Blog do Júlio Gomes

Arquivo : Diário da Copa

Diário da Copa: Fim, transformação e recomeço
Comentários Comente

Julio Gomes

Foram 14 jogos de futebol em 11 cidades diferentes. 14 voos por 7 companhias aéreas distintas, somando mais um ou menos umas 40 horas dentro de aviões. Também 63 horas dentro de 9 trens para ir de uma cidade ou outra, sem contar o constante entra-e-sai dos metrôs, ônibus e vans dentro das cidades. Dormi em 22 lugares diferentes, entre hotéis, apartamentos, albergues e trens. Sei lá quantos quilômetros percorri.

Conheci Andryis, Sergeis, Ekaterinas, Tatianas, Dmitris, Annas. Encontrei os grandes amigos jornalistas que fiz quando morei na Europa. Os grandes amigos e amigas que tenho no Brasil, mas infelizmente raramente encontro, só nessas ocasiões. Encontrei meninos em quem um dia apostei e hoje são homens que caminham sozinhos nesta mal tratada profissão. Fui ajudado por muita gente – coisa que sempre fiz na vida com prazer.

Cada uma das cinco Copas do Mundo foi diferente para mim, por diversas razões. Esta, a da Rússia, foi a primeira que teve 100% de planejamento meu, sem interferência de terceiros. Portanto, especial. Se algo desse errado, eu só poderia reclamar comigo mesmo. Não deu nada errado.

Sempre gostei de viajar assim. O mundo conectado de hoje nos permite explorar todas as fronteiras. Não há desculpas, nem o idioma – até porque na Internet as páginas podem ser traduzidas. Passagens de avião, acomodação, transporte público e privado, se quiser dá até para já deixar a pedida comida para a hora da tua chegada.

Uma das minhas viagens entre cidades foi feita usando um site de caronas colaborativas. Todos os táxis que peguei foram com aplicativos, o que diminuiu incrivelmente os custos. Monitorando cotações e taxas cobradas pelos bancos, acho que consegui pagar pelos rublos russos o que eles realmente valiam. Quando precisei de um remédio, comprei em uma farmácia qualquer o que precisava usando um aplicativo de tradução.

Com os apps de comunicação instantânea, vi minhas filhas em vídeo sempre que quis. Entrei ao vivo na televisão com boa qualidade de imagem e nenhum delay todos os dias.

Pensem no mundo de 30 anos atrás, de 20, de 10, de 5. O mundo muda, se transforma. Nós devemos fazer o mesmo. Mudar. Nos transformar.

Viajar, conhecer idiomas, vivenciar outras culturas, entender que pessoas pensam e agem de forma diferente é crucial para a evolução de cada um de nós, para a evolução da civilização comum um todo. Essa transformação contrasta com uma incrível resistência.

Não só no Brasil ou na Rússia, mas em vários lugares do mundo, vemos um discurso de medo, de conservadorismo, de confiança cega em páginas que foram escritas há séculos, quando tudo era diferente. É como se milhões de cérebros simplesmente se recusassem a fazer o download da próxima atualização.

Talvez seja apenas uma resistência barulhenta, enquanto outros milhões, mais milhões, estejam fazendo suas atualizações silenciosamente. Não sei. Talvez não seja só barulho, seja uma resistência real, dura e que ainda colocará em risco essa transformação do mundo para melhor. Só o tempo dirá.

Este blog precisa de um pouquinho de descanso após 40 dias de trabalho intenso e diário. Descansar corpo e mente, algo também necessário para sairmos das nossas prisões impostas por uma sociedade que exige cada vez mais suor e que cada vez menos oferece bem-estar e horas de amor e tranquilidade.

Pessoas felizes produzem mais e melhor em menos tempo. Um dia isso será compreendido. Um dia chegaremos lá. Volto em duas semanas para o recomeço.


Diário da Copa: Adeus, Lenin
Comentários Comente

Julio Gomes

A Copa acaba hoje na Rússia. França e Croácia disputam a grande final em Moscou.

Se a França ganhar, falaremos muito de Mbappé, Pogba, Griezmann, Kanté, ficaremos aliviados porque a ordem das coisas no futebol não terá sido assim tão corrompida – ganhará uma das super favoritas antes do início da competição.

Se a Croácia vencer, falaremos muito de Modric, Rakitic e de como o futebol mudou e está tão equilibrado que uma seleção considerada média provou que se pode ser campeã do mundo, contrariando aqueles que só olham para história e peso de camisa para fazer análises.

E, depois de amanhã, já estaremos falando de Corinthians, Flamengo, Brasileirão e tudo isso ficará para trás.

Mas não aqui na Rússia. Quando a final acabar e todos nós sairmos do estádio, estaremos sendo atentamente observados pela enorme estátua de Lenin, que fica logo na entrada do estádio Lujniki.

Lenin é um mito. Onipresente, é o grande idealizador da Revolução de 1917 e, talvez por ter morrido cedo, sem muito tempo para fazer bobagens, ganhou status de santo. Diferente de Stalin, por exemplo, que matou e expurgou milhares – sua figura fica muito mais escondida.

No meio da Praça Vermelha, com horários reduzidos para visitação e gigantescas filas, está o mausoléu com o corpo embalsamado de Lenin. Uma imagem impressionante. Em absolutamente todas as cidades por onde passei, vi Lenin. Em Samara, uma estátua pequena, porque lá ele ainda era pequeno, um estudante. No Lujniki, uma estátua enorme. Por onde vamos, ele está olhando.

Lenin deve ter aprovado a Copa organizada por seus compatriotas. Não se sabe onde Putin enfiou os opositores. E nem o que será feito com alguns estádios. Mas o fato é que foi um Mundial sem protestos, brigas, atentados, tragédias, gafes ou reclamações. Tudo ocorreu bem.

E os russos se autodescobriram. Nem eles sabiam que seriam capazes de ser tão amigáveis e bons anfitriões. Eu já vi esse filme na Alemanha, 12 anos atrás.

Por falar em Alemanha e Lenin, o titulo deste artigo remete a um filme que todas as pessoas precisam ver. Ele trata de transformação, criatividade e amor. Três coisas essenciais para o mundo. A quarta é o futebol.


Diário da Copa: Neymar e as matrioskas
Comentários Comente

Julio Gomes

Na feirinha de Izmailovo, famosa em Moscou por ser o lugar ideal para comprar bugigangas típicas russas ou do período soviético, as matrioskas dominam o cenário.

São aquelas bonequinhas russas fofinhas. Você abre uma, aparece outra. E depois outra e outra e outra… tem algumas com três peças, com cinco, até com quinze! Algumas mais bonitas, outras nem tanto. A sacada deles é que fazem matrioskas de gente famosa.

Então tem matrioska do Lenin, do Putin, do John Lennon, do Obama, do Michael Jackson e por aí vai. Claro, tem também dos jogadores mais conhecidos. Cristiano Ronaldo, Messi, Neymar, a turminha de sempre.

Nesta reta final de Copa, a feira é dominada por turistas em busca das lembrancinhas finais para a família toda. Muitos brasileiros e muitos latinos. Os vendedores, espertos como só eles, já sabem todos os números e palavras-chave em espanhol e português.

“É bom que vocês conversam com a gente, eu gosto de negociar!”, me fala Vladimir. “Os europeus parece que têm medo de nós, russos, nem chegam perto”. Vladimir me fala longas frases em russo, como se eu entendesse alguma coisa só porque lhe dei bom dia no idioma local e aprendi uma palavra ou outra.

Nossa negociação acontece em russo, espanhol, inglês e português. Uma loucura! Mas dá certo. Compro minhas matrioskas, consigo um bom desconto, ele me chama de “chorão”, eu digo que aprendi com a minha mulher e ele cai na risada.

Enquanto embala minhas bonequinhas, ele deixa cair uma matrioska de Neymar, que estava no caminho. Foi um strike, Neymar caiu e levou umas dez bonequinhas com ele. Vladimir começa a fazer um som, como se a matrioska de Neymar estivesse se contorcendo de dor. Todos em volta caem na risada.

É com essa imagem que Neymar sai da Copa. Virou piada internacional. Ao abrir as matrioskas de Neymar, os outros bonequinhos Neymarzinhos são iguais – lógico – e cada vez menores. O grande desafio dele é mudar. Senão não será maior do que é hoje nunca.

Já o desafio de Vladimir e do resto dos colegas das outras barracas é arrumar matrioskas de Mbappé e Modric. Não encontrei nenhuma em Izmailovo. Nem de Pogba ou Griezmann, nenhum francês, nenhum croata. Precisam atualizar e variar o estoque. O futebol mudou.


Diário da Copa: A bandeira e o balé
Comentários Comente

Julio Gomes

E lá vamos nós ao Museu das Forças Armadas, em Moscou. Não estava nos meus planos e nem no mapa turístico. Mas era um convite do meu irmão.

E, se estou aqui, é também por ele. Meu grande inspirador e influenciador, o cara que eu esperava chegar de madrugada de volta do jornal onde ele trabalhava só para poder pegar a tabela do campeonato sei lá de onde que vinha na revista Placar – ele comprava todas.

O cara que me fez gostar de esportes e de jornalismo. A voz “do contra” que faz a nossa família não ser o trágico uníssono que marca as famílias brasileiras. Que me fez e faz pensar.

Pensar. Como nos custa pensar! O museu das Forças Armadas é, de alguma maneira, uma enorme homenagem ao “não-pensar”. Eu sempre achei os músculos inimigos do cérebro.

A história russa é forjada em guerras, invasões e defesa, como de tantas nações por aí. O museu é fantástico. Apesar de estar todo em russo, é muito visual e apresenta uma incrível coleção de armas, uniformes, documentos, mapas, relíquias, artefatos militares. Tem até um “jardim da guerra”, com aviões, helicópteros, mísseis e tanques.

Fico me perguntando como o ser humano foi capaz de criar tantas coisas destrutivas. Por que fomos incapazes de viver em paz, não em guerra, durante toda a história da civilização?

No centro do museu, a bandeira. A tal bandeira soviética fincada no Reichstag alemão em 1945, quando eles chegaram a Berlim e derrubaram o nazismo.

É um troféu para os russos. Para todos nós, possivelmente. Troféus decorrentes de barbáries.

Não vejo problema em celebrar vitórias, mesmo que em um passado sangrento. Desde que, claro, se aprenda com ele.

Com a Croácia na final da Copa e aquele quente Sérvia x Suíça dos albaneses, nos lembramos que até outro dia havia uma carnificina na Europa. O que dizer da Síria? Ou da violência urbana nas grandes cidades, até mesmo do mundo desenvolvido? Será que estamos aprendendo?

Enquanto escrevo esse texto, estou em um banco em frente ao Teatro Bolshoi, outro orgulho dos russos. Casais se beijam, turistas tiram fotos, estudantes riem, as fontes dão o efeito sonoro.

Entre as bombas e balas e o balé, eu sei bem de que lado prefiro estar.


Diário da Copa: Foram os peixinhos do mar…
Comentários Comente

Julio Gomes


Quantos quilômetros devo ter caminhado nessa viagem? Difícil fazer essa conta. Pelos calos e pelas inéditas bolhas nos calcanhares, souvenirs de Rostov on Don, acredito que já devo ter feito uns três caminhos de Santiago de Compostela.

Meu tênis, coitado, está sem sola e com a palmilha gasta. Eu até trouxe outros para a viagem, mas me machucariam ainda mais.

Lá estava eu me arrastando por Sochi, na bela margem do Mar Negro, uma parte do centro da cidade cheia de lojas e restaurantes, quando vi o sinal luminoso. “Spa Doctor Fish”. Hein?? Spa. Doutor. Peixe. Esfreguei os olhos em frente à vitrine.

O que estavam lá fazendo aquelas pessoas com os pés dentro de aquários, sendo “atacadas” por peixinhos esfomeados?

Seis poltronas. Seis aquários. E uns seis milhões de peixinhos te esperando. Loucos para… comer teus pés – e tornozelo, canela, o que mais você quiser colocar à disposição deles.

Havia lá na parece uma explicação de como aquilo ajudaria meus pés, mas tudo em russo. A outra plaquinha tinha os preços: 12 reais por 5 minutos, 18 reais por 15 minutos, 30 reais por 30 minutos. Não achei tão caro. Será que aqueles peixinhos iriam trazer algum alívio?

Olhei atentamente para as pessoas que já haviam criado coragem. Não eram faces de terror. Um ou outro até sorria. Tinha uma criança de uns seis anos com os pezinhos em um dos tanques. Uma criança!

Na recepção, estão Irina e Granika. Elas se divertem com o meu receio. “Pode ir! Não dói!”. OK, OK. Já que estamos aqui…

Sento em uma das poltronas. Quando olho para baixo, os milhões de peixinhos já estão lá, ouriçados, reunidos no meu aquário, só esperando. Safados.

Chegou a hora. Pés para dentro… Ataque de riso.

Isso mesmo. Não conseguia parar de rir. Faz um pouco de cócega, uma sensação engraçada demais. São centenas de peixinhos que vão lá, segundo o pessoal do Spa, comer tua carne morta, “limpar e massagear” teus pés.

Mando vídeo para minha mulher. “Fazendo pedicure, é?”. Ela me diz que isso é caro pra burro no Brasil. Para mim, é coisa de russo.

Depois das risadas – pude perceber que o mesmo acontece com todo mundo -, tentei relaxar. Me acomodei na almofada, deixei os peixinhos do Mar Negro se divertirem com meus pés por 15 minutos. Bom apetite!


Diário da Copa: 11 cidades
Comentários Comente

Julio Gomes

Vocês nem imaginam a alegria que sinto. Sério mesmo. Nem eu imaginava que me sentiria assim.

Quando comecei meu planejamento de Copa, nem mesmo cliente eu tinha. Eu não sabia nem para quem iria trabalhar. Foram meses de batalha. E de planejamento. Pensar, imaginar, tentar, pesquisar, arriscar, pagar, telefonar.

Um aprendizado imenso. O UOL Esporte, velho parceiro, foi um dos que confiaram em mim. As peças foram encaixando. E, aí, tomei a grande decisão. Passar pelas 11 sedes. Pelos 12 estádios.

Ousado. Dado o tamanho do país e o meu orçamento, parecia missão impossível. Mas deu certo! Deu muito certo. Sem roubadas, sem grandes gastos, sem mordomias, com muita disposição… cheguei lá. Ou melhor, aqui.

E o melhor de tudo? Poder dividir tudo o que vivi com vocês. Minha vida é contar histórias. Nada mais satisfatório que poder dividir a experiência maluca e intensa vivida em 30 dias de Rússia com vocês.

Mal completei as 11 cidades e começaram as perguntas. Qual a mais legal? De qual você gostou mais? Que perguntas difíceis!

Como não amar a minúscula Saransk, com sua simpática praça e onde se faz tudo a pé? Ou Samara, com a linda praia no Volga? Kaliningrado, a terra do âmbar e da cerveja. Volgogrado, onde a história se respira e te faz sentir tão pequeno aos pés daquela estátua.

Como não gostar de Ekaterimburgo e Rostov, onde as pessoas te param na rua para saber do que você precisa? Da animação de Kazan. De Nijny Novgorod, com a maravilhosa vista do Volga. Da beleza natural de Sochi, onde praia e montanha se encontram, onde o Sol se põe no Mar Negro.

Isso tudo sem falar de Moscou e São Petersburgo. Cosmopolitas, imponentes, maravilhosas.

Escolher o que eu mais gostei é que nem escolher entre papai e mamãe. Entre Messi e Cristiano Ronaldo. Entre Tom e Vinicius.

Há certas escolhas que não podem ser feitas. Não é justo que sejam.

A grande história é que a Rússia conseguiu mostrar a mim e ao mundo ser um país aberto ao desconhecido. Essa faceta da hospitalidade é uma que nem os russos conheciam. Que coisa maravilhosa é o autoconhecimento.

Com todos os seus males, que existem, Copas do Mundo servem para isso. Intercâmbio, novas amizades, aprendizado, evolução.

Eu sou outra pessoa depois do meu périplo pelas 11 cidades-sede. A Rússia, tenho certeza, também é outro país.

 


Diário da Copa: Vladimir e Tatianas
Comentários Comente

Julio Gomes

Chego esbaforido à estação de trem. Uma das rotinas da minha vida. Sempre atrasado, sempre correndo, sempre deixando para sair no último minuto possível, realmente preciso melhorar.

Desta vez a culpa nem foi tanto minha, mas o fato é que às 21h18 saía o trem para Vladimir. E se tem uma coisa que aprendi neste um mês de Rússia é que os trens são pontuais. Consigo entrar. Ufa! Se eu tivesse perdido esse trem, esse texto nunca poderia ter sido escrito.

Decidi parar em Vladimir, uma cidade no meio do caminho entre Moscou e Nijny Novgorod, pela dificuldade para chegar e dormir em Nijny e também porque aqui do lado fica Suzdal, uma cidadezinha milenar de 10 mil habitantes e que é uma das pérolas da história russa, quase intocada através dos séculos.

Reservei o apartamento minutos antes de entrar no trem. Quase chegando, achei estranho receber uma mensagem no celular. Tatiana era o nome. E ela me buscaria na estação para levar até o apartamento. Oras, mas se o apartamento reservado era justo ao lado da estação de trens, por que eu precisaria da carona?

Chego e lá está Tatiana. Ou melhor. Duas Tatianas. Mãe e filha com o mesmo nome. Não, não é tradição por aqui. “É que meu pai amava muito a minha mãe”, conta, sorridente, Tati filha, que fala inglês. Chamarei as duas pelo apelido que eu mesmo dei, mesmo que elas não saibam.

Elas me levam a um apartamento que realmente não era o alugado. Um lugar escuro, sem comércio por perto, a meia hora andando do centro. Quando me dou conta, já estou dentro do apartamento. É meia-noite, estou cansado, querendo comer e dormir. E dou uma reclamada educada a Tati filha. Olha, não era aqui que eu ia ficar. Tinha reservado um apartamento que era perto de cafés, estou com fome, amanhã quero ir a Suzdal… poxa vida.

Ela me explica que a proprietária do outro apartamento não poderia me receber, daí o plano B. Não há muito o que fazer. Agradeço e me despeço.

Cinco minutos depois, toca o telefone. “Julio, minha mãe quer que você jante em nossa casa”. O quê?? Dei risada, agradeci, mas disse que não, não queria atrapalhar de maneira alguma. Mas ela insiste. Ouço Tati mãe ao fundo falando um monte de coisas em russo – ela realmente já havia me parecido uma mulher espirituosa. Penso um pouco… Por que não?

E lá vou eu para a casa de duas desconhecidas, em um lugar em que o celular não pegava direito e que eu não tinha a menor ideia de onde ficava. Em Vla-di-mir. Tudo para dar errado. Mas esse não é o jeito que encaro esta viagem. Para mim, tudo vai sempre dar certo.

As horas que se sucederam foram das mais divertidas e surpreendentes da Copa, em uma cidade que não tem nada a ver com a Copa. Tati mãe me serviu Borsch, a super tradicional sopa de beterraba que é parte do cardápio dos russos. Mas, claro, não bastava a sopa. Lá vem ela com a garrafa de vodca em mãos. “Vodca! Russian tradition!”.

Mais uma vez, meu “não” inicial é seguido de um retumbante “sim! por que não?”. Champanhe para elas, vodca para mim. “Homens tomam vodca! strong drink, strong drink”. Não tive direito a não querer. Mas tem mais. Tati mãe traz também tomates e pepinos em conserva. Segundo ela, a cada trago de vodca, uma mordida no pepino ou no tomate. “Russian tradition!”.

O pai mora em outra cidade, com o filho mais novo. Tati filha me conta que a namorada do pai está grávida e que ela, com seus 28 anos de idade, não tem muita idéia sobre o que achar disso. Ela namorou por quatro anos com um sueco de origem marroquina, morou em Estocolmo. Está de volta, mas infeliz. É sempre difícil se readaptar, em qualquer país, para qualquer pessoa.

Me conta que as suas amigas só falam de corpo, todas tem 50 kg e ela engordou muito. Se sente deslocada. Tati mãe fala das novelas brasileiras que passam aqui na Rússia. Pergunto a elas se os homens são muito opressores na Rússia. Nenhuma delas concorda. “Fazemos o que queremos”. Não senti convicção em nenhuma das duas.

Com borsch na barriga e vodca na cabeça, me despeço. A noite começou quadrada e acabou redonda.

Só faltava resolver meu problema de ir a Suzdal no dia seguinte. Pergunto a Tati filha onde fica a estação de ônibus, qual era o melhor jeito de chegar lá… Tati mãe, que acho que entendia alguma coisinha de inglês, interrompe a conversa.

Amanhã. Meio-dia. Fique pronto. Todos a Suzdal!

Isso não é a Copa. É a Rússia. Pelo menos a Rússia que eu conheci desde que aqui cheguei.

Esse texto foi publicado originalmente no jornal Gazeta do Povo


Diário da Copa: O fim do sonho russo
Comentários Comente

Julio Gomes

Lá estava ela na mala. Minha camiseta retrô da União Soviética, versão anos 60, CCCP em branco no pano vermelho. Ficou impossível usar a camisa no Brasil, capaz que cuspam em você na rua em nossos tempos de intolerância política e confusão geral sobre tudo.

No dia da abertura da Copa, fiquei na dúvida sobre se usá-la seria uma boa ideia por aqui. Mas já estou há um mês na Rússia. E percebi que eles não têm problema com o passado soviético.

Então, no histórico dia das quartas de final, em Sochi, era a oportunidade perfeita. Em geral, a camiseta não despertou emoções. Uma velhinha, uma menina mais jovem e um rapaz. Três pessoas, apenas, apontaram para meu peito e me cumprimentaram.

“Esse-esse-esse-ere”, disseram. CCCP, em cirílico, se lê SSSR. Não há negação. Tampouco celebração do passado.

Agora, é Rússia. O estádio pulsa.

“Quem, se não vocês? Quando, se não agora?”. Era o que se lia nas duas faixas azuis abertas antes do início da partidas, atrás de um dos gols. A Rússia jogava em casa por algo que ninguém esperava.

As faixas são um pequeno exemplo da proporção que havia tomado o confronto contra a Croácia. Uma equipe desacreditada, desprezada, tanto em casa quanto fora, podia chegar a uma semifinal de Copa.

Sochi viveu um sábado de êxtase, com pessoas de toda a Rússia vindo para o evento histórico. Quando, se não agora?

Gente como o casal Oleg e Natalia, que veio de Moscou. Oleg passa o jogo enrolado na bandeira do Brasil. Seria uma homenagem a Mário Fernandes? Não. Apenas porque Natalia “ama o Brasil”.

Mário foi de herói improvável a vilão histórico. Fez o gol de empate russo faltando cinco minutos para o fim da prorrogação, levando o país ao êxtase. Pouco depois, chutou para fora um dos pênaltis.

Mas ninguém reclama de Mário Fernandes. O estádio viveu o jogo intensamente, com gritos de “Rússia, Rússia”, especialmente nos momentos mais difíceis.

Acaba a disputa. Oleg chora. Não são muitas as pessoas chorando no estádio. As expressões misturam tristeza e alegria, chateação pela derrota, orgulho por tudo o que foi feito. Mas ele chora, com a bandeira do Brasil enrolada no pescoço. Bate a mão no peito, lábios trêmulos. O sonho russo acabou.

 


Diário da Copa: Museu da vida soviética
Comentários Comente

Julio Gomes

Kazan, a cidade que recebe o jogo do Brasil contra a Bélgica, nesta sexta-feira, orgulha-se da diversidade cultural. É a capital dos tártaros, convive com uma mistura de religiões e culturas. Durante os anos soviéticos, os tártaros foram sufocados. A liberdade religiosa voltou junto com o fim do regime. Kazan completou 1000 anos em 2005 e hoje vive um renascimento, é uma das cidades mais animadas da Rússia – até pela presença de quase 50 universidades.

Em Kazan, está o museu do estilo de vida soviético. Uma grande sala com objetos, roupas, instrumentos musicais, pôsteres, eletrônicos, brinquedos, broches, enfim, coisas da vida cotidiana durante as décadas do regime.

Lá, encontrei Olga Pushikariova, que visitava o museu com sua sobrinha. Ela me mostrou o televisor, igual o de sua avó. O lenço que usava para ir para a escola. Pergunto se ela tem saudades dos tempos soviéticos. E ela me diz que “sim”. Para logo dizer que “não”.

No caso de Olga, fica claro que ela tem saudades da própria infância, das coisas que marcaram a vida dela. E não dos dias de regime. “Prefiro as coisas como são hoje”.

O vídeo da minha visita ao museu está aqui:


Diário da Copa: Salame de cavalo em Kazan
Comentários Comente

Julio Gomes

Estou em fase de reeducação alimentar. Só como quando tenho fome. Mastigo devagar. Me concentro na comida. Saciado, paro. Mas em Copa do Mundo…

Nessas coberturas, é difícil parar para comer direito. Muita correria, deslocamentos, muitos textos e vídeos para mandar, uma loucura. E aí acabamos comendo mal.

Mas naquele dia de Sol, em Kazan, eu queria me aventurar. Já havia passado por um restaurante ucraniano, um geórgio e um russo, mas não um tártaro. Kazan, a cidade dos tártaros, uma das últimas que o império dos tsares tomou. A cidade onde o Brasil joga amanhã contra a Bélgica.

Nunca fui um fã de carne crua. Na verdade, sempre fui bem chato com comida, cresci nos últimos anos e fui aprendendo quanta coisa boa deixei para trás. Foi só recentemente que provei o bife tártaro. Acho que o nome mais comum é steak tartare? Posso estar errado.

Como estava em Kazan, terra dos tártaros, resolvi pedir o steak tartare. Já fiquei desconfiado, pois o prato aparecia no meio das entradas, com algumas saladas para lá de conhecidas, sem muito destaque.

Lá veio ele. Igualzinho ao que eu já conhecia. Carne crua, tempero, alcaparras, cebola, ovo. Uma delícia. Mas… será que isso é mesmo coisa de tártaro?

O simpático Yulian, o garçom, deu risada. “Não, é só o nome mesmo! Não é um prato daqui”. Oras bolas. Me lembrei de quando fui a Bolonha e o spaghetti não tinha carne moída. Não sei por que é spaghetti à bolonhesa se em Bolonha é diferente.

“Yulian, então me traga algo daqui, por favor!”. Dez minutos depois, lá vem ele, com todas as iguarias tártaras e russas. Uma espécie de carpaccio de ganso. Vagens ardidinhas. Uma torta tártara, com frango e batata, que me lembrou uma empadona. Umas tortinhas que me lembraram as quesadillas mexicanas. Um caldo de frango quente demais para o calor que estava. E….. adivinhem. Carne de cavalo!

Pobre cavalo. Se bem que nunca pensamos na pobre vaquinha na hora do churrasco. Estava mais para um salame de cavalo, fatiadinho, bem seco. Vamos que vamos.

Não era ruim. Saboroso, até. Um pouco duro, talvez. Difícil de mastigar. Foi bem com um pãozinho. Pensei no cavalinho. Não muito na vaquinha. Empurro o prato para o lado. Vem cá, steak tartare…