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Drone, Diniz, ambição e intensidade: um dia no CT do Atlético-PR
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Julio Gomes

Lucho faz um lançamento longo, e os quero-queros que passeavam pelo gramado saem voando desesperadamente. Barulhentos, como sempre, eles não querem levar uma bolada. E quase levam uma “dronada”. Dura, a vida dos quero-queros.

No CT do Caju, eles dividem espaço com um drone, usado pelo time de análise de desempenho do Atlético Paranaense. Como o terreno é plano, o drone é utilizado para a filmagem dos treinos de Fernando Diniz. Não são só imagens, logicamente. Todos os jogadores têm GPSs no corpo – e isso acontece também nos treinos dos times sub-23 e sub-19.

A análise é completa e complexa. Olhando para a tela do notebook de um dos analistas, eu parecia estar vendo uma daquelas telas de Matrix, com os códigos aparecendo freneticamente em verde na tela preta. Mais compreensível era o controle remoto do drone. Me lembrou o de um carrinho qualquer.

Após o treino, Diniz se reúne com a equipe de análise. São selecionadas imagens, momentos, lances. E os devidos jogadores recebem depois, por WhatsApp, o que a comissão técnica quer que chegue até eles. Entender as novas linguagens é parte do processo.

Alta tecnologia não é novidade nos grandes clubes europeus, mas é coisa de não mais de cinco anos no Brasil. Ainda não são todos os que usam as ferramentas apropriadas. O Atlético-PR sempre esteve na vanguarda.

Um pequeno quadro na sede do clube mostra a ambição. “Visão: Ser o clube de futebol mais moderno e competitivo das Américas”.

Talvez outros clubes do Brasil tnham como visão “ganhar domingo”.

Na contra-mão do que pedem torcedores e jornalistas (jogadores e títulos), o Atlético investiu em estrutura nas últimas duas décadas. O homem-forte do clube e atual presidente do Conselho Deliberativo, Mário Celso Petraglia, pode ser acusado de muitas coisas (e é, já que a relação com a torcida, que se sente apartada do clube e desprezada, está bastante azeda). Mas ele não pode ser acusado de falta de visão.

Enquanto outros clubes gastaram com jogadores, técnicos, salários exorbitantes, etc, o Atlético Paranaense fez a primeira Arena do Brasil – basicamente com o dinheiro das vendas de Oséas e Paulo Rink, lembra deles? Depois, fez um CT de primeiro nível, que, como qualquer estrutura viva, segue sendo ampliada e modernizada. E ainda fez outro estádio em cima do que já existia, a atual Arena da Baixada, único do Brasil com teto retrátil e gramado sintético.

Para reatar com a torcida, será necessário haver vontade, inteligência e sensibilidade. Mas construir tudo o que o Atlético construiu em 20 e poucos anos é algo bastante mais difícil de ser realizado. As coisas não são excludentes. É possível ser ao mesmo tempo moderno e fiel a algumas raízes. O torcedor apaixonado pode ser ouvido, acolhido, ter sensação de pertencimento – e ao mesmo tempo o clube pode seguir sua linha moderna e estratégica de crescimento.

Paixão, aliás, não falta a Fernando Diniz. Eu já vi muitos treinamentos, de muitos técnicos. O dele é intenso. “Ritmo, ritmo, ritmo”. É o que mais se ouve do treinador durante a sessão acompanhada pelo blog no CT do Caju.

“Vai, vai, vai. Tudo rápido. Seis segundos! Seis segundos!”.

Não faltam broncas em quem dá passes arriscados e imprecisos no meio de campo, deixando os companheiros expostos atrás. O treino para. Recomeça. Para. Recomeça. “Vai, vai, vai. Ritmo, ritmo, ritmo”.

As transições rápidas e fatais não têm sido muito comuns nos jogos do Atlético, já que são os adversários que abusam do expediente. É um trabalho difícil treinar para jogar da maneira como Diniz entende o futebol. Fica mais difícil ainda quando faltam jogadores como Paulo André, gente com o chamado QI futebolístico alto. O sistema e seus automatismos precisam ser assimilados, compreendidos. Depois, mecanizados.

“Quando as coisas estão dando errado, é aí que você tem mesmo que fazer no campo aquilo que treina. E não sair loucamente querendo decidir as coisas. O sistema é nossa maior segurança. Se está perdendo ou está em dificuldade, aí, mais do que nunca, tem de confiar nele, se apegar ao que treinamos todos os dias”, fala Diniz, caixinha de água de côco em mãos, olhar no horizonte.

As sessões começam sempre com o tradicional bobinho. Aliás, deveríamos arrumar um nome mais sério para ele. O bobinho é um dos treinos fundamentais para times que queiram sair jogando e manter a posse de bola sob pressão. O jogador se habitua a passar a bola de forma rápida, precisa e automática.

Nos meus tempos de Espanha, principalmente em treinos do Barcelona e da seleção espanhola, lembro que o bobinho (“rondo”) era coisa muito séria. No treino do Atlético-PR, o único que presenciei, teve mais gozação do que sequências longas e precisas. São hábitos, cultura local. Quem tem talento, mas não comprometimento, acaba virando peixe fora d’água e tendo de sair, como Gedoz. Precisa de muito treino, foco, tempo para automatizar movimentos. O cérebro não constrói tudo em um ou dois dias. É necessário dar um bom ano ou mais de trabalho para saber se a coisa vai engrenar.

Não faz nem dois anos, por exemplo, que o Atlético contratou a Double Pass, ideia de Paulo Autuori. A empresa belga foi a responsável pela grande revolução no futebol de base da Bélgica e da Alemanha – e tem gente que ainda acha que esses países tiveram “sorte” pela geração atual. Sorte é uma coisa que afeta um jogo ou outro. Trabalho bem feito é o que gera frutos sólidos e consistentes lá na frente.

Mas uma revolução na base, fazendo com que times sub-13, 15, 16, 17, 19, etc, entendam e trabalhem futebol da mesma forma, leva anos. Parece óbvio, mas é necessário muitas vezes ressaltar o óbvio. Este trabalho, iniciado em 2000 na Alemanha, desembocou no título mundial somente em 2014. Façam as contas.

Por que no Atlético Paranaense ele teria resultado em meses?

Lembra do quadrinho com a visão do clube? Lá também está a missão. “Trabalhar com qualidade e responsabilidade desde a captação, formação, aquisição e treinamento de atletas, objetivando a constituição de um time comprometido e vencedor”.

Pelos corredores do clube, a reportagem esbarrou mais de uma vez com Paulo André, que está ficando prontinho para pegar o bastão e dar sequência ao trabalho de longo prazo no Atlético. Ele mora no CT. Respira o clube, conhece todos os funcionários, os meninos da base, os dirigentes.

Paulo André faz suas refeições diárias, como todos os outros, em um refeitório anexo à cozinha industrial do clube. A poucos passos e dois lances de escada dali, está a sede administrativa. Um pouco mais à frente, piscinas (aquecida, gelada, para todos os gostos), vestiários, uma quadra coberta com o mesmo gramado sintético da Arena (está sendo construído um outro campo no CT com o mesmo gramado) e, claro, uma academia com o que há de mais moderno. A tela da esteira me pareceu mais complicada do que o controle remoto do drone. Tudo está conectado, para que as informações de cada indivíduo sejam coletadas e analisadas.

Quem nos mostrou os aparelhos foi Jean Lourenço, preparador físico, parte da comissão técnica de Diniz, ex-jogador do clube e há 25 anos no Atlético. Ele viu a mudança acontecer por dentro. E mostra no olhar a confiança dos que estão inseridos no projeto.

O Atlético fala em três ondas. A onda da criação de infraestrutura, de 95 a 2004, a da profissionalização (2005 a 2014) e, agora, vive a terceira, a do protagonismo.

Protagonismo nos bastidores, para gerar mudanças de leis que permitam a injeção de capital externo no clube – o que faria o Atlético dar outro salto e entrar, de vez, no grupo de cinco ou seis principais do país, já que ele se diz o único pronto para ser comprado, com estrutura administrativa de empresa.

E protagonismo no campo, com um projeto multidisciplinar que busca a coesão futebolística do profissional ao mirim e que busca estar imune a desejos, vontades e visões de indivíduos. Tudo precisa fazer sentido para o todo. E tudo parece fazer sentido ao visitar o Atlético.

Logo no hall de entrada da sede do CT do Caju, está uma vitrine com troféus. O do Brasileiro de 2001, o mais importante da história do clube, nem está tão destacado assim. Para ganhar outros como aquele, a fábrica precisa funcionar a todo vapor, com cada setor fazendo sua parte na linha de produção. Convém não se esquecer dos parceiros antigos de empreitada, que se sentem abandonados. E convém ter paciência.

O texto acima encerra a semana de conteúdo exclusivo sobre o Atlético Paranaense. O blog foi convidado para conhecer a estrutura do clube e para uma entrevista com Mário Celso Petraglia (clique para ler a parte 1 e a parte 2). 


Em rota de colisão com torcida, Petraglia não sabe como encher Arena
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Julio Gomes

Quanto vale a paixão do torcedor de futebol? Para Mário Celso Petraglia, nada. Ou quase nada. Não é para o apaixonado que o futebol deve ser feito. “Futebol é entretenimento”, diz. Uma frase com a qual muita gente concorda, muita gente discorda. No mínimo, polêmica. Será que um magnífico teto retrátil tem maiores probabilidades de fazer alguém ir ao estádio do que um gol?

Na segunda parte da entrevista deste blog com o homem-forte do Atlético Paranaense, o principal tema é a torcida. Petraglia admite um erro de cálculo. Acreditava que a Arena da Baixada seria sucesso absoluto após a reconstrução visando a Copa do Mundo. “Achávamos que seria fácil colocar aqui 40 mil pessoas em todos os jogos. Tem muito pão duro em Curitiba”.

Avisa que a biometria veio para ficar, à despeito das queixas e da perda de público, que vai insistir com torcida única na Arena, vaticina um futuro nebuloso para o arquirrival Coritiba e fala da “carga pesadíssima” de liderar o clube e as mais de duas décadas no divã.

Aqui vai a segunda e última parte da entrevista exclusiva do Blog do Julio Gomes com Petraglia. Para ler a primeira parte, é só clicar abaixo:

Petraglia: Diniz se encaixa no projeto e não sai nem se o Atlético-PR cair

Julio Gomes: Muitos torcedores do Atlético reclamam da biometria, houve queda no número de sócios, reclamam da política de preços na Arena da Baixada, de uma desconexão com a diretoria. O que você tem a dizer sobre tudo isso?

Mário Celso Petraglia: A biometria é uma medida de segurança e uma mudança de cultura. Sim, perdemos sócios porque aqui temos a cultura do jeitinho. O sujeito acha que pode passar para qualquer um usar. Precisamos mudar essa cultura. Devem haver umas 50 mil pessoas que frequentam o estádio e eles querem ficar se revezando nas cadeiras. E tem a segurança. No último jogo aqui na Arena (que havia sido contra o Atlético Mineiro, no momento da entrevista), quatro pessoas foram imediatamente presas, porque estavam com pendências com a justiça.

(o assessor do clube avisa que “o Corinthians normalmente vem com 20 ônibus para cá, no ano passado vieram só dois”).

Você pode ouvir essa turma (mostra um desenho que simboliza a massa de torcedores do clube), essa não pode (mostra os “50 mil que vão ao estádio”) e essa nunca (organizados). Você pode ouvir quem está distante. Esse pessoal (que vai ao estádio) tem uma contaminação muito maior. E esse aqui (organizados) tem interesse. Quer que você ganhe para ele ganhar. É uma sub-marca. Quanto mais forte for a marca, mais forte ele é. Agora esse aqui (que está longe) sim, é quem a gente busca. Estamos reféns deste grupo do meio.

JG: Na Europa, geralmente o sócio pode devolver seu ingresso para o clube revendê-lo.

MCP: O Barcelona, se você avisar que não vai 72 horas antes, eles te creditam o dinheiro na sexta-feira. Mas aqui tem mais lugares que sócios. Se tivéssemos 40 mil sócios, ou 36 mil, já que tem ainda os 10% dos visitantes, a gente poria à venda. O sócio põe o código dele à disposição e vende. Temos o sistema pronto para isso, mas tem mais cadeira do que sócio.

JG: Pois é. Como o Atlético vai chegar a esses 36, 40 mil sócios? Política de preços? Contratando jogador? Ou talvez se voltar um pouco para a paixão?

MCP: Essa resposta eu já tive. Já tive. Não tenho mais. No pré Copa, eu tinha absoluta certeza que pela qualidade do estádio, pela segurança, pelo conforto, 40 mil sócios seriam fáceis. Para garantir o seu lugar. Temos estimados 2,5 milhões de torcedores. Temos a população de Curitiba em 3,6 milhões. Então pegar 40 mil… teoricamente teria que ser fácil. Acreditávamos que seria fácil. Tem um problema cultural seríssimo. O futebol ninguém sabe se é público ou privado. Estamos sob o regime do direito privado, mas há interferência pública absurda. Estabelece preço do ingresso, metade pra idosos, professores, estudantes, etc. (Governo) não tem que dar nada para sua paixão. E o que ele (torcedor) dá em troca pela paixão dele? Zero. Só exige. O que o brasileiro faz para contribuir com sua paixão? 30 milhões de flamenguistas… o que eles consomem?

JG: O Palmeiras conseguiu chegar nessa equação do estádio cheio.

MCP: É momentâneo. Perde a Libertadores, perde aquele outro… esqueça. É um momento de euforia, uma bolha.

JG: Mas esse cálculo superestimado de pessoas que viriam à Arena, então…

MCP: Você me perguntou qual era a resposta (para conseguir sócios), eu disse que não tinha. Eu tinha lá atrás. Acreditava. Estava errado. Hoje, eu não tenho.

JG: O quanto isso compromete o projeto?

MCP: Nada. Pega o balanço do Flamengo. 8% de bilheteria. Na Europa, 30% para mais. No Brasil, bilheteria foi pro “caceta” por causa da televisão, da violência.

JG: Por falar em violência. Por que a aposta pela torcida única nos jogos do Atlético? O clube tem uma imagem positiva no país, de modernidade, vanguarda, por que enfrentar todos os torcedores de todos os clubes. Não teme arranhar essa imagem?

MCP: Não, não temo. Falem mal, mas falem de mim.

JG: Por que a torcida única?

MCP: É a visão. No médio, curto prazo, com a inteligência artificial, vai sobrar mais tempo para o homem. Esporte é entretenimento. Ele tem que ir com a família, tem que se divertir no dia do jogo dele. Sem medo.

JG: Esporte é mais que isso, não é?

MCP: Nas culturas mais desenvolvidas, não estão nem aí para perder!

JG: Eu não acho que não estejam nem aí…

MCP: Quando o outro vai atacar ele nem vê, vai tomar chope. Vai comer.

JG: Nos Estados Unidos talvez, mas não na Europa.

MCP: Mas qual é o país mais desenvolvido do mundo?

JG: Ah, eu teria algumas respostas que não são os Estados Unidos…

MCP: Não há dúvida que são os Estados Unidos. Eu não gosto, não me faz bem. Mas só é a nação que é pela cultura imposta, pela democracia, pela liberdade e pelo judiciário, que ali funciona para todos, não só preto e pobre.

JG: Então a torcida única se encaixa em uma ideia de que esporte é entretenimento, como nos Estados Unidos?

MCP: Claro. A médio e longo prazo. O que é a Copa do Mundo? Uma grande festa! Futebol é segundo plano para a maioria. Nós fomos sede de quatro jogos aqui em Curitiba. As pessoas vão ver o futebol como arte, como espetáculo.

JG: Não é cruel com quem é apaixonado pelo esporte, tirá-los da cena?

MCP: Cruel é a situação atual, que todo mundo é escravo dessa paixão maluca.

JG: Mas quero tirar da conta o animal que vai para o estádio matar alguém, bater em alguém. Tem muita gente apaixonada, que não vê o esporte só como entretenimento.

MCP: Isso é cruel, essa paixão.

JG: Mas vamos tirar essa paixão?

MCP: Por que não? Por que temos que ser escravos dela? O homem não pode ser escravo de nenhuma paixão.

JG: Essa paixão não move o futebol?

MCP: Não! O que move o futebol é dinheiro. É grana. É business.

JG: Essa ruptura com a arquibancada não pode custar alguma derrota eleitoral? A última eleição não foi fácil aqui…

MCP: Eu não ia participar, não queria mais, entrei no último mês… eram cinco ou seis grupos, se juntaram todos. Em quatro ou cinco entrevistas eu destruí eles.

JG: O projeto do Atlético é personalista?

MCP: Claro. Absolutamente personalista. E nem pode ser diferente. Tem que personalizar em alguém em algum momento.

JG: Mas temos outros projetos personalistas no Brasil que você abomina. Os Euricos Mirandas da vida…

MCP: Todos os projetos são personalistas. Os projetos de Einstein, Newton, Darwin, eram todos personalistas. Como vai fazer um projeto que não tenha a personalidade do cara que está fazendo? Agora. A diferença de Euricos para Petraglias é que meu projeto é pro bem e o outro foi pro mal. Abomino projetos personalistas destrutivos, não construtivos.

JG: Como garantir que este projeto continue?

MCP: Não somos donos do clube. Estamos donos do clube. E vamos propor fórmulas e maneiras de blindar e proteger nosso clube, dar continuidade ao projeto. Amarras estatutárias, abertura de capital, trazer um parceiro estratégico e de capital. Há modelos de Europa. Com isso, faz acordos de acionistas, governança corporativa, se moderniza para uma empresa ser dona.

JG: Mas esse tipo de coisa depende de muitas mudanças de legislação no Brasil.

MCP: Estamos trabalhando para isso. Também não é justo que você tenha SAs tributadas e clubes sem fins lucrativos, isentos.

JG: Neste futebol cada vez menos regional e mais nacionalizado, com a possibilidade de profissionalização real, mercados espremidos. O Coritiba vai acabar?

MCP: O Coritiba vai existir. O América do Rio existe. Não acabam. Mas a que nível vai existir? Essa é a pergunta. Não cabem três clubes de primeira grandeza em Curitiba, assim como não cabem quatro no Rio ou em São Paulo. Não tem mercado para faturar. Quatro no Rio faturando 640 milhões? Mas não há nenhum planejamento de médio e longo prazo. Clubes não têm uma pesquisa para saber a quanto andamos, as tendências. Ninguém se preocupa com o futuro, é o jogo da quarta e do domingo.

JG: Dizem que em cidades com duas forças destacadas um alimenta e empurra o outro. É assim aqui?

MCP: Em Curitiba, desequilibrou. O Paraná era um clube riquíssimo, uma fusão de cinco, com patrimônio enorme, que, por más gestões, ficou pelo caminho. Decidiu gastar, contratar os Luxemburgos da vida. O Coritiba deitou em berço esplêndido, era o mais rico, único campeão brasileiro, com estádio e achou que o que estávamos fazendo não atrapalharia a vida dele. Ficaram para trás, né? Então agora vai existir, mas a que nível? De primeira grandeza, entre os primeiros dez do Brasil, só cabe um aqui.

JG: Como está a relação? Teve aquela transmissão do jogo pelo You Tube, o Atlético invadiu o direito do Coritiba…

MCP: Não! Nós não vendemos! Qual prejuízo deu ao Coritiba?

JG: Não é bem essa a lógica…

MCP: Se não passar o jogo, aí ele que estaria me prejudicando.

JG: Pela lei Pelé, os dois precisam estar de acordo.

MCP: Depende, para a televisão sim.

JG: Por que parou de passar no intervalo então?

MCP: A Globo intimidou o You Tube. Se tivéssemos feito por vários canais, eu não teria parado. Quem ficou com medo foi o You Tube, depois nós restabelecemos no Facebook. O que trouxe de prejuízo? Se o mando era nosso, a renda era nossa…

JG: O mandante deveria ter o direito de fazer o que quisesse com seus direitos de transmissão?

MCP: Me preocupa muito. Na Europa, é assim, mas os clubes que se preocupam com o todo vendem em bloco. Mas na Espanha o governo teve de intervir, porque abriu um buraco imenso entre Real Madrid e Barcelona e o resto.

JG: Há um grande elogio à autogestão do clube, o Atlético fez, por exemplo, o estádio mais barato da Copa, sem passar pelos cartéis de empreiteiras. Mas há quem critique a autogestão por ser uma coisa quase familiar (diversos familiares de Petraglia tiveram produtos ou expertise comprados pelo clube) e também por perder eventos.

MCP: O que vou dizer sobre isso, a não ser meu desprezo? Mesmo agora fiz questão de trazer para o balanço valores que eu botei lá atrás, milhões de dólares para começar o projeto, que nunca tinha cobrado. Não vou dar ouvido para esse tipo de conversa. Eu só não fiz religião ainda nessa vida. Fiz grandes empresas, fiz política de altíssimo nível e fiz futebol. Jamais fui envolvido em qualquer desvio de alguma coisa.

JG: O senhor não vê um conflito ético?

MCP: Eu não administro de fora para dentro. Administro com a minha consciência. Eu seria o Ali Babá, teria de ter 40 ladrões aqui ao meu lado. Isso é ridículo. Jamais na história de um clube de futebol foi feito o que nós fizemos aqui, em um clube sem dono. Era um clube de várzea, de bairro, que não remendava a meia, que comprava roupa no botequim da esquina para poder jogar. Não tinha onde treinar, onde jogar, não existia. Em 20 anos, foi feito o clube mais rico das Américas, dito pela Soccerex. Não há preço pelo que eu dei ao clube, a cabeça do Mário Celso Petraglia ter doado seu trabalho, o networking, a experiência. Eu sou há 21 anos psicanalisado. 21 anos num divã. Cinco vezes por semana.

JG: Ah é? Fale mais sobre isso…

MCP: Vim muito de baixo, fiquei muito bem econômica e socialmente e fiquei descasado emocionalmente. Economicamente resolvido, familiarmente resolvido, socialmente resolvido e emocionalmente ancorado lá atrás, em cima do caminhão que me trouxe do Rio Grande com a família.

JG: Continuar tomando conta do Atlético é uma missão para mais quanto tempo?

MCP: É uma carga pesadíssima. Pesadíssima. Chegar em nono no ranking (da CBF) foi dez vezes mais fácil. Daqui para frente, o trabalho é insano.

JG: Por fim, como o senhor vê o quadro político do país?

MCP: Pelo quadro atual, não vejo grandes alternativas. Gostaria que o Joaquim Barbosa tivesse sido candidato, teria meu voto. Mas ele declinou e vamos aguardar. Pelo quadro que está aí… minha geração é a mais responsável por esse estado de coisas no país. A geração pós-Guerra, por omissão e por esse pseudo medo, o medo do bilateralismo, do pseudo comunismo. O espírito patriótico que minha geração tinha acabou. Acabaram com ensino público, privatizaram tudo, destruíram as universidades públicas, acabaram com movimentos estudantis, o clima de corpo estudantil, ou seja, uma destruição da educação e nós permitimos isso de forma passiva demais.

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O atraso vibra com as derrotas do Atlético-PR
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Julio Gomes

Todos os jogos do Atlético Paranaense têm história parecida. Durante boa parte dos 90 minutos, um time tenta jogar bola, o outro se defende. Se defende e, claro, adota o contra ataque como plano único para chegar ao gol contrário.

Este segundo jeito de jogar tem nome: futebol reativo. Quem joga em função do que faz o adversário.

É lícito. No futebol, as vitórias podem chegar de várias maneiras. O “jogo bonito” não é o futebol reativo. Isso é questão de gosto, é verdade. Mas existe uma imagem. E a imagem do “jogo bonito”, repito, não é a do futebol reativo.

A Argélia, com um jogo ultrareativo, deu mais trabalho à Alemanha na Copa do que o Brasil. É bonito o que a Argélia fez? Depende do gosto. O que não podemos é, adjetivos à parte, não perceber o que a Argélia fez.

Como não podemos não perceber o que fazem os times que enfrentam o Atlético de Fernando Diniz. Entram em campo para se defender e contra atacar, sem pudor algum. E isso independe de local, de grandeza, de história.

O atraso vê a vitória do Fluminense por 2 a 0, neste domingo, no Maracanã, como uma coisa maravilhosa. Futebol é resultado, o que importa é chegar ao resultado. Para mim, uma camisa como a do Fluminense (e tantas outras, estou apenas usando o exemplo de hoje) não merece isso. Jogar diante de sua torcida, no estádio mais famoso do mundo, desse jeito. Para mim, é uma vergonha.

Essa adaptação de jogo em função do que faz o Atlético não é opinião minha. É admitido por todos, basta ver entrevistas de jogadores e treinadores após os jogos. É vista como uma coisa “inteligente”. Respeito, mas discordo.

O torcedor aprendeu a só pensar em resultados. Isso é culpa, também, da imprensa de forma geral. E a imprensa é formada por torcedores, também de forma geral, e infelizmente, e aí a culpa é de todo mundo, apartados do jogo que é construído dentro dos clubes. Sabe-se pouco de futebol, essa é uma realidade. Ou, pelo menos, sabe-se pouco de como o futebol é pensado e construído para desembocar no que se vê pela televisão.

O Atlético Paranaense, pelo estilo de jogo que seu treinador adota, enfrenta semanalmente as mesmas retrancas que enfrentam o Barcelona ou a seleção brasileira. Sem, no entanto, ter os jogadores do mesmo nível para cansá-las e furá-las.

Então a impressão é de que o Atlético “joga mal”. Oras, é muito difícil jogar bem contra times que apenas se defendem. E aí só sobra o resultado para fazer a avaliação. Se ganhar, foi uma maravilha, porque dominou e ganhou. Se perder, uma porcaria, porque “jogar assim não serve para nada”.

Claro que há problemas sérios no Atlético. Tem bastante azar também nas últimas semanas, mas tem problemas. Agora, qualquer treinador especializado no que se faz no Brasil há duas décadas pega um time e monta uma bela retranca em uma semana. Criar um sistema de jogo complexo e sofisticado, ofensivo e imune a tudo isso, leva tempo.

Quem olha futebol com a lupa dos resultados (tipo, todo mundo no Brasil?), não entende a razão de Fernando Diniz não mudar o jeito de jogar para mudar os resultados.

É aí que faço uma metáfora.

Imagine que você, leitor, tenha um conceito de vida inegociável. Por exemplo. Ser fiel. 100% fiel à esposa ou ao marido. Mas você se encontra em um momento de dificuldade financeira, faltam coisas em casa e a saída, você sabe disso, é transar com o (a) chefe. Isso vai gerar uma situação profissional de privilégios, melhores condições de trabalho, etc. Mas veja. Ser fiel é inegociável. Nem passa pela cabeça fazer isso para chegar ao resultado. Passam pela cabeça mil e uma soluções e adaptações para melhoras as coisas, mas não a traição.

É o mesmo com Diniz e com tantos outros treinadores. O entendimento do que é futebol é inegociável. Podem ser feitas adaptações, mas não uma traição frontal de conceito para chegar a um determinado resultado.

O jeito de jogar futebol do Atlético-PR é o jeito de jogar dos grandes times e seleções de onde o futebol está no mais alto nível. Pode ser que isso não dê certo no Brasil. Porque times grandes não se importam em envergonhar sua história para conseguir uma vitória. Porque o material humano para colocar isso em prática é fraco. Por N razões.

Mas torcer para que isso dê errado é puro atraso. É o verdadeiro espírito do vira-lata.


Torcedor do Grêmio tem mais é que celebrar ausências de Arthur e Luan
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Julio Gomes

A convocação de Tite para a Copa do Mundo vai mexer bem pouco com o Campeonato Brasileiro. Ainda faltam sete rodadas até a pausa para o Mundial, são 21 pontos em jogo. E tem mais: a competição é reiniciada assim que a bola parar de rolar na Rússia.

Tite chamou apenas três que atuam no Brasil: Cássio, Fágner e Geromel. São jogadores importantes para Corinthians e Grêmio, mas substituíveis – Fágner está lesionado, de qualquer maneira. Cássio e Geromel se despedem no fim de semana, ainda atuam mais uma vez na Libertadores e uma no Brasileiro.

Muita gente está brava porque Arthur e Luan, jogadores do time que melhor joga no Brasil, ficaram fora da lista de Tite. Mas o torcedor gremista deveria estar com um sorrisão deste tamanho no rosto.

O Grêmio não ganha o Campeonato Brasileiro desde 1996. Será que Renato Gaúcho irá escolher Libertadores e Copa do Brasil, como fez ano passado? Neste ano, parece que o treinador pode fazer uma aposta maior na competição de pontos corridos.

O Grêmio ainda tem a vaga nas oitavas para garantir na Libertadores, o que pode acontecer já nesta terça. No Brasileiro, daqui até a Copa, enfrenta Paraná (f), Ceará (f), Fluminense (c), Bahia (f), Palmeiras (c), América-MG (c) e Sport (f). Convenhamos, uma tabela bem interessante, com um adversário direto em casa e os três jogos no Nordeste longe do verão.

Com a bola que está jogando, o Grêmio tem tudo para fazer um altíssimo percentual de pontos nestas rodadas e

O Brasil pode até lamentar Arthur e Luan fora. A metade azul do Sul, no entanto, tem mais é que celebrar.

 


Atlético-PR é a grande incógnita do ano e pode, por que não?, sonhar alto
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Julio Gomes

A classificação para as oitavas da Copa do Brasil, eliminando um “grandão”, mesmo que em pior fase, parece ser o resultado que Fernando Diniz precisava para se firmar no Atlético Paranaense.

Sabemos como é o futebol. Estão todos na corda bamba o tempo todo. Mas algumas cordas são mais bambas. Aparentemente, a relação entre Diniz e quem realmente manda no Atlético é ótima. Ou está ótima. Como sempre, em clubes de mandatário centralizador, tudo depende da combinação relação/resultados.

Se a relação é ótima, ótimo! Mas se os resultados não vêm…

Quando o Atlético contratou Fernando Diniz, eu chamei a parceria de “casamento perfeito” aqui no blog.

Tudo iria por água baixo se o Atlético fosse eliminado logo nas fases iniciais da Copa do Brasil por um Tubarão da vida. Foi quase. Mas não foi. E lá está o bravo CAP nas oitavas, passando pelo São Paulo no Morumbi. E virtual classificado para a próxima fase da Sul-Americana, após atropelar o Newell’s. E na liderança do Brasileiro, pois foi quem fez a maior vitória da primeira rodada.

Onde pode chegar o Atlético de Diniz?

Esta é, a meu ver, a grande incógnita da temporada do nosso futebol.

Porque sabemos que os times de elenco mais rico chegarão fortes lá na frente. Que outros ficarão pelo caminho, uma hora ou outra.

Todo mundo coloca como favoritos a ganhar o Brasileiro o Corinthians, atual campeão, o Grêmio, pelo maravilhoso futebol mostrado, e o trio dos riquinhos Palmeiras-Cruzeiro-Flamengo, os três com elencos fartos, apesar de não terem mostrado nada demais em termos de bola.

Quem pode desbancá-los? A resposta é: o Atlético Paranaense.

Jogando um futebol ultramoderno, de posse e controle do jogo, com uma estrutura fantástica, um estádio maravilhoso, torcida participativa e um técnico brilhante e corajoso, o Atlético pode, sim, ser campeão de um Brasileiro ou de uma Copa do Brasil. Ou dos dois.

Ou ser eliminado na próxima fase da Copa, chegar em 14o no Brasileiro e ter Diniz demitido após alguma sequência de derrotas.

Sem dúvida, as chances do CAP passam por fazer um ótimo trabalho nestas duas primeiras fases do Brasileiro. As seis rodadas iniciais, quando seus supostos concorrentes diretos estarão super envolvidos com Libertadores – há confrontos diretos contra Grêmio e Palmeiras -, e das rodadas 7 a 12, quando uma turma importante perderá jogadores para a Copa do Mundo e o Atlético enfrentará adversários que possivelmente passarão a maior parte do campeonato na metade de baixo da tabela.

O Cruzeiro, em 2013, não parecia ter time para ser campeão. Mas aproveitou muito bem o período pré-Copa das Confederações e depois não olhou mais para trás.

Seria muito importante que os tais concorrentes diretos perdessem pontos nestas 12 rodadas iniciais, para de repente priorizar as Copas em vez do campeonato.

Não estou aqui falando que o Atlético Paranaense será campeão brasileiro. Estou falando que não é nenhum absurdo pensar nesta hipótese. Mas, claro, precisamos sempre lembrar que estamos falando do futebol e ele, especialmente no Brasil, é dinâmico demais. Em uma semana, tudo muda.

O que não mudam são as convicções e o bom gosto de Fernando Diniz pelo futebol bem jogado. Sempre tentando submeter o adversário, em vez de depender do que o próprio fará.

Times que jogam de forma específica e fora da caixinha têm um problema: são mais visados, estudados, e isso pode gerar dificuldades adicionais. Como eu disse lá no começo. É cedo, o Atlético é uma grande incógnita em 2018. Mas que vale muito ver, isso vale.

 


Votação anti-VAR vai assombrar o Brasileiro do início ao fim
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Julio Gomes

Faz um pouquinho mais de dois meses. Foi no início de fevereiro que os 20 clubes da Série A decidiram não utilizar o recurso de vídeo para auxiliar as arbitragens no Brasileirão.

Bastou um sábado de futebol, menos da metade da primeira das 38 rodadas do campeonato, para que a decisão levasse um gigantesco tapa na cara. Erros de arbitragem acontecem toda hora. Interpretações diferentes sobre o mesmo lance, também. O pepino mesmo, e esse pepino é solucionado pelo VAR, são os lances claros, evidentes, não passíveis de discussão.

Como o pênalti dado para o Vitória contra o Flamengo, que resultou na expulsão injusta de Éverton Ribeiro, alterando toda a dinâmica do jogo. Ou como o segundo gol do Flamengo, em impedimento grosseiro.

Nem todo o jogo tem lances tão claros, tão evidentes, de erros de arbitragem. Aqueles sem nenhum “porém”. Aqueles que, com o VAR, não existirão mais.

O Flamengo foi um dos que votaram a favor do VAR me fevereiro. O Vitória, contra.

Na semana passada, tivemos a final do Paulista e toda a polêmica do pênalti dado e “des-dado” para o Palmeiras, com a forte suspeita do VAR clandestino mudando a decisão do árbitro. Uma das coisas que mais li, ainda que o campeonato fosse outro. “O Palmeiras votou pelo VAR, o Corinthians votou contra”. E daí?

Nas entrevistas pós-jogo no Barradão, o tema foi levantado. Nos programas de todos os canais de TV, idem. Mas e daí?

E daí que esta é a sombra que vai acompanhar o campeonato todo. Um verdadeiro fantasma.

Sempre que houver erro claro, a tal votação será lembrada. “Viram? O time X votou contra o VAR, agora aguenta”. Ou então. “O time Y votou a favor do VAR, viram por quê? É sempre roubado!”.

Preparem-se. Serão 38 rodadas e sete meses e meio de lembranças da maldita votação.

Não vou colocar a lista aqui de quem votou a favor, quem votou contra e quem se absteve. Sabem o motivo? Defendo que precisamos parar de olhar para o próprio umbigo. O futebol brasileiro precisa urgentemente passar a pensar no todo, não no pedaço.

Não interessa quem votou como. Foi uma decisão coletiva contra o VAR.

Uma decisão, é claro, induzida pela CBF. Que não larga o osso, não deixa a organização do campeonato para os clubes, mas não quer se responsabilizar pela arbitragem de vídeo. Jogou o preço lá em cima. sabendo que isso geraria o que gerou.

Mas clubes que foram contra porque o VAR da CBF só seria usado no segundo turno ou os que foram contra por causa do preço alto não poderiam ter se mexido? Os que votaram a favor do VAR não poderiam ter liderado esse movimento?

Será que era tão difícil assim os clubes chegarem a um acordo, encontrarem uma situação melhor de custo e emparedarem a CBF? Os clubes são parceiros da CBF em mais este erro histórico.

A votação será lembrada durante o ano todo. Uma pena. Uma enorme pena.

 


Brasileirão segue imprevisível, mas não só pelo (baixo) nível técnico
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Julio Gomes

Entre os campeonatos de países com alguma relevância e história no futebol mundial, o Brasileiro é o mais imprevisível. Antes, achávamos que era assim essencialmente pelo mata-mata para decidir campeões. Mas lá se vão quase duas décadas de pontos corridos e fica claro que esta é uma competição em que é realmente difícil saber o que cada clube fará.

Títulos, de fato, ficaram nas mãos de poucos. E eles nunca mais irão para as mãos da classe média. Mas, além dos títulos, é possível perceber uma incrível montanha russa que atinge a todos. Um ano campeão, no outro quase rebaixado, no outro na Libertadores, no outro nem perto disso, no outro campeão, no outro rebaixado e assim vai.

A que se deve isso? Certamente não ao equilíbrio orçamentário. O futebol brasileiro conseguiu gerar, dentro de seu bizarro pensamento individualista, em que o outro é visto como inimigo, uma das maiores discrepâncias orçamentárias do mundo.

Mas por que os que ganham tanto dinheiro a mais da televisão não conseguem traduzir isso em domínio? Geralmente são os campeões, mas nenhum deles domina por muitos anos seguidos.

Essencialmente, porque há um nivelamento técnico. Os melhores jogadores do nosso futebol não necessariamente são tão melhores assim que os outros – e são uma espécie de terceiro escalão no universo de jogadores brasileiros, já que os melhores estão na Europa.

Além do nivelamento técnico (por baixo), há o amadorismo que impera na gestão dos clubes. De que adianta muito dinheiro em mãos incompetentes? Mais vale pouco dinheiro em mãos competentes.

O amadorismo faz com que seis rodadas coladas na Copa do Mundo não tenham os jogadores convocados por diversas seleções. O amadorismo impede a continuidade de técnicos e resulta em saídas de jogadores ao longo do campeonato.

Ou seja, qualquer análise que se faça agora está sujeita a muitas e muitas mudanças ao longo do campeonato. Mudanças, a maioria delas, imprevisíveis.

Além disso, e essa é uma crítica que faço a treinadores e dirigentes, não temos como saber quem vai se dedicar totalmente ao Brasileiro e quem vai deixar o campeonato de lado. E este é o principal fator para não ser possível fazer qualquer prognóstico.

O Grêmio tem o melhor conjunto time-técnico do Brasil? Possivelmente, sim. Então é favorito no Brasileiro? Possivelmente, não. Porque já vimos Renato abandonar o campeonato na quarta rodada no ano passado. Se o clube priorizar as Copas, não será campeão brasileiro, simples assim.

Não estou falando de poupar um ou dois em algum jogo de Brasileiro às vésperas de um confronto decisivo de Libertadores. Estou falando de times reservas inteiros em campo.

No ano passado, Flamengo e Atlético Mineiro abriram o campeonato como favoritos e fizeram um ótimo jogo. Depois, foi (quase) só tragédia. Cruzeiro e Grêmio abrem o campeonato como favoritos neste sábado. E é fácil falar que disputarão título. Difícil, como tudo aqui, é saber se isso se confirmará.

Arriscar um palpite de quem será campeão vai além de analisar times, tabelas e contextos. É preciso adivinhar o que os técnicos e dirigentes farão ao longo de um campeonato fraturado pela Copa e com a digital do amadorismo. E adivinhar é para adivinhos.

 

 


Cristiano Ronaldo é o maior atacante que já vimos
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Julio Gomes

Eu amo Romário. Ronaldo, nem tanto. Um marcou minha infância com sua metamorfose, seus gols, até suas frases marrentas. O outro marcou minha carreira profissional pela falta de empatia e simpatia. Por isso, talvez, sempre preferi Romário a Ronaldo. Mas nunca deixei de valorizar o jogo do segundo.

É difícil saber o que teria sido de Romário se ele tivesse escolhido se manter no alto nível europeu, em vez de voltar ao já decadente futebol brasileiro. É difícil saber o que teria sido de Ronaldo, não fossem as tantas lesões. Difícil saber o que teria sido da seleção na Copa de 98, fosse essa a dupla de ataque dos sonhos.

Ambos foram craques. Gênios. Jogadores que marcaram época, com auges nos anos 90.

Van Basten também foi gênio. Gerd Muller. Batistuta. Klinsmann. Raúl. Vixe, teve tanta gente que meteu tantos gols.

Mas nenhum fez o que faz Cristiano Ronaldo. O atleta perfeito. Dedicado, profissional, correto nas palavras e atitudes, bom companheiro de time, recordista de gols na maior competição de clubes já inventada, campeão da Europa com uma seleção que nunca havia vencido nada. Capaz de rivalizar e dividir Bolas de Ouro com Messi, um gênio, um artista como poucos foram na história.

Messi, Maradona, Cruyff, Di Stefano, Pelé, Zidane. Esses caras não eram atacantes. Eram (ou são, no caso de Messi), TAMBÉM atacantes, fazedores de gols. Mas eram (ou são) mais do que isso.

Cristiano Ronaldo está no topo da lista de atacantes que já vi jogar. Não é o maior ou melhor jogador que vi jogar. Mas, na categoria atacante, striker, delantero… não tem para ninguém.

Já estava na minha. Mas, depois da bicicleta de Turim, talvez tenha entrado na lista de outros milhares pelo mundo. Creio que muita gente, emocionalmente envolvida pelas Copas de 94 e 2002, vencidas pelo Brasil nos pés de Romário e Ronaldo, não se dê conta do tamanho de Cristiano.

Da envergadura adquirida por ele nos quatro cantos do planeta, em uma época de futebol global e concentração de todos os melhores jogadores do mundo no mesmo torneio (a Champions). Da dificuldade que é fazer essa quantidade de gols em um futebol jogado de outra maneira, em que se defende mais, se corre mais, são dados menos espaços e muito menos tempo de reação aos atacantes.

Respeito todas as opiniões contrárias à minha (e sei que serão muitas, especialmente no Brasil). Afinal, a minha “verdade” não passa de opinião, uma opinião sobre um tema que se pode debater eternamente, pois não haverá nada que prove quem foi melhor. Não tem como medir.

Eu nunca achei que colocaria alguém à frente do Baixinho. Nunca achei que fosse aparecer um Ronaldo que fosse mais determinante que… Ronaldo.

Romário e Ronaldo foram tops. Monstros da arte de fazer gols.

Mas Cristiano Ronaldo é o top dos tops. O monstro dos monstros. Nunca houve um atacante esse cara.


Palmeiras precisa priorizar clássico e usar reservas na Libertadores
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Julio Gomes

Para quê, afinal, serve um elenco farto? Para que o nível de um clube não caia, ou caia o menos possível, quando jogadores forem trocados.

É por isso que elencos fartos e de bom nível ganham campeonatos de pontos corridos – campeonatos do estilo maratona, em que muitos jogadores perdem partidas por lesões, cartões, convocações, etc.

Um elenco farto também serve para situações como a que o Palmeiras enfrenta nesta semana.

Não há debate. A Libertadores é mais importante que o Paulista. Porém, por mais paradoxal que isso seja, a final contra o Corinthians é mais importante do que o jogo de hoje, contra o Alianza Lima, do Peru.

Dez entre dez torcedores do Palmeiras estão de olho no jogo de domingo como a coisa mais importante de suas vidas.

E, convenhamos, é assim que é o futebol. Falem o que quiser dos Estaduais (que precisam ser reformulados, não extintos). Mas é no futebol local que nasce a rivalidade, o amor pelo esporte, o interesse, a força que transformou o futebol brasileiro no mais vencedor do mundo.

Por mais que as pessoas que odeiem os estaduais advoguem o contrário, o torcedor quer mesmo é ganhar um título do rival. E, para o Palmeiras, com o investimento feito, jogando pelo empate e em casa, com torcida única, perder o Paulista para o Corinthians seria uma tragédia e tanto.

Uma tragédia que certamente afetaria as pretensões do clube nas disputas maiores.

Para o Palmeiras, perder para o Corinthians domingo teria efeitos mais graves na própria Libertadores do que perder para o Alianza Lima hoje.

Até porque o Alianza Lima não é um adversário direto pela vaga – é o mais fraco do grupo. E porque o Palmeiras criou gordura ganhando na estreia do Junior Barranquilla, fora de casa.

Se eu estivesse no lugar de Roger, não colocaria um time inteiramente reserva contra os peruanos. Um time inteiro reserva é risco demais.

Mas certamente deixaria de fora da partida os jogadores que saíram mais desgastados da batalha de sábado, em Itaquera. A melhor opção possivelmente seja manter a defesa titular e usar a fartura do elenco do meio para frente.

Poderia escalar, por exemplo, Felipe Melo, Tchê Tchê, Moisés, Guerra, Keno ou Deyverson. Nenhum deles seria titular no domingo. Se não quiser colocar só reservas, é possível usar alguém que esteja bem fisicamente para aguentar os dois trancos da semana.

Enfim, Roger tem opções. É isso, afinal, o que diferencia o Palmeiras de toda a concorrência.

O Vasco, envolvido na final do Carioca, e o Cruzeiro, no Mineiro, não vivem a mesma situação. O duelo entre eles, pela Libertadores, é decisivo, já que ambos perderam na estreia. E uma eventual perda de título estadual não teria os mesmos efeitos que teria uma derrota palmeirense.

Na última vez que um dérbi decidiu o Paulistão, em 99, o então técnico Luiz Felipe Scolari escalou reservas na decisão contra o Corinthians para priorizar a Libertadores. Mas aí estamos falando da final da Libertadores, que foi disputada entre as duas decisões do estadual. Uma situação um pouquinho diferente da atual.

O jogo da semana para o clube alviverde não é o de hoje. É domingo. É o divisor de águas da temporada palmeirense, para bem ou para mal.


Centroavante no Corinthians? Para quê?
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Julio Gomes

Se você tem um baita meia criativo, que se associa, dá assistências, tem chegada e brilha, você escala. E se não tiver esse jogador? Se vira de outro jeito, ora pois.

Se você tem um atacante como Jô, que faz boas paredes, faz gols, se movimenta, incomoda a saída de bola rival, você escala. E se não tiver? Se vira de outro jeito, ora pois.

Carille tentou Kazim, Júnior Dutra, o Corinthians está no mercado, agora trouxe Alex Teixeira. Mas talvez a solução seja um pouco mais evidente: jogar de outro jeito. Nenhum desses caras se assemelha a Jô.

Aliás, cada vez mais é difícil encontrar jogadores como Jô. Porque centroavantes mais pesados podem limitar times taticamente, tanto na fase ofensiva quanto, talvez principalmente, na defensiva. Se o cara não faz tudo o que Jô fez no ano passado, o time é prejudicado.

Centroavante não é goleiro. Não é figura obrigatória em campo. Dá para jogar com, dá para jogar sem. Dá para ganhar com, dá para ganhar sem.

Quer um exemplo de time que deveria ter jogado sem centroavante? O Brasil da Copa de 2014.

Jogando de outro jeito, sem um 9 fixo e nem falso 9, o Corinthians foi superior ao Palmeiras. Neste 4-2- de Carille, Rodriguinho brilhou muito, maiorias foram criadas no meio de campo, os zagueiros rivais ficaram sem referência. Não é necessário ter um homem-gol, se vários homens podem fazer gols.

E Rodriguinho hoje não fez um gol. Fez um golaço.

As polêmicas de arbitragens eu deixo para vocês. Mas, no domingo, Carille se saiu melhor que Roger. E o Corinthians mostra que está mais vivo do que nunca. Mesmo sem Jô.