Blog do Júlio Gomes

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Centroavante no Corinthians? Para quê?
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Julio Gomes

Se você tem um baita meia criativo, que se associa, dá assistências, tem chegada e brilha, você escala. E se não tiver esse jogador? Se vira de outro jeito, ora pois.

Se você tem um atacante como Jô, que faz boas paredes, faz gols, se movimenta, incomoda a saída de bola rival, você escala. E se não tiver? Se vira de outro jeito, ora pois.

Carille tentou Kazim, Júnior Dutra, o Corinthians está no mercado, agora trouxe Alex Teixeira. Mas talvez a solução seja um pouco mais evidente: jogar de outro jeito. Nenhum desses caras se assemelha a Jô.

Aliás, cada vez mais é difícil encontrar jogadores como Jô. Porque centroavantes mais pesados podem limitar times taticamente, tanto na fase ofensiva quanto, talvez principalmente, na defensiva. Se o cara não faz tudo o que Jô fez no ano passado, o time é prejudicado.

Centroavante não é goleiro. Não é figura obrigatória em campo. Dá para jogar com, dá para jogar sem. Dá para ganhar com, dá para ganhar sem.

Quer um exemplo de time que deveria ter jogado sem centroavante? O Brasil da Copa de 2014.

Jogando de outro jeito, sem um 9 fixo e nem falso 9, o Corinthians foi superior ao Palmeiras. Neste 4-2- de Carille, Rodriguinho brilhou muito, maiorias foram criadas no meio de campo, os zagueiros rivais ficaram sem referência. Não é necessário ter um homem-gol, se vários homens podem fazer gols.

E Rodriguinho hoje não fez um gol. Fez um golaço.

As polêmicas de arbitragens eu deixo para vocês. Mas, no domingo, Carille se saiu melhor que Roger. E o Corinthians mostra que está mais vivo do que nunca. Mesmo sem Jô.


Neymar pai e filho deveriam ouvir Casagrande, em vez de atacá-lo
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Julio Gomes

A polêmica da semana, para variar, é com Neymar. Para quem não acompanhou, foram dois movimentos. Depois do jogo entre Real Madrid e PSG, Walter Casagrande Jr criticou a postura do jogador, em sua participação no programa Redação Sportv. Vídeo aqui. Mais tarde, sem citar nomes (nem precisava), o pai de Neymar publicou isso aqui no Instagram.

 

Eu apenas coloquei as duas posições na minha conta do Twitter. Para não dizer que não usei adjetivos, chamei as colocações de Casagrande de “pertinentes”. E a resposta de Neymar pai de “patética”. Choveram comentários e é possível que tenham sido na ordem de meio a meio.

Uma coisa é fato. Neymar desperta amor e ódio. Tem gente que adora o cara, o jogo dele, o jeito e não atura ouvir qualquer crítica. Tem gente que detesta e se nega a elogiar. Quem gosta de Neymar, tem certeza absoluta que a mídia “persegue” o rapaz. Quem não gosta, diz que a mídia “passa a mão na cabeça” dele.

Primeiro, a mídia, assim como torcedores, ex-jogadores, etc, é formada por gente em carne e osso. Cada um tem sua opinião, cada um faz sua análise e chega a conclusões. Na mídia, existe a mesmíssima divisão que há entre as pessoas que acompanham e vivem futebol, mas não estão com microfone em mãos. Tem quem ame, tem quem deteste.

Eu, por exemplo, me considero uma pessoa no meio do caminho. Gosto muito do jogo de Neymar, acredito que ele seja um genuíno craque, que já está na lista de 10 maiores jogadores brasileiros de todos os tempos. Isso mesmo.

No entanto, sou crítico em relação a algumas posturas dele, especialmente dentro de campo, e acho que ele pularia para um degrau mais alto se ele melhorasse em alguns aspectos mentais e tomasse algumas decisões mais inteligentes em jogos grandes. A tomada de decisões é o que diferencia, por exemplo, Messi de Neymar.

Quando digo que sou crítico a algumas posturas, não estou falando de Instagram nem de festança de aniversário. Falo de posturas no jogo mesmo, com algum individualismo, algum desrespeito por rivais, algum desdém, alguma animosidade com toda a mídia, que, a meu ver, sobram. Ele deveria ser maior que isso.

Quando Casagrande fala que Neymar está sendo muito mimado, ele acerta em cheio, a meu ver. Sobre a postura em campo, por exemplo, nas jogadas com Cavani, já não concordo muito.

O que não gosto da polêmica gerada nesta semana é quando os defensores de Neymar passam ao ataque. Desqualificando Casagrande por seus problemas do passado com as drogas. Casagrande merece ser aplaudido pela maneira aberta e transparente como lidou com um problema pessoal, até para servir de exemplo para tantas outras famílias que sofrem do mesmo mal. Chamá-lo de “cheirador” acrescenta zero ao debate sobre Neymar. Zero.

Mostra apenas o nível baixíssimo das pessoas quando têm suas ideais confrontadas. Parece que se sentem ameaçadas. Mas deixemos os comentários sobre a psique humana para quem sabe mais disso do que eu.

E quando o pai de Neymar se manifesta chamando Casagrande de “abutre” me parece extremamente agressivo e desproporcional.

“Em uma “guerra” há os que se alimentam de vitórias e há os que, como os abutres, se alimentam da carniça dos derrotados. Nada fazem, nada produzem, vivem do brilho ou, com mais frequência, de momentos difíceis de suas “presas”. Foi o que escreveu Neymar pai.

Quem é mesmo que “vive do brilho dos outros”? cri, cri, cri….

E tem mais. Que história é essa de guerra?? É isso que está virando o Brasil. Tudo é guerra, tudo é enfrentamento. Se você faz uma crítica, é inimigo e precisa ser combatido. É um binarismo inacreditável, surreal.

Não sou advogado de Casagrande. Mas a crítica dele é analítica. É uma análise do jogo de Neymar e da postura dele como jogador protagonista da seleção brasileira, além de ser o mais caro da história do futebol.

Na análise de Casagrande, Neymar atua em campo com uma mentalidade individualista. E ele não gostaria que isso acontecesse na Copa do Mundo, pelo bem da seleção brasileira.

Esta mentalidade individualista, a meu ver, é parte integrante do futebol brasileiro. Foi, em grande parte, razão do nosso sucesso. Mas, hoje, é razão do fracasso. O jogo mudou. Hoje, ele é mais coletivo do que nunca. E o individualismo precisa estar a serviço do coletivo para, aí sim, marcar diferenças.

O que Casagrande diz é que Neymar joga um jogo em que o coletivo precisa estar a serviço do individualismo (dele). E esta é uma inversão de lógica inaceitável. A soma de atitudes, gestos, falas, etc, de Neymar fazem com que ele chegue a esta conclusão. Me parece uma opinião lícita.

Como lícita foi a opinião de Muricy Ramalho no mesmo Sportv, ex-treinador dele no Santos, dizendo que Neymar não é mimado, é super profissional, dedicado, etc. Tite fala a mesma coisa. Aliás, é nítido que Tite entende como ninguém que sua grande missão é trazer o individualismo do jogador brasileiro para serviço do coletivo. Só assim o hexa será conquistado. E ele parece estar tendo êxito na missão, inclusive pela postura que Neymar mostra quando joga com a seleção, bem diferente da postura que vem mostrando no PSG.

Eu não acho que ser mimado e ser super profissional sejam coisas excludentes. Me parece claro que Neymar não teria atingido o nível estratosférico que atingiu não fosse um jogador profissional, preparado e dedicado. Dedicado até que ponto? Mais ou menos que Cristiano Ronaldo? Mais ou menos que Ronaldinho Gaúcho? É difícil dizer. Podemos deduzir, observar, mas creio que ninguém tenha tal certeza. Nem mesmo os envolvidos, pois não estão na pele do outro.

Agora, só porque é profissional não é mimado?

O que é ser mimado, afinal? Na minha opinião, a pessoa mimada é aquela que tem dificuldades em aceitar um não como resposta, pois sempre tiveram a sua volta pessoas dispostas e disponíveis a cumprir seus desejos.

Eu, caçula e temporão, sou uma pessoa mimada. Não teria por que fazer a auto análise aqui neste post mas… por que não? Já tive e tenho muitas dificuldades na vida por me sentir contrariado. É uma barreira a ser superada. E isso não me impede de ser profissional, dedicado, ético, correto, etc.

Ninguém é 100% perfeito, ninguém é 100% imperfeito.

A impressão que a resposta de Neymar pai passa (corroborada a mim por outras pessoas mais próximas, não citarei nomes) e que as atitudes de Neymar filho, pai e staff passam é que Neymar nunca será contrariado pelas pessoas a sua volta.

É muito difícil imaginar que, depois do jogo contra o Real Madrid, alguém vá chegar perto dele e falar. “Ney, você errou nesse lance, naquele, naquele outro, poderia ter passado aqui, chutado ali, tomado outra decisão”.

Muricy deu a dica no Sportv. “Ele gosta de ser contrariado, confrontado”. Não duvido. Mas será que isso está acontecendo e tem acontecido nos últimos anos? Muricy não convive mais com ele para saber.

Mais, para apimentar o debate. Isso é função do técnico?

Sem dúvida. Mas pense no quão difícil é a posição de um técnico nesta relação com uma estrela como Neymar, rodeada de gente envenenando sua cabeça sobre os outros profissionais a sua volta. Será que “staff” Neymar fala bem ou mal de Emery, Cavani, etc para ele? Será que fazem contrapontos? Ou será que falam o que Neymar quer ouvir?

O que vocês acham?

Eu acho que as pessoas mais próximas a ele, que são as que deveriam ser constantes antagonistas, apenas fazem passar a mão na cabeça e falar o que ele quer ouvir. E a resposta agressiva e desmedida de Neymar pai a Casagrande são praticamente uma comprovação disso.

Foram muitos os jogadores e, principalmente, treinadores, que adotaram essa postura de enfrentamento. Que consideravam que o mundo estava contra eles, que havia uma gigantesca conspiração dos invejosos de plantão. Invariavelmente, essas pessoas fracassaram no próprio mar de ódio que geraram.

Nada na vida é melhor do que um choque de realidade de tempos em tempos. É duro na hora, mas faz um bem danado depois. Se eu fosse Neymar, ouviria e absorveria melhor as críticas. Isso aqui não é guerra. É apenas o jogo. O jogo que ele escolheu jogar muito tempo atrás.

 

 


Vasco volta a empolgar e faz seu torcedor sonhar
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Julio Gomes

O Vasco fez um ótimo primeiro tempo, caiu no segundo, mas conseguiu uma ótima vitória por 4 a 0 sobre o Jorge Wilstermann, da Bolívia. Foi a partida de ida da última fase eliminatória antes das fase de grupos da Libertadores da América.

A volta, semana que vem, será na altitude de Sucre. Já sabemos de longa data que, na altitude, o bicho pega.

Este mesmo Jorge Wilstermann ganhou os seis jogos que fez em casa na Libertadores do ano passado – entre as vítimas, Palmeiras, Atlético-MG, Peñarol (levou 6) e River Plate (levou 3 a 0, mas depois fez incríveis 8 a 0 na partida de volta das quartas de final). Fora de casa, além da humilhação na Argentina, o time boliviano só apanhou e arrumou o 0 a 0 contra o Galo.

Isso é muito comum de vermos na Libertadores. Times que em casa, na altitude, ganham de todo mundo. Fora de casa parecem uma equipe de várzea.

Mas, convenhamos, 4 a 0 é um placar virtualmente impossível de ser revertido. Mesmo na altitude.

O Jorge Wilstermann ainda criou boas chances de gol no segundo tempo, empurrou o Vasco para trás e deixou São Januário em silêncio por minutos. Em algum momento, o jogo poderia ficar tanto 2-1 quanto 3-0.

Para sorte dos cariocas, foi para o 3 a 0 no belo chute de Pikachu no finalzinho. E ainda saiu o 4 a 0 nos acréscimos, com Rildo. O terceiro gol poderia ter saído antes, se o árbitro não tivesse deixado de marcar, sobre Reascos, um dos pênaltis mais escandalosamente não marcados dos últimos tempos.

O Vasco começou o ano em meio ao turbilhão político de sempre, perdeu jogadores, mas o time conseguiu se manter alheio a isso. Quietinho, como sempre, Zé Ricardo montou um time rápido, pegador, dedicado e com muito talento nos pés dos meninos Paulinho e Evander, da base. Rapidamente, o torcedor, que estava contagiado pelo racha dos bastidores, voltou a se unir e sorrir.

E pode sonhar, sim senhor.

Tem muita água para rolar na temporada. Mas, ao contrário dos badalados Palmeiras, Cruzeiro e Flamengo, o Vasco foi o único grande a realmente superar barreiras importantes neste primeiro mês de temporada.

No ano passado, o Botafogo conseguiu carregar por quase toda a temporada o momento emocional de ter superado pelas fases eliminatórias prévias da Libertadores. Será que o Vasco repetirá o feito?

Confirmando a classificação, cairá em um duro grupo 5, com Cruzeiro, Racing e Universidad de Chile. No ano passado, o Botafogo também caiu em um grupo fortíssimo, com Atlético Nacional (então campeão), Estudiantes e Barcelona de Guayaquil. E passou.

Muitos colocarão o Vasco como patinho feio deste grupo. Mas, em Libertadores, convém não duvidar de nada nem de ninguém.


Demissão de Oswaldo não é surpresa. Difícil é entender o apoio recebido
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Julio Gomes

Oswaldo de Oliveira começou o ano já com pinta de demitido. Estava na cara que seria o primeiro degolado entre os clubes grandes do país e não chegaria nem ao Brasileiro. Foi um tapa buraco no ano passado, o trabalho nem foi tão bom, confesso que não entendi por que a diretoria nova insistiu em seguir com ele para 2018. Os últimos trabalhos e mesmo o do ano passado no Galo não lhe credenciavam.

Com os primeiros resultados no Mineiro e a quase eliminação no Acre, estava na cara que Oswaldo cairia. Aí veio a reação destemperada com o repórter Leo Gomide, da rádio Inconfidência. E, dois dias depois, apesar das palavras bonitas do presidente Sette Câmara, a degola.

Segundo o Atlético, Oswaldo não foi demitido pela briga com o repórter. E, sim, por uma questão técnica. Até dá para acreditar. Quem sabe o ocorrido no Acre tenha sido só um pequeno catalisador.

O que falar da situação no Acre? Oswaldo errou desde o começo, mostrando agressividade desproporcional à suposta dureza do repórter ao fazer a pergunta. Não acompanho o dia a dia do Atlético para avaliar as perguntas feitas em coletivas anteriores. Há pessoas em quem confio muito que são apenas elogios a Leo Gomide e seu trabalho.

Ainda assim, com tudo isso, mesmo que perguntas incômodas tenham sido feitas no passado, mesmo com o stress do jogo (a quase eliminação), mesmo com as condições climáticas adversas no Acre, mesmo com o problema de saúde pelo qual Oswaldo havia superado dias antes, ele passou do ponto.

E, depois, quando parte para cima do repórter, ele faz mais do que passar do ponto. Ele faz o suficiente para ser, por exemplo, demitido por conduta imprópria.

Bem, é lógico que o xingamento ou não xingamento é decisivo aqui. Gomide disse que dizia “este é meu trabalho”. Oswaldo disse que ouviu “vá para o caralho”. Caralho, me perdoem o uso do termo, não costuma ser um palavrão usado para xingar alguém. De fato, as gravações mostram Gomide falando “muito obrigado” (ironicamente) e esbravejando “meu trabalho”. Os únicos palavrões gravados saíram da boca do técnico.

Dado que Oswaldo de Oliveira demonstrava todo destempero desde o início da pergunta do repórter, é plausível achar que ele precisava de pouco para explodir. Confundiu trabalho com caralho? Possível. Provável, até. Mas vamos pensar que não, que ele não confundiu nada e que o repórter soltou mesmo o palavrão.

O comunicado de Oswaldo, ontem, dizia. “Ouvi o maior desaforo de toda a minha carreira. Ouso afirmar que, PROPORCIONALMENTE, nem da arquibancada havia recebido tamanho insulto, mesmo levando em conta toda a passionalidade do torcedor pelo seu clube do coração”. Acharam exagerado? Sim, eu também.

Oswaldo estava P da vida. Perdeu a cabeça e os papéis, partiu para a agressão. O repórter fez o trabalho dele. Mandou mal, se soltou o tal palavrão. Mandou bem por não reagir à tentativa de briga do treinador. E o Atlético, que mandou pessimamente de ter proibido o profissional de entrar no clube, logo logo reverá a posição.

O que me chamou a atenção no caso Oswaldo é como muita gente nas redes sociais se manifestou contra o jornalista mesmo sem ter todos os elementos em mãos – afinal, nenhuma gravação pegou o suposto xingamento.

O benefício da dúvida foi dado ao técnico, não ao repórter.

E este é um movimento que vemos mundialmente – o mundo contra a imprensa. Mas que está particularmente forte aqui no Brasil no caso de jornalistas esportivos. Antes admirados, agora são atacados, xingados, assediados.

Eu sou um crítico costumaz da minha profissão, então me sinto tranquilo para falar do tema.

Primeiro, falar de “imprensa esportiva”, assim, de forma genérica, é complicado. São muitos os ramos, as funções, dentro da “entidade” imprensa esportiva. Existem narradores, apresentadores de programas, repórteres investigativos, repórteres de clubes, comentaristas que são ex-jogadores, comentaristas que não são ex-jogadores, editores de matérias de TV, editores em redações de jornal, editores em redações de internet.

Percebo que na tentativa de atacar a “imprensa esportiva” a maior parte das pessoas, para não dizer todas, não têm ideia de como funcionam as redações e as tomadas de decisões. Não sabem diferenciar, por exemplo, um profissional que informa de um profissional que opina.

“A ‘Fofox’ é uma porcaria!”, bradam! Não podemos mais deixar o Flavio Gomes entrar no clube! Só que o Flavio Gomes não entra em clube algum. “O repórter veste camisa por baixo!”. Qual repórter? Não sabem. Aliás, tampouco sabem que boa parte dos repórteres setoristas torcem pelos clubes que cobrem.

“Se é para falar mal do meu clube, prefiro que a gente fale entre nós”, disse um amigo, palmeirense, que arrematou. “Esses jornalistas tão se fud…, a internet tá aí para acabar com eles”.

Quais jornalistas? Juca Kfouri, os da Fofox, Chico Lang… Mas são esses caras que cobrem o noticiário do Palmeiras? Não, claro que não. Eles apenas opinam, analisam, estudam, investigam. Alguns mais, alguns menos, mas é gente que está no estúdio.

Uma pessoa escreveu no Twitter: “Após a reação do Oswaldo de Oliveira a pergunta do Leo Gomide uma coisa ficou bem clara: ninguém aguenta mais esse “jornalismo” parcial, clubista, tendencioso, que planta notícias falsas para os clubes ficarem desmentindo, etc. Se o futebol acabou, o jornalismo esportivo idem!”

O que têm a ver “jornalismo parcial e clubista” e “notícias falsas plantadas” com a pergunta de Leo Gomide?

Hoje em dia, se alguém colocar em dúvida os negócios de um clube ou criticar qualquer tipo de decisão, é visto como alguém que “planta crise”, que “quer desestabilizar” o clube. Se for o Mauro Beting falando do Palmeiras, tudo bem. Se for outro, não pode. É “inimigo”.

A “imprensa esportiva” não é isenta de falhas e críticas. De forma alguma.

Eu sempre disse e repito. Tem gente com microfone nas mãos sem qualquer senso de responsabilidade para com os sujeitos de suas “análises” e mesmo colegas de profissão.

Há repórteres que “trabalham” para cartolas? Que fazem serviço sujo? Sim, há. Mas é muito difícil identificá-los mesmo para quem está dentro dos clubes ou ombro a ombro nas coberturas. Identificar à distância, eu garanto, é impossível.

Os profissionais do esporte não gostam de repórteres que fazem perguntas duras, que supostamente estão lá tentando descobrir coisas que os clubes/profissionais não querem que sejam descobertas.

Muitos deles, por mais inteligentes, viajados e estudados que sejam, não entendem que o jornalismo não serve a ninguém deles. Nem a eles nem a clubes e nem a pátria. O jornalismo serve a quem quer ficar sabendo das coisas. Serve a quem lê, ouve, assiste.

O torcedor ou simpatizante do Galo, verdadeiramente preocupado com o clube, se tivesse um microfone em mãos, faria qual pergunta a Oswaldo? “Que porcaria está sendo feita para quase termos sido eliminados pelo Atlético Acreano?” ou… “Parabéns, professor, estamos juntos, como o senhor está fazendo para lidar com esse calor?”.

Se quem lê, ouve, assiste não quer que um jornalista “fale mal” ou “descubra coisas” do seu time, partido político preferido ou governo, ele que fique restrito aos canais oficiais de mídia destas entidades. Viverá em uma bolha? Sim. Mas se essas pessoas não querem jornalismo, que não consumam jornalismo.

Não somos nós que fazemos gols, perdemos gols, contratamos jogadores, dispensamos técnicos.

Consumir jornalismo para xingar? Para se irritar? Para agredir? Isso dificilmente entrará na minha cabeça. Se o espectador identificou um “picareta”, que não ouça mais, oras.

A ótima repórter Mayra Siqueira, da Rádio Globo, escreveu o seguinte. “Bom jornalismo incomoda, mau jornalismo também. Oswaldo perdeu a linha totalmente com o , um dentre os bons. Muito a ver com o que fazem irresponsáveis que se travestem de jornalistas e lançam suas pedras sem o menor cuidado, apuração e bom senso”.

O jornalista que serve a outros patrões não é jornalista que se deve respeitar. Mas esses caras são exceções. Devemos todos combatê-los e boicotá-los. Todos juntos.

O problema é que hoje em dia dirigentes, profissionais do esporte e torcedores estão combatendo não esses poucos picaretas. Mas toda a classe.

É por isso que a atitude de Oswaldo foi aplaudida por muitos. Eles se sentem vingados.

Nós não vamos revidar. Faremos como Leo Gomide e como Flavio Ortega, que levou uma voadora na cobertura da eleição do Corinthians.

Faremos nosso trabalho. Faremos nosso trabalho pensando em você, que torce por seu clube, mas não tem comprometimento algum com ladrões, incompetentes e violentos que ocupam as cadeiras ou dividem as arquibancadas contigo.

Sim, eu sou um corporativista. Sou e sempre defenderei todos os que são da corporação da honestidade, bons modos e da paz.

 

 


Clubes que votaram contra o VAR desvalorizam o próprio produto
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Julio Gomes

Sete clubes votaram pela implementação do VAR (árbitro auxiliar de vídeo) no Brasileirão 2018: Palmeiras, Flamengo, Inter, Grêmio, Bahia, Botafogo e Chapecoense. Os outros votaram contra – o São Paulo se absteve, o que, na prática, é a mesma coisa. A justificativa comum? Dinheiro. É muito caro. Se o campeonato é da CBF, ela que pague.

(Como se a Chapecoense, que recebe seis vezes menos que o Corinthians pelos direitos de transmissão, estivesse nadando na grana).

Não estou aqui para defender a CBF, que é quase indefensável por qualquer ângulo que se olhe. Apenas não consigo dissociar a qualidade administrativa e a ética da CBF da dos dirigentes médios brasileiros.

O Brasileiro deveria estar nas mãos dos clubes, como acontece em qualquer liga séria do mundo, já há muito tempo. E isso não acontece por culpa deles mesmos, incapazes de se sentarem à mesa e pensarem no bem comum. Então, tome Brasileirão administrado pela CBF.

A CBF não quer pagar pelo VAR? OK. Nem sei se deveria ou não. O fato é que são os clubes os protagonistas da competição. A arbitragem de vídeo seria benéfica a eles, ao produto deles, à credibilidade do torneio jogado por eles. São eles, pois, que deveriam tomar a dianteira do assunto.

É muito fácil se escorar na CBF. Nenhum cartola será criticado pelos seus torcedores por se opor a uma decisão da CBF, não é verdade?

Alguns dirigentes, quero crer, estão realmente preocupados com as finanças. Outros apenas querem empurrar responsabilidades. É muito mais fácil colocar na arbitragem a culpa de uma derrota, de um rebaixamento, de uma não classificação para a Libertadores.

Arbitragens ruins, e elas não são raras no Brasil, são a muleta para muitos dirigentes, técnicos, jogadores, torcedores e até mesmo comentaristas esportivos. Aliás, alguns torcedores mais fanáticos correram para abraçar a decisão de seus dirigentes, elencando a mesma série de desculpas faladas aos microfones. Não canso de me surpreender com o senso de “defesa” do clube.

Mas após a decisão de ontem só resta uma pergunta. O que, afinal, queremos para o futebol brasileiro?

Se por um lado é verdade que o VAR custa caro (pelos valores ditos ontem, R$ 50 mil por jogo), por outro lado não estamos falando de um valor impagável.

O Vitória, por exemplo, foi o time mais prejudicado por erros de arbitragem no Brasileiro do ano passado (pelo levantamento deste blog, quem mais teve pontos “tirados”). Acabou se livrando do rebaixamento na última rodada, mesmo perdendo, com uma boa dose de sorte. Quanto custaria aos cofres do Vitória ser rebaixado? O VAR, um investimento que parece alto, teria saído baratinho.

E mais. Será que o VAR custa mesmo tudo isso? Se o valor apresentado pela CBF é muito alto, e parece ser mesmo, comparando aos custos do VAR, por exemplo, em Portugal, por que os clubes não se mexem para encontrar um outro modelo?

O VAR, além de ser extremamente benéfico ao jogo, apresenta uma gama de oportunidades comerciais. No momento em que ele é acionado, há inúmeras oportunidades de exposição de marca. A própria geradora de imagens, a Globo, poderia estar envolvida. Se bobear, com um pouco de esforço e criatividade, ainda ganhariam dinheiro com isso.

 

O que vemos é a maioria dos clubes fazerem esforço zero pela arbitragem de vídeo. Não se juntaram para viabilizar a coisa, com ou sem CBF.

E aqui deixo um spoiler do Brasileirão. Haverá erros. E essa turma vai reclamar adoidado…

 


Clássico sonolento expõe a época mais difícil de ver jogos no Brasil
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Julio Gomes

Entre janeiro e maio, é o buraco negro. O fundo do poço. A hora mais difícil de ver jogos Brasil afora. Principalmente, se for logo depois de algum jogo grande da Europa. É o luxo seguido do lixo.

Neste domingo, a emenda foi Liverpool 2-2 Tottenham com Palmeiras 2-1 Santos (claro, o clássico foi visto por quem está onde passou esse jogo – fora de São Paulo, tivemos outros jogos sendo transmitidos na TV aberta. Vou me ater ao que vi).

A outra dobradinha tradicional que vemos entre janeiro e maio é em meios de semana. Jogos de Champions League ou finais das Copas europeias à tarde seguidos de duelos modorrentos das fases iniciais da Libertadores e Copa do Brasil à noite. Dá depressão.

Liverpool e Tottenham, neste domingo, foi um daqueles jogos incríveis da Premier League. A 110 por hora, sem parar por um segundo sequer, de tirar o fôlego e, de quebra, com golaços, placar maluco, pênaltis e gols nos acréscimos, etc. Já Palmeiras x Santos foi um sono só.

Um jogo muito, muito, muito difícil de ver. É claro que há atenuantes, já falaremos deles. O calendário não ajuda nada, nada, nada.

Quem está emocionalmente envolvido nem precisa perder tempo cornetando aqui. É lógico que o palmeirense está feliz e o santista está triste em função do resultado e das perspectivas de cada um deles na temporada. Mas isso pouco importa, falo da qualidade do jogo. Nem mesmo o mais fanático torcedor pode estar satisfeito com o ritmo do clássico paulista. Quer fazer um teste? Tente encontrar um amigo não-palmeirense que tenha assistido aos 90 minutos e tenha gostado.

É claro que não são todos os jogos que são bons na Europa. Óbvio que não. Não me venham com aquele argumento profundo de “vá ver Getafe x Leganés então”. Falta qualidade técnica lá em muitos times. Mas os jogos são mais bem jogados, os times são mais organizados. E, o principal, as arbitragens não ficam parando tanto tudo.

No Palmeiras x Santos isso ficou claro. Tudo é falta, tudo é cartão, tudo é reclamação, tudo é motivo para ficar rolando no chão. Os árbitros são permissivos, e os jogadores ficam o tempo todo querendo enganá-los e pressioná-los.

O ritmo de jogo já é lento por natureza, porque estamos no começo da temporada e os times estão longe do melhor momento físico. E os árbitros fazem com que esse ritmo seja ainda mais lento.

Mesmo com o placar apertado, o clássico paulista foi um sono só. Parecia ritmo de Copa de 70. Para quem viu Liverpool x Tottenham minutos antes, parecia um jogo em slow motion. O Santos achou um gol (ilegal, pois a bola havia saído pela linha de fundo segundos antes) e, ainda assim, não passou nem perto de empatar.

O Palmeiras, apesar de ter um elenco muito, mas muito, mas muito melhor que o do Santos, nunca apertou, nunca fez valer a superioridade. Roger tem escalado sempre o que tem de melhor, colecionado vitórias com segurança e está ganhando a tranquilidade que outros não tiveram para trabalhar. Está sendo inteligente.

A superioridade do Palmeiras só ficará mais clara conforme a temporada avance. O grande vilão, para todos, é o calendário. Ninguém teve nem pré-temporada.

Virão as finais dos Estaduais, com algumas partidas mais emocionantes, porque serão clássicos e jogos eliminatórios. Acabará a temporada europeia. Virá a Copa do Mundo. E, lá para agosto, o Brasileirão, com times mais prontos e melhores fisicamente, passará a ter partidas melhores.

No segundo semestre, chegam também as fases agudas de Libertadores e Copa do Brasil. É o que nos resta. Esperar. E tentar não dormir.


Será que Robinho saiu porque a sociedade melhorou tanto assim?
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Julio Gomes

Robinho não fica no Brasil. Vai para o Sivasspor, da Turquia. Muitos dirão que é a prova de que a sociedade brasileira evoluiu. Não há espaço entre nós para um condenado por estupro na Itália.

Mas será que foi isso mesmo? Gostaria de compartilhar tal otimismo, mas em minha visão Robinho não ficou porque ninguém quis pagar o que era pedido. É o tema do vídeo abaixo:


Por que, afinal, toda torcida acha que está “contra tudo e todos”?
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Julio Gomes

No domingo, o New England Patriots venceu um jogo apertadíssimo contra o Jacksonville Jaguars e se classificou para a final do futebol americano, o famoso Super Bowl. Não pare de ler. Não vou ficar discorrendo sobre a NFL, caso você não curta ou conheça nada deste esporte.

Apenas resumindo. Os Patriots se tornaram nas últimas duas décadas o clube mais vitorioso da história do futebol americano. Tom Brady, o craque do time, aquele que é casado com a Gisele Bundchen, chega a sua oitava final, um recorde. Já os Jaguars nunca chegaram a uma decisão e eram uma das chacotas da liga até o ano passado.

Estamos falando, portanto, de um confronto Davi contra Golias. Naturalmente, o mundo inteiro estava torcendo pelo mais fraco. Mas ganhou o mais forte. E com algumas decisões de arbitragem bem contestáveis.

Eis que estão surge esta imagem durante a transmissão.

Na tradução livre, temos ali um cartaz dizendo “New England contra tudo e contra todos”.

E aí eu pergunto. Quantas torcidas, de qualquer time, de qualquer esporte, NÃO se consideram contra tudo e contra todos? Aqui no Brasil isso virou lema. Podemos até sair do futebol profissional. Na política e até mesmo em profissões em que não há competição (um ganha, outro perde) estamos todos os tempo todo achando que o mundo está contra nós.

Mas voltando ao tema.

O mesmo New England vai jogar a final contra o Philadelphia Eagles, um clube de muita tradição, mas que nunca venceu o Super Bowl. Os Eagles têm como arquirrival o Dallas Cowboys, que é o time mais popular dos EUA. Entre os rivais históricos, estão também New York Giants e Washington Redskins, times da maior cidade da capital do país.

Ainda assim, mesmo com tanta gente de clubes importantes detestando o time da Filadélfia, os Eagles terão apoio quase unânime dos não-torcedores dos Patriots na final de 4 de fevereiro.

Como explicar? Isso dá razão à plaquinha da foto acima, correto? Se todo mundo torce contra você, é porque você está jogando contra tudo e contra todos…

Não estou tão certo.

Há quem diga que os clubes que vencem muito, que são campeões toda hora, geram antipatia. E as pessoas, que antes eram indiferentes, começam a torcer contra.

Não dá para negar que isso aconteça. Um amigo jornalista e ex-colega de ESPN, Leandro Tavares, diz o seguinte. As pessoas torcem pelos underdogs (zebras) da vida porque elas se sentem underdogs na vida.

Tem sentido. Mas também tem muita gente que escolhe torcer pelo…. mais forte. Quer estar do lado vencedor. Aliás, a maioria das pessoas faz essa escolha. A torcida pelas zebras é eventual, não regra. Então não me parece haver uma regra entre estar a favor ou contra quem ganha.

Os próprios Patriots, 20 anos atrás, não apareciam na lista de franquias mais populares do futebol americano. Os títulos, ídolos, o sucesso, enfim, trouxeram fãs para o lado deles.

Mas por que ao mesmo eles estão alcançando rapidamente a franquia mais popular, os Cowboys, como os “mais odiados”, como mostra essa pesquisa?

Por que outros clubes vencedores não são tão odiados assim? Por exemplo: o Barcelona. Sim, muita gente torce contra o Barça desde que eles começaram a ganhar tudo. Mas não dá para ver o Barça como um clube “contra tudo e todos”, não é mesmo? Ele amealha muito mais seguidores do que inimigos mundo afora. Muito mais. O Barça tem pouca rejeição. Até o Bayern de Munique, fora da Alemanha, tem pouca rejeição. Já a Juventus, não. Tem bastante rejeição na Europa, fora da Itália.

Eu acredito que os clubes que ganham mais antipatia mundo afora são aqueles que, além de ganharem muito e de terem muitos fãs, possuem uma imagem de estarem sendo ajudados indevidamente por forças ocultas, exteriores ao jogo. Ora arbitragem, ora tribunais, ora federações. O sistema está do lado deles.

Esta é a imagem que o Corinthians e o Flamengo têm no Brasil, que o Real Madrid e a Juventus têm na Europa, que os Patriots têm nos EUA.

Não estou falando que ela condiz com a realidade, não entrarei neste mérito. Estou falando da imagem. Quem não torce por estes clubes, além de ficar incomodado com o sucesso e o número de torcedores deles, fica incomodado por achar que eles estão sendo constantemente beneficiados, que o sistema é essencial para tal sucesso.

E esta imagem gera o ódio, a bronca, a torcida contra.

Clubes não tão populares, como Chelsea, na Inglaterra, e RB Leipzig, na Alemanha, também geram antipatia. Aí o que explica é a injeção de dinheiro, o que faz com que eles tenham a imagem de ganhadores “artificiais”, que não chegaram à riqueza atual por próprios méritos.

Todas as torcidas acham que seus clubes estão jogando contra tudo e contra todos. Todas. Mas algumas em menor nível, outras em maior nível.

Os que realmente acham que o mundo é feito de “antis” beiram a prepotência, pois se consideram mesmo o centro de universo. Só que eles acham que jogam “contra tudo e contra todos”, que existe torcida contra, porque os outros têm inveja de seus títulos, de sua torcida, da sua beleza. Não fazem muita questão de tentar entender a razão de tanta bronca.

Eles estão errados.

 


Neymar precisa ser mais como Ronaldinho em campo e menos fora
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Julio Gomes

Este post é sobre os dois brasileiros da semana. Dois dos nossos maiores jogadores, que dominaram o noticiário por motivos diferentes. Mas, antes de chegar em Neymar e Ronaldinho, vou contar uma historinha. Vocês vão entender.

Março de 97. Eu tinha 17 anos, estava no primeiro ano de faculdade e meu time era um timaço. A Lusa era vigente vice-campeã brasileira, candidata a tudo. Em uma tarde qualquer, enfrentou o Kaburé, de Tocantins, pela Copa do Brasil. Pouca gente foi ao Canindé, horário comercial, dia de semana, já sabem. Eu estava lá. A Portuguesa ganhava por 7 a 0 quando, nos minutos finais, o juiz marcou um pênalti.

Os torcedores presentes começaram a gritar o nome de Capitão. Para quem não sabe ou não lembra, Capitão, um volante de alguma classe e muito esforço, jogou por quase 10 anos no clube. Com mais de 500 jogos, foi quem mais vezes vestiu a camisa da Portuguesa (a história dele está bem contada aqui). Mas fez pouquíssimos gols. Portanto, com 7 a 0 no placar e pênalti, era a hora e a vez de Capitão.

Mas apareceu um estraga-prazeres. O goleiro Clemer. Que era ídolo e tal, mas nada nem perto de Capitão. Com cara amarrada, ele pegou a bola das mãos de Capitão, cobrou sob vaias, não comemorou e voltou para o gol. Foi xingado até o fim do jogo. Já deviam ter combinado algo assim, de que se o jogo estivesse resolvido Clemer iria bater o pênalti. Só não contavam com uma torcida espirituosa e grata.

Eu não sei se a torcida do Paris Saint-Germain tem a mesma espirituosidade. E nem se é tão grata assim a Cavani.

Vamos lembrar. O PSG vencia o Dijon por 7 a 0 na Ligue 1, quarta-feira. Neymar só não fez chover no jogo. Já havia marcado três gols, um que foi uma pintura, lembrando os tempos de Brasil, driblando todo mundo. Sai um pênalti para o PSG. Se convertesse, Cavani se tornaria o maior artilheiro da história do clube. A torcida grita o nome do uruguaio. Neymar pega a bola, bate e faz o quarto dele, o 8 a 0. É vaiado. Fica bravo. Não vai celebrar o resultado com a torcida, como os outros jogadores.

Eu não sei se Neymar sabia do recorde de Cavani ou percebeu o ruído da arquibancada. Talvez até não. Não acho que ele seja o pior ser humano do mundo por ter batido o pênalti.

Mas me parece claro que falta a Neymar uma conexão com a arquibancada. E falta o sorriso no rosto que tinha Ronaldinho – chegamos a este monstro sagrado, a quem não posso deixar de prestar homenagem na semana em que se aposentou de vez (na prática, se aposentou faz tempo).

As homenagens a Ronaldinho no mundo inteiro deveriam servir de exemplo para muitos jogadores marrentos por aí. Ronaldinho foi, em 2004 e 2005, disparado o maior do mundo. Mas não só isso. Ele foi pura mágica em campo. Aquele sorriso aberto em todos os momentos, na vitória ou na derrota, no golaço ou na pancada, contagiou milhões de pessoas. E contagiou porque era genuíno, todos conseguiam ver isso. Era impossível não gostar de Ronaldinho. Impossível.

Ronaldinho foi muito mais do que um grande jogador. Ronaldinho é desses caras que fazem o brasileiro ser bem recebido em qualquer lugar do mundo. Que fazem com que a gente tenha o melhor cartão de visitas global, em qualquer país, em qualquer circunstância. Ele é o símbolo da alegria do nosso povo (ou suposta alegria, não precisamos dividir nossos podres).

De quantas roubadas eu já não saí mundo afora fazendo o hang-loose e dizendo “Roooooonalldinho”!

Mas, fora de campo, ele teve uma carreira muito curta e prejudicada. Eu nunca convivi com a família Assis. Mas era nítido que Ronaldinho bancava muita gente para morar com ele (primos, parças, festas…). E Assis, o irmão mais velho, uma espécie de pai substituto após a tragédia familiar, era quem tocava os negócios.

Ex-jogador, que não passou nem perto de ser o que foi o irmão, parecia querer fazer valer o talento em forma de grandes contratos. Sempre muito duro com os clubes, sempre forçando renovações, querendo mais, mais e mais. O auge foi o patético leilão instigado entre Flamengo, Palmeiras e Grêmio em 2011. Mas tiveram também as próprias saídas de Grêmio, PSG e Barça.

Se há algum arranhão na imagem de Ronaldinho é este. Festeiro demais, com a carreira influenciada por um irmão que pensa em dinheiro demais.

Fora do campo, o paralelo com Neymar é nítido. Carreira levada pelo pai, ex-jogador, que parece querer ganhar com o filho todo o dinheiro possível para esta e mais umas 30 vidas. Banca um mundo de amigos, que leva para lá e para cá. Muitas distrações. E o tempo todo no noticiário as especulações sobre novos contratos, possíveis saídas, etc. Coisas que não são inventadas pela imprensa. Essas informações chegam, são vazadas, até como forma de pressionar os clubes e agentes envolvidos.

Seria ótimo se a carreira de Neymar, já marcada pela negociação picareta que o tirou do Santos e por outra saída traumática (do Barcelona), passasse a ser menos atrelada a tantas especulações envolvendo contratos, transferências, impostos. Dinheiro, em resumo.

As pessoas detestam gente gananciosa. E Ronaldinho só superou essa imagem porque, em campo, o cara era a simpatia ambulante.

Uma simpatia que Neymar não tem. Seus sorrisos no terreno de jogo são invariavelmente irônicos ou pedantes. A atitude diante dos adversários é de humilhação.

Existe uma certa sabedoria popular que vem das arquibancadas. Uma sabedoria que muitas vezes escapa do radar dos jogadores, do staff deles e mesmo de jornalistas. Um senso comum ali, um feeling.

A sabedoria que fez torcedores do Real Madrid aplaudirem Ronaldinho Gaúcho no Bernabéu. A sabedoria que fez o Brasil inteiro (menos os cruzeirenses) ficar feliz quando o cara levantou uma Libertadores, já no fim da carreira. A sabedoria de quem percebe que há algo especial naquele dentuço de Porto Alegre. A sabedoria de quem, como eu já disse, sabe que aquela felicidade em campo é genuína. E que o jogo tem que ser aquilo, nada mais, nada menos. O jogo tem de trazer alegria a quem joga e a quem vê, não sofrimento ou irritação.

É óbvio que alguns torcedores do PSG devem estar ficando de saco cheio das notícias de uma possível insatisfação de Neymar no clube, de uma possível saída para o Real Madrid, de uma possível briga por holofotes no vestiário. Começam a ficar bodeados do craque. Começam a ver quatro gols com desdém, não com entusiasmo e paixão.

Clemer, 20 anos atrás, não teve a perspicácia de entender que aquele era o momento de deixar Capitão bater o pênalti. A perspicácia que Neymar não mostra nunca, porque parece acreditar que o mundo gira mesmo em torno dele. Como devem ter falado e ainda falam em seus ouvidos.

O garoto é uma pilha de nervos ambulante. Vive agindo com uma chata e pequena mentalidade de “o mundo está contra mim”.

Imaginem Ronaldinho neste 7 a 0? Iria pegar a bola, sair rindo com seus dentões e oferecer até para o gandula bater o pênalti.

Neymar precisa ser mais como Ronaldinho em campo. Mais genuíno, mais alegre. Resgatar a felicidade leve que ele deve ter sentido um dia, quando jogava bola na praia de Santos.

Menos cala-bocas. Mais abraços grátis. Na história, você já está. Agora trate de entrar nos corações também. Relaxa, Neymar!

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Salvem os estaduais! Nosso futebol depende do resgate regional
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Julio Gomes

Um grande número de campeonatos estaduais começaram no meio da semana, em todo o Brasil. Ouviremos nas rádios, TVs e leremos em colunas de jornal e blogs que os estaduais não são mais os mesmos, perderam importância, precisam acabar, etc, etc, etc.

Eu vejo de forma diferente. Na minha modestíssima opinião, entre as várias razões para a derrocada do futebol brasileiro nos últimos 20 anos está o sucateamento dos estaduais. E vou explicar.

Primeiramente, é importante deixar claro que os estaduais que eu gostaria que existissem não são esses que estão aí. Com o calendário atual do futebol brasileiro, com os regulamentos mirabolantes e bizarros, feitos para os grandes acabarem ganhando o título e para atender coronéis ou políticos do interior, que batem no peito dizendo que trouxeram os grandes para a cidade.

Com o formato atual do futebol brasileiro, é fato que os estaduais não ajudam em nada os pequenos e estrangulam o calendário dos grandes. Consequentemente, temos campeonatos desinteressantes e o público não é bobo. Não vai ao estádio e nem se importa com os jogos, o que afasta anunciantes.

Os estaduais são fundamentais. Mas precisam ser completamente repensados, e falarei disso mais para frente no post.

Por que, afinal, eu considero os estaduais tão importantes?

Entre outros fatores, o principal, o mais importante, é a formação e revelação de jogadores, técnicos e profissionais do esporte.

O Brasil está perdendo a rodo jogadores jovens para outros mercados. Perde sem que eles joguem por aqui. É por causa do dinheiro? Não só. Um rapaz que joga bola pode, hoje, até ter como sonho definitivo vestir a camisa do Barcelona ou do Real Madrid. Mas, para chegar lá, ele certamente prefere brilhar antes nos clubes grandes daqui do que no Estoril ou na Udinese.

O principal fator é o sucateamento das classes média e baixa do futebol brasileiro. Não é falta de dinheiro. É concentração de dinheiro.

O sistema nacionalizado do futebol brasileiro pode até deixar felizes os torcedores dos grandes clubes, que são a maioria do país. Só que ele essa elitização (que vida existe fora da Série A?) gera um encolhimento do mercado. E faz com que seja muito mais difícil para os próprios grandes clubes garimpar talentos.

Cada vez mais notamos que a cultura esportiva no Brasil vai minguando. E o torcedor de futebol cada vez mais se importa apenas com vitória. É raro encontrarmos identificação com clubes e, principalmente, cidades.

A grande exceção da atualidade é Chapecó.

Imaginem que bacana se tivéssemos dezenas de cidades como Chapecó? Chapecó é uma cidade de mais ou menos 200 mil habitantes. Vou citar aqui 40 cidades com mais de 200 mil habitantes – algumas com clubes de futebol que já tiveram alguma relevância e hoje praticamente desapareceram ou estão sem protagonismo neste futebol nacionalizado:

Criciúma, Araraquara, Marília, Itabuna, Arapiraca, Volta Redonda, Governador Valadares, Santarém, Limeira, Cascavel, Uberaba, Ponta Grossa, Vitória da Conquista, Caruaru, Pelotas, Vitória, Cariacica, Bauru, Anápolis, Piracicaba, Maringá, Campina Grande, Rio Preto, Caxias, Campos dos Goytacazes, Juiz de Fora, Aracaju, Uberlândia, Ribeirão Preto, São José dos Campos, Campo Grande, Cuiabá, João Pessoa, Teresina, Natal, Maceió, São Luís, Manaus, Belém, Brasília.

Alguém dirá que cabe a estas cidades terem clubes organizados e com apoio da própria cidade (população, poder público, empresários locais) para replicar o que faz a Chapecoense.

Pode até ser. Mas aí precisaríamos de uma primeira divisão nacional com quantos clubes? 40? 50? Quem defende esta teoria está disposto a isso?

Sim, é necessário que os clubes se organizem e tenham apoio da própria cidade. Eu acho, imagino, que a população de Manaus adoraria ter um clube bacana e forte para torcer, em vez de ficar torcendo pelo Vasco à distância.

Como fazer, no entanto, para que estas cidades brasileiras tenham a capacidade de bancar e curtir a existência de clubes saudáveis e que atraiam a atenção da própria população? Para começar, precisam ter calendário e motivação.

Vejam, é praticamente impossível, com o modelo atual de Séries A e B com pontos corridos, dinheiro de TV, etc, que estas cidades possam entrar no restrito círculo. Na elite. Impossível, eu diria. A Chapecoense é uma aberração. Não podemos nos pautar por exceções para estabelecer regras.

Nos Estados Unidos, a NBA tem apenas 30 franquias profissionais. Mas o esporte escolar e universitário bem organizado permite que o basquete seja jogado nas estranhas do país inteiro. Permite que quem goste de basquete possa acompanhar os jogos locais, independente de sua cidade ter ou não um time na NBA. Permite que os talentos sejam treinados e apareçam.

Na Alemanha, a Bundesliga tem apenas 36 times, duas ligas. Da terceira para baixo, são ligas regionalizadas, bem cuidadas, organizadas, fomentadas pela Federação Alemã de futebol. É lá que ocorre todo o trabalho de base, de pinçar e trabalhar o talento e o interesse locais. Para que depois esses jogadores passem a jogar nos clubes maiores.

Pensem nos grandes clubes do Brasil, a elite da elite, como franquias da NBA. E pense nos pequenos e médios como as universidades da NCAA.

Tudo bem, o Brasil pode até ter Séries A e B elitizadas. Mas de alguma forma é necessário entrelaçar a terceira divisão com os estaduais.

Os estaduais precisam ser jogados durante o ano inteiro, sempre e somente aos fins de semana. Uma opção de lazer local, nada de jogos na quarta à noite. E precisam, sim senhor, serem subsidiados pela CBF. Afinal, de que serve o caminhão de dinheiro que a CBF ganha com a seleção brasileira (o maior produto do país) se não for para fomentar o esporte no país?

A CBF tem, sim, a obrigação de custear viagens, cursos, treinamentos e prover material esportivo, tecnologia e conhecimento para os pequenos e médios clubes país afora. Para que eles possam fazer toda a varredura de talentos locais, nas escolas inclusive, para que eles possam ter o direito sobre esses jogadores (e não deixá-los nas mãos de empresários), para que eles possam crescer como seres humanos e eventualmente virar jogadores de futebol de alto nível.

Caras que seriam vistos jogando por seus clubes localmente, em torneios estaduais e/ou regionais, e possam então dar o salto para algum clube maior da região ou até a nível nacional, em vez de saírem daqui com 15 anos direto para a Europa – muito mais do que o dinheiro, o que seduz essa molecada é a perspectiva de carreira estável por lá, em detrimento da total bagunça daqui.

Sim, eu sei que muitas das cidades que eu citei acima estão no Estado de São Paulo. Mas é muito bem possível organizar o futebol brasileiro em campeonatos regionais.

Um no Sul (RS, SC e PR), um em SP, um Sudeste (RJ-MG-ES), um no Centro-Oeste, um no Norte, um no Nordeste. Entre seis e oito grandes “Estaduais”. Ligas semi-profissionais. E abaixo delas, ligas amadoras.

É necessário que esses times joguem o ano inteiro, com calendário, com organização, com regulamentos interessantes e dinâmicos (talvez até pontos corridos, para garantir mesmo calendário e receita). E lá em outubro podem ocorrer “fases finais” destes campeonatos. Quem for melhor ao longo do ano, é premiado com o direito de receber os clubes “grandes” do país em verdadeiros festivais para estas cidades, que durariam 1 ou 2 meses.

Os grandes não podem ficar jogando com qualquer time do interior, como acontece hoje. Precisa ser com os melhores, com os que fizerem por merecer.

Neste momento de fases finais, em outubro e novembro, os regionais podem até serem “des-regionalizados” para virarem fases finais somente estaduais. Quadrangulares em estados menores, talvez hexagonais ou octogonais em estados como SP, RJ, RS, MG, PE, etc. Com regulamentos dinâmicos, em que o pequeno possa enfrentar o grande em sua casa. Com semifinais e finais, grandes momentos para a história. E em uma situação de fim de ano em que todos os clubes grandes do Brasil que não tiverem vencido o Brasileiro ou não estiverem em uma final de Copa do Brasil ou Libertadores darão toda a atenção do mundo à competição local.

O futebol regional é a essência do futebol brasileiro. Nosso futebol nasce, cresce e triunfa de forma regional, não nacional. A rivalidade local impulsiona o interesse pelo esporte. Cria grandes jogos, cria ídolos.

As cidades pequenas e médias do Brasil PRECISAM ter a possibilidade de que seus filhos joguem pela cidade. Joguem por seus primos, familiares, amigos, namoradas. Apareçam. Sejam revelados para o mundo.

Alguns não irão tão longe. Serão veteranos em seus clubes locais. Mas pelo menos terão jogos para disputar o ano todo, salário para receber e sustentar a família, a perspectiva de trabalhar nestes mesmos clubes no futuro, seja em comissões técnicas, área de saúde ou pinçando talentos nas escolas.

O futebol brasileiro é o caos, entre outras coisas, porque só temos olhos para os Flamengos, Corinthians, Palmeiras, Cruzeiros, Grêmios e Bahias da vida. Porque a CBF só acumula dinheiro, sem distribuir riqueza e conhecimento. Nós não sobreviveremos com 10 clubes grandes e outros 15 coadjuvantes, minha gente.

É necessário voltar às origens. Com inteligência, claro, com a perfeita noção de que a economia mudou e os clubes precisam ser colocados em duas prateleiras diferentes.

A Inter de Limeira não mais vai ser campeã paulista em cima do melhor Palmeiras possível para o momento e desesperado atrás de um título. Mas a Inter de Limeira pode perfeitamente jogar o ano inteiro, ter um time decente, um clube que dê orgulho para a cidade, que atraia alguns milhares de pessoas todos os domingos para vê-la jogar contra outros times do interior, que tenha um time recheado de jovens que possam no futuro vestir a camisa da seleção brasileira e levar o nome de Limeira para o mundo e que, de quebra, se triunfar entre os seus no interior, possa sim voltar a enfrentar o Palmeiras por um título paulista, numa grande festa de fim de ano, quando o Palmeiras já tiver cumprido todos os seus compromissos maiores e mais rentáveis na temporada.

Salvem os Estaduais! Estaremos todos salvando a nós mesmos.