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Arquivo : Portuguesa

Obrigado, Zé Roberto. Tua história é mais digna que a da Portuguesa
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Julio Gomes

O Palmeiras não quis que Zé Roberto jogasse a Série A2 pela Portuguesa. Ou talvez o próprio Zé Roberto não queira se meter nessa roubada. Se for a primeira opção, só temos a lamentar a pequenez do presidente palestrino. Se for a segunda, é mais do que compreensível.

De qualquer forma, a despedida de Zé Roberto com a camisa da Lusa e do futebol deu-se mesmo na tal Copa Rubro-Verde. Vencida pela Portuguesa carioca. Sem a chance de Zé Roberto bater nem o pênalti decisivo para a Lusa, porque os craques anteriores mandaram duas cobranças quase para fora do estádio. Era uma festa para ele levantar um troféu. Não rolou.

Enfim, a cara da Portuguesa.

Um clube que foi ao longo dos anos dividido em clãs. Explorado por famílias gananciosas que se acham donas da Portuguesa e do legado português em São Paulo. Que enriqueceram. Que ocuparam o clube e ocupam até hoje. Afinal, ainda falta uma última grande oportunidade de fazer dinheiro: a tal venda do terreno todo onde está o estádio do Canindé. Então as moscas seguem lá rodeando o estrume.

Em 2011, por obra quase do acaso, a Portuguesa fez uma das melhores campanhas da história da Série B no Brasil. O time foi apelidado de “Barcelusa”, pois aquele foi também o ano mais brilhante do Barcelona de Guardiola.

Finalmente de volta à primeira divisão, havia ali uma luz no fim do túnel. Bons jogadores, torcida de volta, bom ambiente. Alguma perspectiva. Enquanto a Barcelusa ganhava a Série B, Zé Roberto jogava no Al-Gharafa, lá no mundo árabe, no que ele mesmo achava que seria seu último contrato. Ele tinha já 37 anos.

Ali, a Portuguesa, uma instituição cheia de “quases” na história, de momentos em que “se tivessem feito isso ou aquilo”, deixou passar mais uma.

Ali, no fim de 2011, o clube deveria ter resgatado Zé Roberto. Estava fácil. Ele viria na hora. Nunca teria ocorrido, por exemplo, o rebaixamento no Paulista de 2012. Zé Roberto teria jogado alguns bons anos no seu clube de coração. E o ganho esportivo teria sido imenso, basta ver o rendimento dele nestes seis anos de Grêmio e Palmeiras.

Mas a Portuguesa é isso aí. Vamos lembrar que lá em 97, após o clube dar aquela sorte tremenda de quase ganhar um Campeonato Brasileiro, o dinheiro das vendas do próprio Zé Roberto e de Rodrigo Fabri para o Real Madrid foi parar no Uruguai. E grandes prédios e padarias apareceram por São Paulo.

Vamos lembrar que após a vergonhosa escalação irregular de Heverton, em 2013, o clube, mesmo com diretoria nova (um dos clãs), empurrou o caso para baixo do tapete, nunca investigou, nunca quis saber o que tinha acontecido – ainda que nas alamedas do clube todos falem com certeza sobre o que ocorreu. Quiseram guardar o esqueleto dentro do armário.

Mas o esqueleto virou um fantasma, que se multiplicou em forma de rebaixamentos, processos, dívidas e vexames, fazendo o Canindé ser hoje uma verdadeira casa mal assombrada.

A Portuguesa foi responsável por Zé Roberto ter todos os dentes da boca, como ele mesmo disse. Um grande homem, uma grande pessoa, que mostrou gratidão. Gratidão esta que essas famílias exploradoras não sabem mostrar. Já que fizeram tanto dinheiro com o clube, por que não vão embora simplesmente? Por que não somem?

Eu queria levar minhas filhas ao estádio no domingo. Não levei porque chovia muito, não seria adequado para crianças de 1 e 4 anos. Queria levar minhas filhas para ver Zé Roberto. Não para ver a Portuguesa. Porque essa está presa no passado, dentro de uma caixa qualquer, jogada no fundo de alguma sala empoeirada, cheia de ratos, baratas e morcegos tomando conta.

Na primeira metade da década de 50, a Portuguesa talvez tenha tido o melhor time do Brasil. Foi um clube enorme. Revelou grandes jogadores, cedeu muitos para a seleção brasileira. Teve repiques nos anos 70, 80 e 90. Nos apaixonou. Mas a dignidade foi sendo perdida com o tempo, com a omissão, com as falcatruas, com a falta de visão. O verdadeiro torcedor luso, que nada tem a ver com as políticas e politicagens, é quem paga o pato. Mas o clube, de fato, não merece mais do que tem hoje.

Obrigado, Zé. E desculpas. Creio que é tudo o que posso falar.

 


Júlio César e Zé Roberto: dois grandes brasileiros que se vão do futebol
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Julio Gomes

A maneira de o brasileiro ver e falar de futebol é muito próxima de um moedor de carnes. Ao mesmo tempo em que ídolos são gerados em 5 minutos, reputações inteiras são moídas após um erro ou após uma escolha que não agrade à maioria apaixonada.

Júlio César e Zé Roberto não são unanimidade no futebol.

Brasileiro.

Porque em todos os grandes centros europeus eles construíram uma reputação irretocável. Especialmente, claro, na Itália e na Alemanha.

Vou contar duas historinhas que aconteceram comigo, nos anos em que tive a grande oportunidade de cobrir de perto o futebol europeu.

No fim de 2004, fui a Munique. E combinei com Zé Roberto uma entrevista para a revista “Placar”. Ele marcou o encontro para a Marienplatz. Para quem não conhece Munique, é a principal praça da cidade, uma espécie de Praça da Sé de Munique – só que um pouquinho mais limpa :-).

Achei estranho. Como assim, na Marienplatz? Assim, no meio das pessoas? E foi lá que nos encontramos. Entramos em um café e conversamos longamente. O cara era simplesmente titular do Bayern de Munique. Onde, em alguma outra oportunidade, cheguei a encontrá-lo também. Um CT incrível.

O que mais me chamou a atenção? O respeito. A maneira como as pessoas se aproximavam dele, cumprimentavam, mostravam admiração. Eu não falo mais do que meia dúzia de palavras em alemão. Mas gestos e olhares são suficientes para compreender o que estava acontecendo.

E Júlio César. Bem, sobre ele eu sempre achei o mesmo que um monte de vocês achavam ou acham. “Mascarado”.

Ledo engano. Com ele, me encontrei em Milão em 2006 ou 2007, por aí. A ideia era apenas fazer uma entrevista para a Band. Mas Júlio César abriu as portas da casa dele. Conheci Suzana Werner, brinquei com os filhos, ganhei carona. Nada me pareceu mais humano do que aquele casal de celebridades. O apartamento era muito perto do estádio San Siro. Na ocasião, ele me contou que voltava à pé das partidas. Assim, no meio do povo. “Mesmo em dia de Inter x Milan?”. “Sim”.

Em 2010, Júlio César foi indiscutivelmente (vou repetir, indiscutivelmente) o melhor goleiro do mundo. Atuações muito consistentes em uma Inter de Milão que conquistou a Europa após décadas de seca. O Brasil tem sido um grande fabricante de goleiros nas últimas décadas. Mas, depois de Taffarel, que goleiro brasileiro foi o melhor do mundo? Só Júlio César.

Mas, por não ter sido um goleiro ultravitorioso no Flamengo, por uma falha na Copa de 2010 e pelos 7 a 1, é visto com desdém por muitos aqui. Em 2010, a falha deveria ser compartilhada com Felipe Melo. E mais: uma falha não faz de ninguém um idiota, assim como um acerto não faz de alguém um craque. O futebol é cruel demais.

Em 2014, eu não teria chamado Júlio César para a Copa. Mas o que ele teve a ver com o 7 a 1? Nada. Ou quase nada. Não fosse ele, talvez o Brasil nem tivesse passado pelo Chile nas oitavas de final.

Zé Roberto foi outra “vítima” do Flamengo. Depois de anos para lá de espetaculares na Portuguesa, Zé Roberto passou a fazer parte da seleção brasileira. Foi parar em um Real Madrid estrelado, onde ele precisaria de tempo para ganhar espaço. Voltou para o Flamengo, caiu na fogueira, não foi nada demais. Portanto, nunca foi visto como o craque que sempre foi pela grande imprensa.

A partir daí, Zé Roberto foi quase campeão europeu e alemão com o pequeno Bayer Leverkusen. E foi titular por muitos anos de um gigante como o Bayern. Aprendeu alemão, se adaptou ao país. Menos mal que treinadores de futebol (especialmente Parreira e Zagallo) ignoravam as mesas redondas que sempre “escolhiam” Zé Roberto para ficar fora das convocações e times titulares da seleção.

O Brasil foi “descobrir” que Zé Roberto era bom de bola em 2006, quando ele fez uma grande Copa do Mundo em um time que deixou a desejar. Depois, triunfou no Santos, no Grêmio, no Palmeiras. Mostrou ser zero egoísta ao pedir dispensa da seleção de Dunga em 2007, “para dar lugar aos mais jovens”. Curiosamente, quando acabou o ciclo de Zé na seleção, começou o de Júlio César titular do gol. Eles estiveram pouco tempo juntos, portanto.

Zé Roberto encerrou a carreira com honras. Fez parte da reconstrução de um gigante, como o Palmeiras. Só depois de passar por times mais midiáticos ganhou um pouco do tamanho que merece.

Ainda assim, poucos colocariam Zé Roberto no lugar que merece na história do futebol brasileiro. Falei um pouco disso neste post de dois anos atrás.

Júlio César e Zé Roberto são dois exemplos a serem seguidos. De adaptação em outros países, de respeito adquirido, de profissionalismo, de capacidade técnica, de construção familiar, de lisura nos clubes por onde passaram.

Eles deixam um belo legado. Que definitivamente não pode ser minimizado por frases do tipo “ganhou o quê?”, “falhou naquele dia”, “não fez nada não sei onde”.

O Palmeiras acerta em cheio dando um cargo imediato para Zé Roberto. Espero que não seja só para parecer bacana, só para consumo externo.

Já o Flamengo deveria ter trazido Júlio César de volta muito tempo atrás. Para jogar, não dá mais. Que seja, então, para cuidar de seus goleiros, porque está precisando.

 


Vinte anos atrás, a final que poderia ter mudado tudo para os lusos
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Julio Gomes

15 de dezembro de 1996. O dia em que aquilo não podia ter acontecido. O dia em que Rodrigo Fabri deveria ter sido menos fominha. O dia em que César tinha que ter cabeceado para o lado. O dia em que Aílton não podia ter acertado aquele chute. O dia que era o melhor da minha vida, até virar o pior.

Hoje, faz 20 anos que a Portuguesa perdeu o título brasileiro para o Grêmio. Aquele gol aos 39 do segundo tempo, quando o jogo estava morto, o estádio calado, o Grêmio, perdido. O dia em que vimos que nunca seríamos.

Eram outros tempos do futebol brasileiro. Saudoso mata-mata entre os melhores times, sistema que permitia aos pequenos e médios sonhar com o título nacional.

A Portuguesa se encontrou com uma classificação improvável, adquiriu a “sorte de campeã” naquele fim de ano, ganhou a torcida do país inteiro (velhos tempos em que o país via futebol, não só o próprio time). Esteve a 5 minutos de conquistar o título que faria jus ao tamanho do clube, ao que a Lusa havia representado para o futebol do país ao longo do século.

Tivesse sido campeã do Brasil em 1996, a Portuguesa poderia deixar seus torcedores morrerem em paz. Ela própria poderia morrer em paz.

Hoje, o clube definha. Está quebrado, largado, sem perspectivas. Ser campeã em 96 teria mudado esse destino? Sinceramente, acredito que não. Mas tudo teria sido diferente para os sofridos torcedores lusos, fiéis, chatos, poucos, apaixonados. Nenhuma discussão na mesa de bar ou no churrasco entre amigos teria sido igual. O “orgulho de ser Lusa”, como andou escrito na camisa, seria outro.

Entre 1995 e 1998, a Portuguesa foi grande de novo, como no meio do século. Foi um repique que, bem aproveitado, teria mudado a história do clube. Mas, claro, nunca algo foi bem aproveitado pelos administradores da Lusa, que variaram entre burros e bandidos.

A volta de Candinho, no fim de 1994, forjou um time que seria o melhor do Estado em 1995, apesar de ter ficado sem título. E cimentou as bases para o digno campeonato feito em 96.

Foi um campeonato em que a Portuguesa flertou com o G-8. Até que perdeu mandos de campo na reta final. Isso porque, após um empate contra o Vitória no Canindé, no comecinho do campeonato, em um jogo em que o time foi estuprado por um árbitro carioca chamado Léo Feldman, a torcida jogou o diabo para o campo quando a partida acabou. Eu nunca fui de subir no alambrado. Naquele dia, havia subido. Bom, eu tinha 17 anos, a gente fazia essas coisas erradas.

A coisa degringolou nas últimas rodadas, e a Portuguesa jogaria a última em Curitiba, contra o Botafogo. Precisava ganhar e que pelo menos três times que estavam à frente na tabela tropeçassem.

Eu fazia a primeira prova da primeira fase da Fuvest. Um momento importante da minha vida, digamos, pois a partir dali eu consegui uma vaga para estudar jornalismo na USP, onde conheci a mãe das minhas filhas e mulher da minha vida, além de alguns dos melhores amigos que alguém pode ter.

Quando saí da prova, feliz com o desempenho, nem me lembrava mais do Brasileirão. Liguei de um orelhão para meu velho pai, ex-jogador aspirante da Lusa e um torcedor desiludido fazia tempo, para avisar que havia acabado a prova. Mas ele não queria saber da prova. “Você não acredita! Está todo mundo perdendo e a Lusa ganhando!”.

Quando cheguei em casa, o Sport levava um saco, o Inter perdia do rebaixado Bragantino, a Lusa metia 4 no Botafogo e faltava somente o São Paulo não ganhar do Paraná (obrigado pelos que me corrigiram aqui!). Parreira era o técnico do São Paulo. Ouvi os minutos finais em um radinho de pilha, como se fazia nos bons tempos. Muller, acho, perdeu um gol feito no final. E a Lusa entrou. Surreal.

Clemer; Walmir, Emerson, César e Zé Roberto; Capitão, Gallo, Caio e Zinho; Tico e Rodrigo Fabri. Este era o time da Portuguesa no campeonato.

Eu considerava Walmir o pior lateral do mundo. Zé Roberto era “minha” descoberta. Eu que havia visto aquele moleque subir para o time principal em 94 e falava para todo mundo. “O lateral-esquerdo da Portuguesa é um craque, é o melhor lateral que já tivemos”. Eu achava Zé Roberto tão bom que em todos os jogos fazia questão de ir atrás do banco de reservas gritar para Candinho. “Bota o Zé no meio, seu burro! Bota ele no meiooooooo”.

Eis que na véspera do mata-mata, Zinho, aquele que era do Sport de Recife, se machucou. E Candinho colocou Zé Roberto no meio de campo. A simples mudança que quase fez a Portuguesa ganhar o campeonato.

Carlos Roberto entrou na lateral esquerda. Walmir, o grosso, fez uma partida de gênio nas quartas de final contra o Cruzeiro, o primeiro da fase de pontos corridos. E Zé Roberto comeu a bola. Alex Alves, o baianinho, que Deus o tenha, havia feito um campeonato ridículo. mas entrou no lugar de Tico e meteu dois gols. A Portuguesa foi obrigada a jogar no Morumbi, por uma daquelas ridículas regras de capacidade mínima de estádio.

Em vez de 15 mil pessoas no Canindé, foram 7 mil ao Morumbi. Meu primo Renatinho, torcedor do Palmeiras (isso me lembra que ainda nem dei parabéns a ele), me pegou no cursinho e fomos ao Morumbi. No meio do primeiro tempo, acabou a energia. Era um breu só. Gritávamos “é, é, é, estádio é o Canindé!!”.

zeroberto_96Foi um dos três maiores jogos que eu já vi da Portuguesa. O jogo perfeito. 3 a 0 naquele timaço do Cruzeiro. Êxtase. Esperança. Zé Roberto. O único ídolo que tive no futebol. Que grande é Zé Roberto.

O jogo de volta foi num sábado, eu vi na Globo. Nunca passava jogo da Portuguesa na Globo. Mas o mata-mata passava para o Brasil inteiro, isso que era legal no mata-mata. O Cruzeiro fez 1 a 0. Eu tinha certeza que seríamos eliminados. Mas não fomos.

Na semifinal, contra o Atlético Mineiro, o Galo tinha 478 jogadores pendurados para a partida de volta. Bateu impiedosamente o jogo todo. Me lembro do árbitro, Sidrack Marinho, dizer ao fim do jogo que havia economizado nos cartões para “não estragar a semifinal”. Sim, minha memória não me deixa na mão. Léo Feldman. Sidrack. Castrilli. Já xinguei muito nessa vida.

O Atlético havia vencido todos os jogos no Mineirão naquele campeonato. Todos, exceto o clássico com o Cruzeiro. Ganhar só por 1 a 0 no Morumbi parecia fim de linha. O jogo de volta é o que meu irmão, Flavio, considera o jogo de sua vida. Outro irmão, Fernando, morava em Belo Horizonte. Eles foram juntos. Havia 100 e tantas mil pessoas. Eu fazia a segunda prova da primeira fase da Fuvest. E estava difícil demais pensar na prova. A carteira em que eu fiz o vestibular tinha escudos da Portuguesa e a escalação do time por todas as partes.

Quando acabei, corri para saber quando estava o jogo. Intervalo, 1 a 0 Atlético. Já era. Peguei carona com uma amiga para voltar para casa. Pedi o favor de uma vida para a mãe dela. “Tia Rosa, será que eu posso ouvir o jogo da Portuguesa no rádio?”. No caminho, saíram os dois gols da virada. Eu gritava como um louco com metade do corpo para fora do carro. As amigas não entenderam nada. Quando cheguei em casa, liguei a TV e o Atlético empatou. Desliguei a TV. Ouvi o resto no rádio. Manias.

Era surreal demais ver a Portuguesa, a minha Portuguesinha, na final do campeonato.

Na segunda-feira, eu fiquei seis horas em uma fila debaixo de Sol no Canindé para conseguir ingresso para a final. Havia gente com camisas de todos os times. Não consegui os ingressos. Fiquei puto. Me parecia injusto um monte de gente estranha ir e eu não ver a final. Mas o Flavio conseguiu ingressos sei lá como, acho que com alguém na Jovem Pan, onde ele trabalhava na época. Foi um daqueles dias de chuva absurda em São Paulo. Não sei como cheguei ao Morumbi. No intervalo do jogo, chegava gente e mais gente no estádio. A cidade estava alagada.

Quando Gallo meteu o gol de falta, o primeiro, Flavio chorava copiosamente. Eu nem lembro direito daquele jogo. Era tudo realmente muito surreal.

No Terceiro Tempo da Pan, Milton Neves perguntava a cada um da equipe qual era a chance de título da Portuguesa. Wanderley Nogueira respondeu: “100%!”. Aaaa, Wanderley… você não podia ter feito isso comigo! Eu acreditei em você. Como era boa, a Jovem Pan.

Quando acabou a partida, meu irmão me levou para casa e falou. “Domingo, vamos a Porto Alegre”. Mas domingo eu tinha vestibular da PUC. Me lembro de ter chegado para o meu pai no dia seguinte, ele estava na sala. Eu expliquei que haveria a prova domingo, mas queria saber o que ele achava de eu ir a Porto Alegre para a final e perder a prova…

“PUC?? Que PUC o quê, rapaz… domingo é final de campeonato, porra! Depois a gente vê esse negócio de faculdade.”

E chegamos ao 15 de dezembro de 1996. Vinte anos.

Vinte anos.

Meu irmão me pegou em casa com um Karmann Ghia vermelho que eu não sei se ele ainda tem. O avião sairia de Cumbica, não tinha Waze, estava um trânsito de lascar. Ele dirigiu como um alucinado, subiu em calçada, fez o diabo. Chegamos em Cumbica e o saguão do aeroporto estava abarrotado de torcedores e bandeiras. Era a coisa mais linda que já tinha visto. Não era um avião partindo para Porto Alegre. Eram muitos!

No avião, um rapaz veio cumprimentar meu irmão e se apresentou. “Oi Flavio, meu nome é Eduardo Affonso, sou repórter da rádio Bandeirantes”. Edu, Edu, grande Edu. Ele também estava indo para o jogo de sua vida. Os dois trabalhariam juntos muitos anos depois na falecida rádio Eldorado/ESPN.

Quando chegamos em Porto Alegre, os taxistas fizeram carreata atrás dos nossos ônibus. Fiquei com a impressão de que todos os taxistas da cidade eram torcedores do Inter. Fomos a uma churrascaria. Não comi muito, estava nervoso. Mas foi divertidíssimo. Era o melhor dia da minha vida. Um sonho. Nunca havia tido nada igual.

Não eram tempos de celular e smartphone. Eu não tenho uma foto sequer disso tudo ou do jogo. Nada. Zero. Eu não tenho nem aquela camisa da Lusa, com o patrocínio dos Armarinhos Fernando.

Já no Olímpico, as coisas começaram a mudar. Um homem negro entrou na área da torcida da Lusa com a camisa do Inter. Do outro lado da grade, a poucos metros dele e de mim, uma mulher, loira, branca, com um filho de uns 7 ou 8 anos ao lado dela, imitava um macaco e gritava “macaco, macaco”, fazendo aquele tradicional som de chimpanzé. Eu nunca tinha visto aquilo. Me deu vontade de vomitar. Me pergunto o que virou aquele garoto. Vi também uma bandeira azul clara com o símbolo da Luftwaffe, a aviação nazista de Hitler. Não quero aqui generalizar ou rotular a torcida do Grêmio. Mas foram coisas que me marcaram.

Vi o gol de Paulo Nunes logo no começo, o Olímpico urrava. Meu pai fala até hoje que estava impedido, mas nunca houve uma tomada lateral para vermos. Eu acho que não estava. Eram escanteios e mais escanteios.

Mas o jogo acalmou no segundo tempo. Nada acontecia. Eu só fui ver de novo aquela partida cinco anos depois, quando fazia meu TCC, o trabalho de conclusão de curso para me formar na época. Foi uma espécie de documentário em vídeo que, mais ou menos, previa tudo o que está acontecendo agora com a Portuguesa. Na banca do meu TCC, Paulo Calçade e Helvídio Mattos, dois monstros com quem eu teria o prazer de trabalhar anos depois, na ESPN.

Ao rever aquele jogo, chorando, logicamente, foi possível perceber como, à parte os vários escanteios no primeiro tempo, o Grêmio não jogou nada. A Portuguesa teve dois contra ataques claríssimos no segundo tempo, de dois contra um, e Rodrigo Fabri preferiu tentar o drible nos dois lances, com Alex Alves livre a poucos metros de distância. O segundo gol nasce em um chutão desesperado de Carlos Miguel para a área.

A Lusa jogou melhor em Porto Alegre do que em São Paulo. Mas na hora, no estádio, você não percebe nada disso. Sonho ou pesadelo? Sonho ou pesadelo? Olhei no meu relógio e o cronômetro marcava 39 minutos. Olhei para frente, a bola estava passando rente ao corpo de Capitão e estufando a rede de Clemer. Eu estava atrás do gol. Eu acho que já sonhei com Clemer espalmando aquela bola. Com Capitão dando um passo para o lado. Com Alex Alves bloqueando o lançamento despretensioso de Carlos Miguel. Com Aílton chutando a bola ali onde estava nossa brava torcida, recheada também de atleticanos e cruzeirenses, vítimas da Lusa no mata-mata, mas que tinham abraçado o clube quando torciam pela Lusa contra o rival.

Eu sentei e chorei. Chorei, chorei, chorei, chorei, chorei. E, claro, agora choro enquanto escrevo.

Nunca seremos?

Meu irmão resistiu bravamente naqueles minutos finais, que eu acabei nem vendo. Uma meia hora depois do jogo, sentou em uma cadeira do Olímpico e chorou. Chorou, chorou, chorou, chorou.

Uma hora depois do jogo, estádio vazio, começaram a voar garrafas do lado de fora do Olímpico para dentro, onde estávamos. O ser humano deu errado.

A imagem que tenho é de muitos velhinhos sentados, encostados nas colunas de concreto do estádio, desolados. E eu pensava. Eles nunca mais verão a Lusa em uma final. Àquela altura, tinha dó deles, não de mim. Vinte anos. Daqui a muito pouco, o velhinho serei eu.

Um dia, em Portugal, acho, eu falei para Felipão. A única coisa que você não podia ter feito na vida era ter ganhado aquela final contra a Lusa. Ele bufou. “Que é que eu vou fazer, tchê?”

A volta para casa foi terrível. Ao chegar em casa, minha mãe, sensibilidade zero, disse: “essa Lusa não tem jeito mesmo, não vai ganhar nunca”. Fiquei muito bravo com ela. Devo ter ficado uns três dias de luto, comendo mal, dormindo mal. O futebol não deveria fazer essas coisas com a gente. Mas com 17 anos… saindo da escola, onde havia sido tripudiado a vida inteira pelo time por quem torcia…

Me lembro de ter sido um dos oradores da turma na formatura do colegial. De ter pego uma enorme bandeira da Portuguesa e, ao final da cerimônia, subido com ela no palco. Alguns dos presentes ali aplaudiram.

Vinte anos depois, Zé Roberto finalmente ganhou seu Brasileiro, com a camisa do Palmeiras. Vinte anos depois, o Grêmio finalmente voltou a disputar uma decisão em casa e ser campeão diante de sua torcida.

Me lembro de tudo. Não precisei pesquisar nada para escrever este enorme texto. Me lembro das faces, das expressões, das frases, das cores. Me lembro do que era torcer apaixonadamente, coisa que não faço mais faz tempo. Me lembro da maior tristeza que já tive na vida – graças a Deus, nunca passei por qualquer tragédia familiar. Me lembro de achar, pouco depois, que aquela tinha sido a única e última chance. Lamento estar com a razão.

15 de dezembro de 1996. O dia da cicatriz mais profunda, entre as tantas cicatrizes dos torcedores da Portuguesa.

O dia que poderia ter mudado tanta coisa.

O dia do “nunca seremos”.

lusa

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O direito de saber a verdade
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Julio Gomes

Um ano atrás, eu estava no Canindé. Camiseta vestida. A que eu mais gosto, listrada e sem patrocínio. Paguei meu ingresso, 40 reais, e o estacionamento, que era 10. Comi meus bolinhos de bacalhau. Geralmente comprava uns quatro ou cinco, dependendo da fome. Eu podia entrar com a carteirinha de jornalista no jogo? Sim, podia. Infelizmente, muitos colegas o fazem. Eu, não. Ia para torcer, não para trabalhar.

A Lusa havia acabado de empatar por 0 a 0 com o Botafogo, no New-Maracanã. O Botafogo, é bom lembrar, acabou aquele campeonato com a vaga na Libertadores. E empatamos porque tivemos um gol anulado absurdamente por impedimento. A arbitragem havia tirado pontos da Lusa em vários jogos anteriores: contra o Fluminense, no Rio, contra o Coritiba, contra o Atlético, em BH, contra o Grêmio, no Sul.

Erros de arbitragem acontecem. No Brasileirão de 2013, nenhum deles fez com que a Portuguesa ganhasse um ponto sequer (desafio qualquer um a me mostrar que a Portuguesa ganhou qualquer ponto por erro de juiz. Qualquer ponto).

Enfim, no melhor estilo contra tudo e contra todos, lá estava a Lusa pronta para jogar contra o Atlético Mineiro, o campeão da Libertadores, se preparando para o Mundial. Ganhamos por 2 a 0, um gol do Bruno Henrique (hoje no Corinthians), outro do Henrique (hoje no Palmeiras, artilheiro que expõe o nível do que se joga aqui). Chegamos aos 44 pontos.

Era o jogo crucial. Com 45, diziam os matemáticos, não tinha rebaixamento. E ainda faltavam três jogos, um deles com a já rebaixada Ponte Preta. Com aquela vitória sobre o Galo, no Canindé, a Portuguesa estava livre da segundona. Estava salva, pronta para o terceiro ano seguido na elite.

É um saco entrar em um campeonato para não cair. Infelizmente, esse futebol brasileiro dos pontos corridos, da maratona de jogos, do dinheiro só nas mãos de alguns, faz com que a maioria dos times entre só para isso: não cair (ainda que o discurso propositadamente mentiroso de dirigentes leve torcedores a acharem que seus times têm condições de brigar por título, Libertadores, etc).

A Portuguesa, falida, quebrada, precisava apenas disso. Ficar na elite. Seguir recebendo a cota da TV para tentar melhorar a situação financeira. E o objetivo estava conquistado.

Mal sabíamos que aqueles 44 pontos seriam os mesmos que teríamos após a canetada do STJD em dezembro. E que eles, logicamente, não seriam suficientes. Os 4 pontos ganhos no campo, semanas depois, foram tirados no tribunal.

Não entrarei aqui em debate sobre o STJD, a formação dele, os constantes dois pesos, duas medidas que o procurador Paulo Schmitt costuma dar aos casos.

Quem acompanha minimamente o futebol, quem tem conhecimento sobre atores e costumes, sabe que o que aconteceu no ano passado não foi um simples erro. Isso está na cara. É impossível estar mais claro.

Mas quem comprou? Quem vendeu? Quem são os responsáveis pela escalação irregular de Héverton naquela última rodada (quando não haveria mais tempo de “corrigir” o erro no campo)? O promotor Roberto Senise Lisboa entrevistou muitas pessoas e estaria chegando relativamente perto de desvendar o mistério.

Ao longo do ano, foram várias as histórias que vieram até mim. Que Senise estaria sendo ameaçado até de morte e deveria deixar o caso quieto. Que o presidente de um clube do Sul, ameaçado de rebaixamento, teria relatado ao promotor que um “emissário do Rio de Janeiro” tinha entrado em contato para que seu próprio clube “desse um jeito de cair”. Que o então presidente da Portuguesa, Manuel da Lupa, que está sumido, já teria se mandado para Portugal. Que no telefone de Da Lupa havia uma série de telefonemas na semana anterior de uma pessoa ligada a um certo grupo médico.

Até mesmo que a “batida” policial no Canindé, levando para a delegacia e constrangendo alguns velhinhos que estavam jogando lá o seu poker (jogo legalizado e disputado em diversos clubes e casas de São Paulo) teria sido uma mensagem para o clube parar de se auto investigar, senão a Portuguesa e frequentadores não seriam deixados em paz.

Aí podemos lembrar que antes de tudo isso, com umas cinco rodadas para acabar o campeonato passado, houve um movimento em que teriam “sido encontradas” escalações irregulares na Portuguesa e no Criciúma ao longo da disputa. Recuaram logo depois.

Paulo André, em entrevista nesta semana, ao falar do Bom Senso e a possibilidade de greve no ano passado, disse: “a gente começou a ter a leitura de que era interesse de alguém que a gente fizesse a greve para poder melar o campeonato. Foi isso. A gente teve a leitura de que alguém estava forçando aquilo para virar a mesa. Aí a gente recuou”.

Que havia um movimento escuso, no escuro, sendo orquestrado… só não vê quem não quer.

O fato é que o status quo venceu. A quem interessaria investigar tudo isso a fundo, eventualmente atrapalhando o início do Campeonato Brasileiro que agora está por acabar? Parar tudo por causa da Portuguesinha?? Por causa de seus 5 mil torcedores?? Já tivemos coisas piores no futebol! É assim mesmo. Paciência. The show must go on.

Agora, vem a notícia de que o Ministério Público tem fortes indícios de suborno. Mas ainda não tem provas. O STJD, lógico, não parece muito interessado desta vez. São pessoas seletivas, digamos.

Sinceramente, me parece até um pouco tarde. Mas me enche de esperanças que o caso volte à tona.

Um ano atrás, em setembro, a Portuguesa ganhava dois jogos seguidos pela última vez. 1 a 0 contra o Internacional, fora de casa. E 4 a 0 no Corinthians. Quem neste ano ganhou do Inter fora e meteu 4 no Corinthians, e uma semana depois faria 3 no Santos? Quem?

O clube, por demérito próprio, já está na terceira divisão. Acabou, na prática. Morreu. Está definhando. Ficar na Série A com o dinheiro de TV, por mais injusta que seja a divisão, era essencial para sobreviver.

Eu, este ano, boicotei o futebol. Para mim, este é um campeonato sem legitimidade alguma (além de ser sem vergonha e sem qualidade). Não vi praticamente nada do Brasileirão. E me espanta como tanta gente que se dizia “decepcionada” segue lá, indo a estádios, pagando seu pay-per-view, fazendo parte deste ridículo espetáculo de cartas marcadas.

No ano passado, eu fui a 12 jogos da Portuguesa no Brasileiro. Gastei mais de mil reais com essa brincadeira. E aí? Quem eu devo processar?

A sociedade brasileira, que se diz tão preocupada com o futebol, deveria pressionar as autoridades para que paremos de bancar os bobos.

Se a Portuguesa se corrompeu, como parece, deve receber a punição mais dura de todas. Especialmente se estamos falando da alta diretoria, talvez presidência, ou seja, legítimos representantes do clube. Ir para a última das divisões. Suspensa de torneios nacionais. O que seja. Como disse o amigo Menon, a Portuguesa não merece uma lágrima derramada por ela – seus torcedores, sim.

Mas é justo que o corrompido pague duramente e o corruptor não?

Será que ninguém mesmo está preocupado em saber quem pagou, quem comprou, quem se beneficiou? É justo que esse também criminoso esteja na primeira divisão, livre, leve e solto? Seja por culpa própria, seja porque terceiros agiram em seu interesse?

Eu tenho o direito de saber. Todos temos o direito de saber. E, enquanto isso não ficar claro, o futebol brasileiro continuará nas trevas. Por mais que os mlihares de dependentes dele, econômicos ou emocionais, insistam em fingir que não.

 


Chega de redomas. Que o futebol preste suas contas
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Julio Gomes

O caso Sandro Rosell-Neymar-Santos-Barcelona é um. O caso Héverton-Fluminense-Sestário-Portuguesa-Flamengo é outro.

Dois imbróglios. Como tantos os que vimos e vemos no futebol, os dois casos nos deixam aquela sensação de “tem caroço nesse angu”, “onde tem fumaça, tem fogo”. Resumindo: “aí tem”.

O problema é que somos muito acostumados, aqui no Brasil, a deixar de lado o “aí tem”. Logo entram posições exacerbadas, a ideologia aparece na discussão, os poderosos usam a mídia como sempre, para favores e ajudinhas, e, de repente, o “aí tem” vira o “é melhor deixar como está”. Isso, no Brasil, serve para quase tudo. No futebol, no entanto, isso não é exclusividade nossa. É coisa de quase todos os lugares do mundo.

Se existem jogos manipulados e escândalos na Alemanha, que é o país importante mais sério do mundo, junto com o Japão, para qualquer que seja o tema que queiramos abordar, imaginem só o que não acontece no resto do planeta bola.

É que para nós, que amamos esse esporte, às vezes é melhor simplesmente fechar os olhos para essas coisas. Para jornalistas, grupos de mídia e envolvidos no futebol, só traria prejuízos ver a grande diversão do povo ser desmascarada e cair como um castelo de areia. Empregos seriam dizimados.

Mas o compromisso de todos nós, jornalistas ou não, sempre, deve ser com a verdade. Doa a quem doer. O que estamos vendo na Espanha e no Brasil, neste momento, é tão raro quanto relevante. Que a Justiça dos dois países pare e dê atenção para coisas que simplesmente não podem passar sem que sejam investigadas.

O caso Neymar é um escândalo e deve ser tratado como tal. Pessoalmente, disse em minhas tribunas, e na época eu comentava jogos na ESPN, que me parecia claríssimo que Neymar iria parar no Barcelona.

À época, e conhecedor como sou dos jornais espanhóis, me pareceu muito esquisito aquele final de 2011. Havia uma guerra entre Barcelona e Real Madrid por Neymar. Os jornais da capital (Marca e As) chegaram a dar como certo Neymar no Real, e nestes mesmos dias os jornais de Barcelona (Sport e Mundo Deportivo) simplesmente pararam de falar do brasileiro. Aí, de um dia para o outro, do nada, a coisa se inverteu. Neste momento, para mim ficou cristalino qual seria o destino do jogador.

Os jornais de lá ficam sabendo dessas coisas. Mas muitas vezes não podem publicar, é o ônus das relações próximas demais com os dois clubes. Só que, para bom entendedor, meia palavra basta. Um silêncio, às vezes, fala mais alto do que uma notícia. E a mudança de postura dos quatro jornais, na época, dava a letra do que estava por vir.

Poucos dias depois, no começo de novembro de 2011, veio aquele anúncio bizarro de renovação aqui em Santos. Em que a data de contrato era diminuída, sem que fosse anunciado o valor da multa. Para mim, e agora parece claro que eu tive a leitura correta da coisa, havia sido feito um acordo. Neymar seguiria no Santos por mais tempo, o que dava ao presidente do clube a chance de sambar na cabeça de todo mundo e bater no peito, como se fosse o grande patrono do Santos e do futebol brasileiro. Mas o atacante já tinha destino certo, o Barcelona, e restaria apenas saber quando. Possivelmente, ao final da temporada 2012. Ou então 2013 (que foi o que aconteceu). Valores? Nada a negociar. Já estava tudo negociado e até mesmo pago.

Os tais 40 milhões de euros a Neymar pai apareceram, ou melhor, desapareceram das contas do Barcelona, como mostrou no ano seguinte um dos dois jornais catalães (agora não me lembro qual). Já estava tudo certo, pago, arrumado. Na hora certa, seria feito mais um acordo pontual, mais um jogo de cena. Que foi o que fizeram um pouco menos de um ano atrás.

As “tentativas” do Real Madrid, no ano passado, me pareceram muito mais algo de quem já sabia o que tinha ocorrido, mas queria dar uma satisfação à torcida, fingindo que ainda estava tentando e botando a culpa no jogador por ter escolhido o rival. Jogo de cena puro.

O “problema” é que a tal da DIS botou grana nesse menino. E iria querer receber seu percentual exato da operação. E eu, se fosse dono da DIS, ficaria p da vida ao ver que tantos milhões foram pagos ao Santos em nome de prioridade na contratação de certos jogadores. Oras bolas. Esses tantos milhões seriam pagos, não fosse o negócio de Neymar?? Como assim esses valores NÃO são considerados parte do pagamento de Neymar?? É chamar de bobo, dar um tapa na cara e ainda querer beijinho.

O outro “problema” é que, ao contrário do que se fez por essas bandas, o Barcelona não conseguiu enganar e calar todo mundo por lá. Jornais sérios, um deles o “El Mundo”, começaram a jogar luz sobre algumas coisas. E o negocião foi sendo desmascarado pouco a pouco, a pedido de um sócio, em denúncia aceita pela Justiça. Antes mesmo de qualquer veredicto ser anunciado, Sandro Rosell renuncia ao posto que mais quis na vida: a presidência do Barcelona. Não dá para ter admissão maior de culpa no cartório.

Que a Justiça de lá vá até o fim. Para que todos saibamos quanto exatamente o Barcelona pagou para quem. Que o Santos fique com a parte dele, que tem de ser de 60%, somado tudo o que foi pago. E que a DIS fique com a parte dela. Não sou fã de grupos de empresários comprando jogadores de futebol, sou totalmente favorável a direitos econômicos ligados a entidades desportivas. Mas… o combinado não sai caro. E o investidor tem de receber o que dele é de direito enquanto a lei seguir sendo a porcaria que é.

E que a Justiça de cá também vá até o fim no caso que mudou a classificação final do Campeonato Brasileiro. Bato palmas para o Ministério Público de São Paulo, que rapidamente percebeu que era necessário ir além. Estamos todos de saco cheios de teorias conspiratórias. Que tudo seja investigado, investigado de verdade, por entidades isentas. Por que, afinal, dois erros bizarros de escalação de jogadores irregulares ocorreram justo na última rodada do campeonato? Vejo os auditores e promotores do nefasto STJD pouco preocupados com isso desde o início. Parece que agora, afinal, iremos para frente com investigações que devem e precisam ser feitas.

Uma entidade como a CBF não pode continuar fazendo o que quer, como quer, do jeito que quer com o futebol brasileiro. Esse é um país de leis. E o futebol não pode estar acima delas.

Cá, como lá, não seria nada mal que tudo isso acabasse com renúncias e, por que não, xadrez nos envolvidos.

 


Vai sobrar para a maior culpada: a CBF. Que venha a Liga!
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Julio Gomes

Saiu a primeira liminar. A Justiça mandou a CBF devolver os quatro pontos tirados do Flamengo. É uma questão de tempo para que o mesmo seja feito para a Portuguesa. É questão de tempo até que algum indivíduo, também baseado no Estatuto do Torcedor, consiga alguma liminar proibindo um Campeonato Brasileiro 2014 com mais de 20 times.

Porque vejamos. Em outros tempos, era fácil. Deu confusão? Vai lá a CBF e “acomoda” todo mundo. Como fez em 97, quando o Brasileiro teve Fluminense e Bragantino, rebaixados um ano antes. Como fez em 2000, com a criação da Copa João Havelange após todo o imbróglio Gama-Sandro Hiroshi. O Estatuto veio para isso, entre outras coisas. Para evitar a bagunça, as “acomodações cebeefianas”.

E agora?

O que será do Brasileiro 2014?

À CBF, resta torcer. Torcer para que a liminar pró-Flamengo e as que possivelmente virão pró-Portuguesa caiam. Se elas não caírem, o que farão os cartolas? Rebaixarão o Fluminense, desautorizando seu próprio tribunal? Tentarão o campeonato de 24 clubes, sob risco de novas liminares?

A batata quente vai parar no colo de quem realmente merece se queimar.

Nada disso teria acontecido, fosse a CBF uma instituição que minimamente cuidasse de seu produto. Divulgasse e publicasse suspensões. Tivesse um simples sistema que impedisse a escalação de jogadores que não podem atuar (para que servem os delegados dos jogos?) Tivesse um tribunal de penas, não o patético STJD, sem qualquer credibilidade e fanático por holofotes. Tivesse, enfim, regras e métodos claros e cristalinos, não feitos para dar margem a viradas e tapetadas.

A CBF, no fim das contas, é a grande culpada por toda a confusão. Agora, que aguente o rojão. Foi-se o tempo em que as pessoas ficavam passivas diante de mandos e desmandos.

A Confederação Brasileira de Futebol deveria ter dois, somente dois objetivos. 1) Zelar pelas coisas da seleção brasileira. Cuidar para que os jogadores e outros profissionais da seleção tenham as melhores condições de trabalho possíveis, fechar grandes contratos e fazer dinheiro com um dos maiores produtos do futebol mundial; e 2) Usar esse dinheiro para fomentar e aperfeiçoar a prática do esporte no país. Cuidar do futebol amador, da formação de altíssimo nível de dirigentes, técnicos, fisios, preparadores físicos e, claro, jogadores.

Campeonatos não são coisa da CBF. Não têm de ser. Ela já mostrou, ao longo dos anos, que não entende NADA disso.

Que essa bagunça toda sirva para a criação, afinal da Liga de Clubes. Como fizeram os ingleses, 20 anos atrás, transformando um campeonato de futebol horroroso na liga mais rica e assistida do mundo. Como fizeram todos os europeus, enfim, ano após ano. Que os clubes brasileiros sentem na mesa, busquem regras que sirvam para todos, de forma democrática e justa, e passem a organizar o próprio campeonato. De olho no próprio campeonato, não nos próprios interesses.

Basta encontrar alguém que fale alemão. Peguem o modelo da Bundesliga, de fair play financeiro, exigências de qualidade no futebol de base, distribuição justa (em função de desempenho) do bolo da TV. Traduzam. E apliquem. Não é preciso fazer mais.

 


Portuguesa já foi violentada. Agora só falta matar
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Julio Gomes

É difícil saber o que irrita mais em toda a história da virada de mesa que resulta, no momento, no rebaixamento da Portuguesa, salvação (mais uma!!) do Fluminense.

Irrita ver a destruição total da credibilidade de um campeonato que vinha se reerguendo pouco a pouco, após tantos anos de mandos, desmandos, regulamentos bizarros, Teixeiradas e Euricadas.

Irrita perceber a quantidade de coisas estranhas em sequência no julgamento de cartas marcadas. Vejamos:

Uma punição de dois jogos para uma expulsão que TV alguma conseguiu mostrar. Expulsão que, como mostra o levantamento da ESPN, em menos da metade dos julgamentos rende tamanho gancho. Na sequência do ocorrido, na calada da noite de uma sexta-feira, o obscuro advogado não informa o clube sobre a pena. A Portuguesa cai na armadilha com todo o amadorismo que tem direito. Aí, antes mesmo de a CBF indicar o erro, o procurador-geral Paulo Schmitt decreta a “falência do STJD” caso a Portuguesa não seja declarada culpada. Que velocidade!! Que gatilho, amigos! O mais rápido do oeste. Ou melhor, o mais rápido da zona sul.

O mesmo Schmitt que, três anos atrás, dizia, antes mesmo de analisar uma jurisprudência que poderia prejudicar o então campeão Fluminense, que seria “imoral” desrespeitar o resultado do campo. E aí, afinal, chega o julgamento. Em que a Portuguesa se defendeu de maneira quase tosca, mas em que ficou claro que poderia estar lá o maior advogado de todos os tempos que nada adiantaria. O relator abriu sua pastinha, levou a lição de casa, leu o que já havia preparado antes mesmo de escutar a defesa. E os outros, convenientemente, apenas “seguiram o relator”.

Irrita que estes senhores não tenham, pelo menos, disfarçado.

Como também irrita o disfarce maior, este sim, um álibi perfeito. Pune-se também o Flamengo, mas sem prejuízo algum para o clube mais popular do Brasil. Assim, podem adotar o discurso do “este tribunal não tem olhos para poderosos e fracos, pune todos da mesma forma. Punimos a Portuguesa, mas punimos também o Flamengo”.

Irrita, como não, o discursinho do Fluminense de “não temos nada a ver com isso”. Mas que coisa! Para quem dizia que “apenas aguardava”, não é que mandaram o advogado lá para participar do julgamento? Prontinhos para entrar com recurso. Que cara de pau.

Irrita ver como torcedores do Fluminense comemoraram uma vitória no tribunal. Burros! Isso mesmo, burros. Não percebem o mal que isso fará ao clube. O tricolor dispara na lista de clube mais antipático do país. E não se esqueçam de que ele faz parte do campeonato que teve sua credibilidade destruída. Perderão dinheiro todos os envolvidos, incluindo o próprio Fluminense. Um ano de Série B apagaria as viradas de mesa do passado, traria uma comunhão nova entre time e torcida, teria muito mais prós do que contras. Será muito mais humilhante para o tricolor ver seu time na Série A do que na Série B em 2014.

Irrita pensar que Héverton não teve nenhuma importância para o campeonato. Jogou pouco mais de 90 minutos, somando todas as partidas do campeonato. Não fez a menor diferença no jogo contra o Grêmio. E, mesmo que tivesse feito alguma diferença, o jogo em si não fazia diferença alguma para a Portuguesa.

Irrita pensar nos sete pontos que a Portuguesa perdeu no campo, antes de perder os quatro fora dele. O único time do campeonato todo que não ganhou um ponto sequer por erros de arbitragem (desafio alguém a mostrar o contrário). Sim, os erros vêm e vão, todos os times são ajudados aqui, atrapalhados ali. Menos a Portuguesa. Só foi prejudicada, o tempo inteiro, o ano todo. Até o também pequeno Criciúma, na hora H, ganhou um pênalti amigo contra o São Paulo na penúltima rodada. Que certamente compensou outros tantos erros. Para a Lusa, não teve pênalti mal dado nem expulsão esquisita nem nada de nada.

Um dos pontos tirados da Portuguesa foi, vejam só que coincidência, contra o próprio Fluminense. No campo também teve ajuda, pois. Não sou eu quem conta, é o Juca Kfouri mesmo.

Ao longo do ano, a Portuguesa foi estuprada pelas arbitragens da CBF. E ainda levou a culpa no fim. “Também, olha a saia curta que ela estava usando! A culpa é da moça…”

Paulo Maluf soltou, entre tantas outras bobagens na vida, aquela frase do “estupra, mas não mata!”. José Maria Marin sucedeu Maluf no governo biônico do Estado de São Paulo, nos anos 80.

A CBF de Marin já estuprou a Portuguesa. O STJD de Schmitt já deu o tiro no estômago. Falta só matar. No dia 27. Já tem data para o tiro de misericórdia, na cabeça.

Quem clama pela justiça da bola, só tem um pedido a fazer. Piedade. Estuprem, mas não matem!

 


Porque não são só os 4 pontos. É por justiça
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Julio Gomes

“Teu dever é lutar pelo Direito. Mas no dia em que encontrares o Direito em conflito com a Justiça, luta pela Justiça.”

A frase é do jurista uruguaio Eduardo Couture.

A frase resume o embate de hoje. O direito contra a justiça. Acho que já estamos todos cansados de saber o que aconteceu.

A Portuguesa não deveria ter inscrito Héverton para o último jogo do campeonato. A Portuguesa não foi avisada de seu absurdo gancho de dois jogos, definido na calada da noite de sexta-feira. Ou foi avisada e bobeou em seu próprio amadorismo, que se confunde com o de todo nosso futebol.

Não houve dolo. A Portuguesa poderia perder o jogo que ainda assim cumpriria seu objetivo único no campeonato. Não houve má fé. Não houve benefício técnico. Não houve desequilíbrio à tabela final de classificação do campeonato. O mesmo serve para o Flamengo, que escalou André Santos no inútil jogo contra o Cruzeiro.

O Fluminense vai perder a chance de uma história de mostrar grandeza. De respeitar o que pensa uma parte significante de sua torcida. Não deveria participar do julgamento. Não deveria se mexer nos bastidores. O Fluminense perderia pouquíssimo dinheiro e ganharia muitíssima dignidade jogando e ganhando a Série B. Prefere, no entanto, um carimbo na testa. Mais um.

Grandes clubes do futebol brasileiro aderiram à causa portuguesa. Porque sabem que só existe um lado ético e moral nesta história e porque sabem que manter a integridade, a pouca credibilidade adquirida pelo campeonato nos últimos 7 anos, é fundamental. Para o Fluminense, para os outros clubes, para os patrocinadores, para absolutamente todos, será péssimo que o direito fale mais alto que a justiça.

Se os engravatados do STJD obedecerem seu suspeitíssimo procurador, que pensava uma coisa em 2010 e pensa outra em 2013, o resultado da bola terá sido jogado no lixo. O choro, o sorriso, a tensão, tudo terá sido em vão pela decisão de um tribunal que nem mesmo deveria existir.

Se a Portuguesa for rebaixada na marra, estará sendo decretada a pena de morte para um ladrão de galinhas. Será a falência definitiva do que insistimos chamar de “esporte do povo”.

Vozes importantes de nossa sociedade já se manifestaram. Gente que vive e entende o futebol muito mais do que o engravatado que quer aparecer no fim do ano e sonha com momentos como este para alçar voos mais altos lá na frente. Tentei encontrar vozes de peso clamando pela permanência do Fluminense na primeira divisão. Não encontrei nenhuma. Apenas juridiquês, nada além disso.

Este país mudou nos últimos 6 meses. Não aceitamos mais as injustiças tão facilmente, calados, sentados, escondidos. Quem ama o futebol, vista a camisa de seu clube e vá à Rua da Ajuda, número 35, Rio de Janeiro, hoje à tarde. Sim, ironicamente, este é o endereço do local em que a Portuguesa chega condenada, mas de onde podemos sair todos salvos.

Eu não tenho muito mais a dizer. Essa turma aqui abaixo fala por mim. Que vença a justiça.

 

“Os donos da justiça”, por Ugo Giorgetti

O “mercado” não suporta a Portuguesa, não entende a sua existência, porque ignora o valor de noções como honra, altivez, brio e orgulho próprio. Na realidade, a Portuguesa é o único time no futebol brasileiro que não se enquadra, ou, se preferirem, que não se curva. Todos os outros enchem estádios, compram os produtos e são comportados. Os que são grandes são grandes, os pequenos são pequenos, e cada um fica em seu devido lugar pacificamente. Só a Portuguesa não se enquadra nesse esquema. O problema dela á que é grande apenas no campo, e isso é uma verdadeira sentença de morte. Nada deve se esperar da justiça esportiva. Os burocratas, linha de frente dos donos do futebol, não perdoam. Estão sempre vigilantes, Código Penal em punho, buscando alternativas para a eventualidade de o time não perder em campo.

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,os-donos-da-justica-,1108764,0.htm

 

“De mesas virantes e tapetes”, por Gustavo Poli

O problema é que essa injustiça é tão grande que afeta os fundamentos do mesmo jeito. Esporte precisa de credibilidade – e até os vitrais das Laranjeiras sabem que o Fluminense mereceu cair no campo. O clube, que convive há onze anos com o fantasma do salto em altura divisional de 2000, pode virar símbolo de tudo-aquilo-que-é-no-futebol-brasileiro. Será que vale a pena? Entre tapetes aéreos e mesas virantes, a primeira partida decisiva da 39a rodada será disputada na próxima segunda-feira. Ironias desta terra: o futebol brasileiro sairá pior da sala do STJD se as regras forem cumpridas.

http://globoesporte.globo.com/blogs/especial-blog/coluna-dois/post/de-mesas-virantes-e-tapetes.html

 

“O calor das vitórias se impõe à frieza das leis”, por João Máximo

Se a Portuguesa cair, ele (o Fluminense) sobe. Ou melhor, fica onde, pelo futebol que jogou, não merece ficar. Por mais doloroso que pareça ao coração de seus torcedores, permanecer na segunda divisão — assumi-la de cabeça erguida, partir para reerguer-se, lutar digna e legitimamente por um 2014 melhor — será gesto mais à altura de um grande clube do que voltar novamente pela janela.

http://oglobo.globo.com/esportes/campeonato-brasileiro-2013/o-calor-das-vitorias-se-impoe-frieza-das-leis-11075574?fb_action_ids=671171826238224&fb_action_types=og.recommends&fb_source=other_multiline&action_object_map=%5B1379809668939048%5D&action_type_map=%5B%22og.recommends%22%5D&action_ref_map=%5B%5D

 

“Carta para Peter Siemsen”, por Erich Beting

O senhor pode escrever uma grande história nessa segunda-feira, caro Peter Siemsen. E o resultado de uma atitude de grandeza pode ser muito maior do que um oportunismo que mascara os erros de um ano ruim. Espero, caro Peter, que o sentimento de Justiça exista em seu íntimo. O egoísmo, quase sempre, só traz problemas mais à frente. Somos seres que vivemos em sociedade. E, por isso mesmo, em alguns instantes estamos por cima e em outros, por baixo. Afinal, feio não é cair. É não fazer nada e deixar o outro cair para se safar.

http://negociosdoesporte.blogosfera.uol.com.br/2013/12/14/carta-para-peter-siemsen/

 

“Garfando a Portuguesa”, por Hélio Schwartsman

Na verdade, para defender que a Lusa deva ser rebaixada é preciso recorrer a um formalismo jurídico rigoroso que, se já é difícil de sustentar no direito comum, torna-se risível no futebol. É óbvio que normas são importantes. Mas não se pode esquecer que elas são um meio para promover a paz social e outros objetivos relevantes, não um fim em si mesmo.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2013/12/1384870-garfando-a-portuguesa.shtml

 

“Tapetão não é preciso”, por Xico Sá

Qualquer outra decisão da sala da justiça da CBF será desmoralização. Essa história de letra fria da lei é cascata. Nem a nossa suprema corte usa mais. Ser justo é diferente de ser friamente legal e etc.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/xicosa/2013/12/1385610-tapetao-nao-e-preciso.shtml

 

“Vem aí a 39ª rodada”, por Juca Kfouri

Na ordem do dia está o julgamento que será feito por quem jamais chutou uma bola, com pompa e circunstância e sem temor do ridículo, num tribunal que mais parece a capitania hereditária dos Zveiter. De tudo, resta dizer que a toga é inimiga de quem joga e que amanhã será mais uma data a ser lembrada como vergonhosa no dito país do futebol.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/2013/12/1385822-vem-ai-a-39-rodada.shtml

 

“A justiça da bola ou um pôster do Paulo Schmitt?”, por Márvio dos Anjos

Não entendo gostar mais de regulamento que de futebol. É claro que toda competição precisa de regulamentos. Não sejamos simplórios, não precisamos recuar até esse estágio primitivo do debate. Só que o regulamento tem de preservar o resultado que se consumou no campo, e não lhe roubar os holofotes.

http://globoesporte.globo.com/platb/marvio-dos-anjos/2013/12/15/a-justica-da-bola-ou-um-poster-do-paulo-schmitt/

 

“Mesmo quem mata pode ser absolvido. A Portuguesa deve ser absolvida. Até porque não “matou” ninguém”, por Mauro Cezar Pereira

Uma coisa é escalar um atleta e se beneficiar nitidamente disso. Outra é cometer um deslize, por mais ridículo que possa ser, mas tal erro em nada alterar o andamento do jogo e da competição. A simples argumentação de que essa é a regra e ponto final soa pobre, rasa e conveniente. Seu defensores, em muitos casos, advogam em causa própria.

http://www.espn.com.br/post/376438_mesmo-quem-mata-pode-ser-absolvido-a-portuguesa-deve-ser-absolvida-ate-porque-nao-matou-ninguem

 

“Gol de advogado”, por Paulo Vinícius Coelho

No mundo inteiro, se um time escala jogador irregular perde os pontos que conquistou em campo. No caso de Héverton, a Portuguesa perderia o ponto que conquistou em campo. Só!

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/pvc/2013/12/1385823-gol-de-advogado.shtml

 

“Agora somos todos da Portuguesa desde criancinhas”, por Ricardo Kotscho

Se eu fosse torcedor do Fluminense, teria vergonha de ver meu time ganhar assim. Juro que eu preferiria ver o meu São Paulo na Segunda Divisão, de onde foi salvo pelo Muricy e não por qualquer togado, do que passar o vexame de torcer por um time que não consegue se manter em pé com as próprias pernas.

http://noticias.r7.com/blogs/ricardo-kotscho/2013/12/15/agora-somos-todos-da-portuguesa-desde-criancinhas/

 

“O futebol e o mundo mudaram”, por Tostão

Mesmo se for clara, a regra não pode estar acima do bom senso e da justiça, pois existe uma certeza, a de que a Lusa não agiu por má fé nem se beneficiou pelo provável erro. Deveria ser punida de outra forma, e não com a perda dos pontos.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/tostao/2013/12/1385824-o-futebol-e-o-mundo-mudaram.shtml

 

“Coluna dominical”, por André Kfouri

É inaceitável que em uma era em que telefones celulares inteligentes fazem leitura de códigos de barras para transações financeiras, um clube dependa de um telefonema, na noite de sexta-feira, para saber quais jogadores estão impedidos de atuar no fim de semana. De fato, a questão central vai um pouco além: é inaceitável que um clube corra o risco de escalar um atleta suspenso em um jogo do principal campeonato do país que vai receber a Copa do Mundo. É algo que não acontece em torneios escolares.

http://blogs.lancenet.com.br/andrekfouri/2013/12/15/coluna-dominical-234/

 

“Em 2013, o futebol brasileiro foi massacrado”, por Menon

O futebol brasileiro foi massacrado em 2013. Foi motivo de chacota. A grande emoção do Brasileiro, após 380 jogos, é saber se o Vasco vai conseguir escapar no Tribunal. Não foi. É saber se o milionário Fluminennse, que caiu no campo, vai voltar no Tribunal. Hoje, o que vale é ter um bom advogado.

http://blogdomenon.blogosfera.uol.com.br/2013/12/15/em-2013-o-futebol-brasileiro-foi-massacrado/

 

“Clássico dos tribunais decidirá o Brasileirão”, por Eduardo Tironi

O artigo “Cães, ursos e a burocratização do futebol” (está na internet) fala sobre o perigo de se cumprir uma Lei apenas pelo que está escrito sem levar em conta a intenção da regra. Nele, o autor André Castro Carvalho, bacharel, mestre e doutor em Direito pela USP, dá o seguinte exemplo: em uma cidade da Polônia, uma Lei impedia a entrada de cachorros em trens. Um cidadão que chegasse com um urso entraria no vagão. Um cego com um cão guia, não.

http://blogs.lancenet.com.br/tironi/2013/12/15/classico-dos-tribunais-decidira-o-brasileirao/

 

Ives Gandra Martins, jurista

O STJD poderia apenas aplicar uma multa em cima da Portuguesa. Eu não tenho nada contra esse procurador (Paulo Schmitt), mas tudo que acontece com ele é extremamente estranho. Todos acham que a Portuguesa tenha que ficar. Esse sujeito está se mostrando um inimigo do futebol brasileiro. Não acredito que ele seja desonesto, mas tem uma nítida preferencia pelo Fluminense.

http://esporte.band.uol.com.br/futebol/brasileirao-serie-a/2013/noticia/Default.asp?id=100000651381&t=ives-gandra-questiona-feudo-familiar-do-stjd-e-ataca-schmitt.html

 


Em 2010, procurador do STJD pediu “moralidade” para manter título do Flu
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Julio Gomes

O discurso feroz de Paulo Schmitt, procurador-geral do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva), tem chamado a atenção. “Não vejo escapatória para a Portuguesa. Seria a falência do STJD”, bradou o procurador, antes mesmo de a denúncia chegar ao tribunal, antes mesmo de o clube apresentar sua defesa.

Mas, em 2010, não foi assim.

O STJD, na época, absolveu um jogador do Duque de Caxias, da Série B. Havia levado cartão amarelo por um clube, outros dois por outro, mas só cumpriu suspensão após levar os três com a camisa do Duque. Se a mesma regra fosse aplicada ao Fluminense, que havia vivido situação semelhante com o jogador Tartá, na Série A, o clube carioca poderia perder pontos por escalar o atleta de forma irregular. Com isso, perderia o título conquistado no campo em 2010.

Não importa o imbroglio jurídico. Estamos falando sobre o posicionamento do procurador-geral.

Vejam o que falou Paulo Schmitt naquela ocasião, ao Sportv: “Não acredito que haja condição moral, disciplinar, até (de tirar os pontos do Fluminense). Pode ter (condição) técnica. Técnica, jurídica, com base em uma jurisprudência. Mas moralidade… rediscutir o título que foi conquistado no campo de jogo, da forma como foi, agora (ao final do campeonato), abrindo um precedente… Essa decisão poderia ser em algum momento revista, mas isso seria um caos.”

O vídeo está abaixo.

Muito bem. Em 2010, portanto, levar a lei a ferro e fogo, de acordo com a jurisprudência criada pelo próprio STJD, acabaria tirando pontos e o título do Fluminense. Na época, Paulo Schmitt considerava uma falta de “moralidade” a “rediscussão do título conquistado no campo”.

Em 2013, o procurador-geral não parece nem um pouco preocupado com o que aconteceu no campo. No campo, a Portuguesa se salvou do rebaixamento. E a escalação irregular de Heverton, em um jogo em que mesmo perdendo a Portuguesa estaria salva, não fez a menor diferença para isso. Em campo, o Fluminense caiu. Mas, para Schmitt, três anos foram suficientes para adotar postura inversa.

Vamos o que disse Schmitt anteontem e ontem sobre o caso que pode rebaixar a Portuguesa e resgatar o Fluminense para a primeira divisão. : “Se clubes não puderem perder pontos quando culpados, passa a ideia de que se faz julgamento político, e não técnico. Se houver interesses clubísticos em julgamentos e as normas não forem aplicadas de acordo com o Direito, é a falência das nossas instituições.”

“Essas expressões passam a ideia de canetada na calada da noite. Estamos falando em julgamento, processo. A lei é para todos, e não só para Flamengo (que também pode perder pontos, mas sem consequência para rebaixamento) ou Portuguesa. Se a legislação não for aplicada, é um desrespeito com dezenas de clubes e jogadores que cumprem suas obrigações nos campeonatos.”

“Atletas são punidos desde os primeiros jogos, isso é critério técnico. Se os atletas não cumprem a punição, isso acaba impactando a isonomia, o tratamento igualitário para aqueles que estão na mesma condição jurídica. Tecnicamente, há uma irregularidade, não tenho dúvida nenhuma. Se você tem uma circunstância evidente sobre a perda de pontos e você vira as costas para isso, aí está assinada a falência de qualquer entidade que cuida dos devidos processos. Estamos todos trabalhando para que o futebol tenha moralidade.”

Três anos atrás, o critério técnico deveria ser ignorado em nome da moralidade. A moralidade, para Paulo Schmitt, era que o resultado do campo NÃO fosse alterado.

Hoje, o critério técnico não pode ser ignorado. A moralidade, agora, é outra coisa. É o próprio critério técnico. Ou seja, a moralidade de Schmitt, agora, é, SIM, alterar o resultado do campo.

E aí, Paulo Schmitt? Quando valem critérios técnicos, afinal? E qual a moralidade que você prefere? Depende do clube envolvido? Perguntar não ofende.

Atualização:

Após a divulgação do vídeo, Schmitt se defendeu em sua página no Facebook. “Trata-se de uma fala descontextualizada, mais se assemelhando a algo montado ridículo”. Está claro que não há montagem alguma. E não há nada fora de contexto. Ninguém está julgando a condição correta ou incorreta de Tartá em 2010 mas, sim, a postura completamente diferente do procurador para um caso parecido com o de hoje.

Em 2010, o STJD nem mesmo apresentou denúncia, para “preservar o resultado de campo”. Em 2013, mostra-se desesperado em busca de uma condenação que apaga o que foi feito em campo. A justificativa, na íntegra, está neste link. Dou meus parabéns para quem conseguir entender.