Blog do Júlio Gomes

Arquivo : Copa do Mundo

Título marca o nascimento de Mbappé, um novo fenômeno
Comentários Comente

Julio Gomes

Mbappé não ganhou a Copa sozinho, longe disso. Aliás, não ganhou nenhum jogo sozinho. Mesmo contra a Argentina, nas oitavas de final, apesar da atuação monstruosa, o gol decisivo foi o do empate, de Pavard.

Mas Mbappé é o grande nome da Copa do Mundo. Presenciamos em 2018 o possível nascimento de um fenômeno do futebol mundial. Um garoto de 19 anos, repetindo coisas que só Pelé havia atingido com tão pouca idade – fazer dois gols em um jogo de Copa do Mundo, fazer gol em uma final.

Lloris foi importantíssimo contra Uruguai e Bélgica, apesar da bizarrice da final. Os laterais Pavard e Lucas Hernandez foram perfeitos, a grande sacada de Deschamps. Os zagueiros, Varane e Umtiti, seguros atrás e decisivos na bola aérea na frente. Kanté e Matuidi, dois carregadores de piano de luxo. Pogba, um craque de bola, capaz de tudo no meio de campo. Griezmann, criativo, participativo, não falhou quando foi chamado. Giroud, o atacante dos zero gols, que mostra como o futebol é mais que isso.

É um timaço, o da França. Quem lê esse blog sabe que, na opinião do escriba, havia só dois favoritos a título. Brasil e França. É uma seleção pronta em todos os setores.

Mas a grande diferença de 2014 ou mesmo da Euro-2016 para cá foi o surgimento de Mbappé. Voou em um Monaco semifinalista de Champions, virou o segundo jogador mais caro da história ao ir para o PSG e, agora, se transforma em campeão do mundo com quatro gols na Copa.

É o surgimento de algo muito especial, que possivelmente durará muitos anos. A maior história, em outras tantas grandes histórias, da Copa da Rússia.

Passamos muitos anos buscando o sucessor de Messi e Cristiano Ronaldo. Encontramos. Começa a era Mbappé.


Diário da Copa: Adeus, Lenin
Comentários Comente

Julio Gomes

A Copa acaba hoje na Rússia. França e Croácia disputam a grande final em Moscou.

Se a França ganhar, falaremos muito de Mbappé, Pogba, Griezmann, Kanté, ficaremos aliviados porque a ordem das coisas no futebol não terá sido assim tão corrompida – ganhará uma das super favoritas antes do início da competição.

Se a Croácia vencer, falaremos muito de Modric, Rakitic e de como o futebol mudou e está tão equilibrado que uma seleção considerada média provou que se pode ser campeã do mundo, contrariando aqueles que só olham para história e peso de camisa para fazer análises.

E, depois de amanhã, já estaremos falando de Corinthians, Flamengo, Brasileirão e tudo isso ficará para trás.

Mas não aqui na Rússia. Quando a final acabar e todos nós sairmos do estádio, estaremos sendo atentamente observados pela enorme estátua de Lenin, que fica logo na entrada do estádio Lujniki.

Lenin é um mito. Onipresente, é o grande idealizador da Revolução de 1917 e, talvez por ter morrido cedo, sem muito tempo para fazer bobagens, ganhou status de santo. Diferente de Stalin, por exemplo, que matou e expurgou milhares – sua figura fica muito mais escondida.

No meio da Praça Vermelha, com horários reduzidos para visitação e gigantescas filas, está o mausoléu com o corpo embalsamado de Lenin. Uma imagem impressionante. Em absolutamente todas as cidades por onde passei, vi Lenin. Em Samara, uma estátua pequena, porque lá ele ainda era pequeno, um estudante. No Lujniki, uma estátua enorme. Por onde vamos, ele está olhando.

Lenin deve ter aprovado a Copa organizada por seus compatriotas. Não se sabe onde Putin enfiou os opositores. E nem o que será feito com alguns estádios. Mas o fato é que foi um Mundial sem protestos, brigas, atentados, tragédias, gafes ou reclamações. Tudo ocorreu bem.

E os russos se autodescobriram. Nem eles sabiam que seriam capazes de ser tão amigáveis e bons anfitriões. Eu já vi esse filme na Alemanha, 12 anos atrás.

Por falar em Alemanha e Lenin, o titulo deste artigo remete a um filme que todas as pessoas precisam ver. Ele trata de transformação, criatividade e amor. Três coisas essenciais para o mundo. A quarta é o futebol.


Diário da Copa: Neymar e as matrioskas
Comentários Comente

Julio Gomes

Na feirinha de Izmailovo, famosa em Moscou por ser o lugar ideal para comprar bugigangas típicas russas ou do período soviético, as matrioskas dominam o cenário.

São aquelas bonequinhas russas fofinhas. Você abre uma, aparece outra. E depois outra e outra e outra… tem algumas com três peças, com cinco, até com quinze! Algumas mais bonitas, outras nem tanto. A sacada deles é que fazem matrioskas de gente famosa.

Então tem matrioska do Lenin, do Putin, do John Lennon, do Obama, do Michael Jackson e por aí vai. Claro, tem também dos jogadores mais conhecidos. Cristiano Ronaldo, Messi, Neymar, a turminha de sempre.

Nesta reta final de Copa, a feira é dominada por turistas em busca das lembrancinhas finais para a família toda. Muitos brasileiros e muitos latinos. Os vendedores, espertos como só eles, já sabem todos os números e palavras-chave em espanhol e português.

“É bom que vocês conversam com a gente, eu gosto de negociar!”, me fala Vladimir. “Os europeus parece que têm medo de nós, russos, nem chegam perto”. Vladimir me fala longas frases em russo, como se eu entendesse alguma coisa só porque lhe dei bom dia no idioma local e aprendi uma palavra ou outra.

Nossa negociação acontece em russo, espanhol, inglês e português. Uma loucura! Mas dá certo. Compro minhas matrioskas, consigo um bom desconto, ele me chama de “chorão”, eu digo que aprendi com a minha mulher e ele cai na risada.

Enquanto embala minhas bonequinhas, ele deixa cair uma matrioska de Neymar, que estava no caminho. Foi um strike, Neymar caiu e levou umas dez bonequinhas com ele. Vladimir começa a fazer um som, como se a matrioska de Neymar estivesse se contorcendo de dor. Todos em volta caem na risada.

É com essa imagem que Neymar sai da Copa. Virou piada internacional. Ao abrir as matrioskas de Neymar, os outros bonequinhos Neymarzinhos são iguais – lógico – e cada vez menores. O grande desafio dele é mudar. Senão não será maior do que é hoje nunca.

Já o desafio de Vladimir e do resto dos colegas das outras barracas é arrumar matrioskas de Mbappé e Modric. Não encontrei nenhuma em Izmailovo. Nem de Pogba ou Griezmann, nenhum francês, nenhum croata. Precisam atualizar e variar o estoque. O futebol mudou.


Diário da Copa: A bandeira e o balé
Comentários Comente

Julio Gomes

E lá vamos nós ao Museu das Forças Armadas, em Moscou. Não estava nos meus planos e nem no mapa turístico. Mas era um convite do meu irmão.

E, se estou aqui, é também por ele. Meu grande inspirador e influenciador, o cara que eu esperava chegar de madrugada de volta do jornal onde ele trabalhava só para poder pegar a tabela do campeonato sei lá de onde que vinha na revista Placar – ele comprava todas.

O cara que me fez gostar de esportes e de jornalismo. A voz “do contra” que faz a nossa família não ser o trágico uníssono que marca as famílias brasileiras. Que me fez e faz pensar.

Pensar. Como nos custa pensar! O museu das Forças Armadas é, de alguma maneira, uma enorme homenagem ao “não-pensar”. Eu sempre achei os músculos inimigos do cérebro.

A história russa é forjada em guerras, invasões e defesa, como de tantas nações por aí. O museu é fantástico. Apesar de estar todo em russo, é muito visual e apresenta uma incrível coleção de armas, uniformes, documentos, mapas, relíquias, artefatos militares. Tem até um “jardim da guerra”, com aviões, helicópteros, mísseis e tanques.

Fico me perguntando como o ser humano foi capaz de criar tantas coisas destrutivas. Por que fomos incapazes de viver em paz, não em guerra, durante toda a história da civilização?

No centro do museu, a bandeira. A tal bandeira soviética fincada no Reichstag alemão em 1945, quando eles chegaram a Berlim e derrubaram o nazismo.

É um troféu para os russos. Para todos nós, possivelmente. Troféus decorrentes de barbáries.

Não vejo problema em celebrar vitórias, mesmo que em um passado sangrento. Desde que, claro, se aprenda com ele.

Com a Croácia na final da Copa e aquele quente Sérvia x Suíça dos albaneses, nos lembramos que até outro dia havia uma carnificina na Europa. O que dizer da Síria? Ou da violência urbana nas grandes cidades, até mesmo do mundo desenvolvido? Será que estamos aprendendo?

Enquanto escrevo esse texto, estou em um banco em frente ao Teatro Bolshoi, outro orgulho dos russos. Casais se beijam, turistas tiram fotos, estudantes riem, as fontes dão o efeito sonoro.

Entre as bombas e balas e o balé, eu sei bem de que lado prefiro estar.


Seleção da Copa: franceses dominam, estrelas estão fora
Comentários Comente

Julio Gomes

Não quero esperar a final. Eu sei que é o jogo mais importante e tudo o mais, mas acho injusto dar um peso tão desproporcional a um jogo só. Portanto, já fiz minha seleção da Copa do Mundo.

E ele é recheada de franceses. França e Bélgica jogaram o melhor futebol da Copa da Rússia. A primeira (e finalista) muito sólida defensivamente e com uma dupla inacreditável no meio de campo, além de Mbappé. Os belgas tiveram grandes momentos ofensivos. Os problemas defensivos foram mascarados por inacreditáveis atuações do melhor goleiro da atualidade.

Não foi fácil escolher o goleiro. Lloris, Subasic, Pickford, Ochoa, Akinfeev, Schmeichel… vários foram muito bem. Mas Courtois foi um escândalo.

Nem Cristiano Ronaldo nem Messi nem Neymar estão na seleção. Quem diria isso antes de começar a Copa?

O melhor jogador do Mundial, a meu ver, é Luka Modric. São 32 anos e três prorrogações nas pernas, sem sair um minuto e dando piques com 115min de jogo contra a Inglaterra. Qualidade impressionante com a bola, inteligência tática sem ela. Estamos diante de um super craque – mas sem mídia.

Aqui vai minha seleção A:

Courtois no gol; Vrsaljko, Mina, Varane e Lucas Hernandez; Kanté, Pogba e Modric; Hazard, Mbappé e Kane.

Eu sei que Mbappé tem só 19 anos, etc e tal, mas o cara já é conhecido, foi a segunda maior transferência da história do futebol. Sendo assim, considero o lateral Lucas Hernandez, da França, a revelação do Mundial.

Timaço!

Minha seleção B teria sistema com três atrás (que foi bastante usado) e um russo/brasileiro improvisado: Schmeichel; Mário Fernandes, Stones e Thiago Silva; Rebic, Casemiro, Cheryshev, De Bruyne e Coutinho; Cristiano Ronaldo e Cavani.

Mande a sua aqui também!

 


Lukaku não entrou no jogo, solidez francesa fez diferença
Comentários Comente

Julio Gomes

Foi o jogo equilibrado que se esperava, decidido no detalhe da bola parada. A Bélgica foi bastante superior à França no primeiro tempo e criou pelo menos três claríssimas de gol, em grande noite de Hazard.

Com uma linha de quatro atrás, com Chadli, um meia, jogando como lateral, a Bélgica conseguiu se manter segura atrás, ter a posse de bola e criar chances.

A bola teimou em não entrar.

O segundo tempo já começa com o gol da França, no escanteio. Foi o grande problema da Bélgica na Copa do Mundo. O Brasil teve, assim, sua chance para abrir o placar e mudar a história das quartas de final. Não aproveitou. A França aproveitou.

E já sabemos que, com este nível de equilíbrio, marcar primeiro é muito mais do que meio caminho andado.

A grande chave do jogo foi Lukaku não ter entrado em campo. Tanto no primeiro quanto no segundo tempos, o gol passou na frente de Lukaku. Mas o centroavante, tão bem contra o Brasil, parecia aéreo nesta terça.

Curiosamente, no dia antes da semifinal, o técnico Roberto Martínez havia dito que tirou Lukaku da posição centralizada contra o Brasil para que ele não sofresse entre os zagueiros. Hoje, voltou a deixar o camisa 9 pelo meio. E ele sumiu entre Varane e Umtiti.

Quando alguns atacantes não vivem sua noite, viram peso morto para o time. Hoje, não foi a noite de Lukaku.

A grande mudança da França promissora de 2014 e derrotada na Euro de 2016 foi a defesa. Da linha de trás, só Umtiti começou a decisão europeia dois anos atrás.

Fora o jogo louco contra a Argentina, a França só levou um gol nas outras cinco partidas. É sólida, cede poucas chances. Kanté é um motor, imparável. O time só cometeu SEIS faltas para ganhar da Bélgica.

Deschamps se livrou de uns trastes, arrumou laterais jovens e bons, ganhou Mbappé de presente e foi corajoso na convocação.

Antes da Copa começar, eu colocava Brasil e França na prateleira de cima. Um, decepcionou. A outra está onde deveria estar. Nos últimos 20 anos, a terceira final francesa em seis Copas do Mundo.


Diário da Copa: Foram os peixinhos do mar…
Comentários Comente

Julio Gomes


Quantos quilômetros devo ter caminhado nessa viagem? Difícil fazer essa conta. Pelos calos e pelas inéditas bolhas nos calcanhares, souvenirs de Rostov on Don, acredito que já devo ter feito uns três caminhos de Santiago de Compostela.

Meu tênis, coitado, está sem sola e com a palmilha gasta. Eu até trouxe outros para a viagem, mas me machucariam ainda mais.

Lá estava eu me arrastando por Sochi, na bela margem do Mar Negro, uma parte do centro da cidade cheia de lojas e restaurantes, quando vi o sinal luminoso. “Spa Doctor Fish”. Hein?? Spa. Doutor. Peixe. Esfreguei os olhos em frente à vitrine.

O que estavam lá fazendo aquelas pessoas com os pés dentro de aquários, sendo “atacadas” por peixinhos esfomeados?

Seis poltronas. Seis aquários. E uns seis milhões de peixinhos te esperando. Loucos para… comer teus pés – e tornozelo, canela, o que mais você quiser colocar à disposição deles.

Havia lá na parece uma explicação de como aquilo ajudaria meus pés, mas tudo em russo. A outra plaquinha tinha os preços: 12 reais por 5 minutos, 18 reais por 15 minutos, 30 reais por 30 minutos. Não achei tão caro. Será que aqueles peixinhos iriam trazer algum alívio?

Olhei atentamente para as pessoas que já haviam criado coragem. Não eram faces de terror. Um ou outro até sorria. Tinha uma criança de uns seis anos com os pezinhos em um dos tanques. Uma criança!

Na recepção, estão Irina e Granika. Elas se divertem com o meu receio. “Pode ir! Não dói!”. OK, OK. Já que estamos aqui…

Sento em uma das poltronas. Quando olho para baixo, os milhões de peixinhos já estão lá, ouriçados, reunidos no meu aquário, só esperando. Safados.

Chegou a hora. Pés para dentro… Ataque de riso.

Isso mesmo. Não conseguia parar de rir. Faz um pouco de cócega, uma sensação engraçada demais. São centenas de peixinhos que vão lá, segundo o pessoal do Spa, comer tua carne morta, “limpar e massagear” teus pés.

Mando vídeo para minha mulher. “Fazendo pedicure, é?”. Ela me diz que isso é caro pra burro no Brasil. Para mim, é coisa de russo.

Depois das risadas – pude perceber que o mesmo acontece com todo mundo -, tentei relaxar. Me acomodei na almofada, deixei os peixinhos do Mar Negro se divertirem com meus pés por 15 minutos. Bom apetite!


Diário da Copa: 11 cidades
Comentários Comente

Julio Gomes

Vocês nem imaginam a alegria que sinto. Sério mesmo. Nem eu imaginava que me sentiria assim.

Quando comecei meu planejamento de Copa, nem mesmo cliente eu tinha. Eu não sabia nem para quem iria trabalhar. Foram meses de batalha. E de planejamento. Pensar, imaginar, tentar, pesquisar, arriscar, pagar, telefonar.

Um aprendizado imenso. O UOL Esporte, velho parceiro, foi um dos que confiaram em mim. As peças foram encaixando. E, aí, tomei a grande decisão. Passar pelas 11 sedes. Pelos 12 estádios.

Ousado. Dado o tamanho do país e o meu orçamento, parecia missão impossível. Mas deu certo! Deu muito certo. Sem roubadas, sem grandes gastos, sem mordomias, com muita disposição… cheguei lá. Ou melhor, aqui.

E o melhor de tudo? Poder dividir tudo o que vivi com vocês. Minha vida é contar histórias. Nada mais satisfatório que poder dividir a experiência maluca e intensa vivida em 30 dias de Rússia com vocês.

Mal completei as 11 cidades e começaram as perguntas. Qual a mais legal? De qual você gostou mais? Que perguntas difíceis!

Como não amar a minúscula Saransk, com sua simpática praça e onde se faz tudo a pé? Ou Samara, com a linda praia no Volga? Kaliningrado, a terra do âmbar e da cerveja. Volgogrado, onde a história se respira e te faz sentir tão pequeno aos pés daquela estátua.

Como não gostar de Ekaterimburgo e Rostov, onde as pessoas te param na rua para saber do que você precisa? Da animação de Kazan. De Nijny Novgorod, com a maravilhosa vista do Volga. Da beleza natural de Sochi, onde praia e montanha se encontram, onde o Sol se põe no Mar Negro.

Isso tudo sem falar de Moscou e São Petersburgo. Cosmopolitas, imponentes, maravilhosas.

Escolher o que eu mais gostei é que nem escolher entre papai e mamãe. Entre Messi e Cristiano Ronaldo. Entre Tom e Vinicius.

Há certas escolhas que não podem ser feitas. Não é justo que sejam.

A grande história é que a Rússia conseguiu mostrar a mim e ao mundo ser um país aberto ao desconhecido. Essa faceta da hospitalidade é uma que nem os russos conheciam. Que coisa maravilhosa é o autoconhecimento.

Com todos os seus males, que existem, Copas do Mundo servem para isso. Intercâmbio, novas amizades, aprendizado, evolução.

Eu sou outra pessoa depois do meu périplo pelas 11 cidades-sede. A Rússia, tenho certeza, também é outro país.

 


Neymar destruiu a própria imagem na Copa do Mundo
Comentários Comente

Julio Gomes

Os vídeos pipocam, todo dia chega um diferente. Torcedores belgas se jogam no chão, mãos nas pernas, gritos forjados de dor, fingindo que são Neymar. Ou então crianças em um campo de futebol qualquer do mundo. Quando, ao fundo, algum adulto grita “Neymar!”, todas se jogam ao chão, se contorcendo de dor.

O debate sobre Neymar nesta Copa foi intenso. Mas ele é praticamente um debate falso. Pois pouca gente discorda do fato de ele ser um grande jogador. E pouca gente concorda com sua atitude em campo.

Eu acreditava que essa seria a Copa de Neymar, inclusive com possibilidades de sair dela como favorito à Bola de Ouro – claro que isso teria de passar pelo título da seleção. Depois da lesão e do tempo parado, chegaria voando na Copa. Em um time bem arrumado e confiante.

Bastaram os dois primeiros duelos para ver que não seria assim. E o choro depois do jogo da Costa Rica mostra o quanto esses jogadores da seleção brasileira colocam sobre si uma pressão que foge completamente dos padrões aceitáveis.

Mas OK, não foi uma Copa de Bola de Ouro. Neymar fez alguns gols, jogou bem alguns jogos, mal outros, como contra a Bélgica. Não é pecado não fazer uma Copa de Bola de Ouro.

O pepino é a imagem. Todos sabiam que Neymar era um menino mimado. Só que agora ele é visto como um menino pilantra. Sabe aquela coisa de “ser exemplo para as crianças”? Bem… exemplo do quê?

Se Neymar sempre foi uma figura controversa entre adultos, entre crianças ele era uma espécie de unanimidade. Por vários fatores: o jeito moleque, o sorriso, a maneira extrovertida de jogar. Neymar perdeu nesta Copa seu maior capital. Não é mais unanimidade entre crianças. É ridicularizado por muitas delas.

Não me venham com a historinha para boi dormir de “é culpa da imprensa”.

As pessoas formam opinião em função do que veem. E o que elas viram foi um jogador tentando o tempo inteiro forçar cartões a adversários reagindo de maneira exagerada a qualquer falta. Tanto tentou ludibriar os árbitros que acabou prejudicando o próprio time – a falta de credibilidade levou árbitros a tomarem decisões erradas no campo.

Não são jornalistas nem árbitros nem adversários que fizeram a imagem de Neymar ir para o ralo. Foi ele mesmo. Virou a piada da Copa. Campeão dos memes. E essas coisas são difíceis pra caramba de serem revertidas.

Era a Copa para Neymar sair maior. Saiu menor. Muito menor.


Diário da Copa: Vladimir e Tatianas
Comentários Comente

Julio Gomes

Chego esbaforido à estação de trem. Uma das rotinas da minha vida. Sempre atrasado, sempre correndo, sempre deixando para sair no último minuto possível, realmente preciso melhorar.

Desta vez a culpa nem foi tanto minha, mas o fato é que às 21h18 saía o trem para Vladimir. E se tem uma coisa que aprendi neste um mês de Rússia é que os trens são pontuais. Consigo entrar. Ufa! Se eu tivesse perdido esse trem, esse texto nunca poderia ter sido escrito.

Decidi parar em Vladimir, uma cidade no meio do caminho entre Moscou e Nijny Novgorod, pela dificuldade para chegar e dormir em Nijny e também porque aqui do lado fica Suzdal, uma cidadezinha milenar de 10 mil habitantes e que é uma das pérolas da história russa, quase intocada através dos séculos.

Reservei o apartamento minutos antes de entrar no trem. Quase chegando, achei estranho receber uma mensagem no celular. Tatiana era o nome. E ela me buscaria na estação para levar até o apartamento. Oras, mas se o apartamento reservado era justo ao lado da estação de trens, por que eu precisaria da carona?

Chego e lá está Tatiana. Ou melhor. Duas Tatianas. Mãe e filha com o mesmo nome. Não, não é tradição por aqui. “É que meu pai amava muito a minha mãe”, conta, sorridente, Tati filha, que fala inglês. Chamarei as duas pelo apelido que eu mesmo dei, mesmo que elas não saibam.

Elas me levam a um apartamento que realmente não era o alugado. Um lugar escuro, sem comércio por perto, a meia hora andando do centro. Quando me dou conta, já estou dentro do apartamento. É meia-noite, estou cansado, querendo comer e dormir. E dou uma reclamada educada a Tati filha. Olha, não era aqui que eu ia ficar. Tinha reservado um apartamento que era perto de cafés, estou com fome, amanhã quero ir a Suzdal… poxa vida.

Ela me explica que a proprietária do outro apartamento não poderia me receber, daí o plano B. Não há muito o que fazer. Agradeço e me despeço.

Cinco minutos depois, toca o telefone. “Julio, minha mãe quer que você jante em nossa casa”. O quê?? Dei risada, agradeci, mas disse que não, não queria atrapalhar de maneira alguma. Mas ela insiste. Ouço Tati mãe ao fundo falando um monte de coisas em russo – ela realmente já havia me parecido uma mulher espirituosa. Penso um pouco… Por que não?

E lá vou eu para a casa de duas desconhecidas, em um lugar em que o celular não pegava direito e que eu não tinha a menor ideia de onde ficava. Em Vla-di-mir. Tudo para dar errado. Mas esse não é o jeito que encaro esta viagem. Para mim, tudo vai sempre dar certo.

As horas que se sucederam foram das mais divertidas e surpreendentes da Copa, em uma cidade que não tem nada a ver com a Copa. Tati mãe me serviu Borsch, a super tradicional sopa de beterraba que é parte do cardápio dos russos. Mas, claro, não bastava a sopa. Lá vem ela com a garrafa de vodca em mãos. “Vodca! Russian tradition!”.

Mais uma vez, meu “não” inicial é seguido de um retumbante “sim! por que não?”. Champanhe para elas, vodca para mim. “Homens tomam vodca! strong drink, strong drink”. Não tive direito a não querer. Mas tem mais. Tati mãe traz também tomates e pepinos em conserva. Segundo ela, a cada trago de vodca, uma mordida no pepino ou no tomate. “Russian tradition!”.

O pai mora em outra cidade, com o filho mais novo. Tati filha me conta que a namorada do pai está grávida e que ela, com seus 28 anos de idade, não tem muita idéia sobre o que achar disso. Ela namorou por quatro anos com um sueco de origem marroquina, morou em Estocolmo. Está de volta, mas infeliz. É sempre difícil se readaptar, em qualquer país, para qualquer pessoa.

Me conta que as suas amigas só falam de corpo, todas tem 50 kg e ela engordou muito. Se sente deslocada. Tati mãe fala das novelas brasileiras que passam aqui na Rússia. Pergunto a elas se os homens são muito opressores na Rússia. Nenhuma delas concorda. “Fazemos o que queremos”. Não senti convicção em nenhuma das duas.

Com borsch na barriga e vodca na cabeça, me despeço. A noite começou quadrada e acabou redonda.

Só faltava resolver meu problema de ir a Suzdal no dia seguinte. Pergunto a Tati filha onde fica a estação de ônibus, qual era o melhor jeito de chegar lá… Tati mãe, que acho que entendia alguma coisinha de inglês, interrompe a conversa.

Amanhã. Meio-dia. Fique pronto. Todos a Suzdal!

Isso não é a Copa. É a Rússia. Pelo menos a Rússia que eu conheci desde que aqui cheguei.

Esse texto foi publicado originalmente no jornal Gazeta do Povo