Blog do Júlio Gomes

Arquivo : Cristiano Ronaldo

Diário da Copa: no trem com Dmitri, Andriy e Ronaldo
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Julio Gomes

Primeiro, me senti como se fosse em um filme daqueles antigos, de espiões. Estação de trem. Uma praça escura. Um pequeno lance de escadas leva à plataforma. Também escura. Sai fumaça da parte de cima de um dos vagões. Não está frio nem calor. Em frente a cada uma das portas, uma mulher. Todas vestidas com o uniforme verde escuro da companhia de trens russa.

Encontro meu vagão. “Passport”. Eu pego o passaporte, esboço um sorriso, que não tem retribuição. Fico pensando se não tenho nenhum microchip na mochila, algo que me faça ser preso e levado ao interrogatório numa salinha da estação, com um comandante soviético fumando cigarro atrás da mesa. Enquanto penso na bobagem, levo uma bronca. Tipo, “vai entrar ou não vai?”. Entro.

Minha cabine tem quatro camas. A minha é a 27. Fica na parte de baixo, ainda bem. Do outro lado, um senhor de bigode acena com a cabeça e continua fazendo o que estava fazendo no celular.

Saio, percorro o corredor e vejo dois russos assistindo ao Portugal x Espanha no celular. É verdade! O jogo! Eu havia visto só o primeiro tempo. Quando passo pela cabine, Diego Costa empata a partida. Pergunto se posso assistir com eles. Falo logo que sou do Brasil.

Aí sim, sorriso no rosto. Dmitri e Andriy viraram meus melhores amigos por meia hora. Torcedores do Krylia Sovetov, time de Samara, estão indo para o mesmo lugar que eu. Saransk, para o jogo entre Peru e Dinamarca.

Dmitri fala um pouquinho melhor o inglês. Conversamos de Tite, de Samara, do Rio de Janeiro, de Lopetegui e, claro de Cristiano Ronaldo. A história não é nova, mas é incrível a capacidade que o futebol tem de produzir amizades, ainda que efêmeras.

Último minuto, falta para Portugal. Eu já sei o que vai acontecer. Eles, acho, também sabiam. Todo mundo sabia. Cristiano é o maior e melhor atacante que já vi jogar.

Andriy aplaude, Dmitri cerra os punhos. Eu arranho meu russo. “Ôtchin haraxó!”. Ele é muito bom! Andriy me pergunta. “Como se fala muito bom em português?”. Cristiano Ronaldo? Não, ele não é muito bom. Ele é gênio. É a palavra que me vem na cabeça. Gênio, Andriy.

Nos despedimos, volto para minha cabine. O senhor de bigode já está dormindo. Ele não ronca, ainda bem.


Quando um homem só vale tanto quanto um timaço
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Julio Gomes

O que mais falar de Cristiano Ronaldo? Ainda tem gente que consegue encontrar defeitos. Eu não consigo. Só vejo qualidades. O maior atacante que já vimos é o homem da Copa, que ainda mal começou. Pelo menos por enquanto.

Cristiano fez tudo sozinho nos 3 a 3 entre Portugal e Espanha. Jogo dentro do script – surpresa, talvez, o alto número de gols.

A Espanha com posse e controle, Portugal com organização, vontade e Ronaldo. Os espanhóis mostraram coração, não parece ser um time afetado mentalmente pela demissão de Julen Lopetegui anteontem. A única crítica é o modo como o time parou após o 3 a 2.

Relaxou demais. É verdade que, com o placar a favor e depois de remar tanto para chegar à virada, o jogo mudaria. Mas ainda faltava muito tempo para a Espanha sentar em cima do placar. E do outro lado tem um tal Ronaldo.

Portugal não é um timeco. É o campeão da Europa, oras. Alguma chance teria. E teve. E fez.

Para a Espanha, fica uma boa notícia. O time é bom, continua bom e não parece ter derretido pela crise extra-campo. Para Portugal, fica um empate com sabor de vitória. E uma preocupação. O time produziu muito pouco quando esteve atrás do placar.

Contra Irã e Marrocos, o jogo será assim. Será de Portugal a responsabilidade de atacar, de fazer o jogo acontecer.

Cristiano Ronaldo faz Portugal chegar ao nível de um timaço, como a Espanha. Não é pouca coisa.


Por que ninguém fala deste Real Madrid como o melhor time da história?
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Julio Gomes

Basta ler a coluna na Folha do grande PVC, também blogueiro aqui do UOL, para entender o tamanho da história feita pelo Real Madrid.

É o primeiro tricampeão da era Champions League (já era primeiro o bicampeão), uma era em que é muito mais difícil ganhar o torneio. Antes, enquanto tínhamos o formato de Copa dos Campeões da Europa, o difícil mesmo era disputar o torneio – era necessário ser campeão nacional. A característica da era Champions é que todos os grandões estão sempre na disputa, porque, claro, raramente não ficam entre os três ou quatro primeiros nas ligas domésticas.

Real Madrid, Barcelona, Bayern de Munique, Juventus, Manchester United, agora os “ricos” Chelsea, City, PSG, enfim. A galera toda está sempre lá, salvo uma ou outra exceção. E é isso que faz da Champions uma competição tão difícil de ser vencida.

Que o Real tenha vencido quatro europeus em cinco anos é um fato estrondoso. Muito mais relevante que o penta do próprio Real lá nos anos 60, quando a competição é criada, ou os tris de Ajax e Bayern e, claro, mais relevante que as quatro conquistas do Barcelona entre 2006 e 2015, com uma espinha dorsal e um jeito de jogar característico.

Quando o Barcelona de Guardiola, Messi, Xavi e Iniesta ganha do jeito que ganha em 2011 – e considerando que aquele time era base e inspiração para uma Espanha campeã do mundo em 2010 e campeã da Europa em 2008 e, depois, em 2012 -, parecia claro que estávamos diante do maior time da história. Maior que o Real de Di Stefano e do Santos de Pelé, pela competição maior de hoje em dia, pelo fato de o futebol ser globalizado (ou seja, os melhores do mundo realmente estão na Champions) e por deixar uma marca, uma impressão digital, quando parecia impossível inventar algo novo no jogo. O resgate triunfal do “jogo bonito”.

Por que podemos discutir se o Barça de Guardiola e Messi é o melhor de sempre, mas não vemos discussões desse tipo sobre o Real Madrid de Zidane e Cristiano Ronaldo?

Não seria a hora de olharmos para Sergio Ramos como um dos grandes zagueiros da história? Não seria a hora de percebermos que, exceção feita à Copa do Mundo, Marcelo tem uma carreira maior que a de Roberto Carlos? Não seria a hora de colocarmos a dupla Kross-Modric em um patamar parecido ao de Xavi-Iniesta? Não seria a hora de vermos que Cristiano Ronaldo é o maior atacante de todos os tempos?

Eu desconfio de alguns fatores que fazem com que muita gente seja tão reativa à ideia de considerar este Real Madrid de 14-18 o maior time de todos os tempos.

É um time que neste mesmo período ganhou seu campeonato doméstico apenas uma vez – neste ano, por exemplo, acabou em terceiro, a 17 pontos do Barcelona. As ligas domésticas, com 38 rodadas, apontam que times conseguem ser mais consistentes, dominantes em todos os jogos, enquanto o mata-mata, claro, dá margem a muito mais coisa.

O Barça de Guardiola, o Real de Di Stefano, o Santos de Pelé eram todos absolutamente dominantes nas competições domésticas.

Guardiola é um gênio do ofício, um cara que consegue enxergar muito além, abstrair, pensar fora da caixa. É desses que deixam a digital, um legado. Qual é até agora a marca de Zidane?

E uma comparação parecida envolve o embate Cristiano-Messi. Os números e a capacidade do primeiro são inegáveis. Mas Messi é fantasia, é genialidade, é fazer aquilo que ninguém espera, aquilo que conexões cerebrais não conseguem enxergar.

Cristiano e Zidane ganham. Messi e Guardiola encantam. Mais ou menos por aí.

Os detratores do Real Madrid vão também olhar para a sorte, para os adversários do mata-mata, para erros de arbitragem que favoreceram o clube nestes quatro títulos. Mas, se olharmos na lupa, o mesmo que argumento que poderia servir para diminuir os feitos do Real pode ser usado para outros. Nos últimos anos, o Barcelona tem sido mais ajudado por arbitragens europeias que o Real Madrid, por exemplo. Em três dos quatro títulos, o Real passou pelo Bayern. Enfim. Não tem muito como ficar colocando “poréns”.

Talvez o título deste ano tenha sido mesmo o menos brilhante, com tantos presentes dados pelos adversários. Mas azar dos outros.

O Real Madrid, eu já disse aqui, só dá presente para a própria torcida, não para os rivais.

Ainda que eu seja um “Messista”, eu também sou “Cristianista”. O cara ruma à sexta Bola de Ouro, faz mais gols que qualquer um, foi campeão europeu com Portugal, ganhou tudo com dois clubes diferentes, mostrando que se adapta a qualquer lugar.

É fácil defender a tese de “Cristiano é o maior de todos”. Muito mais fácil do que defender a tese de “este Real Madrid é o maior time de futebol da história”.

Eu entendo que você não goste dessa ideia. Mas está na hora de, no mínimo, debatê-la. Acho que esse time aí faz por merecer, não fez?

 


Marcelo x Salah é o duelo chave da final da Champions
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Julio Gomes

Chegou a hora. Real Madrid e Liverpool vão decidir amanhã, em Kiev, o título europeu. O Real Madrid tenta se transformar no primeiro a vencer a competição máxima do continente por três vezes seguidas desde o Bayern dos anos 70 – já é o primeiro a ganhar dois seguidos na “era Champions”. O Liverpool, que nunca conquistou o Inglês na “era Premier League”, pode voltar a ser coroado após o “milagre de Istambul”, em 2005, para cima do Milan.

Muito se fala do duelo Cristiano Ronaldo x Salah. A vitória na final seria um passo decisivo rumo à Bola de Ouro – ainda que falte “só” a Copa do Mundo para ser jogada.

Quando todos esperavam o ano de Neymar, após a chegada triunfal ao PSG, foi um egípcio que saiu do nada para se meter entre Messi e Cristiano Ronaldo, dominantes há 10 anos.

Mas não é Cristiano Ronaldo quem irá parar Salah na final deste sábado. A responsabilidade é coletiva. E o setor é o de Marcelo.

Este é o grande duelo da decisão. Marcelo x Salah. Marcelo vive um momento sublime na carreira e é de seus pés que costumam sair as jogadas mais perigosas do Real Madrid.

Pode ser um drible que rompa uma das linhas e gere profundidade. Pode ser uma finalização certeira de fora da área, como a contra o Bayern m Munique. Pode ser uma tabela com um dos atacantes. Pode ser uma daquelas magníficas viradas de jogo, que gera um contra um pelo outro lado do campo.

Muitas vezes o jogo do Real nasce por ali, e Salah é o primeiro jogador a dar o combate.

Não podemos perder de vista que Marcelo está longe de ser perfeito na defesa. Ainda que tenha evoluído, é um ponto fraco do Real e precisa de muita ajuda por ali. É o lado de Salah, um jogador que faz uma temporada surreal.

Há muitos outros duelos que podem definir o jogo, mas é por ali que a final será jogada, estudada, pensada. Quem, entre os dois, ganhar a batalha nas fases ofensiva e decisiva, deixará seu time muito bem encaminhado.


Nunca Barcelona e Real Madrid foram tão pequenos no mesmo dia
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Julio Gomes

Já tivemos muitos e muitos clássicos mais importantes do que o Barcelona-Real Madrid deste domingo. Não só na história toda, mas mesmo nos últimos anos. O de hoje foi dos menos importantes. O Espanhol está decidido para o Barcelona, o Real Madrid não joga mais nada nesse campeonato, não vivemos o auge da tensão política Espanha-Catalunha…

Então, com licença aos gols de Cristiano Ronaldo e Messi, um em cada tempo, e também com licença ao fato de o Barcelona ter mantido a invencibilidade no campeonato, se aproximando de um feito histórico, o clássico do Camp Nou foi vergonhoso.

Não havia razão para tanta pancada, tantas entradas, tanta provocação, tanta picuinha. Não há rivalidade que justifique.

Tem gente que adora. Muita gente, aliás. “Isso é futebol”. “Os caras não têm sangue de barata”. “Vai lá assistir vôlei”. Esses são os (profundos) argumentos prediletos da turma.

Não é como eu vejo o jogo, não é o que me apaixona no jogo. Sou um crítico frequente deste “futebol machão” que vemos na América Latina, não tem por que poupar o maior clássico do mundo de críticas.

Todos sabemos perfeitamente que existe tensão dentro do campo de futebol, não precisam estar jogando Barcelona e Real Madrid para termos conhecimento disso. O problema é quando descamba. E ainda mais em um jogo assim, assistido no mundo inteiro, por zilhões de pessoas.

Que exemplo dá Messi para o mundo ao dar uma entrada maldosa em Sergio Ramos, como uma forma de vingança após um cotovelo deixado por Ramos no peito de Luis Suárez?

O juiz deu amarelo a Ramos (justo) e a Suárez (também justo, pela reclamação ostensiva, aquele show de sempre). O que mais queria Messi?

Vamos dar um pequeno desconto a Messi, porque em tantos anos de carreira nunca o vimos fazer esse tipo de coisa?

Até podemos. Mas imaginem se fosse Neymar a fazer o que Messi fez? Teria perdão? Messi é grande quando faz o golaço que fez no segundo tempo, é pequeno quando resolve fazer justiça com as próprias mãos (ou pés).

Aliás, em nosso país estamos vivendo a era dos justiceiros. Todo mundo quer e acha que pode fazer justiça com as próprias mãos. O pequeno microcosmo do futebol nos mostra o quanto isso é a barbárie.

Messi deu a senha. No minuto seguinte, Bale deixou a sola na panturrilha de Umtiti, de forma igualmente maldosa. No mínimo, amarelo. Outro minuto, e Sergi Roberto dá um soco em Marcelo (recebeu o vermelho). Não dá nem para chamar o fraco juiz de justiceiro seletivo, porque no segundo tempo Suárez fez falta clara em Varane no lance do gol de Messi. E depois, já com 2 a 2, o árbitro ainda deixou de dar pênalti claro de Alba sobre Marcelo.

O árbitro se perdeu e cometeu erro atrás de erro. Mas a confusão toda começa antes disso e é exclusivamente culpa dos jogadores. Gente que, hoje, perdeu a noção do que representa. De como são copiados no mundo inteiro.

Nos minutos finais ainda teve a briguinha pelo tal fair play. Suárez cai, Busquets não joga a bola para fora, depois o Real Madrid tampouco e vira bate boca. Após o apito final, claro, sorrisinhos de Ramos, Piqué e os outros jogadores da seleção espanhola. Do tipo “os bobocas aí devem ter se divertido com nossas briguinhas”. Foi um “El Clássico” deprimente.

Vamos lembrar que a vergonha já havia começado antes da partida. Na Espanha, existe uma tradição de muitas décadas. Depois de um time ser campeão, ele é homenageado em sua partida seguinte. O adversário da vez faz um corredor (o “pasillo”) para render homenagem aos jogadores campeões, que entram em campo sob aplausos.

Em dezembro, o primeiro jogo do Real Madrid após a conquista do Mundial de Clubes foi o clássico contra o Barcelona. Alegando que não havia disputado o mesmo torneio, o Barça resolveu não fazer o tal pasillo. Um argumento discutível, pois o Barça havia disputado a Champions, vencida pelo Real e que deu o direito ao time de Madri jogar o “Mundialito”. Picuinha pura.

O Real Madrid, que se orgulha de ser um clube “señor”, acima do bem e do mal, classudo, devolveu como? Não fazendo o pasillo neste domingo, apesar de o Barça ter sido campeão espanhol na rodada passada. Ou seja, uma atitude pequena, mesquinha. Picuinha pura.

Faltou classe a todo mundo. Menos ao pobre Iniesta, que se despediu dos clássicos em um jogo para ser esquecido.

Nunca Barcelona e Real Madrid foram tão pequenos, juntos, no mesmo dia.


Real Madrid fica a um jogo do inacreditável na Europa
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Julio Gomes

Você sabia que o Real Madrid é o primeiro bicampeão da história da Uefa Champions League? Para a maioria das pessoas que acompanham este blog, isso não é novidade. Ao ganhar a Champions ano passado, repetindo o feito de 2016, o Real se transformou no primeiro clube a ser campeão europeu de forma consecutiva desde que a Copa dos Campeões virou Champions.

Isto não é apenas coincidência. Até 1992, no formato antigo, a Copa dos Campeões era jogada apenas por… campeões. E nem sempre, como sabemos, o campeão de uma liga nacional em um ano mantém o nível no seguinte.

Entre 1955, quando foi criada a Copa dos Campeões, e 1992, nada menos do que oito clubes fizeram pelo menos uma dobradinha de títulos – alguns ganharam até mais do que dois seguidos.

Na era Champions League, passaram a disputar o torneio dois, três, quatro times de cada país europeu. É por isso que os grandes, como Real, Barcelona, Bayern, United, Juventus, etc, estão na Champions ano sim, ano também. Se fizer um mau campeonato nacional e chegar em terceiro, por exemplo, vai pra Champions mesmo assim.

Com tanto time gigante, ficou muito difícil ser campeão de forma consecutiva. Tão difícil que foram 25 anos de competição até o Real Madrid atingir o feito, que era tão corriqueiro antes.

É verdade que criou-se um abismo entre os mais poderosos da Europa e uma classe média que costumava dar muito trabalho. Mas os poderosos são tão poderosos, concentram tanto os jogadores top do planeta, que é inacreditável que o mesmo time ganhe sempre o campeonato mais importante.

Se ganhar a final contra o Liverpool (ou contra a Roma), o Real Madrid terá sido campeão pela quarta vez em cinco anos. Será o primeiro tricampeão seguido desde o Bayern dos anos 70.

O Bayern da atualidade não foi capaz de evitar o feito. E basicamente não foi capaz porque deu dois gols de presente. Um em Munique, o 1-2 presenteado por Rafinha. E um em Madri, dado pelo goleiro Ulreich no começo do segundo tempo. O Bayern foi melhor que o Real em três dos quatro tempos da eliminatória. Isso já tinha sido assim no confronto entre eles ano passado. Deixou a eliminatória aberta até o fim. Fez gols, perdeu gols, consagrou Navas, foi superior.

O Real Madrid já havia passado no sufoco contra a Juventus antes. E teve muita sorte nas finais contra o Atlético em anos anteriores. Podemos empilhar as eliminatórias que o Real ganhou sabe-se lá como nestes anos todos. Com Cristiano Ronaldo fazendo rigorosamente nada em dois jogos, brilhou Keylor Navas, um goleiro subestimado.

O Bayern foi melhor. Mas deu dois presentes. Alguém se lembra de o Real Madrid dar presentes para os adversários nos últimos cinco anos? Pois é. Presente do Real, só para sua torcida.


Real Madrid é uma máquina de fazer times pagarem por seus pecados
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Julio Gomes

Quantas vezes já vimos essa história? O time joga bem contra o Real Madrid. Pode ser um pequeno, de forma surpreendente. Pode ser um gigante, tipo Bayern de Munique. Perde um gol. Perde outro. Domina. E…. pumba.

Foi a história do jogo desta quarta, em Munique. Uma cidade em que o Real Madrid havia perdido nas dez primeiras visitas que fizera na história, mas onde ganha agora a terceira de forma consecutiva. O Bayern era a “bestia negra”. Virou freguês em casa.

Zidane montou o Real de forma cautelosa, sem Benzema ou Bale, com Cristiano Ronaldo isolado na frente e Lucas Vázquez no time para marcar pelo lado. Povoou o meio de campo. Até conseguiu ter a posse de bola nos primeiros minutos. E ainda deu a sorte de ver o Bayern, com uma formação ultraofensiva, perder Robben, machucado, no comecinho do jogo.

Mas o Bayern se acertou, fez o gol em um contra ataque improvável, com Kimmich, e a partir daí encontrou os espaços no meio de campo. Teve várias chances de gol, a melhor delas com Ribery, outras em escanteios que poderiam ter acabado com bola na rede. Era jogo para 2 a 0 no primeiro tempo.

Mas o Real Madrid faz todo mundo pagar por seus pecados. Todo. Mundo. Até o Bayern.

Bastou uma falha na intermediária e Marcelo acertou um chute lindo para empatar o jogo. No intervalo, Zidane tirou Isco, sacrificado pela esquerda, e colocou Asensio, um jogador mais incisivo. Subiu a marcação, incomodou a saída de bola do Bayern e fez seu time ser muito superior no segundo tempo.

Foi Rafinha, que fazia uma ótima partida pela esquerda, que deu o presente que Asensio não desperdiçou. 2 a 1 para o Real Madrid. Asensio, o mesmo que decidiu a eliminatória contra o PSG. Futuro e presente do Real Madrid.

O Bayern ocupou o campo de ataque, mas o Real Madrid, fechadinho, apesar da frustração de Cristiano por ficar tão isolado na frente, conseguiu fazer o seu jogo funcionar.

O Bayern havia perdido também Boateng por lesão no primeiro tempo. Heynckes ficou sem margem de manobra tática. Talvez, quando o Real perdeu Carvajal, pudesse ter trazido Rafinha para direita, aberto Kimmich na frente e jogado Thomas Muller para dentro da área. Uma área em que Lewandowski passou o jogo inteiro enrolado no meio de três, quatro, cinco adversários.

Quando Ribery conseguia fazer algo pela esquerda, mesmo com a língua de fora a seus 35 anos de idade, não havia ninguém na área para concluir. Faltou presença ofensiva ao Bayern no posicionamento dos meias e de Thomas Muller.

No segundo tempo, não apareceram chances ótimas como no primeiro. A melhor foi aos 43min, mano a mano de Lewandowski com Navas, que o polonês tocou pessimamente, para fora.

O Bayern perdoou no ataque, errou no lance do segundo gol. E o Real Madrid, como sempre, fez o adversário pagar o preço.

Não é uma eliminatória definida, claro que não. No ano passado, o Real ganhou por 2 a 1 em Munique, mas o Bayern devolveu o placar em Madri e levou o jogo para a prorrogação. A expulsão equivocada de Vidal deu ao Real a possibilidade de fazer três gols na prorrogação e se classificar.

Tem jogo. O Bayern tem gente suficiente para reverter. Mas, neste momento, é difícil imaginar uma final de Champions League diferente de Real Madrid x Liverpool.

 


Cristiano Ronaldo é o maior atacante que já vimos
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Julio Gomes

Eu amo Romário. Ronaldo, nem tanto. Um marcou minha infância com sua metamorfose, seus gols, até suas frases marrentas. O outro marcou minha carreira profissional pela falta de empatia e simpatia. Por isso, talvez, sempre preferi Romário a Ronaldo. Mas nunca deixei de valorizar o jogo do segundo.

É difícil saber o que teria sido de Romário se ele tivesse escolhido se manter no alto nível europeu, em vez de voltar ao já decadente futebol brasileiro. É difícil saber o que teria sido de Ronaldo, não fossem as tantas lesões. Difícil saber o que teria sido da seleção na Copa de 98, fosse essa a dupla de ataque dos sonhos.

Ambos foram craques. Gênios. Jogadores que marcaram época, com auges nos anos 90.

Van Basten também foi gênio. Gerd Muller. Batistuta. Klinsmann. Raúl. Vixe, teve tanta gente que meteu tantos gols.

Mas nenhum fez o que faz Cristiano Ronaldo. O atleta perfeito. Dedicado, profissional, correto nas palavras e atitudes, bom companheiro de time, recordista de gols na maior competição de clubes já inventada, campeão da Europa com uma seleção que nunca havia vencido nada. Capaz de rivalizar e dividir Bolas de Ouro com Messi, um gênio, um artista como poucos foram na história.

Messi, Maradona, Cruyff, Di Stefano, Pelé, Zidane. Esses caras não eram atacantes. Eram (ou são, no caso de Messi), TAMBÉM atacantes, fazedores de gols. Mas eram (ou são) mais do que isso.

Cristiano Ronaldo está no topo da lista de atacantes que já vi jogar. Não é o maior ou melhor jogador que vi jogar. Mas, na categoria atacante, striker, delantero… não tem para ninguém.

Já estava na minha. Mas, depois da bicicleta de Turim, talvez tenha entrado na lista de outros milhares pelo mundo. Creio que muita gente, emocionalmente envolvida pelas Copas de 94 e 2002, vencidas pelo Brasil nos pés de Romário e Ronaldo, não se dê conta do tamanho de Cristiano.

Da envergadura adquirida por ele nos quatro cantos do planeta, em uma época de futebol global e concentração de todos os melhores jogadores do mundo no mesmo torneio (a Champions). Da dificuldade que é fazer essa quantidade de gols em um futebol jogado de outra maneira, em que se defende mais, se corre mais, são dados menos espaços e muito menos tempo de reação aos atacantes.

Respeito todas as opiniões contrárias à minha (e sei que serão muitas, especialmente no Brasil). Afinal, a minha “verdade” não passa de opinião, uma opinião sobre um tema que se pode debater eternamente, pois não haverá nada que prove quem foi melhor. Não tem como medir.

Eu nunca achei que colocaria alguém à frente do Baixinho. Nunca achei que fosse aparecer um Ronaldo que fosse mais determinante que… Ronaldo.

Romário e Ronaldo foram tops. Monstros da arte de fazer gols.

Mas Cristiano Ronaldo é o top dos tops. O monstro dos monstros. Nunca houve um atacante esse cara.


Aplausos a Cristiano Ronaldo em Turim são a coisa mais linda do futebol
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Julio Gomes

Tenho dó de quem vive no mundo binário, aquele em que quem não é teu amigo é teu inimigo, aquele em que torcedores precisam detestar o adversário, aquele em que só vale vencer, aquele em que você tem que escolher entre Messi e Cristiano Ronaldo.

Cristiano Ronaldo é um gênio. Simples assim. É o maior atacante que já vimos. Talvez ele precise de um gol de bicicleta para que algumas pessoas percebam que ele é muito mais do que um empurrador de bolas para as redes.

Mas, mais bonito até que o gol, foram os aplausos da torcida da Juventus. Em um jogo de mata-mata de Champions, logo após uma falha bisonha de seu grande zagueiro Chiellini, os tiffosi da Juve foram capazes de perceber que história estava diante de seus olhos.

Vai ter gente aqui no Brasil dizendo que são torcedores de teatro. Que futebol não é isso.

Estão errados. Futebol é exatamente isso. Esta é a essência do esporte. Competir honestamente e fazer seu máximo é, sim, mais importante que ganhar. A lógica de “o que importa é ganhar” é perversa e serve pouco para a raça humana.

Eu aplaudo a vitória por 3 a 0 em Turim, que deixa o Real Madrid virtualmente classificado para as semifinais. Eu aplaudo a bicicleta maravilhosa de Cristiano Ronaldo. Eu aplaudo os aplausos dos italianos.


Zidane e Asensio apagam a constelação do PSG
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Julio Gomes

Com toda a licença do mundo a Cristiano Ronaldo, pelos gols feitos, e até mesmo Neymar, pela sentida ausência, mas Zinedine Zidane foi o nome próprio da classificação do Real Madrid contra o Paris Saint-Germain pela Liga dos Campeões.

No primeiro jogo, ele já havia feito uma leitura perfeita da configuração tática do PSG, colocando Asensio em campo e definindo a partida com dois gols no fim. Para o segundo jogo, Zidane mostrou novamente ser um técnico subvalorizado por muitos – inclusive este escriba, em muitos momentos.

Não é qualquer um que tem a coragem de deixar no banco de reservas jogadores como Bale, Kroos e Modric. Não basta ter respeito dos próprios jogadores e apoio dos chefes para fazer algo assim. É necessário ter um plano. E Zidane tinha um plano.

Com as entradas de Asensio, Lucas Vázquez e Kovacic no meio, foi formada uma linha de quatro com Casemiro. Foram os quatro jogadores que mais quilômetros percorreram no primeiro tempo, dando consistência defensiva ao time e ao mesmo tempo dando volume ofensivo quando a bola era recuperada.

O PSG mantinha a posse com Motta, Rabiot e Verratti, mas muitos metros separavam os meio-campistas dos atacantes. Faltava Neymar flutuando pelo meio para fazer as associações entre linhas, papel que Di María não conseguiu desempenhar.

Só nos 5 minutos finais o PSG conseguiu finalizar a gol e criar suas duas melhores chances – em uma delas, Mbappé preferiu chutar em vez de dar o gol a Cavani, uma decisão para lá de equivocada. Antes disso, Areola havia feito duas ótimas intervenções.

No segundo tempo, o plano de Zidane triunfou. Asensio roubou bola de Daniel Alves, avançou, recuou e encontrou um passe precioso para Vázquez, que cruzou para Cristiano, sempre ele, fazer o 1 a 0.

Asensio ou Mbappé? Por enquanto, o espanhol é o jogador jovem de melhor prospecto na Europa. Mbappé foi muito mal na eliminatória de Champions.

O PSG foi para cima, criou chances, empurrou, mas o estrago já estava feito. E Verratti não ajudou nada xingando o árbitro e sendo expulso tolamente – ótimo jogador, mas é bom lembrar que foi ele que, um ano atrás, fez uma falta estúpida no goleiro (!) do Barcelona, habilitando o time catalão a jogar a bola na área e marcar o sexto gol daquela remontada histórica.

Um rebote na área acabou em empate de Cavani. Mas logo o Real Madrid voltou a marcar, com Casemiro – parece que todos os gols deles saem de desvios. Rabiot, que não acompanhou Vázquez no primeiro gol e entregou a bola de volta para a área suavemente no segundo, foi o pior do PSG em campo.

O fato é que no duelo entre quem é e quem quer ser, o Real Madrid mostrou ao PSG que, para ser campeão europeu, o clube francês ainda tem muito arroz e feijão para comer. Pequenos erros na tomada de decisões geram prejuízos incríveis. Times que chegam mais, como o Real Madrid, estão mais habituados a estes momentos.

Era querer demais que logo no primeiro ano de Neymar o PSG fosse campeão europeu? Talvez. O fato é que o PSG tem ficado há alguns anos a um passo das semifinais, de conseguir algo grande, e Neymar seria esse passo. Não desta vez.