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Neymar dá a melhor resposta: a “humilhação do bem”
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Julio Gomes

Aleksandar Dragovic é um daqueles jogadores de quem provavelmente só falaremos hoje. Depois, nunca mais. Um desses caras que precisam estar no futebol, porque nem todos são craques. Temos que ter também os que caem de bunda no chão antes de Neymar meter um golaço.

Aqui na TV russa, meu paupérrimo conhecimento do idioma me permitiu entender uma expressão do narrador. ''очень класс!''. Tipo… ''otchin class!''. Muita classe. Emendou com um ''d-jo-go bo-ni-to''.

Essa é a marca do Brasil no mundo, quer o pessoal queira ou não. É por isso que a seleção brasileira é adorada. Não por vitórias. Mas por encanto.

O gol absurdo de Neymar, deixando Dragovic sentado como um pato no chão antes de concluir a gol, é a melhor resposta possível para o adversário.

Como mandou mal a Áustria neste domingo! Não permitiu o minuto de silêncio a Maria Esther Bueno antes do jogo (e isso em um dia em que um tenista austríaco jogava a final de Roland Garros). E não cansou de bater em campo.

É verdade que os amistosos pré-Copa tiveram a marca da competitividade. Algumas entradas mais fortes, jogos ''sérios''. Mas uma coisa é jogar sério, outra é bater gratuitamente.

Prodl deu uma entrada criminosa em Neymar, seguida de um grito também, convenhamos, exagerado. Escutei aqui em Moscou sem precisar da TV. Schopf foi só madeira desde o início. Na falta do cartão vermelho, o próprio técnico austríaco, o senhor Foda (desculpem, a culpa não é minha), retirou o rapaz de campo. E Dragovic chutou Marcelo no chão, fingindo que queria tirar a bola. Primeiro levou dura de Paulinho. Depois, virou meme. Bem feito pela humilhação.

Foto André Mourão / MoWA Press

Essa é a humilhação válida. Nunca na vida criticarei Neymar por dar um drible maravilhoso como este para tirar o rival da jogada e meter o gol. Critico as carretilhas inúteis no meio de campo apenas para humilhar outro profissional.

Recado dado. Neymar será caçado na Copa. Porque é craque e porque é detestado por muitos – o que fala dele tanto quanto fala dos outros. Caberá às arbitragens coibir os açougueiros. E a Neymar responder na bola, como fez hoje.

O Brasil enfrentou um adversário duro, que acaba de ganhar da Rússia e da Alemanha – jogando bem, não por acaso. A seleção não deu chance alguma, fez 3 a 0 e poderia ter feito mais.

A Copa pode vir ou não. Isso é um jogo. Mas essa é uma seleção pronta para algo grande na Rússia.

 


Diário da Copa: Hora de conhecer a nova Rússia
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Julio Gomes

O texto abaixo foi publicado originalmente na ''Gazeta do Povo'', do Paraná.

Escrever no avião. Está aí uma rotina na vida de quem cobre grandes eventos esportivos. Eu não durmo mesmo… você dorme? Tenho uma inveja danada de quem dorme em avião. Posso te chamar de você, cara leitora, caro leitor? É verdade que acabamos de nos conhecer. Mas o que não queremos neste espaço é formalidade! Este será um espaço de apresentações.

Primeiro, vou me apresentar. Depois, a Rússia. Uma nova-velha Rússia. Um pais de passado e presente de autoritarismo e conflitos. Mas que entra na modernidade e se mantém no topo em coisas que o nosso Brasil segue ignorando, pesquisa e conhecimento.

Esta será a minha quinta Copa do Mundo. Às vezes olho para trás e fico sem acreditar. Virei jornalista para viver, estar e contar sobre os grandes momentos do esporte. O esporte sempre foi minha paixão. O amor pelo jornalismo veio depois.

Quando embarquei para a Coreia do Sul, 16 anos atrás, estava tão pilhado, excitado pela viagem em cima da hora – só cheguei para o segundo jogo do Brasil -, que talvez não tenha me dado conta. Caramba, eu tinha só 22 anos de idade!

Trabalhava no UOL havia quatro, desde a primeira Copa digital. Em 94, chorei rios de lágrimas assim que Baggio perdeu aquele pênalti. Em 98, havia trocado de uniforme. Tirei a camisa da seleção, vesti a do jornalismo.

Eu sei que muita gente não entende ou nem acredita que consigamos separar as coisas. Mas é assim. Minha relação com a seleção mudou há 20 anos. Do nada. Sem que eu fizesse esforço algum. Adiantamos a fita a Yokohama, o jogo do penta. Eu escrevia freneticamente enquanto alguns colegas choravam de emoção na tribuna de imprensa. Eu entendo. Respeito. Apenas mudei. Não é torcer contra. Nem a favor. Minha missão é contar. Observar. Analisar.

Me mandaram, pois, para a Ásia. E depois para a Alemanha. Para a África do Sul. Para rodar o Brasil em 2014. E, agora, eu resolvi eu mesmo me mandar para a Rússia. Mesmo que o preço tenha sido o olhar tristonho da minha filha de quase 5 anos, que nunca ficou longe do pai. ''Vou agarrar na tua perna para você não ir''. Choro um pouco. E não tenho vergonha disso.

Costumo organizar minhas memórias em Copas. Dizem que os ciclos das nossas vidas têm 7 anos. Acho que os meus têm 4. E esta primeira separação das minhas filhas – tantas outras virão, eu sei – já entrou para a minha história.

Mas… É a Copa do Mundo! Aqui no avião, enquanto escrevo, converso com minhas duas novas amigas. Marta, uma senhora argentina apaixonada por futebol, por Cristiano Ronaldo, pelo San Lorenzo e o Papa. Na outra poltrona, Cristina, que odeia o futebol.

O papo vai para a política. Uma odeia Macri. A outra atura. Mas conversam de forma civilizada e apaixonada. E me lembro que conversar sobre política no Brasil hoje é proibido. Nossa sociedade está doente.

A Copa é quando, de alguma forma, nos unimos. No máximo alguém vai gostar mais e alguém vai não gostar tanto de Neymar. É mais do que um torneio. É o momento em que quem ama o futebol vive o êxtase. E quem não gosta passa a gostar. E quem é criancinha começa a criar laços. São as reuniões de família, as conversas de bar, o Galvão Bueno, as mesas redondas.

Quem eu acho que vai ganhar? O Brasil. Porque tem organização e um jogador desequilibrante. Outros com a mesma capacidade estão em times piores ou desorganizados. Outros times bem arrumados não têm caras tão diferentes.

Ainda assim, coloco França e Espanha no mesmo nível de favoritismo do Brasil. Seleções com experiência e uma juventude pronta para fazer algo grande. A Alemanha está abaixo desta vez. A Argentina, muito abaixo.

Mas atenção. Esta é a Copa do equilíbrio em uma era global. Há umas 20 seleções em estágios parecidos se olharmos aspectos táticos, técnicos e físicos. Qualquer time ''médio'' pode encaixar quatro jogos bons, dar um pouco de sorte e ser campeão. Portugal, Inglaterra, Bélgica, Colômbia, Uruguai… Eu não gosto de analisar futebol pelo passado. E o presente é de um equilíbrio tremendo, como nunca antes visto.

Futebol à parte, a minha empolgação reina na chance de conhecer as entranhas da Rússia. Já estive em Moscou e São Petersburgo. Duas cidades magníficas. Agora é a hora de conhecer a outra Rússia. Saransk, Samara, Kazan… a hora de conhecer o Volga. Os Urais. O Cáucaso. O Mar Negro. A hora de andar muito de trem. A hora de arranhar o russo que com muita petulância me propus a aprender nos últimos três meses – e que, lógico, só me levará a um ''oi tudo bem, como você vai?''. A partir daí, é aventura.

 


Amistosos chatos e com poucos gols. Coincidência ou tendência?
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Julio Gomes

Nestes primeiros dias de amistosos para a Copa, já podemos ver uma espécie de tendência. Jogos de poucos (ou nenhum) gols entre seleções que estarão no Mundial. Os gols ficam para as partidas com pelo menos uma seleção que não vai à Copa.

O Brasil x Croácia deste domingo, em Liverpool, seguiu a tendência vista nos 0 a 0 de sábado, entre Bélgica e Portugal e entre Suécia e Dinamarca, ou no 0 a 0 de sexta entre Egito e Colômbia. Jogo sem graça, sem intensidade e com poucas chances de gol.

Estão escondendo o jogo? Apenas coincidência? Ou será uma tendência?

É difícil imaginar que os jogos de Copa do Mundo terão essa pouca intensidade. Mas não é difícil imaginar que grande parte dos jogos serão mesmo estudados em demasia, amarrados, com poucas chances.

Hoje em dia, existe muito equilíbrio no futebol. Os jogadores se conhecem, o nível físico é parecido, os espaços são escassos. Qualquer um consegue montar um time para empatar. Considerando que taticamente todos – ou quase todos – estão em nível parecido, o equilíbrio sempre será quebrado pelo talento.

Foi o que aconteceu em Liverpool neste domingo. Neymar entrou no segundo tempo e decidiu o jogo. É isso o que se espera dele – nada mais, nada menos. O desequilíbrio. No último lance, Firmino fez o segundo.

Portugal não teve Cristiano Ronaldo contra a Bélgica. Os belgas que desequilibram, Hazard e De Bruyne, não estavam ligados no jogo. Suécia e Dinamarca não têm jogadores assim. Salah não estava no Egito x Colômbia. Tudo 0 a 0. Seria também o placar de Brasil x Croácia, não fosse Neymar.

A exceção foi Inglaterra 2 x 1 Nigéria, resultado que passou por um primeiro tempo muito, mas muito ruim mesmo, dos nigerianos. No segundo tempo, o marasmo foi parecido ao dos outros jogos.

O desequilíbrio trazido por Neymar pode ganhar a Copa para o Brasil. Simples assim.

 

 


Boas e más notícias para Alemanha, Inglaterra e Portugal
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Julio Gomes

Amistosos são amistosos. Mas, quando estamos às portas da Copa do Mundo, eles ganham peso. É possível – e obrigatório – tirar conclusões, olhar bem de perto o que está acontecendo com as 32 seleções que estarão na Rússia.

A França, que deixou dúvidas no ar em março, ganhou bem da Itália na sexta-feira. É uma seleção fortíssima em todos os setores, com uma boa mescla de jogadores já rodados com outros muito jovens. O trio Mbappé-Griezmann-Dembélé foi muito bem e promete.

Quem também foi bem foi Portugal. Sem Cristiano Ronaldo, empatou sem gols com a Bélgica em Bruxelas, neste sábado. A boa notícia é que jogou bem, especialmente no primeiro tempo, contra os titulares belgas. Foi o melhor time em campo, e possivelmente teria vencido com seu melhor jogador em campo.

A solução é ao mesmo tempo um problema, claro. Sem Cristiano, Portugal não ganha de ninguém.

A Bélgica segue deixando interrogações. No papel, um timaço. O único ponto fraco é o ridículo Meunier, mina de ouro quando atua pelo PSG – não seria diferente na seleção. Na prática, não é só Meunier o problema. É um time que continua preguiçoso demais para quem quer fazer algo grande. Parece achar que as coisas acontecerão automaticamente – e no futebol, sabemos, não é bem assim. Para piorar, Kompany saiu sentindo dores do amistoso.

Por falar em dores, a grande notícia dos amistosos até agora foi o retorno de Neuer. Jogou – e bem – na partida da Alemanha contra a Áustria.

Neuer não é só um goleiro. É o melhor goleiro do mundo, ou pelo menos era até a série de lesões. E é um jogador importantíssimo para o jogo da campeã do mundo.

Um jogo que vive uma crise de resultados rara. A Alemanha levou 2 a 1 da Áustria, que nem passou perto de se classificar para a Copa e que não batia os alemães havia 32 anos. Antes desta derrota, a Alemanha vinha de empates contra Inglaterra, França e Espanha e derrota para o Brasil. São cinco amistosos sem vitória. Não dá para dizer que isso não quer dizer nada.

A Alemanha, para mim, tem cheiro de Catar-2022, não de Rússia-2018. Nunca convém duvidar, mas não é um time pronto e confiante para o Mundial que se aproxima.

A Inglaterra, bem menos candidata, é outra que teve um sábado de boas e más notícias.

A boa notícia foi o ótimo primeiro tempo contra a Nigéria, em Wembley. O time funcionou, não deu chances e fez dois gols. No entanto, bastaram algumas mexidas no intervalo para a Nigéria diminuir e ameaçar no segundo tempo. Foi como se a Inglaterra fosse do céu ao inferno em meia hora – uma constante do English Team nos últimos 20 anos.

Vale também dizer que outro amistoso envolvendo duas seleções da Copa, Suécia e Dinamarca, acabou empatado sem gols – e foi de um sono terrível. Nada aconteceu no duelo escandinavo.

 


Zidane dá mais uma lição de grandeza e humildade
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Julio Gomes

E Zidane ''se fué''. Convocou uma coletiva, avisou que estava deixando o Real Madrid e deixou o mundo de queixo caído.

Pode parecer inacreditável para nós – para os espanhóis, para todo mundo, enfim – que alguém deixe seu posto no auge. Vamos lembrar. Zidane nunca havia dirigido uma equipe profissional. Assumiu o Real Madrid na roubada, há dois anos e meio, depois da má escolha e da demissão de Benítez. Em duas temporadas e meia, ganhou três Champions League. Um fenômeno.

Por que ir embora? O cara pode ganhar o salário que quiser, pode fazer e desfazer no vestiário, tem a faca e o queijo na mão, é amado pela torcida, talvez seja o maior nome da história do madridismo. Por que?

A resposta talvez seja mais fácil do que parece. Porque Zidane é um gigante. Grandeza e humildade, coisa que poucos têm. A humildade para reconhecer que o ano não foi bom – acabou com um título europeu quase acidental, se olharmos para a trajetória da temporada. A humildade para reconhecer que possivelmente não seja capaz de reverter o viés de queda do time. A grandeza de deixar o lugar para outro. A grandeza de não enganar o clube com falsas promessas e expectativas.

O Madrid está de luto, dirigentes e jogadores possivelmente estejam zonzos com a notícia. Mas parece que só Zidane, neste momento, consegue compreender o que é melhor para o clube. Com a classe de sempre. Sem polêmicas nem intrigas.

O melhor é abrir caminho para a transição com três Copas da Europa em sequência. Muito melhor do que fazê-lo no meio de uma tempestade.

A transição, está claro, não será apenas de treinador. Bale tem pinta de que vai embora. Uma troca Cristiano Ronaldo por Neymar com o PSG está fervendo, com todos os sinais possíveis de que ocorrerá. Não se sabe se Navas continuará com a confiança do clube. Para Sergio Ramos, a idade vai chegando. Asensio e outros jovens pedem caminho.

Haverá mudanças, isso está claro. E Zidane não se sente na melhor posição para comandar a revolução e seguir fazendo o Real vencedor.

O que tinha toda pinta de ser uma hegemonia de anos se transformou em domínio continental, mas não doméstico. Pode parecer para nós, brasileiros, que os europeus tratem suas Ligas como nós temos tratado os estaduais. Não é bem assim. E a prova é que, em sua despedida, Zidane disse que seu maior momento como treinador do Real Madrid foi conquistar o Espanhol, ano passado.

Para reconquistar a Liga local, o Real vai ter de remar muito e se ajustar rapidamente às mudanças de elenco que possam se produzir. Não é uma conta fácil nem previsível.

Zidane se vai como chegou. De forma rápida e inesperada. Veio dos livros de história e escreveu páginas ainda mais triunfais. Foram 9 títulos (de 13 possíveis) em 876 dias. Estamos diante de um grande. Uma pessoa completamente diferente, um ponto fora da curva.


Por que ninguém fala deste Real Madrid como o melhor time da história?
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Julio Gomes

Basta ler a coluna na Folha do grande PVC, também blogueiro aqui do UOL, para entender o tamanho da história feita pelo Real Madrid.

É o primeiro tricampeão da era Champions League (já era primeiro o bicampeão), uma era em que é muito mais difícil ganhar o torneio. Antes, enquanto tínhamos o formato de Copa dos Campeões da Europa, o difícil mesmo era disputar o torneio – era necessário ser campeão nacional. A característica da era Champions é que todos os grandões estão sempre na disputa, porque, claro, raramente não ficam entre os três ou quatro primeiros nas ligas domésticas.

Real Madrid, Barcelona, Bayern de Munique, Juventus, Manchester United, agora os ''ricos'' Chelsea, City, PSG, enfim. A galera toda está sempre lá, salvo uma ou outra exceção. E é isso que faz da Champions uma competição tão difícil de ser vencida.

Que o Real tenha vencido quatro europeus em cinco anos é um fato estrondoso. Muito mais relevante que o penta do próprio Real lá nos anos 60, quando a competição é criada, ou os tris de Ajax e Bayern e, claro, mais relevante que as quatro conquistas do Barcelona entre 2006 e 2015, com uma espinha dorsal e um jeito de jogar característico.

Quando o Barcelona de Guardiola, Messi, Xavi e Iniesta ganha do jeito que ganha em 2011 – e considerando que aquele time era base e inspiração para uma Espanha campeã do mundo em 2010 e campeã da Europa em 2008 e, depois, em 2012 -, parecia claro que estávamos diante do maior time da história. Maior que o Real de Di Stefano e do Santos de Pelé, pela competição maior de hoje em dia, pelo fato de o futebol ser globalizado (ou seja, os melhores do mundo realmente estão na Champions) e por deixar uma marca, uma impressão digital, quando parecia impossível inventar algo novo no jogo. O resgate triunfal do ''jogo bonito''.

Por que podemos discutir se o Barça de Guardiola e Messi é o melhor de sempre, mas não vemos discussões desse tipo sobre o Real Madrid de Zidane e Cristiano Ronaldo?

Não seria a hora de olharmos para Sergio Ramos como um dos grandes zagueiros da história? Não seria a hora de percebermos que, exceção feita à Copa do Mundo, Marcelo tem uma carreira maior que a de Roberto Carlos? Não seria a hora de colocarmos a dupla Kross-Modric em um patamar parecido ao de Xavi-Iniesta? Não seria a hora de vermos que Cristiano Ronaldo é o maior atacante de todos os tempos?

Eu desconfio de alguns fatores que fazem com que muita gente seja tão reativa à ideia de considerar este Real Madrid de 14-18 o maior time de todos os tempos.

É um time que neste mesmo período ganhou seu campeonato doméstico apenas uma vez – neste ano, por exemplo, acabou em terceiro, a 17 pontos do Barcelona. As ligas domésticas, com 38 rodadas, apontam que times conseguem ser mais consistentes, dominantes em todos os jogos, enquanto o mata-mata, claro, dá margem a muito mais coisa.

O Barça de Guardiola, o Real de Di Stefano, o Santos de Pelé eram todos absolutamente dominantes nas competições domésticas.

Guardiola é um gênio do ofício, um cara que consegue enxergar muito além, abstrair, pensar fora da caixa. É desses que deixam a digital, um legado. Qual é até agora a marca de Zidane?

E uma comparação parecida envolve o embate Cristiano-Messi. Os números e a capacidade do primeiro são inegáveis. Mas Messi é fantasia, é genialidade, é fazer aquilo que ninguém espera, aquilo que conexões cerebrais não conseguem enxergar.

Cristiano e Zidane ganham. Messi e Guardiola encantam. Mais ou menos por aí.

Os detratores do Real Madrid vão também olhar para a sorte, para os adversários do mata-mata, para erros de arbitragem que favoreceram o clube nestes quatro títulos. Mas, se olharmos na lupa, o mesmo que argumento que poderia servir para diminuir os feitos do Real pode ser usado para outros. Nos últimos anos, o Barcelona tem sido mais ajudado por arbitragens europeias que o Real Madrid, por exemplo. Em três dos quatro títulos, o Real passou pelo Bayern. Enfim. Não tem muito como ficar colocando ''poréns''.

Talvez o título deste ano tenha sido mesmo o menos brilhante, com tantos presentes dados pelos adversários. Mas azar dos outros.

O Real Madrid, eu já disse aqui, só dá presente para a própria torcida, não para os rivais.

Ainda que eu seja um ''Messista'', eu também sou ''Cristianista''. O cara ruma à sexta Bola de Ouro, faz mais gols que qualquer um, foi campeão europeu com Portugal, ganhou tudo com dois clubes diferentes, mostrando que se adapta a qualquer lugar.

É fácil defender a tese de ''Cristiano é o maior de todos''. Muito mais fácil do que defender a tese de ''este Real Madrid é o maior time de futebol da história''.

Eu entendo que você não goste dessa ideia. Mas está na hora de, no mínimo, debatê-la. Acho que esse time aí faz por merecer, não fez?

 


Marcelo x Salah é o duelo chave da final da Champions
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Julio Gomes

Chegou a hora. Real Madrid e Liverpool vão decidir amanhã, em Kiev, o título europeu. O Real Madrid tenta se transformar no primeiro a vencer a competição máxima do continente por três vezes seguidas desde o Bayern dos anos 70 – já é o primeiro a ganhar dois seguidos na ''era Champions''. O Liverpool, que nunca conquistou o Inglês na ''era Premier League'', pode voltar a ser coroado após o ''milagre de Istambul'', em 2005, para cima do Milan.

Muito se fala do duelo Cristiano Ronaldo x Salah. A vitória na final seria um passo decisivo rumo à Bola de Ouro – ainda que falte ''só'' a Copa do Mundo para ser jogada.

Quando todos esperavam o ano de Neymar, após a chegada triunfal ao PSG, foi um egípcio que saiu do nada para se meter entre Messi e Cristiano Ronaldo, dominantes há 10 anos.

Mas não é Cristiano Ronaldo quem irá parar Salah na final deste sábado. A responsabilidade é coletiva. E o setor é o de Marcelo.

Este é o grande duelo da decisão. Marcelo x Salah. Marcelo vive um momento sublime na carreira e é de seus pés que costumam sair as jogadas mais perigosas do Real Madrid.

Pode ser um drible que rompa uma das linhas e gere profundidade. Pode ser uma finalização certeira de fora da área, como a contra o Bayern m Munique. Pode ser uma tabela com um dos atacantes. Pode ser uma daquelas magníficas viradas de jogo, que gera um contra um pelo outro lado do campo.

Muitas vezes o jogo do Real nasce por ali, e Salah é o primeiro jogador a dar o combate.

Não podemos perder de vista que Marcelo está longe de ser perfeito na defesa. Ainda que tenha evoluído, é um ponto fraco do Real e precisa de muita ajuda por ali. É o lado de Salah, um jogador que faz uma temporada surreal.

Há muitos outros duelos que podem definir o jogo, mas é por ali que a final será jogada, estudada, pensada. Quem, entre os dois, ganhar a batalha nas fases ofensiva e decisiva, deixará seu time muito bem encaminhado.


Drone, Diniz, ambição e intensidade: um dia no CT do Atlético-PR
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Julio Gomes

Lucho faz um lançamento longo, e os quero-queros que passeavam pelo gramado saem voando desesperadamente. Barulhentos, como sempre, eles não querem levar uma bolada. E quase levam uma ''dronada''. Dura, a vida dos quero-queros.

No CT do Caju, eles dividem espaço com um drone, usado pelo time de análise de desempenho do Atlético Paranaense. Como o terreno é plano, o drone é utilizado para a filmagem dos treinos de Fernando Diniz. Não são só imagens, logicamente. Todos os jogadores têm GPSs no corpo – e isso acontece também nos treinos dos times sub-23 e sub-19.

A análise é completa e complexa. Olhando para a tela do notebook de um dos analistas, eu parecia estar vendo uma daquelas telas de Matrix, com os códigos aparecendo freneticamente em verde na tela preta. Mais compreensível era o controle remoto do drone. Me lembrou o de um carrinho qualquer.

Após o treino, Diniz se reúne com a equipe de análise. São selecionadas imagens, momentos, lances. E os devidos jogadores recebem depois, por WhatsApp, o que a comissão técnica quer que chegue até eles. Entender as novas linguagens é parte do processo.

Alta tecnologia não é novidade nos grandes clubes europeus, mas é coisa de não mais de cinco anos no Brasil. Ainda não são todos os que usam as ferramentas apropriadas. O Atlético-PR sempre esteve na vanguarda.

Um pequeno quadro na sede do clube mostra a ambição. ''Visão: Ser o clube de futebol mais moderno e competitivo das Américas''.

Talvez outros clubes do Brasil tnham como visão ''ganhar domingo''.

Na contra-mão do que pedem torcedores e jornalistas (jogadores e títulos), o Atlético investiu em estrutura nas últimas duas décadas. O homem-forte do clube e atual presidente do Conselho Deliberativo, Mário Celso Petraglia, pode ser acusado de muitas coisas (e é, já que a relação com a torcida, que se sente apartada do clube e desprezada, está bastante azeda). Mas ele não pode ser acusado de falta de visão.

Enquanto outros clubes gastaram com jogadores, técnicos, salários exorbitantes, etc, o Atlético Paranaense fez a primeira Arena do Brasil – basicamente com o dinheiro das vendas de Oséas e Paulo Rink, lembra deles? Depois, fez um CT de primeiro nível, que, como qualquer estrutura viva, segue sendo ampliada e modernizada. E ainda fez outro estádio em cima do que já existia, a atual Arena da Baixada, único do Brasil com teto retrátil e gramado sintético.

Para reatar com a torcida, será necessário haver vontade, inteligência e sensibilidade. Mas construir tudo o que o Atlético construiu em 20 e poucos anos é algo bastante mais difícil de ser realizado. As coisas não são excludentes. É possível ser ao mesmo tempo moderno e fiel a algumas raízes. O torcedor apaixonado pode ser ouvido, acolhido, ter sensação de pertencimento – e ao mesmo tempo o clube pode seguir sua linha moderna e estratégica de crescimento.

Paixão, aliás, não falta a Fernando Diniz. Eu já vi muitos treinamentos, de muitos técnicos. O dele é intenso. ''Ritmo, ritmo, ritmo''. É o que mais se ouve do treinador durante a sessão acompanhada pelo blog no CT do Caju.

''Vai, vai, vai. Tudo rápido. Seis segundos! Seis segundos!''.

Não faltam broncas em quem dá passes arriscados e imprecisos no meio de campo, deixando os companheiros expostos atrás. O treino para. Recomeça. Para. Recomeça. ''Vai, vai, vai. Ritmo, ritmo, ritmo''.

As transições rápidas e fatais não têm sido muito comuns nos jogos do Atlético, já que são os adversários que abusam do expediente. É um trabalho difícil treinar para jogar da maneira como Diniz entende o futebol. Fica mais difícil ainda quando faltam jogadores como Paulo André, gente com o chamado QI futebolístico alto. O sistema e seus automatismos precisam ser assimilados, compreendidos. Depois, mecanizados.

''Quando as coisas estão dando errado, é aí que você tem mesmo que fazer no campo aquilo que treina. E não sair loucamente querendo decidir as coisas. O sistema é nossa maior segurança. Se está perdendo ou está em dificuldade, aí, mais do que nunca, tem de confiar nele, se apegar ao que treinamos todos os dias'', fala Diniz, caixinha de água de côco em mãos, olhar no horizonte.

As sessões começam sempre com o tradicional bobinho. Aliás, deveríamos arrumar um nome mais sério para ele. O bobinho é um dos treinos fundamentais para times que queiram sair jogando e manter a posse de bola sob pressão. O jogador se habitua a passar a bola de forma rápida, precisa e automática.

Nos meus tempos de Espanha, principalmente em treinos do Barcelona e da seleção espanhola, lembro que o bobinho (''rondo'') era coisa muito séria. No treino do Atlético-PR, o único que presenciei, teve mais gozação do que sequências longas e precisas. São hábitos, cultura local. Quem tem talento, mas não comprometimento, acaba virando peixe fora d'água e tendo de sair, como Gedoz. Precisa de muito treino, foco, tempo para automatizar movimentos. O cérebro não constrói tudo em um ou dois dias. É necessário dar um bom ano ou mais de trabalho para saber se a coisa vai engrenar.

Não faz nem dois anos, por exemplo, que o Atlético contratou a Double Pass, ideia de Paulo Autuori. A empresa belga foi a responsável pela grande revolução no futebol de base da Bélgica e da Alemanha – e tem gente que ainda acha que esses países tiveram ''sorte'' pela geração atual. Sorte é uma coisa que afeta um jogo ou outro. Trabalho bem feito é o que gera frutos sólidos e consistentes lá na frente.

Mas uma revolução na base, fazendo com que times sub-13, 15, 16, 17, 19, etc, entendam e trabalhem futebol da mesma forma, leva anos. Parece óbvio, mas é necessário muitas vezes ressaltar o óbvio. Este trabalho, iniciado em 2000 na Alemanha, desembocou no título mundial somente em 2014. Façam as contas.

Por que no Atlético Paranaense ele teria resultado em meses?

Lembra do quadrinho com a visão do clube? Lá também está a missão. ''Trabalhar com qualidade e responsabilidade desde a captação, formação, aquisição e treinamento de atletas, objetivando a constituição de um time comprometido e vencedor''.

Pelos corredores do clube, a reportagem esbarrou mais de uma vez com Paulo André, que está ficando prontinho para pegar o bastão e dar sequência ao trabalho de longo prazo no Atlético. Ele mora no CT. Respira o clube, conhece todos os funcionários, os meninos da base, os dirigentes.

Paulo André faz suas refeições diárias, como todos os outros, em um refeitório anexo à cozinha industrial do clube. A poucos passos e dois lances de escada dali, está a sede administrativa. Um pouco mais à frente, piscinas (aquecida, gelada, para todos os gostos), vestiários, uma quadra coberta com o mesmo gramado sintético da Arena (está sendo construído um outro campo no CT com o mesmo gramado) e, claro, uma academia com o que há de mais moderno. A tela da esteira me pareceu mais complicada do que o controle remoto do drone. Tudo está conectado, para que as informações de cada indivíduo sejam coletadas e analisadas.

Quem nos mostrou os aparelhos foi Jean Lourenço, preparador físico, parte da comissão técnica de Diniz, ex-jogador do clube e há 25 anos no Atlético. Ele viu a mudança acontecer por dentro. E mostra no olhar a confiança dos que estão inseridos no projeto.

O Atlético fala em três ondas. A onda da criação de infraestrutura, de 95 a 2004, a da profissionalização (2005 a 2014) e, agora, vive a terceira, a do protagonismo.

Protagonismo nos bastidores, para gerar mudanças de leis que permitam a injeção de capital externo no clube – o que faria o Atlético dar outro salto e entrar, de vez, no grupo de cinco ou seis principais do país, já que ele se diz o único pronto para ser comprado, com estrutura administrativa de empresa.

E protagonismo no campo, com um projeto multidisciplinar que busca a coesão futebolística do profissional ao mirim e que busca estar imune a desejos, vontades e visões de indivíduos. Tudo precisa fazer sentido para o todo. E tudo parece fazer sentido ao visitar o Atlético.

Logo no hall de entrada da sede do CT do Caju, está uma vitrine com troféus. O do Brasileiro de 2001, o mais importante da história do clube, nem está tão destacado assim. Para ganhar outros como aquele, a fábrica precisa funcionar a todo vapor, com cada setor fazendo sua parte na linha de produção. Convém não se esquecer dos parceiros antigos de empreitada, que se sentem abandonados. E convém ter paciência.

O texto acima encerra a semana de conteúdo exclusivo sobre o Atlético Paranaense. O blog foi convidado para conhecer a estrutura do clube e para uma entrevista com Mário Celso Petraglia (clique para ler a parte 1 e a parte 2). 


Em rota de colisão com torcida, Petraglia não sabe como encher Arena
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Julio Gomes

Quanto vale a paixão do torcedor de futebol? Para Mário Celso Petraglia, nada. Ou quase nada. Não é para o apaixonado que o futebol deve ser feito. ''Futebol é entretenimento'', diz. Uma frase com a qual muita gente concorda, muita gente discorda. No mínimo, polêmica. Será que um magnífico teto retrátil tem maiores probabilidades de fazer alguém ir ao estádio do que um gol?

Na segunda parte da entrevista deste blog com o homem-forte do Atlético Paranaense, o principal tema é a torcida. Petraglia admite um erro de cálculo. Acreditava que a Arena da Baixada seria sucesso absoluto após a reconstrução visando a Copa do Mundo. ''Achávamos que seria fácil colocar aqui 40 mil pessoas em todos os jogos. Tem muito pão duro em Curitiba''.

Avisa que a biometria veio para ficar, à despeito das queixas e da perda de público, que vai insistir com torcida única na Arena, vaticina um futuro nebuloso para o arquirrival Coritiba e fala da ''carga pesadíssima'' de liderar o clube e as mais de duas décadas no divã.

Aqui vai a segunda e última parte da entrevista exclusiva do Blog do Julio Gomes com Petraglia. Para ler a primeira parte, é só clicar abaixo:

Petraglia: Diniz se encaixa no projeto e não sai nem se o Atlético-PR cair

Julio Gomes: Muitos torcedores do Atlético reclamam da biometria, houve queda no número de sócios, reclamam da política de preços na Arena da Baixada, de uma desconexão com a diretoria. O que você tem a dizer sobre tudo isso?

Mário Celso Petraglia: A biometria é uma medida de segurança e uma mudança de cultura. Sim, perdemos sócios porque aqui temos a cultura do jeitinho. O sujeito acha que pode passar para qualquer um usar. Precisamos mudar essa cultura. Devem haver umas 50 mil pessoas que frequentam o estádio e eles querem ficar se revezando nas cadeiras. E tem a segurança. No último jogo aqui na Arena (que havia sido contra o Atlético Mineiro, no momento da entrevista), quatro pessoas foram imediatamente presas, porque estavam com pendências com a justiça.

(o assessor do clube avisa que ''o Corinthians normalmente vem com 20 ônibus para cá, no ano passado vieram só dois'').

Você pode ouvir essa turma (mostra um desenho que simboliza a massa de torcedores do clube), essa não pode (mostra os ''50 mil que vão ao estádio'') e essa nunca (organizados). Você pode ouvir quem está distante. Esse pessoal (que vai ao estádio) tem uma contaminação muito maior. E esse aqui (organizados) tem interesse. Quer que você ganhe para ele ganhar. É uma sub-marca. Quanto mais forte for a marca, mais forte ele é. Agora esse aqui (que está longe) sim, é quem a gente busca. Estamos reféns deste grupo do meio.

JG: Na Europa, geralmente o sócio pode devolver seu ingresso para o clube revendê-lo.

MCP: O Barcelona, se você avisar que não vai 72 horas antes, eles te creditam o dinheiro na sexta-feira. Mas aqui tem mais lugares que sócios. Se tivéssemos 40 mil sócios, ou 36 mil, já que tem ainda os 10% dos visitantes, a gente poria à venda. O sócio põe o código dele à disposição e vende. Temos o sistema pronto para isso, mas tem mais cadeira do que sócio.

JG: Pois é. Como o Atlético vai chegar a esses 36, 40 mil sócios? Política de preços? Contratando jogador? Ou talvez se voltar um pouco para a paixão?

MCP: Essa resposta eu já tive. Já tive. Não tenho mais. No pré Copa, eu tinha absoluta certeza que pela qualidade do estádio, pela segurança, pelo conforto, 40 mil sócios seriam fáceis. Para garantir o seu lugar. Temos estimados 2,5 milhões de torcedores. Temos a população de Curitiba em 3,6 milhões. Então pegar 40 mil… teoricamente teria que ser fácil. Acreditávamos que seria fácil. Tem um problema cultural seríssimo. O futebol ninguém sabe se é público ou privado. Estamos sob o regime do direito privado, mas há interferência pública absurda. Estabelece preço do ingresso, metade pra idosos, professores, estudantes, etc. (Governo) não tem que dar nada para sua paixão. E o que ele (torcedor) dá em troca pela paixão dele? Zero. Só exige. O que o brasileiro faz para contribuir com sua paixão? 30 milhões de flamenguistas… o que eles consomem?

JG: O Palmeiras conseguiu chegar nessa equação do estádio cheio.

MCP: É momentâneo. Perde a Libertadores, perde aquele outro… esqueça. É um momento de euforia, uma bolha.

JG: Mas esse cálculo superestimado de pessoas que viriam à Arena, então…

MCP: Você me perguntou qual era a resposta (para conseguir sócios), eu disse que não tinha. Eu tinha lá atrás. Acreditava. Estava errado. Hoje, eu não tenho.

JG: O quanto isso compromete o projeto?

MCP: Nada. Pega o balanço do Flamengo. 8% de bilheteria. Na Europa, 30% para mais. No Brasil, bilheteria foi pro ''caceta'' por causa da televisão, da violência.

JG: Por falar em violência. Por que a aposta pela torcida única nos jogos do Atlético? O clube tem uma imagem positiva no país, de modernidade, vanguarda, por que enfrentar todos os torcedores de todos os clubes. Não teme arranhar essa imagem?

MCP: Não, não temo. Falem mal, mas falem de mim.

JG: Por que a torcida única?

MCP: É a visão. No médio, curto prazo, com a inteligência artificial, vai sobrar mais tempo para o homem. Esporte é entretenimento. Ele tem que ir com a família, tem que se divertir no dia do jogo dele. Sem medo.

JG: Esporte é mais que isso, não é?

MCP: Nas culturas mais desenvolvidas, não estão nem aí para perder!

JG: Eu não acho que não estejam nem aí…

MCP: Quando o outro vai atacar ele nem vê, vai tomar chope. Vai comer.

JG: Nos Estados Unidos talvez, mas não na Europa.

MCP: Mas qual é o país mais desenvolvido do mundo?

JG: Ah, eu teria algumas respostas que não são os Estados Unidos…

MCP: Não há dúvida que são os Estados Unidos. Eu não gosto, não me faz bem. Mas só é a nação que é pela cultura imposta, pela democracia, pela liberdade e pelo judiciário, que ali funciona para todos, não só preto e pobre.

JG: Então a torcida única se encaixa em uma ideia de que esporte é entretenimento, como nos Estados Unidos?

MCP: Claro. A médio e longo prazo. O que é a Copa do Mundo? Uma grande festa! Futebol é segundo plano para a maioria. Nós fomos sede de quatro jogos aqui em Curitiba. As pessoas vão ver o futebol como arte, como espetáculo.

JG: Não é cruel com quem é apaixonado pelo esporte, tirá-los da cena?

MCP: Cruel é a situação atual, que todo mundo é escravo dessa paixão maluca.

JG: Mas quero tirar da conta o animal que vai para o estádio matar alguém, bater em alguém. Tem muita gente apaixonada, que não vê o esporte só como entretenimento.

MCP: Isso é cruel, essa paixão.

JG: Mas vamos tirar essa paixão?

MCP: Por que não? Por que temos que ser escravos dela? O homem não pode ser escravo de nenhuma paixão.

JG: Essa paixão não move o futebol?

MCP: Não! O que move o futebol é dinheiro. É grana. É business.

JG: Essa ruptura com a arquibancada não pode custar alguma derrota eleitoral? A última eleição não foi fácil aqui…

MCP: Eu não ia participar, não queria mais, entrei no último mês… eram cinco ou seis grupos, se juntaram todos. Em quatro ou cinco entrevistas eu destruí eles.

JG: O projeto do Atlético é personalista?

MCP: Claro. Absolutamente personalista. E nem pode ser diferente. Tem que personalizar em alguém em algum momento.

JG: Mas temos outros projetos personalistas no Brasil que você abomina. Os Euricos Mirandas da vida…

MCP: Todos os projetos são personalistas. Os projetos de Einstein, Newton, Darwin, eram todos personalistas. Como vai fazer um projeto que não tenha a personalidade do cara que está fazendo? Agora. A diferença de Euricos para Petraglias é que meu projeto é pro bem e o outro foi pro mal. Abomino projetos personalistas destrutivos, não construtivos.

JG: Como garantir que este projeto continue?

MCP: Não somos donos do clube. Estamos donos do clube. E vamos propor fórmulas e maneiras de blindar e proteger nosso clube, dar continuidade ao projeto. Amarras estatutárias, abertura de capital, trazer um parceiro estratégico e de capital. Há modelos de Europa. Com isso, faz acordos de acionistas, governança corporativa, se moderniza para uma empresa ser dona.

JG: Mas esse tipo de coisa depende de muitas mudanças de legislação no Brasil.

MCP: Estamos trabalhando para isso. Também não é justo que você tenha SAs tributadas e clubes sem fins lucrativos, isentos.

JG: Neste futebol cada vez menos regional e mais nacionalizado, com a possibilidade de profissionalização real, mercados espremidos. O Coritiba vai acabar?

MCP: O Coritiba vai existir. O América do Rio existe. Não acabam. Mas a que nível vai existir? Essa é a pergunta. Não cabem três clubes de primeira grandeza em Curitiba, assim como não cabem quatro no Rio ou em São Paulo. Não tem mercado para faturar. Quatro no Rio faturando 640 milhões? Mas não há nenhum planejamento de médio e longo prazo. Clubes não têm uma pesquisa para saber a quanto andamos, as tendências. Ninguém se preocupa com o futuro, é o jogo da quarta e do domingo.

JG: Dizem que em cidades com duas forças destacadas um alimenta e empurra o outro. É assim aqui?

MCP: Em Curitiba, desequilibrou. O Paraná era um clube riquíssimo, uma fusão de cinco, com patrimônio enorme, que, por más gestões, ficou pelo caminho. Decidiu gastar, contratar os Luxemburgos da vida. O Coritiba deitou em berço esplêndido, era o mais rico, único campeão brasileiro, com estádio e achou que o que estávamos fazendo não atrapalharia a vida dele. Ficaram para trás, né? Então agora vai existir, mas a que nível? De primeira grandeza, entre os primeiros dez do Brasil, só cabe um aqui.

JG: Como está a relação? Teve aquela transmissão do jogo pelo You Tube, o Atlético invadiu o direito do Coritiba…

MCP: Não! Nós não vendemos! Qual prejuízo deu ao Coritiba?

JG: Não é bem essa a lógica…

MCP: Se não passar o jogo, aí ele que estaria me prejudicando.

JG: Pela lei Pelé, os dois precisam estar de acordo.

MCP: Depende, para a televisão sim.

JG: Por que parou de passar no intervalo então?

MCP: A Globo intimidou o You Tube. Se tivéssemos feito por vários canais, eu não teria parado. Quem ficou com medo foi o You Tube, depois nós restabelecemos no Facebook. O que trouxe de prejuízo? Se o mando era nosso, a renda era nossa…

JG: O mandante deveria ter o direito de fazer o que quisesse com seus direitos de transmissão?

MCP: Me preocupa muito. Na Europa, é assim, mas os clubes que se preocupam com o todo vendem em bloco. Mas na Espanha o governo teve de intervir, porque abriu um buraco imenso entre Real Madrid e Barcelona e o resto.

JG: Há um grande elogio à autogestão do clube, o Atlético fez, por exemplo, o estádio mais barato da Copa, sem passar pelos cartéis de empreiteiras. Mas há quem critique a autogestão por ser uma coisa quase familiar (diversos familiares de Petraglia tiveram produtos ou expertise comprados pelo clube) e também por perder eventos.

MCP: O que vou dizer sobre isso, a não ser meu desprezo? Mesmo agora fiz questão de trazer para o balanço valores que eu botei lá atrás, milhões de dólares para começar o projeto, que nunca tinha cobrado. Não vou dar ouvido para esse tipo de conversa. Eu só não fiz religião ainda nessa vida. Fiz grandes empresas, fiz política de altíssimo nível e fiz futebol. Jamais fui envolvido em qualquer desvio de alguma coisa.

JG: O senhor não vê um conflito ético?

MCP: Eu não administro de fora para dentro. Administro com a minha consciência. Eu seria o Ali Babá, teria de ter 40 ladrões aqui ao meu lado. Isso é ridículo. Jamais na história de um clube de futebol foi feito o que nós fizemos aqui, em um clube sem dono. Era um clube de várzea, de bairro, que não remendava a meia, que comprava roupa no botequim da esquina para poder jogar. Não tinha onde treinar, onde jogar, não existia. Em 20 anos, foi feito o clube mais rico das Américas, dito pela Soccerex. Não há preço pelo que eu dei ao clube, a cabeça do Mário Celso Petraglia ter doado seu trabalho, o networking, a experiência. Eu sou há 21 anos psicanalisado. 21 anos num divã. Cinco vezes por semana.

JG: Ah é? Fale mais sobre isso…

MCP: Vim muito de baixo, fiquei muito bem econômica e socialmente e fiquei descasado emocionalmente. Economicamente resolvido, familiarmente resolvido, socialmente resolvido e emocionalmente ancorado lá atrás, em cima do caminhão que me trouxe do Rio Grande com a família.

JG: Continuar tomando conta do Atlético é uma missão para mais quanto tempo?

MCP: É uma carga pesadíssima. Pesadíssima. Chegar em nono no ranking (da CBF) foi dez vezes mais fácil. Daqui para frente, o trabalho é insano.

JG: Por fim, como o senhor vê o quadro político do país?

MCP: Pelo quadro atual, não vejo grandes alternativas. Gostaria que o Joaquim Barbosa tivesse sido candidato, teria meu voto. Mas ele declinou e vamos aguardar. Pelo quadro que está aí… minha geração é a mais responsável por esse estado de coisas no país. A geração pós-Guerra, por omissão e por esse pseudo medo, o medo do bilateralismo, do pseudo comunismo. O espírito patriótico que minha geração tinha acabou. Acabaram com ensino público, privatizaram tudo, destruíram as universidades públicas, acabaram com movimentos estudantis, o clima de corpo estudantil, ou seja, uma destruição da educação e nós permitimos isso de forma passiva demais.

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Petraglia: Diniz encaixa no projeto e não sai nem se o Atlético-PR cair
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Julio Gomes

Poucas pessoas sabem quem é o atual presidente do Clube Atlético Paranaense. O que todos sabem, no entanto, em Curitiba e Brasil afora, é que quem manda lá é Mário Celso Petraglia. Filho de imigrantes uruguaios e nascido no Rio Grande do Sul, 74 anos atrás, mudou-se para o Paraná ainda na infância e transformou-se em um empresário de sucesso.

Desde 1995, faz parte do noticiário esportivo. É quem manda e desmanda no Atlético. Inegavelmente, a chegada de Petraglia ao poder gerou uma mudança de status. Um clube da classe média brasileira, de alcance apenas regional, hoje luta para entrar no grupinho dos grandes do país.

A estrutura não deixa a desejar a nenhum grande do Brasil e do mundo. O blog foi convidado pelo Atlético a conhecer o CT do Caju e fazer uma entrevista com o atual presidente do Conselho Deliberativo.

Antes que mentes criativas tenham ideias criativas, nenhuma exigência foi feita, nenhuma pergunta foi vetada. Aliás, nenhum questionamento foi feito pelo clube sobre o quê, quando e como seria publicado. Não há relação entre as partes, apenas a profissional.

O blog decidiu dividir o conteúdo em três partes para os leitores. Primeiro, a entrevista com Petraglia, quebrada em duas partes (clique aqui para ler a segunda). Por último, uma observação do dia no clube, as conversas, as andanças pelos corredores do CT do Caju. A entrevista foi feita na terça-feira passada, dia 15 de maio. Antes, portanto, das derrotas do Atlético-PR para Cruzeiro, pela Copa do Brasil, e Fluminense, pelo Campeonato Brasileiro.

Não convém acreditar em dirigentes, dirão os céticos (eu já devo ter dito isso algumas vezes). Mas a forma contundente como Petraglia falou do trabalho de Fernando Diniz me faz crer que este trabalho não será interrompido por cinco, sete ou dez derrotas. ''Ele só sai por vontade própria, pode perder, pode até cair para a segunda divisão. O Fernando é o primeiro que encaixa certinho dentro do projeto'', cravou Petraglia.

Diniz não é apenas o treinador do time principal, mas coordenador técnico geral. O Atlético é um dos poucos clubes do Brasil que contrataram os serviços da empresa belga Double Pass, que revolucionou o futebol de base na Bélgica e na Alemanha. A ideia, de forma resumida, é que os clubes tenham uma filosofia de jogo e esta seja replicada em todas as categorias, com profissionais trabalhando de forma alinhada. ''Fomos buscar o Diniz por isso'', disse ao blog o vice-presidente Márcio Lara.

Demitir o técnico seria quase o mesmo que demitir a visão escolhida para o projeto, que acaba de entrar em uma nova etapa – a que não abre mão da austeridade nas finanças, mas pretende levar o Atlético-PR ao protagonismo de campo, não apenas estrutural.

Abaixo, a primeira parte da entrevista com o mandatário.

Julio Gomes: Como nasce a ideia de contratar Fernando Diniz?

Mário Celso Petraglia: A gente acompanha futebol, estávamos vendo. E tem uma frustração muito grande naquilo que o projeto exige. A vida inteira fui um dos responsáveis por contratar os treinadores. Quando você conversa com eles de forma prévia, se mostram abertos, pró-ativos, comprometidos com o novo, o moderno que o projeto exige. Três dias depois que chegam aqui, mudam. Por que a gente trocou tanto de técnico? Porque é sempre mais do mesmo. Sempre querendo ser o (Emerson) Leão da vida ou o (Vanderlei) Luxemburgo da vida, querendo ser dono do clube. Achar que está tudo errado, trazer jogadores.

JG: Curioso ouvir isso, o que os técnicos mais pedem é que um clube banque seu trabalho…

MCP: Mas é só na teoria. Na prática, mais do mesmo. Aquela coisa velha, aquilo que aprendeu nos minutos de silêncio, não se prepararam, não leram… claro, há exceções que confirmam a regra, mas a grande maioria não leu uma orelha de livro. Passaram dezenas por aqui. Não sabem nada da vida, do homem, do ambiente, da causa e efeito, do que é o futebol, quais são as consequências de esse ser um esporte coletivo, jogado com os pés.

JG: E o Fernando Diniz não é assim?

MCP: O Fernando foi uma indicação de um amigo comum, o Giuliano Bertolucci. Primeiro nos indicaram o Seedorf, conversei com gente do mundo inteiro, tive informações e algumas conversas ratificaram minha preocupação com o Seedorf… é investidor de jogador… entende? Aí veio o nome do Fernando Diniz. Ele tinha acabado de assinar com o Guarani, mas com a cláusula de poder sair para um clube de primeira divisão. Eu disse 'tá bom, fala com ele e pede pra me ligar'. Ele estava passeando com a família em Miami, era fim de ano, precisávamos de uma definição, já que estávamos em um momento de mudança de gestão por aqui. Ele me telefonou. Ficamos uma hora, 40 minutos e parecia que eu o conhecia há 20 anos, tão forte foi a afinidade de pensamento. O Fernando encaixa certinho dentro do projeto. O Atlético Paranaense não vai dar os melhores jogadores, as melhores condições para ele. O Atlético vai dar as condições que tem e ele, com a criatividade dele, a proposta dele, vai tentar fazer algo para ser vencedor.

JG: A grande interrogação é o que vai acontecer nos momentos de baixa esportiva. As derrotas virão.

MCP: Todas as mudanças, todas as transformações, todas as revoluções oscilam. Isso é histórico. Primeira Guerra, Segunda Guerra, Revolução Francesa… Robespierre foi guilhotinado! Revolução Russa. Isso aí eu sabia (que haveria oscilação). Fernando Diniz só sai do Atlético por vontade própria. Pode perder, pode cair para a segunda divisão. É uma realidade. Pela primeira vez eu tenho dentro do projeto algo que me encaixa.

JG: Pela primeira vez em 23 anos?

MCP: Sim. Nesse setor… É importante que a gente deixe claro. O Atlético Paranaense nunca investiu no futebol. Nunca comprei um jogador por vontade própria. E já tivemos dinheiro. Em 2004, eu vendi Fernandinho e Jadson por 20 milhões de dólares, reformei aqui (CT), comprei terreno. Poderia ter botado mais dois ou três jogadores e tentado ganhar mais um título. Mas estávamos trabalhando na imagem, na estrutura, sabíamos que vinha a Copa…

JG: Você disse que o Fernando Diniz fica aqui até quando ele quiser…

MCP: 2018 e 2019 estamos aqui. Aí depende do futuro, que não nos pertence.

JG: Já que não há dinheiro para enormes investimentos, como convencer jogadores top, importantes, a entenderem que vir para o Atlético, em vez de outros, é o melhor a fazer?

MCP: Hoje está dez vezes mais fácil, mas claro que até certo nível – de idade menor, mostramos que é mais fácil fazer uma carreira aqui. Hoje isso o mercado já compra. Tem menino que prefere vir para cá do que ficar em um grande clube. E também chegamos a jogadores para quem não seja determinante o salário. Que tenha outros valores: ambiente, a cidade, o clube pagar em dia, aqui não tem sacanagem, dinheiro por fora, empresário pegando parte do dinheiro e devolvendo para diretor, é o cara se sentir mais completo na atividade como profissional do que exclusivamente mercenário, ou seja, que dê valor a outras coisas, não salário. Isso é fundamental para o projeto. Tem gente que prefere vir ganhar menos aqui, é uma seleção natural.

JG: O Atlético se sente um pouco Asterix na aldeia gaulesa, com pouca companhia contra os mais poderosos?

MCP: O sistema é tão escravizado que quem nasce pária, morre pária. Quem nasceu grande ou cresceu no momento da hegemonia da rádio Globo, do Maracanã, ou seja, no século passado, vai morrer grande. O Santos… o que é o Santos? Se você pegar a curva descendente das torcidas dos clubes esses considerados 12 grandes… em 20 anos o Botafogo não tem mais ninguém.

JG: Aqui no Brasil, no entanto, apesar dessa má distribuição de dinheiro, ainda não se vê a cantada ''espanholização''. Pelo menos nos resultados.

MCP: Há um pseudo nivelamento no futebol brasileiro. É competitivo porque é ruim, daí nivela. Estão todos endividados, clubes comandados por pessoas despreparadas, por mecenas, por pessoas com interesses pessoais, corruptos. Os clubes são roubados faz 100 anos! Por que o Atlético fez o que fez? Porque não roubou. Só. Não deixamos ninguém roubar um fio. O nivelamento é um pseudo nivelamento. Agora vai inverter esse processo, o Flamengo faturou 640 milhões.

JG: Em que prateleira do futebol brasileiro está o Atlético?

MCP: O Atlético bateu no teto. Quando chegamos (à presidência), era o 38o no ranking, era a segunda metade da segunda divisão. Hoje somos nonos do ranking da CBF. Estamos na primeira metade da primeira divisão. Mas bateu no teto. Passar para oitavo, sétimo, sexto, dentro desse establishment… pode esquecer. Faturamos 160 milhões e o Flamengo 640. A hora que ele pagar as contas, pode esquecer. A hora que o Corinthians resolver o problema do estádio dele, esqueça.

JG: Mas a roda da boa gestão não virou ainda para a maioria…

MCP: Mas está virando. Já melhorou muito. Ainda temos um sistema da era Vargas, as leis, a divisão do poder, preservação das competições como estaduais, a convivência do novo com o velho, está retardando isso. A impossibilidade de se criar uma liga, para os clubes terem independência… falar em liga é palavrão. A Globo não vender por todos esses anos a nossa imagem lá para fora, para o mercado internacional. A CBF, a quadrilha, proibir que os clubes tenham espaço para ir lá fora, isso tudo atrofiou nossas marcas e promoveu a seleção, para vender amistosos e camisa amarela. Então esse processo corrupto, com culpa dos dirigentes, atrapalhou muito. O distanciamento do futebol europeu é cada vez maior. Chegou no fundo do poço, mas agora está virando.

JG: Para o Atlético sair deste modelo atual, o futebol precisaria ser mais democrático?

MCP: Precisa ter a visão coletivo, não do individual. A valorização do produto.

JG: É possível isso no Brasil?

MCP: Até 2024, esqueçam, por causa dos contratos de TV. A não ser que aconteça algo novo no mundo, que venha um player que mude tudo, derrube tudo isso. Aposto que vai acontecer… um Facebook entrar nisso e falar 'acabou a brincadeira'. Não vejo ainda acontecendo, mas vejo uma tendência muito forte nesse sentido.

JG: Não foram poucos os momentos de quase ruptura entre clubes e o sistema dominado pela CBF, com o monopólio da TV…

MCP: Do meu tempo para cá, 97 foi a primeira briga. Na primeira vez que briguei com a Globo, eram 10 milhões de dólares para serem divididos entre 24 clubes. Grupo dos que não eram do Clube dos 13 não recebiam nada. Fizemos o Clube dos 12 e vendemos pro SBT por 54 milhões. A Globo de última hora assinou o contrato e…  (palavrão). Houve algum movimento, do Clube dos 12. Depois em 2000, quando a CBF abriu mão do campeonato, quase criamos a Liga. Aí o Clube dos 13 se fortaleceu e, agora, ruptura. Todo o espetáculo é feito para dentro do campo, que a TV vende e o clube não tem acesso. Agora Flamengo e Corinthians começaram a ser mais bem pagos, mas televisão explora isso aqui há 40 anos a preços vis.

JG: Para os que gostamos de futebol e queríamos ver um esporte doméstico mais forte, dá agonia ver como dirigentes do Brasil são incapazes de sentar na mesa e chegar a um acordo que seja mais benéfico para todos, grandes, médios e pequenos.

MCP: Quais são as causas disso? É uma característica de modelo de gestão do futebol brasileiro, instituições sem fins lucrativos, com pessoas eleitas pelos próprios sócios e que não têm visão de médio e longo prazo. Entra o senhor Eduardo (Bandeira de Mello), fica duas gestões e vai embora. Ainda teve sorte que encontrou um grupo que ajudou o Flamengo. Clubes não têm a consciência da força e da capacidade da sua independência. Se têm, são covardes. Não precisamos de ninguém. Governo, Globo, nada, se tivéssemos vontade. Flamengo tem a consciência que vale mais e quanto mais distante for do resto, mais chance ele tem de ganhar. Mas eu pergunto. Você é adversário do Atlético Paranaense ou ou Manchester United ou do Barcelona? Qual é teu nível? Flamengo poderia estar em um nível internacional. Mas precisa entender que o negócio em que ele está inserido precisa crescer como um todo.

JG: Dentro desse cenário de cada um pensando só em si, qual a estratégia do Atlético para conseguir o protagonismo que deseja?

MCP: O Atlético precisa ser protagonista também das mudanças. Nós somos protagonistas em tudo. No campo, é mero efeito. A vinda do Fernando é isso, de mudança de cultura, de mentalidade. É um protagonismo de projeto.

JG: Já que é necessário mudar a estrutura do futebol do país, você não pensa em um dia ser presidente da CBF?

MCP: Não tenho a menor vontade, a menor vocação. Mal me sinto capaz de ser presidente ou presidente do Conselho do Atlético, liderando este projeto. O esporte como um todo é um vetor, é um meio enorme para inclusão social, patriotismo, estudar e envolver as crianças. O Atlético faz isso em um universo pequeno, temos 25 mil alunos em escolinha. Queremos aumentar, ter uma escola por município no Paraná. O esporte usado de forma positiva, aberta, verdadeira, deveria ser uma forma de inclusão social e formação de uma cidadão melhor.

JG: Apesar de todo o avanço estrutural, você não é unanimidade aqui no Atlético. O quanto isso lhe incomoda?

MCP: Feliz do homem que tem a capacidade de gerar ódio e amor. Se fosse só ódio ou só amor, estaria morto nos dois casos.

JG: Um amigo atleticano me pediu para perguntar o seguinte: 'por que o Petraglia acha que está sempre certo'?

MCP: Eu não acho. É uma deformação de visão, um sentimento errado. Eu sou um apaixonado pelas minhas crenças. Eu vim de muito longe, em cima de um caminhão, com oito irmãos, do Rio Grande. E uma das coisas mais fortes que eu tenho de onde cheguei é minha intuição. Jamais tive qualquer sensação de estar sempre certo. O que estou convicto e não abro mão, e nisso ele tem razão, se olhar por esse aspecto, é do projeto. Estou convicto que é possível, que nós podemos ser um dos maiores clubes do mundo. Nisso realmente tenho convicção. Se fizer a coisa certa, e eu sei qual é a fórmula, vamos ser. Não inventei nada. Nada se cria, tudo se copia. É só olhar para fora e trazer.

JG: O Renato Gaúcho tem insistido bastante, ele quer uma estátua pelos serviços prestados ao Grêmio. O Petraglia merece uma estátua?

MCP: Ninguém merece estátua. Não sou favorável a ídolos. O que fica é a obra, não seu autor.

PARTE 2: Em rota de colisão com a torcida, Petraglia não sabe como encher a Arena da Baixada

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