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Atlético-PR e Fernando Diniz: o casamento do ano no Brasil
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Julio Gomes

O Atlético Paranaense resolveu fazer a aposta que tantos clubes grandes do Brasil relutaram em fazer. Contratou Fernando Diniz.

Fernando não é o Guardiola brasileiro. Mas é.

Não é porque eles são pessoas diferentes, têm estilos diferentes de trabalhar e, claro, a bagagem cultural de cada um deles, pelo país em que nasceram e os lugares por onde passaram, é diferente.

Mas ao mesmo tempo é, sim, o nosso Guardiola. Porque a visão de futebol dos dois se assemelha no conceito principal: querer ganhar a sua maneira, não de qualquer maneira.

É um rótulo simplista e simplório, malvado até, mas que tem lá algum sentido. E, neste momento em que volta a estar em alta o Pep europeu, deste jeito de ver e sentir o futebol, temos as condições ideais para a explosão da carreira do nosso Pep.

Fernando Diniz é o único técnico do Brasil que, por onde quer que tenha passado, não abriu mão da sua maneira de ver futebol. Alguns gostam, alguns não gostam. É do jogo. É direito de dirigentes, torcedores, jornalistas gostarem ou não gostarem. Tem gente que ama de paixão o Barcelona de Guardiola. Tem gente que, apesar dos resultados, não gosta.

É muito mais honesto ver o futebol assim do que “gostar” ou “não gostar” em função do resultado. Isso sim, é o que faz nosso futebol ser tratado de forma tão rasa. O resultadismo.

Mas voltando a Diniz. Nossa categoria de treinadores, desunida, é ao mesmo tempo refém do amadorismo dos dirigentes nacionais e beneficiada financeiramente pelo troca-troca e a irresponsabilidade destes mesmos dirigentes com as finanças dos clubes. Enquanto acaba sendo obrigada a se sustentar em resultados e aceita este círculo vicioso, Fernando Diniz foi o único que não sucumbiu a esta forma de trabalhar.

É visto por alguns, portanto, como “louco”. Ou um “radical intransigente”. Não podemos esquecer que o brasileiro é, no fundo da alma, um conservador. Pessoas disruptivas incomodam.

Foi treinado por este louco que o Audax, aqui em São Paulo, fez o Santos ser campeão paulista jogando como time pequeno, atuando nos contra ataques em 2016. O Audax já submeteu Palmeiras e São Paulo em campo, na bola. No peito.

Já deu para ver que eu sou um entusiasta deste jeito de ver o futebol. Mais do que isso: um entusiasta da coragem e de pessoas que seguem fiéis a seu modo de ver o mundo. Já estamos cansados de tanta bipolaridade, de tanta incoerência, de tanta volatilidade, de tanta inconsistência.

E por que o casamento com o Clube Atlético Paranaense é perfeito?

Porque o Atlético, apesar de ainda ser um pouco refém do personalismo e das decisões de Mário Celso Petraglia, é o clube do Brasil mais próximo ao que consideramos modelo ideal de tratar o futebol extra-campo. É o clube mais profissional daqui, do topo à base.

Se no Brasil existem 12 clubes grandes (por história, alcance nacional, torcida, mídia, jogadores cedidos à seleção, etc, etc), é fato que o Atlético-PR se posicionou sozinho em uma prateleira de 13a força.

Até 20 anos atrás, o Atlético-PR não era “maior” que Coritiba, Sport, Vitória, Bahia, Paysandu, Remo, Goiás, Portuguesa, Guarani, só para citar alguns dos clubes que, gigantes ou não localmente, sempre fizeram parte da “classe média” do futebol brasileiro.

De duas décadas para cá, o Atlético se descolou dessa turma. Foi o primeiro a construir uma Arena moderna, que já foi atualizada por causa da Copa, fez um CT de primeiro mundo, tem setores ultramodernos de fisiologia, preparação física, análise de desempenho e scout, é um clube solvente financeiramente, com receita, pagamentos em dia, torcida, ambição, atuação no mercado internacional. Estável. Só não gosto do tratamento que dá à imprensa, mas até nisso o Atlético está “europeizado”.

No próximo Brasileiro, Botafogo e Fluminense entrarão para não cair. Como vem sendo rotina, por sinal, salvo anos de exceção. O Atlético-PR já não entra mais no Brasileiro para não cair. A consistência de duas décadas da instituição CAP contrasta com a inconsistência de vários clubes “gigantes” da nossa história nesta era de pontos corridos. Na esfera esportiva, o Atlético já é um dos 10 clubes do Brasil.

Petraglia, com suas qualidades e defeitos, é, sem sombra de dúvida, o principal dirigente do futebol brasileiro nos últimos 20 anos. Foi o único capaz de mudar um clube de patamar. Não por ter vencido um título brasileiro. É muito mais que isso.

Com esta visão vanguardista, dentro do deserto que é o futebol brasileiro, o Atlético adotou, por exemplo, a postura de jogar o Campeonato Paranaense com um time sub-23. Algo que todos acabarão fazendo um dia, se os Estaduais continuarem.

Isso dará tempo (alguns meses) a Fernando Diniz para implementar suas ideias e gastar horas, horas e horas com o elenco do Atlético para que lá na frente, no Brasileiro e na hora aguda da Copa do Brasil, o time esteja jogando de acordo com suas convicções.

No futebol de defesa e contra ataque que virou isso aqui, veremos um time remando contra a maré. O único que de certa forma fez isso este ano acabou levantando a taça da Libertadores.

Se Petraglia e o Atlético tiveram coragem ao longo de anos para desafiar federação local, desafiar o status quo do futebol brasileiro, quebrar tantos obstáculos, é plausível imaginar que a contratação de Fernando Diniz esteja carregada de convicção.

Convicção que praticamente não existe entre dirigentes do futebol brasileiro, que atuam muito mais como torcedores empoderados do que como verdadeiros profissionais da área. Convicção que é o que mais faz falta no futebol daqui.

Em algum dos outros “12 grandes” do Brasil, Diniz teria muito menos tempo de trabalho e muito mais pressão das arquibancadas e microfones. Já em outros clubes da “classe média”, teria muito menos ferramentas a sua disposição.

É claro que na primeira série de derrotas do Atlético haverá jornalistas e diretores questionando o trabalho de Fernando Diniz. Mas acredito que ele caia no lugar certo para ter o mínimo de tempo necessário para desenvolver seu trabalho.

E isso ficou claro na conversa que definiu a contratação, pelo que o blog apurou. A convicção está lá no discurso de quem manda, de quem banca. Claro que as coisas podem mudar. Relações humanas são relações humanas. Mas há motivos e histórico para acreditar que, se houver qualquer tipo de ruptura, ela não virá por causa de uma ou outra derrota.

É uma notícia para lá de animadora para quem gosta da maneira do Atlético trabalhar fora de campo e da maneira de Fernando trabalhar dentro de campo.

Que seja um longo e próspero casamento.


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