Blog do Júlio Gomes

Arquivo : Cristiano Ronaldo

As três derrotas de Cristiano Ronaldo
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Julio Gomes

Eu não teria dado o prêmio de melhor do mundo a Luka Modric.

Veja, isso não é dizer que o croata não mereça. É um jogador espetacular, destes raros, que são ao mesmo tempo carregadores de piano, talentosíssimos, corajosos. Pode ser um 5, um 8, um 10, pode ser o que o treinador precisar. Um jogador coletivo e, não se enganem, fundamental para o Real Madrid ter quebrado um jejum grande (para o tamanho do clube) e ter vencido quatro das últimas cinco Champions League.

O Real não teria feito nada disso sem Cristiano Ronaldo? Verdade. Mas também não sei se teria feito sem Modric.

Modric é fantástico. Fez uma Copa do Mundo enorme. E aí chegamos ao X da questão. Em prêmios de votação popular, como este da Fifa, uma competição como a Copa do Mundo ganha um peso grande demais. É como se todo o resto da temporada servisse, no máximo, de desempate.

Por isso sempre defendi que a grande chance de Neymar ser eleito melhor do mundo seria na Copa, com a seleção. Não era necessário deixar o Barcelona e sair da sombra de Messi, mas, sim, fazer algo grande com a camisa amarela. Veja, Modric nem mesmo precisou ser campeão do mundo para levar.

Zidane, em 98, Ronaldo, em 2002, Cannavaro, em 2006, não foram os melhores do mundo naqueles anos. Mas foram os melhores daquelas Copas. As exceções foram 2010 e 2014, quando a popularidade de Messi e Cristiano Ronaldo era tão grande que não deu para um espanhol ou para um alemão.

O prêmio Fifa, com votação de técnicos e capitães de todos os países do mundo, ou seja, votos de um monte de gente que não acompanha de perto, não atua, não vive e não conhece o futebol de alto nível, acaba sendo mais ou menos uma enquete popular. Famosos sempre vão sobressair. E, em anos de Copa, o peso do Mundial será absoluto.

Modric perdeu um pênalti na prorrogação das oitavas de final da Copa contra a Dinamarca. A decisão foi para os pênaltis, e o goleiro Subasic salvou a pele da Croácia. E se a Dinamarca tivesse passado? Modric seria melhor do mundo? Claro que não. OK, o “se” não joga. Vieram os jogos contra Rússia, Inglaterra e França. Modric fez tanto assim nesses três jogos para ser o “the best”? Na minha opinião, não.

Eu votaria em Salah, porque creio que a temporada do egípcio foi a mais fora da curva, a mais difícil de ser realizada, dados o time em que atua, o campeonato onde joga e suas próprias limitações técnicas. Salah acabou, de forma bizarra, com o prêmio de gol do ano. Convenhamos, um gol tão belo quanto comum.

O natural seria Cristiano Ronaldo ganhar os dois prêmios. O Puskas, pela bicicleta perfeita que arrancou aplausos da torcida adversária em Turim, em um dos maiores clássicos do futebol mundial. E o prêmio de melhor do mundo também.

A impressão é que o mundo da bola não quis dar a Cristiano um título de melhor do mundo a mais do que Messi. Não quis desequilibrar o equilíbrio histórico entre eles.

Cristiano, competitivo como é, deve estar P da vida. Não deve estar considerando justas as duas derrotas.

Mas, mesmo que ele ache tudo isso, ele nunca poderia ter deixado de comparecer à premiação. Ele era uma finalista, oras bolas. Ele é o Cristiano Ronaldo. O cara jogava ao lado de Modric até outro dia, ganharam tudo juntos. É muito conversinha para boi dormir não ir ao prêmio porque tem jogo quarta-feira (um “gigante” Juventus x Bologna pela sexta rodada da Série A). Acredite nessa quem quiser acreditar.

Cristiano não foi porque quis boicotar o prêmio. Acabou desrespeitando os próprios companheiros de profissão. Boicotando a própria imagem.


Juve supera expulsão exagerada de CR7 e mostra a que veio
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Julio Gomes

A Juventus chegou a duas finais de Champions nas últimas quatro temporadas. É multicampeã italiana, uma camisa pesadíssima. Não é novidade considerá-la uma das favoritas ao título europeu.

Mas é lógico que a chegada de Cristiano Ronaldo mudou o status do clube.

Pois bem. Eis que na estreia de CR7 pela Juve na Champions, ele é expulso com 29min de jogo pelo árbitro alemão Felix Brych. Considero exagerado o vermelho direto. Cristiano se enrosca na área com Murillo e depois dá uma espécie de puxada de cabelo no adversário, que estava caído. Agressão? O árbitro auxiliar de linha de fundo considerou que sim. Eu achei um exagero completo.

Foi tipo Diego Souza expulso outro dia, no Brasileiro, contra o Fluminense. Deu margem para o juiz expulsar? Deu. Foi infantil? Foi. Mas merecia o vermelho? Não. Cristiano até chorou em campo de tanta raiva, algo raro de ver. É a imagem mais forte desta primeira rodada da fase de grupos da Champions.

E como a Juventus iria reagir a essa expulsão, jogando em Valência, contra um bom time?

Não há jeito melhor de reagir do que dando um murro na mesa. O Valencia fez dois pênaltis bestas (bem marcados), Pjanic cobrou bem os dois e, de resto, foi se defender com aquela concentração típica dos times italianos. Ainda teve pênalti defendido pela Juve nos acréscimos.

O fato é que a Juventus tem um senhor time de futebol e passou com louvor do teste. Com um a menos por dois terços da partida e sem Cristiano Ronaldo, foi lá e ganhou do Valencia.

O Real Madrid ganhou bem da Roma, assim como o fizeram Bayern de Munique e Manchester United, fora de casa, contra Benfica e Young Boys.

A grande zebra da primeira rodada foi a derrota do Manchester City para o Lyon, na Inglaterra.

Os “novos ricos” City e PSG foram os dois favoritões que perderam na estreia. Vão ter de remar para fazer história.


A hora de Vinícius Jr vai demorar. O Real, agora, é o time de Bale
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Julio Gomes

Cristiano Ronaldo se foi. E, depois de 18 anos, o Real Madrid perdeu uma final internacional – os 4 a 2 para o Atlético de Madrid, Supercopa da Europa. Claro que Cristiano não jogou todas as finais nestes 18 anos, mas a maioria delas.

Com Zidane, que ficou dois anos e meio no clube e ganhou três Champions, nunca o Real havia levado quatro gols. Eu sempre digo que, enquanto os outros dão presentinhos (Bayern, Liverpool), o Real Madrid não entrega nada de graça para ninguém. Ontem, entregou. Navas no primeiro gol, Marcelo no segundo, Varane no terceiro… foram muitas (raras) falhas individuais.

A Supercopa da Europa é apenas o primeiro jogo oficial para os times madrilenhos, começo de temporada. Mas já dá para observar algumas coisas.

Os que estavam empolgados com a pré-temporada de Vinícius Jr precisam sossegar. Há uma fila. E nela estão Asensio, Lucas Vázquez, Ceballos…

Isso sem contar Benzema e Isco, que devem ser titulares o ano todo e, claro, Bale.

Agora a bola está com ele. Depois de lesões, de perder espaço, de ficar, segundo alguns meios de imprensa europeus, perto de sair do Real, Bale tem agora a chance que nunca teve enquanto CR7 estava na área. A chance de ser dono do time.

Fica mais fácil depois de ter metido o gol de bicicleta que meteu na final na Liga dos Campeões, contra o Liverpool. Nesta quarta, contra o Atlético, o time jogou mais pela esquerda, com Marcelo e Asensio, no primeiro tempo. Mas foi de Bale que saiu o cruzamento perfeito para o primeiro gol, de Benzema.

O Real Madrid é uma das interrogações da temporada europeia. Já sabemos o que esperar do City, do United, do Liverpool, do PSG, do Bayern, até mesmo do Barcelona. Mas Arsenal, Chelsea e Real Madrid, e este é o tricampeão europeu, portanto, mais relevante, são clubes de técnico e filosofia novos.

Lopetegui fazia um ótimo trabalho na seleção espanhola, mas não foi bem quando passou pelo Porto. Ganhou um goleiraço em Courtois, o melhor do mundo, mas Navas é também ótimo. A base vencedora está mantida, só que se foi o melhor jogador do time, responsável por um número bizarro de gols. Esses gols precisam ser feitos para o time se manter no topo. Quem os fará?

Não vai ser Vinícius Jr. Aliás, a não entrada dele ontem contra o Atlético, com o time perdendo e sem ser uma Copa de grande relevância, mostra que a hora do menino ainda vai demorar bastante para chegar.

Este, a partir de agora, é o time de Bale. Será que o galês está à altura da ocasião?

 


Seleção da Copa: franceses dominam, estrelas estão fora
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Julio Gomes

Não quero esperar a final. Eu sei que é o jogo mais importante e tudo o mais, mas acho injusto dar um peso tão desproporcional a um jogo só. Portanto, já fiz minha seleção da Copa do Mundo.

E ele é recheada de franceses. França e Bélgica jogaram o melhor futebol da Copa da Rússia. A primeira (e finalista) muito sólida defensivamente e com uma dupla inacreditável no meio de campo, além de Mbappé. Os belgas tiveram grandes momentos ofensivos. Os problemas defensivos foram mascarados por inacreditáveis atuações do melhor goleiro da atualidade.

Não foi fácil escolher o goleiro. Lloris, Subasic, Pickford, Ochoa, Akinfeev, Schmeichel… vários foram muito bem. Mas Courtois foi um escândalo.

Nem Cristiano Ronaldo nem Messi nem Neymar estão na seleção. Quem diria isso antes de começar a Copa?

O melhor jogador do Mundial, a meu ver, é Luka Modric. São 32 anos e três prorrogações nas pernas, sem sair um minuto e dando piques com 115min de jogo contra a Inglaterra. Qualidade impressionante com a bola, inteligência tática sem ela. Estamos diante de um super craque – mas sem mídia.

Aqui vai minha seleção A:

Courtois no gol; Vrsaljko, Mina, Varane e Lucas Hernandez; Kanté, Pogba e Modric; Hazard, Mbappé e Kane.

Eu sei que Mbappé tem só 19 anos, etc e tal, mas o cara já é conhecido, foi a segunda maior transferência da história do futebol. Sendo assim, considero o lateral Lucas Hernandez, da França, a revelação do Mundial.

Timaço!

Minha seleção B teria sistema com três atrás (que foi bastante usado) e um russo/brasileiro improvisado: Schmeichel; Mário Fernandes, Stones e Thiago Silva; Rebic, Casemiro, Cheryshev, De Bruyne e Coutinho; Cristiano Ronaldo e Cavani.

Mande a sua aqui também!

 


CR7 foi só a primeira peça de um mercado que vai pegar fogo
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Julio Gomes

A grande interrogação era Cristiano Ronaldo. Onde ele jogaria? Porque já estava claro que os dias de Real Madrid estavam contados…

PSG e Manchester United pareciam ser as única opções – desconsiderando, claro, os mercados milionários periféricos, como China, EUA ou Oriente Médio. Mas Cristiano escolheu a Juventus.

Por um lado, aumenta o abismo entre Juve e outros no futebol italiano. Por outro, coloca um clube gigante de volta a uma briga que não estava parecendo mais dela, pela coroa europeia. E volta a trazer o calcio ao centro das atenções. Talvez a própria liga italiana se beneficie, com jogadores querendo atuar no mesmo campeonato de CR7.

A partir daqui, teremos semanas frenéticas. Na Premier League inglesa, a janela de contratações será fechada em 9 de agosto, por decisão dos clubes. Nos outros mercados importantes da Europa, a data segue sendo 31 de agosto.

O Real Madrid gastou pouco nas últimas temporadas, vai viver uma reconstrução com o novo técnico, Lopetegui, e sem Cristiano. Já sabemos que é um clube ultra agressivo no mercado. Todos os sinais apontam para Neymar. Mas a coisa não é tão simples.

Por um lado, a ausência de multa rescisória e o orgulho dos homens do Catar não farão fácil essa negociação. Por outro, o PSG vai receber um Neymar menor e um Mbappé muito maior após a Copa. Será o clube de quem? Não seria mais fácil apostar em Mbappé, que é francês, tem só 19 anos e não quer sair do clube? (ao contrário de Neymar).

Mas, pelo prisma do staff Neymar, forçar uma saída agora pode ser uma armadilha. Chegar ao Real Madrid tricampeão europeu e sem Ronaldo… qualquer coisa que não seja ganhar a Champions de novo será um fracasso retumbante. Além de adicionar a imagem de mercenário à já arranhada imagem do jogador pós-Copa.

Talvez tenha mais sentido esperar um ano. Minha aposta é que o casamento Real Madrid-Neymar só será celebrado no próximo mercado, em 2019.

Eu, se fosse apostar minhas fichas, apostaria em uma investida fortíssima do Real sobre Hazard, um namoro antigo, e Kane. Ambos nomes importantes da Copa, em clubes ingleses de relevância, mas que não se comparam ao gigante espanhol. Hazard, convenhamos, está fazendo hora-extra no Chelsea.

Pogba, outro que cresce na Copa, não parece feliz no Manchester United de Mourinho. O que será de Dybala e Higuaín na Juventus, com a chegada de Cristiano? São jogadores com alto valor de mercado e que podem sair, contra a vontade deles ou não.

É como um gigante dominó com as peças de pé, formando um desenho de cifrão. A primeira peça era Cristiano Ronaldo. A partir de agora, cairão todas as outras. Vai pegar fogo!


Diário da Copa: no trem com Dmitri, Andriy e Ronaldo
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Julio Gomes

Primeiro, me senti como se fosse em um filme daqueles antigos, de espiões. Estação de trem. Uma praça escura. Um pequeno lance de escadas leva à plataforma. Também escura. Sai fumaça da parte de cima de um dos vagões. Não está frio nem calor. Em frente a cada uma das portas, uma mulher. Todas vestidas com o uniforme verde escuro da companhia de trens russa.

Encontro meu vagão. “Passport”. Eu pego o passaporte, esboço um sorriso, que não tem retribuição. Fico pensando se não tenho nenhum microchip na mochila, algo que me faça ser preso e levado ao interrogatório numa salinha da estação, com um comandante soviético fumando cigarro atrás da mesa. Enquanto penso na bobagem, levo uma bronca. Tipo, “vai entrar ou não vai?”. Entro.

Minha cabine tem quatro camas. A minha é a 27. Fica na parte de baixo, ainda bem. Do outro lado, um senhor de bigode acena com a cabeça e continua fazendo o que estava fazendo no celular.

Saio, percorro o corredor e vejo dois russos assistindo ao Portugal x Espanha no celular. É verdade! O jogo! Eu havia visto só o primeiro tempo. Quando passo pela cabine, Diego Costa empata a partida. Pergunto se posso assistir com eles. Falo logo que sou do Brasil.

Aí sim, sorriso no rosto. Dmitri e Andriy viraram meus melhores amigos por meia hora. Torcedores do Krylia Sovetov, time de Samara, estão indo para o mesmo lugar que eu. Saransk, para o jogo entre Peru e Dinamarca.

Dmitri fala um pouquinho melhor o inglês. Conversamos de Tite, de Samara, do Rio de Janeiro, de Lopetegui e, claro de Cristiano Ronaldo. A história não é nova, mas é incrível a capacidade que o futebol tem de produzir amizades, ainda que efêmeras.

Último minuto, falta para Portugal. Eu já sei o que vai acontecer. Eles, acho, também sabiam. Todo mundo sabia. Cristiano é o maior e melhor atacante que já vi jogar.

Andriy aplaude, Dmitri cerra os punhos. Eu arranho meu russo. “Ôtchin haraxó!”. Ele é muito bom! Andriy me pergunta. “Como se fala muito bom em português?”. Cristiano Ronaldo? Não, ele não é muito bom. Ele é gênio. É a palavra que me vem na cabeça. Gênio, Andriy.

Nos despedimos, volto para minha cabine. O senhor de bigode já está dormindo. Ele não ronca, ainda bem.


Quando um homem só vale tanto quanto um timaço
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Julio Gomes

O que mais falar de Cristiano Ronaldo? Ainda tem gente que consegue encontrar defeitos. Eu não consigo. Só vejo qualidades. O maior atacante que já vimos é o homem da Copa, que ainda mal começou. Pelo menos por enquanto.

Cristiano fez tudo sozinho nos 3 a 3 entre Portugal e Espanha. Jogo dentro do script – surpresa, talvez, o alto número de gols.

A Espanha com posse e controle, Portugal com organização, vontade e Ronaldo. Os espanhóis mostraram coração, não parece ser um time afetado mentalmente pela demissão de Julen Lopetegui anteontem. A única crítica é o modo como o time parou após o 3 a 2.

Relaxou demais. É verdade que, com o placar a favor e depois de remar tanto para chegar à virada, o jogo mudaria. Mas ainda faltava muito tempo para a Espanha sentar em cima do placar. E do outro lado tem um tal Ronaldo.

Portugal não é um timeco. É o campeão da Europa, oras. Alguma chance teria. E teve. E fez.

Para a Espanha, fica uma boa notícia. O time é bom, continua bom e não parece ter derretido pela crise extra-campo. Para Portugal, fica um empate com sabor de vitória. E uma preocupação. O time produziu muito pouco quando esteve atrás do placar.

Contra Irã e Marrocos, o jogo será assim. Será de Portugal a responsabilidade de atacar, de fazer o jogo acontecer.

Cristiano Ronaldo faz Portugal chegar ao nível de um timaço, como a Espanha. Não é pouca coisa.


Por que ninguém fala deste Real Madrid como o melhor time da história?
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Julio Gomes

Basta ler a coluna na Folha do grande PVC, também blogueiro aqui do UOL, para entender o tamanho da história feita pelo Real Madrid.

É o primeiro tricampeão da era Champions League (já era primeiro o bicampeão), uma era em que é muito mais difícil ganhar o torneio. Antes, enquanto tínhamos o formato de Copa dos Campeões da Europa, o difícil mesmo era disputar o torneio – era necessário ser campeão nacional. A característica da era Champions é que todos os grandões estão sempre na disputa, porque, claro, raramente não ficam entre os três ou quatro primeiros nas ligas domésticas.

Real Madrid, Barcelona, Bayern de Munique, Juventus, Manchester United, agora os “ricos” Chelsea, City, PSG, enfim. A galera toda está sempre lá, salvo uma ou outra exceção. E é isso que faz da Champions uma competição tão difícil de ser vencida.

Que o Real tenha vencido quatro europeus em cinco anos é um fato estrondoso. Muito mais relevante que o penta do próprio Real lá nos anos 60, quando a competição é criada, ou os tris de Ajax e Bayern e, claro, mais relevante que as quatro conquistas do Barcelona entre 2006 e 2015, com uma espinha dorsal e um jeito de jogar característico.

Quando o Barcelona de Guardiola, Messi, Xavi e Iniesta ganha do jeito que ganha em 2011 – e considerando que aquele time era base e inspiração para uma Espanha campeã do mundo em 2010 e campeã da Europa em 2008 e, depois, em 2012 -, parecia claro que estávamos diante do maior time da história. Maior que o Real de Di Stefano e do Santos de Pelé, pela competição maior de hoje em dia, pelo fato de o futebol ser globalizado (ou seja, os melhores do mundo realmente estão na Champions) e por deixar uma marca, uma impressão digital, quando parecia impossível inventar algo novo no jogo. O resgate triunfal do “jogo bonito”.

Por que podemos discutir se o Barça de Guardiola e Messi é o melhor de sempre, mas não vemos discussões desse tipo sobre o Real Madrid de Zidane e Cristiano Ronaldo?

Não seria a hora de olharmos para Sergio Ramos como um dos grandes zagueiros da história? Não seria a hora de percebermos que, exceção feita à Copa do Mundo, Marcelo tem uma carreira maior que a de Roberto Carlos? Não seria a hora de colocarmos a dupla Kross-Modric em um patamar parecido ao de Xavi-Iniesta? Não seria a hora de vermos que Cristiano Ronaldo é o maior atacante de todos os tempos?

Eu desconfio de alguns fatores que fazem com que muita gente seja tão reativa à ideia de considerar este Real Madrid de 14-18 o maior time de todos os tempos.

É um time que neste mesmo período ganhou seu campeonato doméstico apenas uma vez – neste ano, por exemplo, acabou em terceiro, a 17 pontos do Barcelona. As ligas domésticas, com 38 rodadas, apontam que times conseguem ser mais consistentes, dominantes em todos os jogos, enquanto o mata-mata, claro, dá margem a muito mais coisa.

O Barça de Guardiola, o Real de Di Stefano, o Santos de Pelé eram todos absolutamente dominantes nas competições domésticas.

Guardiola é um gênio do ofício, um cara que consegue enxergar muito além, abstrair, pensar fora da caixa. É desses que deixam a digital, um legado. Qual é até agora a marca de Zidane?

E uma comparação parecida envolve o embate Cristiano-Messi. Os números e a capacidade do primeiro são inegáveis. Mas Messi é fantasia, é genialidade, é fazer aquilo que ninguém espera, aquilo que conexões cerebrais não conseguem enxergar.

Cristiano e Zidane ganham. Messi e Guardiola encantam. Mais ou menos por aí.

Os detratores do Real Madrid vão também olhar para a sorte, para os adversários do mata-mata, para erros de arbitragem que favoreceram o clube nestes quatro títulos. Mas, se olharmos na lupa, o mesmo que argumento que poderia servir para diminuir os feitos do Real pode ser usado para outros. Nos últimos anos, o Barcelona tem sido mais ajudado por arbitragens europeias que o Real Madrid, por exemplo. Em três dos quatro títulos, o Real passou pelo Bayern. Enfim. Não tem muito como ficar colocando “poréns”.

Talvez o título deste ano tenha sido mesmo o menos brilhante, com tantos presentes dados pelos adversários. Mas azar dos outros.

O Real Madrid, eu já disse aqui, só dá presente para a própria torcida, não para os rivais.

Ainda que eu seja um “Messista”, eu também sou “Cristianista”. O cara ruma à sexta Bola de Ouro, faz mais gols que qualquer um, foi campeão europeu com Portugal, ganhou tudo com dois clubes diferentes, mostrando que se adapta a qualquer lugar.

É fácil defender a tese de “Cristiano é o maior de todos”. Muito mais fácil do que defender a tese de “este Real Madrid é o maior time de futebol da história”.

Eu entendo que você não goste dessa ideia. Mas está na hora de, no mínimo, debatê-la. Acho que esse time aí faz por merecer, não fez?

 


Marcelo x Salah é o duelo chave da final da Champions
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Julio Gomes

Chegou a hora. Real Madrid e Liverpool vão decidir amanhã, em Kiev, o título europeu. O Real Madrid tenta se transformar no primeiro a vencer a competição máxima do continente por três vezes seguidas desde o Bayern dos anos 70 – já é o primeiro a ganhar dois seguidos na “era Champions”. O Liverpool, que nunca conquistou o Inglês na “era Premier League”, pode voltar a ser coroado após o “milagre de Istambul”, em 2005, para cima do Milan.

Muito se fala do duelo Cristiano Ronaldo x Salah. A vitória na final seria um passo decisivo rumo à Bola de Ouro – ainda que falte “só” a Copa do Mundo para ser jogada.

Quando todos esperavam o ano de Neymar, após a chegada triunfal ao PSG, foi um egípcio que saiu do nada para se meter entre Messi e Cristiano Ronaldo, dominantes há 10 anos.

Mas não é Cristiano Ronaldo quem irá parar Salah na final deste sábado. A responsabilidade é coletiva. E o setor é o de Marcelo.

Este é o grande duelo da decisão. Marcelo x Salah. Marcelo vive um momento sublime na carreira e é de seus pés que costumam sair as jogadas mais perigosas do Real Madrid.

Pode ser um drible que rompa uma das linhas e gere profundidade. Pode ser uma finalização certeira de fora da área, como a contra o Bayern m Munique. Pode ser uma tabela com um dos atacantes. Pode ser uma daquelas magníficas viradas de jogo, que gera um contra um pelo outro lado do campo.

Muitas vezes o jogo do Real nasce por ali, e Salah é o primeiro jogador a dar o combate.

Não podemos perder de vista que Marcelo está longe de ser perfeito na defesa. Ainda que tenha evoluído, é um ponto fraco do Real e precisa de muita ajuda por ali. É o lado de Salah, um jogador que faz uma temporada surreal.

Há muitos outros duelos que podem definir o jogo, mas é por ali que a final será jogada, estudada, pensada. Quem, entre os dois, ganhar a batalha nas fases ofensiva e decisiva, deixará seu time muito bem encaminhado.


Nunca Barcelona e Real Madrid foram tão pequenos no mesmo dia
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Julio Gomes

Já tivemos muitos e muitos clássicos mais importantes do que o Barcelona-Real Madrid deste domingo. Não só na história toda, mas mesmo nos últimos anos. O de hoje foi dos menos importantes. O Espanhol está decidido para o Barcelona, o Real Madrid não joga mais nada nesse campeonato, não vivemos o auge da tensão política Espanha-Catalunha…

Então, com licença aos gols de Cristiano Ronaldo e Messi, um em cada tempo, e também com licença ao fato de o Barcelona ter mantido a invencibilidade no campeonato, se aproximando de um feito histórico, o clássico do Camp Nou foi vergonhoso.

Não havia razão para tanta pancada, tantas entradas, tanta provocação, tanta picuinha. Não há rivalidade que justifique.

Tem gente que adora. Muita gente, aliás. “Isso é futebol”. “Os caras não têm sangue de barata”. “Vai lá assistir vôlei”. Esses são os (profundos) argumentos prediletos da turma.

Não é como eu vejo o jogo, não é o que me apaixona no jogo. Sou um crítico frequente deste “futebol machão” que vemos na América Latina, não tem por que poupar o maior clássico do mundo de críticas.

Todos sabemos perfeitamente que existe tensão dentro do campo de futebol, não precisam estar jogando Barcelona e Real Madrid para termos conhecimento disso. O problema é quando descamba. E ainda mais em um jogo assim, assistido no mundo inteiro, por zilhões de pessoas.

Que exemplo dá Messi para o mundo ao dar uma entrada maldosa em Sergio Ramos, como uma forma de vingança após um cotovelo deixado por Ramos no peito de Luis Suárez?

O juiz deu amarelo a Ramos (justo) e a Suárez (também justo, pela reclamação ostensiva, aquele show de sempre). O que mais queria Messi?

Vamos dar um pequeno desconto a Messi, porque em tantos anos de carreira nunca o vimos fazer esse tipo de coisa?

Até podemos. Mas imaginem se fosse Neymar a fazer o que Messi fez? Teria perdão? Messi é grande quando faz o golaço que fez no segundo tempo, é pequeno quando resolve fazer justiça com as próprias mãos (ou pés).

Aliás, em nosso país estamos vivendo a era dos justiceiros. Todo mundo quer e acha que pode fazer justiça com as próprias mãos. O pequeno microcosmo do futebol nos mostra o quanto isso é a barbárie.

Messi deu a senha. No minuto seguinte, Bale deixou a sola na panturrilha de Umtiti, de forma igualmente maldosa. No mínimo, amarelo. Outro minuto, e Sergi Roberto dá um soco em Marcelo (recebeu o vermelho). Não dá nem para chamar o fraco juiz de justiceiro seletivo, porque no segundo tempo Suárez fez falta clara em Varane no lance do gol de Messi. E depois, já com 2 a 2, o árbitro ainda deixou de dar pênalti claro de Alba sobre Marcelo.

O árbitro se perdeu e cometeu erro atrás de erro. Mas a confusão toda começa antes disso e é exclusivamente culpa dos jogadores. Gente que, hoje, perdeu a noção do que representa. De como são copiados no mundo inteiro.

Nos minutos finais ainda teve a briguinha pelo tal fair play. Suárez cai, Busquets não joga a bola para fora, depois o Real Madrid tampouco e vira bate boca. Após o apito final, claro, sorrisinhos de Ramos, Piqué e os outros jogadores da seleção espanhola. Do tipo “os bobocas aí devem ter se divertido com nossas briguinhas”. Foi um “El Clássico” deprimente.

Vamos lembrar que a vergonha já havia começado antes da partida. Na Espanha, existe uma tradição de muitas décadas. Depois de um time ser campeão, ele é homenageado em sua partida seguinte. O adversário da vez faz um corredor (o “pasillo”) para render homenagem aos jogadores campeões, que entram em campo sob aplausos.

Em dezembro, o primeiro jogo do Real Madrid após a conquista do Mundial de Clubes foi o clássico contra o Barcelona. Alegando que não havia disputado o mesmo torneio, o Barça resolveu não fazer o tal pasillo. Um argumento discutível, pois o Barça havia disputado a Champions, vencida pelo Real e que deu o direito ao time de Madri jogar o “Mundialito”. Picuinha pura.

O Real Madrid, que se orgulha de ser um clube “señor”, acima do bem e do mal, classudo, devolveu como? Não fazendo o pasillo neste domingo, apesar de o Barça ter sido campeão espanhol na rodada passada. Ou seja, uma atitude pequena, mesquinha. Picuinha pura.

Faltou classe a todo mundo. Menos ao pobre Iniesta, que se despediu dos clássicos em um jogo para ser esquecido.

Nunca Barcelona e Real Madrid foram tão pequenos, juntos, no mesmo dia.