave em espanhol e português.

“É bom que vocês conversam com a gente, eu gosto de negociar!”, me fala Vladimir. “Os europeus parece que têm medo de nós, russos, nem chegam perto”. Vladimir me fala longas frases em russo, como se eu entendesse alguma coisa só porque lhe dei bom dia no idioma local e aprendi uma palavra ou outra.

Nossa negociação acontece em russo, espanhol, inglês e português. Uma loucura! Mas dá certo. Compro minhas matrioskas, consigo um bom desconto, ele me chama de “chorão”, eu digo que aprendi com a minha mulher e ele cai na risada.

Enquanto embala minhas bonequinhas, ele deixa cair uma matrioska de Neymar, que estava no caminho. Foi um strike, Neymar caiu e levou umas dez bonequinhas com ele. Vladimir começa a fazer um som, como se a matrioska de Neymar estivesse se contorcendo de dor. Todos em volta caem na risada.

É com essa imagem que Neymar sai da Copa. Virou piada internacional. Ao abrir as matrioskas de Neymar, os outros bonequinhos Neymarzinhos são iguais – lógico – e cada vez menores. O grande desafio dele é mudar. Senão não será maior do que é hoje nunca.

Já o desafio de Vladimir e do resto dos colegas das outras barracas é arrumar matrioskas de Mbappé e Modric. Não encontrei nenhuma em Izmailovo. Nem de Pogba ou Griezmann, nenhum francês, nenhum croata. Precisam atualizar e variar o estoque. O futebol mudou.


Seleção da Copa: franceses dominam, estrelas estão fora
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Julio Gomes

Não quero esperar a final. Eu sei que é o jogo mais importante e tudo o mais, mas acho injusto dar um peso tão desproporcional a um jogo só. Portanto, já fiz minha seleção da Copa do Mundo.

E ele é recheada de franceses. França e Bélgica jogaram o melhor futebol da Copa da Rússia. A primeira (e finalista) muito sólida defensivamente e com uma dupla inacreditável no meio de campo, além de Mbappé. Os belgas tiveram grandes momentos ofensivos. Os problemas defensivos foram mascarados por inacreditáveis atuações do melhor goleiro da atualidade.

Não foi fácil escolher o goleiro. Lloris, Subasic, Pickford, Ochoa, Akinfeev, Schmeichel… vários foram muito bem. Mas Courtois foi um escândalo.

Nem Cristiano Ronaldo nem Messi nem Neymar estão na seleção. Quem diria isso antes de começar a Copa?

O melhor jogador do Mundial, a meu ver, é Luka Modric. São 32 anos e três prorrogações nas pernas, sem sair um minuto e dando piques com 115min de jogo contra a Inglaterra. Qualidade impressionante com a bola, inteligência tática sem ela. Estamos diante de um super craque – mas sem mídia.

Aqui vai minha seleção A:

Courtois no gol; Vrsaljko, Mina, Varane e Lucas Hernandez; Kanté, Pogba e Modric; Hazard, Mbappé e Kane.

Eu sei que Mbappé tem só 19 anos, etc e tal, mas o cara já é conhecido, foi a segunda maior transferência da história do futebol. Sendo assim, considero o lateral Lucas Hernandez, da França, a revelação do Mundial.

Timaço!

Minha seleção B teria sistema com três atrás (que foi bastante usado) e um russo/brasileiro improvisado: Schmeichel; Mário Fernandes, Stones e Thiago Silva; Rebic, Casemiro, Cheryshev, De Bruyne e Coutinho; Cristiano Ronaldo e Cavani.

Mande a sua aqui também!

 


Neymar destruiu a própria imagem na Copa do Mundo
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Julio Gomes

Os vídeos pipocam, todo dia chega um diferente. Torcedores belgas se jogam no chão, mãos nas pernas, gritos forjados de dor, fingindo que são Neymar. Ou então crianças em um campo de futebol qualquer do mundo. Quando, ao fundo, algum adulto grita “Neymar!”, todas se jogam ao chão, se contorcendo de dor.

O debate sobre Neymar nesta Copa foi intenso. Mas ele é praticamente um debate falso. Pois pouca gente discorda do fato de ele ser um grande jogador. E pouca gente concorda com sua atitude em campo.

Eu acreditava que essa seria a Copa de Neymar, inclusive com possibilidades de sair dela como favorito à Bola de Ouro – claro que isso teria de passar pelo título da seleção. Depois da lesão e do tempo parado, chegaria voando na Copa. Em um time bem arrumado e confiante.

Bastaram os dois primeiros duelos para ver que não seria assim. E o choro depois do jogo da Costa Rica mostra o quanto esses jogadores da seleção brasileira colocam sobre si uma pressão que foge completamente dos padrões aceitáveis.

Mas OK, não foi uma Copa de Bola de Ouro. Neymar fez alguns gols, jogou bem alguns jogos, mal outros, como contra a Bélgica. Não é pecado não fazer uma Copa de Bola de Ouro.

O pepino é a imagem. Todos sabiam que Neymar era um menino mimado. Só que agora ele é visto como um menino pilantra. Sabe aquela coisa de “ser exemplo para as crianças”? Bem… exemplo do quê?

Se Neymar sempre foi uma figura controversa entre adultos, entre crianças ele era uma espécie de unanimidade. Por vários fatores: o jeito moleque, o sorriso, a maneira extrovertida de jogar. Neymar perdeu nesta Copa seu maior capital. Não é mais unanimidade entre crianças. É ridicularizado por muitas delas.

Não me venham com a historinha para boi dormir de “é culpa da imprensa”.

As pessoas formam opinião em função do que veem. E o que elas viram foi um jogador tentando o tempo inteiro forçar cartões a adversários reagindo de maneira exagerada a qualquer falta. Tanto tentou ludibriar os árbitros que acabou prejudicando o próprio time – a falta de credibilidade levou árbitros a tomarem decisões erradas no campo.

Não são jornalistas nem árbitros nem adversários que fizeram a imagem de Neymar ir para o ralo. Foi ele mesmo. Virou a piada da Copa. Campeão dos memes. E essas coisas são difíceis pra caramba de serem revertidas.

Era a Copa para Neymar sair maior. Saiu menor. Muito menor.


Por que não entendemos as derrotas do Brasil?
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Julio Gomes

A conversa corre solta no bar, na sala, na frente da grelha, nas mesas redondas. Afinal, por que o Brasil perdeu? O que é a Bélgica? Quem é Courtois?

Esse talvez seja o grande problema. O grande mistério. O grande X da questão. Por que não entendemos?

Como assim não entendemos?

Por que, de quatro em quatro anos, o “país do futebol” se surpreende? “Descobre” jogadores? Se somos assim tão “donos” do futebol quanto nos imaginamos, não seria conveniente conhecer, de fato, o esporte e o que está sendo feito dele?

A história do futebol é dividida em basicamente quatro momentos. Pré-Segunda Guerra mundial, quando engatinhou e era jogado em poucos países. No pós-Guerra, até a década de 70, quando os campeonatos são consolidados, os sistemas formados, mas ainda jogado por pouca gente – é aqui que o Brasil domina de um jeito que nunca ninguém havia dominado e nunca mais alguém dominará.

Justamente o domínio brasileiro faz com que o jogo se transforme, e temos outros 25 anos de muita evolução na Europa e a consolidação da exportação de jogadores. E, finalmente, de 25 anos para cá, temos a globalização do jogo, o fim das fronteiras de conhecimento.

Pare para pensar nas fases três e quatro, ou seja, os últimos 50 anos. De 1970 para frente, nesta fase global e moderna, a Alemanha ganhou três Copas. O Brasil, duas, assim como Itália e Argentina. França e Espanha ganharam uma. Existe uma pulverização do domínio, uma tendência que vai se aprofundar.

Se o Brasil conquistou só 2 das 12 últimas Copas, por que tanta gente continua achando que ganhá-las é “obrigação”? Por que tanto espanto com as derrotas? Por que não entendemos que não é vergonha alguma perder para a Bélgica, ainda mais do jeito que foi, com a seleção brasileira fazendo um bom jogo e merecendo sorte melhor?

Vejam só. É um jogo. UM. As Copas são esse tipo de torneio. Quanto menos tempo de disputa, maior a aleatoriedade.

Vamos falar dos belgas. Esses caras estão nos melhores times da Europa já faz algum tempo. São protagonistas do futebol globalizado.

A Bélgica não é mais um país da periferia da bola. Na década passada, iniciou um trabalho sério de base, de formação de jogadores. Na base, não importa mais ganhar. Importa formar. E, se o projeto de jogador não virar jogador, que vire, de alguma maneira, um profissional do esporte. Técnico, preparador físico, fisiologista, o que quer que seja.

Ou seja, eles fazem tudo o que não fazemos. É didático perder da Bélgica. Como foi didático levar 7 da Alemanha. Ou deveria ser didático.

O fato é que alguns belgas viraram jogadores dos bons. É um erro achar que eles são piores que os brasileiros. O nível é o mesmo. Igual. Idêntico. Você pode preferir um ou outro na comparação individual, mas o nível é o mesmo – tanto belgas quanto brasileiros estão nos grandes centros do futebol mundial.

Isso que é difícil de aceitar no país do futebol. Que os outros nos alcançaram. Em todos os aspectos. Tático, técnico, tudo.

O que espanta é que isso já aconteceu faz tempo, e ainda tem gente descobrindo de quatro em quatro anos.

Em um jogo único de futebol, qualquer um pode ganhar. O Brasil poderia ter vencido ontem. Merecia, até. Jogou melhor, teve chances. Mas, nos dias de hoje, o futebol é tão equilibrado que pequenos detalhes definem uma partida. Nesta Copa, está claro, quem marcar primeiro, geralmente leva. A Bélgica marcou primeiro. Ganhou.

A bola parada brasileira parou na trave com Thiago Silva. A bola parada belga virou gol. São pequenos detalhes que mudam tudo. No segundo tempo, o Brasil teve inúmeras chances para empatar. Mas havia um goleiro do outro lado. É do jogo!

Enquanto escrevo, o russo do restaurante me traz uma cerveja belga. Considero uma provocação? Bem, talvez eles também façam cervejas melhores que as nossas.

O russo nem sabia que o Brasil tinha perdido. Quando falo na Copa, ele só pensa no jogo de hoje,  contra a Croácia. É uma questão de orgulho nacional, não necessariamente de futebol.

É um país que só tem olhos para o milagre da seleção russa. Talvez seja melhor levar a vida assim. Pensar que não vai dar e… de repente… deu! A Rússia não esperava nada de sua seleção. Nós esperamos sempre muito. Esperamos sempre mais do que deveríamos.

Ou melhor. Não é que esperamos. É que exigimos. Um peso que nitidamente está dando maus resultados aos jogadores da seleção.

Para um brasileiro, perder da Bélgica é o fim do mundo. Tenho uma notícia: nada é o fim do mundo. Tenho outra: no futebol, existe mais mundo lá fora, além de nossas fronteiras.


Copa “maluca” é a primeira sem um dos 4 grandes nas semis
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Julio Gomes

Brasil, Alemanha, Itália e Argentina. Nenhuma das quatro seleções consideradas as gigantes do futebol mundial está nas semifinais da Copa da Rússia.

É a primeira vez na história que a classificação de um Mundial não terá pelo menos um deles entre os quatro primeiros.

As Copas de 74 e 78 não tiveram jogos semifinais e, sim, uma fase semifinal. O Brasil ficou em segundo em seu grupo em ambas as ocasiões e disputou o terceiro lugar.

Bélgica e França farão uma das semifinais na Rússia. As quartas de final deste sábado terão Rússia x Croácia e Inglaterra x Suécia.

Nova ordem do futebol mundial? Não necessariamente. Mas, sem dúvida, uma época de muito equilíbrio, em que camisas e história não ganham mais jogo.

 


Brasil e Bélgica são seleções equivalentes, não há favorito
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Julio Gomes

Os programas de TV aí do Brasil já devem estar fazendo até de trás para frente as comparações entre as seleções brasileira e belga.

Courtois ou Alisson? Lukaku ou Gabriel Jesus? Neymar ou Hazard? Esse ou aquele roupeiro? Quem é melhor?

Não entrarei nessa. Eu sei que o povo gosta. Mas eu também tenho meus gostos. E prefiro tentar cada vez mais olhar para o futebol de forma coletiva.

Até porque os três “embates” que eu citei acima são, talvez, os únicos possíveis. O que faremos na hora em que chegarmos no Paulinho x De Bruyne? Ou Marcelo contra Carrasco? (ou Verthogen? depende do sistema…)

Oras bolas, quem não votar em De Bruyne está maluco. Só que o De Bruyne belga joga de forma diferente do De Bruyne do Manchester City. Atua em uma posição mais recuada, é responsável pela saída de bola. Já Paulinho pode até não ser visto como o mais talentoso da história, mas é um jogador que aporta gols, chegada, força física.

São características completamente diferentes, cada uma a serviço de um time, de uma ideia, de um jeito de jogar.

São dois times recheados de jogadores dos melhores clubes europeus.

Se fizermos um nome a nome, talvez a gente fique num 6 a 5 para alguém. Se olharmos para o lado coletivo, encontraremos duas seleções agressivas, que tentam praticar o futebol vertical, alternando fases de jogo em que quer a bola e que não faz questão da posse.

A Bélgica é mais ofensiva. Se propõe a colocar em campo “a turma toda”, jogadores técnicos, de ataque. Aliás, é o time que mais fez gols na Copa. O Brasil é mais defensivo, um time mais preocupado em fechar espaços e não tomar gols – levou só um, que podia até ter sido anulado, e cedeu pouquíssimas chances.

Por qualquer ângulo que se olhe, Brasil e Bélgica fazem um duelo parelho, equilibrado e de altíssimo nível. É nisso que quero chegar.

Não é nenhum absurdo o Brasil perder da Bélgica, uma seleção que nunca foi uma das grandes vencedoras do futebol mundial. Em 2002, quando o Brasil tinha Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo, talvez uma eventual derrota nas oitavas de final pudesse ser (e seria) vista como “vergonha”. Hoje, se uma eventual eliminação ocorrer, é uma vergonha falar em vergonha.

O Brasil pode ganhar da Bélgica. O Brasil pode perder da Bélgica. Peguem esses mesmos times, tirem as camisetas amarela e vermelha e coloquem, por exemplo, a do Flamengo e a do Fluminense, para usar o clássico mais famoso de nosso país. Ou então uma Manchester United e Chelsea. Estaríamos falando, com esses mesmos jogadores, que seria um absurdo um ganhar, o outro perder?

Acostumem-se com essa ideia. O Brasil segue sendo o principal celeiro de bons jogadores do mundo. Mas um país pequenininho, com um ótimo e consistente trabalho de base, já consegue se equiparar em termos de qualidade.

Nós não somos os melhores faz tempo. Somos bons, ótimos, e sempre estaremos no grupo de melhores. Mas esse grupo cresceu bastante, e nele hoje está a Bélgica.

São seleções fortes e equivalentes. Eu sei que dói para muita gente ouvir isso.

Meu conselho para quem gosta do esporte, e não vive só na ditadura do ganhar e perder é: aproveitem. Vai ser um jogão. Nenhum resultado é zebra. Nenhum resultado é vergonha.


A Copa do Mundo que qualquer um pode ganhar
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Julio Gomes

Por que confiar mais no Brasil, na Argentina ou na Alemanha do que na Bélgica, na Inglaterra ou na Colômbia?

Só há uma resposta para isso: tradição. Não há muitas outras razões que justifiquem que só um punhado de seleções possam ser consideradas candidatas a ganhar a Copa do Mundo.

Por que analisar pela camisa costuma dar certo? Porque possivelmente essas camisas ganharam peso ao longo dos anos com vitórias que não vieram de graça. Vieram porque essas nações tinham melhores jogadores, melhores métodos, mais cultura e conhecimento sobre o esporte.

Por que analisar pela camisa hoje é uma besteira? Porque esse conhecimento já não é mais exclusividade. Ele está disseminado e equalizado.

O que as duas rodadas iniciais da Copa nos mostrou é o que alguns de nós estamos dizendo faz tempo. O futebol está nivelado de verdade hoje. Dizer que “qualquer um pode ganhar de qualquer um” não é frase feita. É fato. Não é verdade que não tenham mais bobos no futebol. Tem sim. Bobos são aqueles que acham que ninguém mais sabe jogar bola fora aquele grupinho de dois ou três países que já ganharam muito no passado.

O Brasil não sofre porque é ruim ou porque Neymar chora. Sofre porque um time como o da Suíça, hoje em dia, consegue perfeitamente fazer um jogo igual. As habilidades técnicas são importantes no jogo para quebrar defesas, mas hoje em dia os meios para anular a suposta superioridade técnica do rival são fartos e bem utilizados.

Os jogadores destes países todos, inclusive os mais periféricos, estão atuando nos mesmos campeonatos há mais de uma década. A Copa não é o que era nos anos 60 ou 70, um festival em que cada país chegava lá para mostrar o que sabia. Essa turma aí da Copa está na tua TV quase todo dia, usando as mesmas camisas, jogando pelos mesmos troféus.

Brasil, Alemanha, Argentina, França e mesmo a Espanha não nos mostraram nada até agora que justifique considerá-los tão acima do resto. Quer dizer. Mostram nomes na camisa. Isso sim, essas seleções têm de sobra.

Croácia, Inglaterra, Bélgica, Colômbia e até mesmo, vejam só, Rússia e México, nos mostraram nestas duas rodadas que existe futebol além do grupelho de favoritos. E que podem, sim, bater qualquer um em 90 minutos.

A própria Colômbia nos mostrou neste Mundial como o futebol de hoje em dia está sendo decidido por detalhes. Uma expulsão fora de hora e você perde de um Japão. Uma escalação um pouquinho mais ousada e você atropela um cabeça de chave.

Brasil, Argentina e Alemanha precisarão jogar finais fora de hora nesta semana. É um jogo. Vida ou morte. A coisa pode sair bem, pode sair mal. A partir daí, é tudo eliminatório. Qualquer seleção que encaixar quatro jogos bons pode ser campeã. Qualquer uma.

Não tem aquela história do “jogou como nunca, perdeu como sempre?”. Nesta Copa, quem “jogar como nunca” vai ganhar. Talvez como nunca.


Jogaço da Suíça deixa casca de banana no caminho do Brasil
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Julio Gomes

Brasil x Sérvia, quarta, em Moscou. Não há margem de erro para a seleção. Após a vitória dramática contra a Costa Rica, o Brasil pode empatar com a Sérvia para ir às oitavas. Mas, se perder, estará eliminada.

Perder para a Sérvia seria um absurdo? Não. Essa é a casca de banana que a Suíça jogou para o Brasil, após fazer um jogo espetacular nesta sexta-feira, em Kaliningrado.

Aqui é a base da Sérvia na Copa. Dezenas de milhares estão ou vieram até a cidade, e o estádio virou um caldeirão. Os torcedores sérvios apoiam constantemente e ferozmente. Havia também o componente político. O ódio de alguns torcedores sérvios em relação aos suíços de origem albanesa ou kosovar, especialmente Shaqiri.

Some a tudo isso um início fulminante dos sérvios, fazendo um gol e criando chances. Ou seja, a coisa estava feia para a Suíça. Muito feia.

Ainda assim, os caras foram lá e viraram o jogo, no melhor estilo contra tudo e contra todos. Isso serve também para algumas pessoas verem que não é só no Brasil que se joga bola no mundo. Empatar com esse time da Suíça, hoje em dia, está longe de ser uma catástrofe, como algumas pessoas pintaram.

E agora, a Sérvia. O Brasil joga pelo empate, e isso é uma grande notícia – ainda que o empate deixe a seleção provavelmente na segunda posição no grupo. Mas, à parte essa grande notícia, há outras menos animadoras.

Primeiro, o fator casa. A Sérvia novamente jogará com a torcida toda a seu favor, no jogo de quarta, em Moscou. Os sérvios são basicamente os únicos europeus que vieram em peso para essa Copa, até porque existe uma relação fraternal entre os povos. Russos estão com sérvios, sérvios estão com russos. Em muitos momentos, no estádio de Kaliningrado, o grito de apoio saía alternado da arquibancada. “Rús-si-a. Sér-vi-a. Rús-si-a. Sér-vi-a”.

O segundo fator preocupante é que a Sérvia tem um bom time de futebol, com aquela mistura que considero ideal. Experiente atrás, com jogadores calejados e com história no futebol europeu, e jovem na frente, com gente destemida e de velocidade.

O terceiro fator preocupante é que a Sérvia é muito boa na bola alta. Muito mesmo. É um time físico, forte, que usa e abusa desse tipo de jogada.

O Brasil é melhor? Sim, o Brasil é melhor. Mas não é nada bom chegar à última rodada já tendo um jogo eliminatório. Se perder, está fora.

E acho que após as partidas iniciais, e com tudo o que vimos na Copa até agora, talvez o pessoal já tenha entendido que o futebol mudou de verdade. O equilíbrio é tremendo. A Suíça se livrou do problema de maneira corajosa, mostrou muita força em um estádio hostil, em condições hostis. Agora a batata quente está com o Brasil.