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São Paulo é o ‘azarado’ do sorteio da Libertadores
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Julio Gomes

No mesmo dia do sorteio das oitavas de final da Champions League, a Conmebol realizou o sorteio das fases preliminares e da fase de grupos da Libertadores da América 2019.

São muitos times brasileiros, e quem mais pode reclamar da sorte é o São Paulo. Quem não pode reclamar de jeito nenhum são Cruzeiro, Atlético Mineiro e Flamengo.

O São Paulo enfrentará o argentino Talleres, de Córdoba, na pré-Libertadores. Se passar, provavelmente terá como rival o Independiente de Medellín, que ficou com o vice-campeonato colombiano no último domingo. Dois mata-matas difíceis logo no começo do ano.

Na América do Sul, é sempre difícil saber quem vem pela frente. O time de Medellín sofrerá algum desmanche ou se manterá forte? De qualquer maneira, é uma camisa tradicional e uma viagem longa para a Colômbia.

O Talleres ocupa uma posição intermediária na Argentina, mas não é um rival muito diferente do Defensa y Justicia e do Colón, argentinos medianos que recentemente eliminaram o São Paulo da Sul-Americana.

Se passar dessas duas eliminatórias, o São Paulo cairá no grupo 1, com “só” o River Plate e o Internacional, além do Alianza Lima, do Peru. Pode ser o grupo da morte.

Neste ano, o Vasco passou pela pré para cair em um grupo com Cruzeiro e Racing (e ser eliminado). No ano passado, o Botafogo também caiu em um grupo da morte após passar pela pré-Libertadores, mas conseguiu carregar o momento e chegar ao mata-mata. Ou seja, já teve time se aproveitando do momento trazido pela eliminatória preliminar, já teve time que não conseguiu usar o embalo a seu favor. Vamos ver o que será do São Paulo.

Outro que tem um grupo complicadinho pela frente (no papel) é o Palmeiras, que tem pela frente o San Lorenzo, da Argentina, o Junior de Barranquilla, campeão colombiano e vice da Sul-Americana, e um time que vem da pré-Libertadores, possivelmente a Universidad de Chile.

Assim como o Inter, o Grêmio é outro em grupo que pode se mostrar difícil, com a Católica, do Chile, o Rosario Central, da Argentina, e um time que virá da fase preliminar e será, provavelmente, ou o Libertad, do Paraguai, ou o Atlético Nacional, da Colômbia.

O Atlético Paranaense está no grupo do Boca Juniors, mas os outros rivais são o Jorge Wilstermann, da Bolívia, e o Tolima, da Colômbia.

Os brasileiros que não podem reclamar da sorte, por outro lado, são o Flamengo e os dois grandes mineiros.

O Flamengo enfrentará o Peñarol, a LDU de Quito e um time da Bolívia. Nenhum bicho papão.

O Cruzeiro está no grupo com o Emelec, do Equador, o Huracán, da Argentina, e o Deportivo Lara, da Venezuela. O Cruzeiro é, desde já, o favorito a passar da fase de grupos com a melhor campanha da Libertadores.

O Atlético Mineiro está na pré-Libertadores. Primeiro, enfrenta o Danubio, do Uruguai, e depois, provavelmente, o Barcelona de Guayaquil, do Equador. Se passar, cai em um grupo acessível, com Nacional uruguaio, Cerro Porteño, do Paraguai, e Zamora, da Venezuela.

A vida do sexto colocado do último Brasileiro é, em teoria, mais fácil que a do quinto, o São Paulo.

A Libertadores não é a Champions. A América do Sul não é a Europa. Os times mudam demais, às vezes radicalmente, de um ano para o outro. No ano que vem, talvez os grupos que hoje parecem fortes sejam, na real, fracos. E vice-versa. Mas quem passará a virada de ano com mais dores de cabeça, sem dúvida, é o torcedor são-paulino.


River Plate dá recado ao Real em Madrid: no Mundial, é 50-50
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Julio Gomes

No domingo à tarde, o Real Madrid suou sangue para ganhar por 1 a 0 do Huesca, último colocado do Campeonato Espanhol. Isso foi lá em Huesca, a 4 horas da capital. De noite, no estádio Santiago Bernabéu, os protagonistas foram outros. Com estádio dividido e ambientaço de futebol (que sei lá desde quando o Bernabéu não vivia), o River Plate fez 3 a 1 no Boca Juniors e se tornou campeão da América.

Salvo qualquer catástrofe, River Plate e Real Madrid estarão decidindo o campeão mundial no sábado que vem.

E, se no ano passado o Grêmio já tinha condições de vencer o Real, neste ano eu vou mais longe: é 50-50. Isso mesmo.

Até porque este River é melhor que o Grêmio-2018. E este Real é pior que o Real-2018.

Assim como o São Paulo, em 2005, e o Corinthians, em 2012, o River Plate terá a sorte de enfrentar um campeão europeu que não é o melhor time da Europa. O Liverpool ganhou a Champions por acaso em 2005, o Chelsea da mesma maneira em 2012, e o Real Madrid esteve para lá de iluminado na última Champions. Havia times melhores. E, mesmo que alguém discorde disso, as saídas de Zidane e Cristiano Ronaldo tiveram impacto tão grande na temporada que o Madrid já até demitiu técnico.

Na atual temporada 18/19, o Real já perdeu de Levante, Alavés, CSKA Moscou… já levou 5 do Barcelona, 3 a 0 do Sevilla e do… Eibar (!!!).

Não é um time confiável. Joga mal, não tem padrão. Tem qualidade individual técnica, lógico, mas o futebol é cada vez mais coletivo.

Tampouco era confiável no ano passado. Mas ainda tinha Cristiano Ronaldo. E o Grêmio não tinha Arthur e não teve coragem para encarar de frente.

Já o River Plate tem um time completo, técnico, que gosta de jogar com a bola, mas sabe atual na transição em velocidade. Tem no banco de reservas, por exemplo, um talento como Quintero, o colombiano que decidiu a final da Libertadores no Bernabéu. Só é ruim, ruim para chuchu, nas bolas altas defensivas.

Essa coisa de a final da Libertadores ser disputada pertinho do Mundial é muito benéfica para os times sul-americanos. Porque chegam com ritmo, com adrenalina lá no alto e não perdem jogadores-chave entre torneios. A aproximação das datas é um fator de equilíbrio em um confronto que, nas últimas duas décadas, não teve nada de equilíbrio.

O River Plate passou, em sua campanha de título, por um grupo pesado na primeira fase, Racing, Independiente, Grêmio e Boca (somados, 17 títulos de Libertadores). É um River redondinho contra um Real Madrid claudicante.

Tem jogo.


Final da ‘Conquistadores’ não pode apagar nossa tragédia
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Julio Gomes

Tenho alguns bons amigos do Boca Juniors, alguns bons amigos do River Plate. Um deles, do River, foi de São Paulo a Buenos Aires para a final de duas semanas atrás. Foi ao estádio no sábado e foi de novo no domingo. Voltou para casa com uma frustração do tamanho de seu corpanzil.

Outro, que mora em Madrid há quase duas décadas, talvez nem saiba mais como é torcer por seu time no estádio. Apesar da total desconexão, tem uma foto com Maradona e camisa do Boca no hall de entrada de seu apartamento, foto que prova que um dia ele teve cabelo, e terá a estranha possibilidade de ver o seu Boca jogar por mais uma Libertadores… na cidade que adotou.

É bizarro que a final da Libertadores da América seja em Madrid, capital da Espanha. Será a final da Conquistadores da América? Tenho certeza que a cartolagem barriguda e fumadora de charuto leu poucos livros de história na vida. Eles são mais das finanças, mesmo. Nem sabem o paradoxo que promovem.

É verdade também que os espanhóis, hoje, não têm mais o afã imperialista e assassino de outrora. Nesse sentido, se pensarmos em Conquistadores contemporâneos, mais bizarra seria uma final em Miami – não se enganem, este é o grande sonho da cartolagem, que consegue ter a final única que tanto queriam em campo neutro, oficial a partir de 2019, na prática a partir de 2018.

Tudo o que envolve esta final de Libertadores é uma tristeza. A incapacidade de organizar um evento, de encontrar os culpados, de desafiar quem usa o futebol para agredir e machucar, a incapacidade de acordo entre partes opostas, a incapacidade de fazer a “maior final de todas”.

Pois, então, cruza-se o oceano com o rabo entre as pernas e orelhinhas abaixadas. E vamos lá, pedir ajuda a quem sabe o que faz. E o pior é há nem mesmo como debater nosso vira-latismo.

A final de hoje será espetacular. Madrid está tomada de argentinos, e, seja os que foram até a Espanha, seja os que lá vivem, todos sabem como torcer e apoiar em um estádio de futebol. O Bernabéu estará dividido em dois, com duas torcidas fanáticas. Possivelmente será quebrado qualquer recorde de decibéis, se é que existe uma medição assim.

O jogo tem tudo para ser bom. Ao River, a punição acaba sendo grande e justa – não jogar a final diante de sua torcida. Ao Boca, a chance de ganhar o título no campo, não no tapetão, com a motivação extra por tudo o que ocorreu.

A final acabará sendo vista e acompanhada em toda a Europa. Talvez até mostre para muitos europeus que nossos hábitos nas arquibancadas são muito mais legais do que os deles.

Estou tentando ver o copo meio cheio. Mas o copo já foi derramado inteirinho.

A final de Madrid, com ambiente maravilhoso e repercussão mundial, não pode apagar o que aconteceu. Não podemos ficar entorpecidos pela última impressão. O êxtase de quem está em Madrid contrasta com a depressão em Buenos Aires. A América Latina precisa repassar seu futebol de cabo a rabo, tanto em termos técnicos quanto no posicionamento social.

Só corrige seus erros quem sabe e admite que errou.

 


River x Boca é a maior final da história da Libertadores
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Julio Gomes

River Plate x Boca Juniors. Boca Juniors x River Plate. O clássico mais famoso da América do Sul, um dos maiores do mundo, decidirá o campeão da Copa Libertadores.

Será não só a primeira final entre eles, mas também a primeira final argentina da história (houve dois entre brasileiros). Até poucos anos atrás, o regulamento forçava duelos entre times do mesmo país em fases anteriores, para impedir decisões domésticas. Há um pouquinho mais de tempo, nem havia mais do que dois representantes de cada país.

River e Boca conseguiram montar ótimos times de futebol. São melhores do que os brasileiros, simples assim. Neste momento, são os dois grandes times do continente. E, quem for campeão, tem chance verdadeira de encarar um claudicante Real Madrid no Mundial de Clubes.

Aliás, você não verá argentinos falando sobre o Mundial, essa obsessão é coisa bem nossa. Ganhar a Libertadores, ainda mais em uma final com estes envolvidos, basta por si só.

A semifinal entre River e Grêmio poderia ter caído para qualquer lado, foi no detalhe. Mas a semi entre Boca e Palmeiras teve claramente um time melhor do que o outro.

O Palmeiras pagou pela covardia do primeiro jogo. Foi à Bombonera para empatar e ficará para sempre lamentando o que poderia ter acontecido, tivesse feito um jogo mais ousado e corajoso, como o Grêmio no campo do River.

O Boca fez o oposto nesta quarta à noite. Foi melhor do que o Palmeiras no primeiro tempo, jogou bola, não se preocupou em ficar fazendo cera ou antijogo. O meio de campo do Boca não rifou bola alguma e se recusou a montar uma retranca. Isso só foi acontecer por alguns minutos no segundo tempo, quando o Palmeiras conseguiu a virada e pressionava em direção ao sonho.

Mas aí o 2 a 2, marcado por Benedetto, acabou com a semifinal.

O Palmeiras fez o que dava para fazer hoje, o pepino foi a ida. Agora, restará como consolação o “Brasileirinho”, que o Palmeiras disputou com o time B – e, com o time B, chegou à ponta. Está com a mão na taça, dada a vantagem construída e a tabela restante.

Espero que a TV aberta dê, a todo o Brasil, a chance de ver essa final – a última em ida e volta, já que a Libertadores passará a ter final única ano que vem. Aliás, que bom que essa final histórica será disputada em dois estádios históricos, não em campo neutro!

Muitos clubes brasileiros têm uma história gigante, maravilhosa, torcidas e rivais, mas não há uma clássico maior do que Boca x River. É o equivalente a um Real Madrid x Barcelona na final da Champions League (o que nunca ocorreu, diga-se).

Na história da Libertadores, eles jogaram 24 vezes (a primeira delas foi em 1966), com 10 vitórias do Boca, 7 empates e 7 vitórias do River. Foram três confrontos em mata-mata e outros dois confrontos eliminatórios, em uma época em que a segunda fase levava às finais.

O Boca se deu bem três vezes (em 1978, no que era uma segunda fase equivalente às semifinais, em 2000, pelas quartas, e em 2004, pelas semifinais, passando nos pênaltis). Em 78 e 2000, seria campeão, em 2004 perderia a final para o Once Caldas.

O River Plate levou a melhor duas vezes (em 1970, no era uma segunda fase equivalente às quartas de final, e em 2015, nas oitavas, com aquele “superclássico da vergonha”, adiado após agressões da torcida do Boca a jogadores do River, com direito a gás pimenta no túnel do vestiário). O River ganharia esta competição de 2015.

O Boca Juniors tem seis títulos e busca o sétimo, para se igualar ao Independiente como maior campeão da Libertadores. O River Plate tem três títulos, o mesmo número dos brasileiros que mais vezes ganharam a competição (Grêmio, São Paulo e Santos).

É a maior final de Libertadores da história.

 


Renato aprendeu a ganhar, mas aprenderá a perder um dia?
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Julio Gomes

Tem quem peça Renato Gaúcho na seleção brasileira. Não acho absurdo. Renato é um ótimo técnico de futebol e já faz tempo. Além de conhecer o jogo, tem uma incrível ascendência sobre seus comandados, sabe entrar na cabeça deles e fazê-los entregar o melhor que podem, e aprendeu a trabalhar em equipe, uma exigência do futebol moderno, com departamento de análise de desempenho, fisiologia, etc.

Resumindo: Renato é bom pacas. E estes dois anos de Grêmio mostram que aprendeu a ganhar – jogos e títulos. Cresceu na profissão, mudou de patamar.

Maaaaaas, padece de um mal que parece enraizado em nossa sociedade. Não sabe perder. E não dá sinais de que aprenderá um dia.

O Brasil é o país campeão mundial de “busca de culpados”. Nunca somos nós os culpados por nossas derrotas, nossos tropeços, nossas demissões, nossos fracassos, nossos governantes. Sempre são os outros. Os outros, os outros, os outros, os outros.

Renato é um personagem riquíssimo. Além de ótimo jogador e ótimo técnico, é e sempre foi um falastrão. Reivindica o gol de barriga em 95, os títulos do Grêmio fazendo as escolhas certas. Mas, quando erra…

Existe isso? Ele erra?

A meu ver, por exemplo, o Grêmio errou em seu planejamento neste ano – e isso não é oportunismo, pois falo o mesmo desde maio. Era o único time pronto no primeiro semestre, o Brasileiro é o melhor campeonato para o “melhor time” jogar (é isso o que diz Renato sobre o time dele). Tudo bem que a diretoria deve ter compactuado com isso, mas colocar o time reserva diversas vezes no Brasileirão para arriscar tudo no mata-mata não parece ter sido sábio.

Mas será que Renato erra?

Ontem, a meu ver, o Grêmio flertou com a eliminação ao abandonar sua característica de jogo e atuar na defesa. Poderia ter levado três ou quatro do River no primeiro tempo. Mas Renato diz que “faria tudo igual de novo”.

Para ele, a culpa da eliminação é do árbitro de vídeo, o Grêmio “foi roubado”.

Técnicos chamam de palhaçada uma interpretação de arbitragem. Mas não chamam de palhaçada o gol feito perdido por seu atacante. Então a culpa não é de Éverton e o gol feito que perdeu. Ou de Bressan, pelo bração aberto para bloquear o chute de Scocco. Aí não são “palhaçadas”, certo, Renato?

Palhaçada é o árbitro de vídeo não ter chamado o árbitro de campo para reinterpretar um lance à beira do gramado. Um lance nada indiscutível, nada óbvio, em que passaram-se 10 minutos até que a TV geradora de imagens notasse que, talvez, a bola tivesse tocado no braço do jogador do River. Um lance que, pela recomendação, não é de falta, pois a bola toca involuntariamente no braço quando o jogador do River tenta cabeceá-la. Não foi um movimento antinatural do braço.

Alguém pode achar que é falta. Mas… chamar de roubo e palhaçada?

Nem a pífia passagem de Renato pela Roma, quando jogador, nos anos 80, foi culpa dele, como bem lembra o colega de UOL André Rocha.

Para Renato, a culpa é sempre dos outros. Ele não é o único. Nossa sociedade é inteirinha assim. Vive de achar responsáveis para seu próprio insucesso.

Um pouquinho de autocrítica, tão pedida a partidos e políticos nas últimas semanas, faria bem a muita gente.

 


Times brasileiros colheram o que plantaram na Argentina
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Julio Gomes

O Grêmio foi corajoso contra o River Plate. Mesmo com desfalques, jogou com inteligência, intensidade, volume. O Palmeiras foi medroso contra o Boca Juniors. Mesmo com força máxima, jogou pelo 0 a 0.

Os times brasileiros colheram na Argentina o que plantaram em seu plano de jogo.

Para o Grêmio, o 0 a 0 ou outro empate poderia até ser uma consequência de um bom jogo. A vitória foi um prêmio para o time que mereceu mais. E isso sem Luan e Everton. O time de Renato Gaúcho esfriou a torcida do River, não deu o campo que os argentinos gostam e foi quase perfeito no Monumental.

Para o Palmeiras, o 0 a 0 era o objetivo final. Poderia até ter vencido na Bombonera, dado que o Boca Juniors é um time mais limitado que o River e teve uma noite nada brilhante nesta quarta. Mas pagou o preço da covardia.

Grêmio e Boca trazem vantagens significativas para o Brasil, na semana que vem. Vantagens justas, dado o que fizeram e o que seus adversários não fizeram em campo.


Grêmio e Palmeiras conseguirão evitar a maior final de todas?
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Julio Gomes

Muitos clubes brasileiros têm uma história gigante, maravilhosa, torcidas e rivais. Mas pergunte a qualquer pessoa fora da América Latina qual o maior clássico do continente. Pergunte a qualquer brasileiro qual o maior clássico da América do Sul, excetuando seu próprio time.

Não tem jeito. É Boca x River. River x Boca. Determinar “o maior clássico de todos” passa por um monte de coisas.

Responda rápido: qual o maior clássico do Brasil? E o de São Paulo? E o do Rio? E o da Inglaterra? E o da Argentina?

Pois é. Não precisa ser bidu para saber que o último é o que terá o maior percentual de respostas iguais. Determinar o maior clássico de um país passa por títulos, quantidade de torcedores e, claro, pela exclusividade. A não concorrência. Boca x River é indiscutivelmente o grande clássico argentino. Sim, Grêmio e Inter fazem o único clássico gaúcho, por exemplo. E Celtic x Rangers fazem o grande clássico escocês. Em ambos os casos, não estamos falamos de um país inteiro como a Argentina, um país vencedor, berço de grandes craques e completamente apaixonado pelo esporte.

Boca Juniors e River Plate estão agora a um passo de uma inédita final de Libertadores. Inédita porque eles nunca disputaram uma decisão continental. E nem sequer houve até hoje uma final argentina.

Até pouco tempo atrás, o regulamento impedia que dois times do mesmo país disputassem a decisão. Depois, com o aumento da quantidade de clubes de cada país, o regulamento passou a dificultar, mas não impedir. Neste cenário, São Paulo e Atlético-PR, em 2005, e Inter e São Paulo, em 2006, fizeram as únicas finais, até hoje, entre times do mesmo país.

Hoje, essa regra caiu de vez. É por isso que Boca e River e Grêmio e Palmeiras não são mudados de lugar na chave, evitando uma final entre argentinos ou brasileiros, como antigamente.

Na história da Libertadores, Boca e River jogaram 24 vezes (a primeira delas foi em 1966), com 10 vitórias do Boca, 7 empates e 7 vitórias do River. Foram três confrontos em mata-mata e outros dois confrontos eliminatórios, em uma época em que a segunda fase levava às finais.

O Boca se deu bem três vezes (em 1978, no que era uma segunda fase equivalente às semifinais, em 2000, pelas quartas, e em 2004, pelas semifinais, passando nos pênaltis). Em 78 e 2000, seria campeão, em 2004 perderia a final para o Once Caldas.

O River Plate levou a melhor duas vezes (em 1970, no era uma segunda fase equivalente às quartas de final, e em 2015, nas oitavas, com aquele “superclássico da vergonha”, adiado após agressões da torcida do Boca a jogadores do River, com direito a gás pimenta no túnel do vestiário). O River ganharia esta competição de 2015.

O Boca Juniors tem seis títulos e busca o sétimo, para se igualar ao Independiente como maior campeão. O River Plate tem três títulos, o mesmo número dos brasileiros que mais vezes ganharam a competição (Grêmio, São Paulo e Santos).

Somados, Boca, River, Grêmio e Palmeiras têm 13 títulos de Libertadores. Nunca houve uma fase semifinal com tantos troféus reunidos e nem mesmo com quatro ex-campeões.

Grêmio e Palmeiras têm tradição suficiente para derrotar os argentinos. E têm time também. O Grêmio, apesar de algumas baixas, é o atual campeão. E o Palmeiras é o elenco mais completo do Brasil, com bons jogadores em todas as posições. Ambos com técnicos experientes e que já foram campeões da América.

 

São semifinais muito equilibradas, em que os brasileiros têm a vantagem de decidir em casa. Talvez o River tenha mostrado um futebol melhor que o de todos os outros. O Boca, pelo contrário, está um pouco abaixo.

Grêmio e Palmeiras podem estragar tudo. Mas, se der Boca Juniors de um lado, River Plate do outro, teremos a maior final de Libertadores da história.


Reservas levaram Palmeiras à ponta. E agora, o que será deles?
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Julio Gomes

O desenho que Luiz Felipe Scolari deu ao semestre do Palmeiras é para lá de claro. Ele montou um time para jogar as Copas, que podemos chamar de “time titular”, pois os torneios são a prioridade do clube (por prestígio e grana), e montou um time para jogar o Brasileirão nos fins de semana – que podemos chamar de “time reserva”.

O time titular passou pelo Cerro Porteño e, nesta semana, deve confirmar, contra o Colo Colo, a classificação para as semifinais da Libertadores. Na Copa do Brasil, passou pelo Bahia, mas foi eliminado pelo Cruzeiro e está fora da decisão.

Como o time titular atua somente nos meios de semana, ele jogou duas partidas pelo Brasileirão com Scolari, vencendo Botafogo (22/8) e Atlético-PR (5/9) – ambos jogos bastante difíceis, em que os titulares flertaram com um tropeço no Allianz Parque.

Já o time reserva só entra em campo nos fins de semana. E, assim, ganhou seis partidas (incluindo o clássico contra o Corinthians) e empatou três (incluindo o jogo com o Inter, no Beira-Rio). Seis das nove partidas foram disputadas fora de casa, em condições adversas. Com este fantástico aproveitamento de 77,7%, podemos falar tranquilamente que foi o time reserva que levou o Palmeiras à atual liderança do campeonato.

O time reserva é beneficiado por ter quase sempre o mesmo goleiro do time titular (Weverton) e contar, esporadicamente, com a entrada de Dudu desde o início – ou, pelo menos, com a entrada dele e de Willian no segundo tempo das partidas mais encardidas. Felipe Melo, suspenso da Libertadores, é outro que tem aparecido no time reserva.

E assim Felipão toca a vida. Com dois times, ambos de nível parecido, ambos com uma semana de descanso entre seus jogos.

Só que agora o Palmeiras é líder e está fora da Copa do Brasil. Isso faz com que o Brasileirão ganhe peso e que o calendário, finalmente, dê um folga. Nesta semana, os titulares jogarão contra o Colo Colo. As duas semanas seguintes à atual serão as duas primeiras semanas “livres” para Felipão desde seu retorno ao Palmeiras.

Os meios de semana estarão reservados para as finais da Copa do Brasil, entre Cruzeiro e Corinthians (no meio de uma data Fifa).

Os dois próximos compromissos do Palmeiras pelo Brasileiro são contra o São Paulo, sábado, e contra o Grêmio, no outro domingo, dia 14 de outubro. Dois jogos contra times que disputam diretamente o título com o Palmeiras e dois jogos que não precedem compromisso algum de meio de semana.

E aí, o que fará Felipão?

A lógica estabelecida indicaria o time reserva nos dois jogos. Mas aí os titulares farão o quê? Terão folga até a semifinal da Libertadores, que será só em 24 de outubro? Difícil imaginar que os caras ficarão 20 dias sem jogar, certo? Difícil não, impossível.

Minha aposta é que Felipão, do meio para frente, vai escalar seus titulares.

Mas ficam interrogações. O que fazer com a linha de defesa? Marcos Rocha, Gustavo Gómez, Luan e Victor Luís deram conta do recado, o time reserva levou três gols em nove jogos. Há quem diga que essa dupla de zaga é melhor que a “titular”, formada por Antônio Carlos e Dracena.

E o que fazer com Lucas Lima e Deyverson, que foram os nomes mais importantes deste time reserva no período? Vai mandar Lucas Lima para o banco e agora ele só volta no jogo contra o Ceará, daqui a 20 dias, a partida que precede a semi da Libertadores?

O time reserva ganhou corpo, jogou com motivação e fez seu trabalho. Felipão conseguiu ter o elenco na mão, todos se sentem protagonistas.

Mas agora chegam as partidas contra São Paulo e Grêmio e só um time pode jogar. Ele fará uma escolha por time A ou time B? Ou vai misturar tudo? Como isso vai cair dentro do elenco?

A bola já esteve com o Flamengo, com o São Paulo e com o Inter. Agora, a bola está com o Palmeiras. Felipão que se vire!

 


Futebol de Felipe Melo não justifica o risco de tê-lo no time
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Julio Gomes

Já conhecemos Felipe Melo de outros carnavais. É um jogador destemperado em campo, com nenhuma inteligência emocional. Por seus discursos, parece ser assim na vida também. Quer conseguir as coisas na força bruta e no grito. Infelizmente, uma parte grande da nossa sociedade entende que é deste jeito que se resolve tudo, portanto há empatia com gente como Felipe Melo. Eu estou do outro lado.

Na força e no grito, pode-se conseguir alguma coisa de forma imediata, mas no longo prazo isso não dá certo. Seja para educar uma criança, para resolver um conflito em um condomínio ou em um jogo de futebol.

A riscada que Felipe Melo dá na perna do jogador do Cerro Porteño, com 3 minutos de jogo, é de uma imbecilidade atroz.

O juiz poderia ter dado só amarelo? É um lance de interpretação e, com apenas 3min de jogo, árbitros não costumam expulsar – preferem conduzir de outra maneira. Mas não dá para criticar o juiz por ter mudado de ideia após ver o estrago. Talvez ele tivesse dado amarelo achando que fosse um pisão no tornozelo. Ao ver a marca de cima abaixo, mudou de ideia.

Teve coragem, o juiz. Mas, lógico, a decisão enervou o Palmeiras, fez com que ele se perdesse na condução da partida e vimos o que vimos ontem à noite. Um espetáculo trágico, cheio de entradas duras e simulações, com zero futebol. Um elenco milionário sofrendo para passar de um time fraco, após enorme vantagem construída no primeiro jogo. O mata-mata tem dessas, e é por isso que eu custo tanto a aceitar que os grandes times do Brasil priorizem torneios “lotéricos” em detrimento do Brasileirão.

Porque no mata-mata qualquer erro é ou pode ser fatal. Ainda mais quando se tem Felipe Melo no time.

Será que ele vai continuar no time depois dessa?

Os jogadores vieram em defesa de Felipe Melo com o tal “todo mundo erra”. Felipão se calou, o que mostra a evolução dele como ser humano. Transpareceu estar mais na bronca com a arbitragem. Mas é importante também respirar fundo. Muitas vezes não falar nada é simplesmente a melhor decisão.

Homem experiente que é, e mais sofisticado nas relações humanas do que muitos de nós achamos que é, Scolari vai passar dias pensando em como tirar Felipe Melo do time sem criar grandes traumas dentro do elenco – contra Cuca, Felipe Melo, um populista, que joga para uma torcida que quer sangue, não futebol, ganhou a queda de braço.

E por que tirar Felipe Melo do time? Porque seu futebol não acompanha o risco que ele representa.

Edmundo era um “animal”. Era, também, uma bomba relógio. Mas Edmundo era um craque, decidia jogos e atuava em uma posição em que havia menos exposição para cartões. Valia o risco. E tantos outros jogadores tinham ou têm a mesma característica.

O que Felipe Melo faz em campo que seja tão especial assim? Ele entrega, na bola, algo tão especial e imprescindível? Não é tão rápido, não é o melhor marcador do mundo, não é tão especial na bola aérea (ofensiva ou defensiva), não faz lançamentos brilhantes… já foi melhor. Hoje, é um volante comum, que leva pelo menos amarelo jogo sim, jogo não.

Já que o Palmeiras está abrindo mão do Brasileiro e escalando reservas, Felipe Melo pode dar seus showzinhos para a torcida amiga nestes jogos.

No mata-mata da Libertadores e da Copa do Brasil, qualquer Thiago Santos resolve por ali. E sem o risco gigante que o “pitbull” fez o Palmeiras correr ontem.

 


Esse Flamengo não cheira bem
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Julio Gomes

O contraste é enorme no Flamengo. A boa gestão financeira dos últimos anos não combina com a gestão esportiva, principalmente no que toca a composição de elenco. Entra ano, sai ano, o Flamengo parece ter um belo grupo de atletas. Os jogos passam e vão ficando evidentes algumas deficiências crônicas.

De que adianta cuidar do dinheiro para gastá-lo em Henrique Dourado e Geuvânio? Só para usar um exemplo de cada ano.

Por mais equilibrado que seja o futebol sul-americano, por mais que nenhum time tenha um elenco perfeito e um time-base espetacular, o Flamengo tem alguns jogadores bem abaixo para quem pretende ganhar tudo.

Os expostos da noite trágica no Maracanã são Rodinei e Marlos Moreno. Não são só eles, mas são também eles.

No sistema defensivo, a única solução encontrada pelo Flamengo nos últimos anos foi Diego Alves, que evitou a goleada cruzeirense nesta quarta.

O cartão estúpido levado por Paquetá naquele jogo contra o River Plate, na fase de grupos, passou fatura. Nem em campo ele deveria ter entrado em Buenos Aires. O futuro jogador de seleção brasileira fez muita falta contra o Cruzeiro. Em pouco tempo, Paquetá já se transformou em uma peça muito mais importante que os “badalados” Diego, que não dá ritmo a uma jogada sequer, e Éverton Ribeiro, amarrado à lateral do campo.

O técnico Barbieri parece ter valor, mas talvez esteja queimando etapas ao assumir o Flamengo neste momento – um exemplo foi a má decisão de usar o time titular duas vezes contra o Grêmio. Contra o Cruzeiro, não conseguiu encontrar soluções e demorou demais para fazer mudanças. E o torcedor, sabedor de tudo isso, não passou nem perto de encher o Maracanã – não é bobo, bobo é quem coloca os preços que coloca.

Bobo também é quem não parece ter se esforçado o suficiente para segurar Vinícius Júnior, que seria uma peça chave na temporada.

O Flamengo está virtualmente eliminado da Libertadores da América pós levar os 2 a 0 para o Cruzeiro. Na Copa do Brasil, ainda pode sonhar no duelo contra o Grêmio. E ganhar o Brasileiro, cada vez mais menosprezado por todo mundo, será uma missão inglória para um time com tantos pontos fracos.

Dois meses atrás, tinha cheirinho. Agora, tem que ser muito otimista ou ter um olfato daqueles para sentir qualquer coisa…