Blog do Júlio Gomes

Diário da Copa: Vladimir e Tatianas
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Julio Gomes

Chego esbaforido à estação de trem. Uma das rotinas da minha vida. Sempre atrasado, sempre correndo, sempre deixando para sair no último minuto possível, realmente preciso melhorar.

Desta vez a culpa nem foi tanto minha, mas o fato é que às 21h18 saía o trem para Vladimir. E se tem uma coisa que aprendi neste um mês de Rússia é que os trens são pontuais. Consigo entrar. Ufa! Se eu tivesse perdido esse trem, esse texto nunca poderia ter sido escrito.

Decidi parar em Vladimir, uma cidade no meio do caminho entre Moscou e Nijny Novgorod, pela dificuldade para chegar e dormir em Nijny e também porque aqui do lado fica Suzdal, uma cidadezinha milenar de 10 mil habitantes e que é uma das pérolas da história russa, quase intocada através dos séculos.

Reservei o apartamento minutos antes de entrar no trem. Quase chegando, achei estranho receber uma mensagem no celular. Tatiana era o nome. E ela me buscaria na estação para levar até o apartamento. Oras, mas se o apartamento reservado era justo ao lado da estação de trens, por que eu precisaria da carona?

Chego e lá está Tatiana. Ou melhor. Duas Tatianas. Mãe e filha com o mesmo nome. Não, não é tradição por aqui. “É que meu pai amava muito a minha mãe”, conta, sorridente, Tati filha, que fala inglês. Chamarei as duas pelo apelido que eu mesmo dei, mesmo que elas não saibam.

Elas me levam a um apartamento que realmente não era o alugado. Um lugar escuro, sem comércio por perto, a meia hora andando do centro. Quando me dou conta, já estou dentro do apartamento. É meia-noite, estou cansado, querendo comer e dormir. E dou uma reclamada educada a Tati filha. Olha, não era aqui que eu ia ficar. Tinha reservado um apartamento que era perto de cafés, estou com fome, amanhã quero ir a Suzdal… poxa vida.

Ela me explica que a proprietária do outro apartamento não poderia me receber, daí o plano B. Não há muito o que fazer. Agradeço e me despeço.

Cinco minutos depois, toca o telefone. “Julio, minha mãe quer que você jante em nossa casa”. O quê?? Dei risada, agradeci, mas disse que não, não queria atrapalhar de maneira alguma. Mas ela insiste. Ouço Tati mãe ao fundo falando um monte de coisas em russo – ela realmente já havia me parecido uma mulher espirituosa. Penso um pouco… Por que não?

E lá vou eu para a casa de duas desconhecidas, em um lugar em que o celular não pegava direito e que eu não tinha a menor ideia de onde ficava. Em Vla-di-mir. Tudo para dar errado. Mas esse não é o jeito que encaro esta viagem. Para mim, tudo vai sempre dar certo.

As horas que se sucederam foram das mais divertidas e surpreendentes da Copa, em uma cidade que não tem nada a ver com a Copa. Tati mãe me serviu Borsch, a super tradicional sopa de beterraba que é parte do cardápio dos russos. Mas, claro, não bastava a sopa. Lá vem ela com a garrafa de vodca em mãos. “Vodca! Russian tradition!”.

Mais uma vez, meu “não” inicial é seguido de um retumbante “sim! por que não?”. Champanhe para elas, vodca para mim. “Homens tomam vodca! strong drink, strong drink”. Não tive direito a não querer. Mas tem mais. Tati mãe traz também tomates e pepinos em conserva. Segundo ela, a cada trago de vodca, uma mordida no pepino ou no tomate. “Russian tradition!”.

O pai mora em outra cidade, com o filho mais novo. Tati filha me conta que a namorada do pai está grávida e que ela, com seus 28 anos de idade, não tem muita idéia sobre o que achar disso. Ela namorou por quatro anos com um sueco de origem marroquina, morou em Estocolmo. Está de volta, mas infeliz. É sempre difícil se readaptar, em qualquer país, para qualquer pessoa.

Me conta que as suas amigas só falam de corpo, todas tem 50 kg e ela engordou muito. Se sente deslocada. Tati mãe fala das novelas brasileiras que passam aqui na Rússia. Pergunto a elas se os homens são muito opressores na Rússia. Nenhuma delas concorda. “Fazemos o que queremos”. Não senti convicção em nenhuma das duas.

Com borsch na barriga e vodca na cabeça, me despeço. A noite começou quadrada e acabou redonda.

Só faltava resolver meu problema de ir a Suzdal no dia seguinte. Pergunto a Tati filha onde fica a estação de ônibus, qual era o melhor jeito de chegar lá… Tati mãe, que acho que entendia alguma coisinha de inglês, interrompe a conversa.

Amanhã. Meio-dia. Fique pronto. Todos a Suzdal!

Isso não é a Copa. É a Rússia. Pelo menos a Rússia que eu conheci desde que aqui cheguei.

Esse texto foi publicado originalmente no jornal Gazeta do Povo


Diário da Copa: O fim do sonho russo
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Julio Gomes

Lá estava ela na mala. Minha camiseta retrô da União Soviética, versão anos 60, CCCP em branco no pano vermelho. Ficou impossível usar a camisa no Brasil, capaz que cuspam em você na rua em nossos tempos de intolerância política e confusão geral sobre tudo.

No dia da abertura da Copa, fiquei na dúvida sobre se usá-la seria uma boa ideia por aqui. Mas já estou há um mês na Rússia. E percebi que eles não têm problema com o passado soviético.

Então, no histórico dia das quartas de final, em Sochi, era a oportunidade perfeita. Em geral, a camiseta não despertou emoções. Uma velhinha, uma menina mais jovem e um rapaz. Três pessoas, apenas, apontaram para meu peito e me cumprimentaram.

“Esse-esse-esse-ere”, disseram. CCCP, em cirílico, se lê SSSR. Não há negação. Tampouco celebração do passado.

Agora, é Rússia. O estádio pulsa.

“Quem, se não vocês? Quando, se não agora?”. Era o que se lia nas duas faixas azuis abertas antes do início da partidas, atrás de um dos gols. A Rússia jogava em casa por algo que ninguém esperava.

As faixas são um pequeno exemplo da proporção que havia tomado o confronto contra a Croácia. Uma equipe desacreditada, desprezada, tanto em casa quanto fora, podia chegar a uma semifinal de Copa.

Sochi viveu um sábado de êxtase, com pessoas de toda a Rússia vindo para o evento histórico. Quando, se não agora?

Gente como o casal Oleg e Natalia, que veio de Moscou. Oleg passa o jogo enrolado na bandeira do Brasil. Seria uma homenagem a Mário Fernandes? Não. Apenas porque Natalia “ama o Brasil”.

Mário foi de herói improvável a vilão histórico. Fez o gol de empate russo faltando cinco minutos para o fim da prorrogação, levando o país ao êxtase. Pouco depois, chutou para fora um dos pênaltis.

Mas ninguém reclama de Mário Fernandes. O estádio viveu o jogo intensamente, com gritos de “Rússia, Rússia”, especialmente nos momentos mais difíceis.

Acaba a disputa. Oleg chora. Não são muitas as pessoas chorando no estádio. As expressões misturam tristeza e alegria, chateação pela derrota, orgulho por tudo o que foi feito. Mas ele chora, com a bandeira do Brasil enrolada no pescoço. Bate a mão no peito, lábios trêmulos. O sonho russo acabou.

 


Por que não entendemos as derrotas do Brasil?
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Julio Gomes

A conversa corre solta no bar, na sala, na frente da grelha, nas mesas redondas. Afinal, por que o Brasil perdeu? O que é a Bélgica? Quem é Courtois?

Esse talvez seja o grande problema. O grande mistério. O grande X da questão. Por que não entendemos?

Como assim não entendemos?

Por que, de quatro em quatro anos, o ''país do futebol'' se surpreende? ''Descobre'' jogadores? Se somos assim tão ''donos'' do futebol quanto nos imaginamos, não seria conveniente conhecer, de fato, o esporte e o que está sendo feito dele?

A história do futebol é dividida em basicamente quatro momentos. Pré-Segunda Guerra mundial, quando engatinhou e era jogado em poucos países. No pós-Guerra, até a década de 70, quando os campeonatos são consolidados, os sistemas formados, mas ainda jogado por pouca gente – é aqui que o Brasil domina de um jeito que nunca ninguém havia dominado e nunca mais alguém dominará.

Justamente o domínio brasileiro faz com que o jogo se transforme, e temos outros 25 anos de muita evolução na Europa e a consolidação da exportação de jogadores. E, finalmente, de 25 anos para cá, temos a globalização do jogo, o fim das fronteiras de conhecimento.

Pare para pensar nas fases três e quatro, ou seja, os últimos 50 anos. De 1970 para frente, nesta fase global e moderna, a Alemanha ganhou três Copas. O Brasil, duas, assim como Itália e Argentina. França e Espanha ganharam uma. Existe uma pulverização do domínio, uma tendência que vai se aprofundar.

Se o Brasil conquistou só 2 das 12 últimas Copas, por que tanta gente continua achando que ganhá-las é ''obrigação''? Por que tanto espanto com as derrotas? Por que não entendemos que não é vergonha alguma perder para a Bélgica, ainda mais do jeito que foi, com a seleção brasileira fazendo um bom jogo e merecendo sorte melhor?

Vejam só. É um jogo. UM. As Copas são esse tipo de torneio. Quanto menos tempo de disputa, maior a aleatoriedade.

Vamos falar dos belgas. Esses caras estão nos melhores times da Europa já faz algum tempo. São protagonistas do futebol globalizado.

A Bélgica não é mais um país da periferia da bola. Na década passada, iniciou um trabalho sério de base, de formação de jogadores. Na base, não importa mais ganhar. Importa formar. E, se o projeto de jogador não virar jogador, que vire, de alguma maneira, um profissional do esporte. Técnico, preparador físico, fisiologista, o que quer que seja.

Ou seja, eles fazem tudo o que não fazemos. É didático perder da Bélgica. Como foi didático levar 7 da Alemanha. Ou deveria ser didático.

O fato é que alguns belgas viraram jogadores dos bons. É um erro achar que eles são piores que os brasileiros. O nível é o mesmo. Igual. Idêntico. Você pode preferir um ou outro na comparação individual, mas o nível é o mesmo – tanto belgas quanto brasileiros estão nos grandes centros do futebol mundial.

Isso que é difícil de aceitar no país do futebol. Que os outros nos alcançaram. Em todos os aspectos. Tático, técnico, tudo.

O que espanta é que isso já aconteceu faz tempo, e ainda tem gente descobrindo de quatro em quatro anos.

Em um jogo único de futebol, qualquer um pode ganhar. O Brasil poderia ter vencido ontem. Merecia, até. Jogou melhor, teve chances. Mas, nos dias de hoje, o futebol é tão equilibrado que pequenos detalhes definem uma partida. Nesta Copa, está claro, quem marcar primeiro, geralmente leva. A Bélgica marcou primeiro. Ganhou.

A bola parada brasileira parou na trave com Thiago Silva. A bola parada belga virou gol. São pequenos detalhes que mudam tudo. No segundo tempo, o Brasil teve inúmeras chances para empatar. Mas havia um goleiro do outro lado. É do jogo!

Enquanto escrevo, o russo do restaurante me traz uma cerveja belga. Considero uma provocação? Bem, talvez eles também façam cervejas melhores que as nossas.

O russo nem sabia que o Brasil tinha perdido. Quando falo na Copa, ele só pensa no jogo de hoje,  contra a Croácia. É uma questão de orgulho nacional, não necessariamente de futebol.

É um país que só tem olhos para o milagre da seleção russa. Talvez seja melhor levar a vida assim. Pensar que não vai dar e… de repente… deu! A Rússia não esperava nada de sua seleção. Nós esperamos sempre muito. Esperamos sempre mais do que deveríamos.

Ou melhor. Não é que esperamos. É que exigimos. Um peso que nitidamente está dando maus resultados aos jogadores da seleção.

Para um brasileiro, perder da Bélgica é o fim do mundo. Tenho uma notícia: nada é o fim do mundo. Tenho outra: no futebol, existe mais mundo lá fora, além de nossas fronteiras.


Copa “maluca” é a primeira sem um dos 4 grandes nas semis
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Julio Gomes

Brasil, Alemanha, Itália e Argentina. Nenhuma das quatro seleções consideradas as gigantes do futebol mundial está nas semifinais da Copa da Rússia.

É a primeira vez na história que a classificação de um Mundial não terá pelo menos um deles entre os quatro primeiros.

As Copas de 74 e 78 não tiveram jogos semifinais e, sim, uma fase semifinal. O Brasil ficou em segundo em seu grupo em ambas as ocasiões e disputou o terceiro lugar.

Bélgica e França farão uma das semifinais na Rússia. As quartas de final deste sábado terão Rússia x Croácia e Inglaterra x Suécia.

Nova ordem do futebol mundial? Não necessariamente. Mas, sem dúvida, uma época de muito equilíbrio, em que camisas e história não ganham mais jogo.

 


Diário da Copa: Museu da vida soviética
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Julio Gomes

Kazan, a cidade que recebe o jogo do Brasil contra a Bélgica, nesta sexta-feira, orgulha-se da diversidade cultural. É a capital dos tártaros, convive com uma mistura de religiões e culturas. Durante os anos soviéticos, os tártaros foram sufocados. A liberdade religiosa voltou junto com o fim do regime. Kazan completou 1000 anos em 2005 e hoje vive um renascimento, é uma das cidades mais animadas da Rússia – até pela presença de quase 50 universidades.

Em Kazan, está o museu do estilo de vida soviético. Uma grande sala com objetos, roupas, instrumentos musicais, pôsteres, eletrônicos, brinquedos, broches, enfim, coisas da vida cotidiana durante as décadas do regime.

Lá, encontrei Olga Pushikariova, que visitava o museu com sua sobrinha. Ela me mostrou o televisor, igual o de sua avó. O lenço que usava para ir para a escola. Pergunto se ela tem saudades dos tempos soviéticos. E ela me diz que ''sim''. Para logo dizer que ''não''.

No caso de Olga, fica claro que ela tem saudades da própria infância, das coisas que marcaram a vida dela. E não dos dias de regime. ''Prefiro as coisas como são hoje''.

O vídeo da minha visita ao museu está aqui:


Diário da Copa: Salame de cavalo em Kazan
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Julio Gomes

Estou em fase de reeducação alimentar. Só como quando tenho fome. Mastigo devagar. Me concentro na comida. Saciado, paro. Mas em Copa do Mundo…

Nessas coberturas, é difícil parar para comer direito. Muita correria, deslocamentos, muitos textos e vídeos para mandar, uma loucura. E aí acabamos comendo mal.

Mas naquele dia de Sol, em Kazan, eu queria me aventurar. Já havia passado por um restaurante ucraniano, um geórgio e um russo, mas não um tártaro. Kazan, a cidade dos tártaros, uma das últimas que o império dos tsares tomou. A cidade onde o Brasil joga amanhã contra a Bélgica.

Nunca fui um fã de carne crua. Na verdade, sempre fui bem chato com comida, cresci nos últimos anos e fui aprendendo quanta coisa boa deixei para trás. Foi só recentemente que provei o bife tártaro. Acho que o nome mais comum é steak tartare? Posso estar errado.

Como estava em Kazan, terra dos tártaros, resolvi pedir o steak tartare. Já fiquei desconfiado, pois o prato aparecia no meio das entradas, com algumas saladas para lá de conhecidas, sem muito destaque.

Lá veio ele. Igualzinho ao que eu já conhecia. Carne crua, tempero, alcaparras, cebola, ovo. Uma delícia. Mas… será que isso é mesmo coisa de tártaro?

O simpático Yulian, o garçom, deu risada. “Não, é só o nome mesmo! Não é um prato daqui”. Oras bolas. Me lembrei de quando fui a Bolonha e o spaghetti não tinha carne moída. Não sei por que é spaghetti à bolonhesa se em Bolonha é diferente.

“Yulian, então me traga algo daqui, por favor!”. Dez minutos depois, lá vem ele, com todas as iguarias tártaras e russas. Uma espécie de carpaccio de ganso. Vagens ardidinhas. Uma torta tártara, com frango e batata, que me lembrou uma empadona. Umas tortinhas que me lembraram as quesadillas mexicanas. Um caldo de frango quente demais para o calor que estava. E….. adivinhem. Carne de cavalo!

Pobre cavalo. Se bem que nunca pensamos na pobre vaquinha na hora do churrasco. Estava mais para um salame de cavalo, fatiadinho, bem seco. Vamos que vamos.

Não era ruim. Saboroso, até. Um pouco duro, talvez. Difícil de mastigar. Foi bem com um pãozinho. Pensei no cavalinho. Não muito na vaquinha. Empurro o prato para o lado. Vem cá, steak tartare…

 


Brasil e Bélgica são seleções equivalentes, não há favorito
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Julio Gomes

Os programas de TV aí do Brasil já devem estar fazendo até de trás para frente as comparações entre as seleções brasileira e belga.

Courtois ou Alisson? Lukaku ou Gabriel Jesus? Neymar ou Hazard? Esse ou aquele roupeiro? Quem é melhor?

Não entrarei nessa. Eu sei que o povo gosta. Mas eu também tenho meus gostos. E prefiro tentar cada vez mais olhar para o futebol de forma coletiva.

Até porque os três ''embates'' que eu citei acima são, talvez, os únicos possíveis. O que faremos na hora em que chegarmos no Paulinho x De Bruyne? Ou Marcelo contra Carrasco? (ou Verthogen? depende do sistema…)

Oras bolas, quem não votar em De Bruyne está maluco. Só que o De Bruyne belga joga de forma diferente do De Bruyne do Manchester City. Atua em uma posição mais recuada, é responsável pela saída de bola. Já Paulinho pode até não ser visto como o mais talentoso da história, mas é um jogador que aporta gols, chegada, força física.

São características completamente diferentes, cada uma a serviço de um time, de uma ideia, de um jeito de jogar.

São dois times recheados de jogadores dos melhores clubes europeus.

Se fizermos um nome a nome, talvez a gente fique num 6 a 5 para alguém. Se olharmos para o lado coletivo, encontraremos duas seleções agressivas, que tentam praticar o futebol vertical, alternando fases de jogo em que quer a bola e que não faz questão da posse.

A Bélgica é mais ofensiva. Se propõe a colocar em campo ''a turma toda'', jogadores técnicos, de ataque. Aliás, é o time que mais fez gols na Copa. O Brasil é mais defensivo, um time mais preocupado em fechar espaços e não tomar gols – levou só um, que podia até ter sido anulado, e cedeu pouquíssimas chances.

Por qualquer ângulo que se olhe, Brasil e Bélgica fazem um duelo parelho, equilibrado e de altíssimo nível. É nisso que quero chegar.

Não é nenhum absurdo o Brasil perder da Bélgica, uma seleção que nunca foi uma das grandes vencedoras do futebol mundial. Em 2002, quando o Brasil tinha Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo, talvez uma eventual derrota nas oitavas de final pudesse ser (e seria) vista como ''vergonha''. Hoje, se uma eventual eliminação ocorrer, é uma vergonha falar em vergonha.

O Brasil pode ganhar da Bélgica. O Brasil pode perder da Bélgica. Peguem esses mesmos times, tirem as camisetas amarela e vermelha e coloquem, por exemplo, a do Flamengo e a do Fluminense, para usar o clássico mais famoso de nosso país. Ou então uma Manchester United e Chelsea. Estaríamos falando, com esses mesmos jogadores, que seria um absurdo um ganhar, o outro perder?

Acostumem-se com essa ideia. O Brasil segue sendo o principal celeiro de bons jogadores do mundo. Mas um país pequenininho, com um ótimo e consistente trabalho de base, já consegue se equiparar em termos de qualidade.

Nós não somos os melhores faz tempo. Somos bons, ótimos, e sempre estaremos no grupo de melhores. Mas esse grupo cresceu bastante, e nele hoje está a Bélgica.

São seleções fortes e equivalentes. Eu sei que dói para muita gente ouvir isso.

Meu conselho para quem gosta do esporte, e não vive só na ditadura do ganhar e perder é: aproveitem. Vai ser um jogão. Nenhum resultado é zebra. Nenhum resultado é vergonha.


Diário da Copa: a improvável conexão Rússia-Equador
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Julio Gomes

Maxim morou em Barcelona. Fala espanhol perfeito. Cidadão de Rostov on Don, caminhava pelas ruas de sua cidade quando percebeu uma família equatoriana com dificuldades.

O pai, Oscar, a mãe, Fátima, e a filha, Alejandra, uma adolescente com a camisa da seleção brasileira – os pais estava com camiseta e bandeira do Equador. A família fez o inverso da maioria. Enquanto grande parte dos torcedores vêm à Copa para acompanhar sua seleção na primeira fase, eles vieram para os jogos grandes.

Compraram ingressos para o jogo de Rostov porque achavam que a Colômbia aqui estaria. Erraram. O Japão que veio parar em Rostov para enfrentar a Bélgica (que jogo!). Mas não estavam nem aí! É uma viagem que extrapola o futebol.

Rostov é, possivelmente, a menos turística das cidades que eu visitei até agora – lá se vão 9 das 11 sedes, faltam apenas Nijny Novgorod e Sochi. Não tem muito o que ver por essas bonitas e bem cuidadas ruas, com ônibus um pouco decadentes – como os nossos.

Mas lá estavam os equatorianos vagando pelo centro, tentando se comunicar, comprar uma cerveja, se virar. E lá se foi Maxim, feliz da vida, ajudar. Ficaram juntos o dia todo. Maxim também tinha ingressos para o jogo e iria levá-los para o estádio quando fosse a hora da partida.

Enquanto isso, fotos e mais fotos e mais fotos. Essa é uma característica desta Copa. As pessoas adoram tirar fotos com os estrangeiros que estão visitando o país. Basta estar vestindo a camiseta de alguma seleção e logo chega a população local, velhos, novos, homens, mulheres, para tirar fotos.

Achavam que a família era de brasileiros, pela camisa e bandeira do Brasil que levava Alejandra. “Quando não está o Equador, sempre torcemos pelo Brasil”, conta a mãe, Fátima. “Sofri tanto em 98, com aquela Copa que arrumaram para a França! Será que vão arrumar essa para a Rússia também?”. Maxim sorri. Ele está tão feliz com a Rússia e por ajudar que não é uma provocadinha involuntária que irá incomodá-lo.

Viram, todos eles, um grande jogo de futebol entre Bélgica e Japão. Rostov se despede com estádio quase lotado e muitos gritos de “Rússia, Rússia, Rússia”, já que belgas e japoneses eram poucos. O país pega fogo com a campanha da seleção nacional. Que bom!


Diário da Copa: Silêncio e festa
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Julio Gomes

Rússia x Croácia nas quartas de final da Copa do Mundo. Quem diria! No meu Bolão, estavam Espanha x Dinamarca, que era um pulo do gato. Vejam só que malditos pênaltis.

Mas a Espanha não iria longe sem técnico. E a Dinamarca não tem muito mais do que um goleiro. No fim das contas, é sempre bacana ter o time da casa indo longe, porque isso impulsiona o interesse pelo torneio.

Mas como eles vivem esse interesse?

Foi uma experiência curiosa assistir ao jogo da Rússia no domingão, em Kazan. Já percebi que aqui as pessoas estão vendo os jogos em casa ou na Fan Fest. Para lá que eu fui.

E o que mais me chamou a atenção? O silêncio. Não havia reações durante a partida. Xingamentos, gritos de susto, aquele “uuuuuuuuu”, gritos de “Rússia, Rússia, Rússia”… nada! Parecia que aquelas dezenas de milhares de pessoas estavam vendo um filme ou uma ópera em um cinema a céu aberto.

Claro que, no momento do pênalti e do gol de empate da Rússia, houve comemoração. No segundo tempo, o clima mudou um pouquinho. Talvez os russos tenham ido lá certos de uma derrota. E, conforme o jogo avançou, a esperança virou animação.

O fato é que eu tinha um avião para pegar e precisei deixar a Fan Fest ao final dos 90 minutos. Fui de volta ao centro de Kazan. E nada de um bar, uma TV. Nada. Nada. E nada. Eu percebia algumas pessoas com o celular em mãos, seguindo a vida delas e vendo o jogo por ali. Mas, se alguém não soubesse que o pais anfitrião da Copa estava jogando uma prorrogação naquele exato momento, continuaria sem saber.

Resolvo ir ao hotel e assistir aos pênaltis de lá. Quando chego, as TVs da recepção estão passando outra coisa. E apenas um segurança segura seu celular, quietinho, no canto, assistindo. Vemos juntos. Ele solta um grito quando a Rússia se classifica. Estendo o braço, mão aberta, nos cumprimentamos. E ele guarda o celular no bolso. Tudo volta ao normal.

Nas ruas, aí sim, começam a soar as buzinas. As pessoas  aparecem com bandeira nas mãos. Começa a festa, a celebração, em todas as cidades. Do jeito deles. Durante o jogo, silêncio. Depois do jogo, festa. Assim segue a Rússia.


Beijos roubados, agressões e o choque cultural
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Julio Gomes

Nati Jota, repórter da ESPN argentina, diz que já está acostumada. Ela fazia uma entrada ao vivo, na porta do hotel da Argentina, em Kazan, quando um rapaz enrolado em uma bandeira, ele mesmo também ao vivo, com seu celular conectado a alguma rede social, lhe tascou um beijo na bochecha.

Nati se desvencilhou dele, continuou fazendo seu trabalho e foi embora, como se nada tivesse acontecido.

A real é que para ninguém em volta parecia ter acontecido algo anormal. Fui a exceção. Talvez não fosse para mim alguns anos atrás, porque é assim que nós, homens, somos criados e ''educados''. Mas, hoje, é. Hoje, ainda bem, entendo um pouquinho o tamanho da agressão que um gesto como esse significa para uma mulher. A invasão. O desrespeito.

Fiquei sem saber o que fazer. Nati foi embora. Mas os caras ficaram ali. Pensei em entrevistá-los. Afinal, esses caras, os agressores, somem rapidamente após o ato. Mas achei que entrevistá-los era irrelevante em função da situação. Fui lá, na real, dar uma lição de moral.

Eram todos do Cazaquistão. Um dos amigos falava inglês. Enquanto eu falava, ''vocês entendem que isso está errado? Que vocês não podem fazer isso?'', eles riam como bobos. Continuavam filmando, inclusive. Não sei o que era mais heroico para eles, estar onde Messi chegaria em instantes ou ter tascado o beijo na repórter.

''Você sabia que pessoas que fazem isso estão ficando mundialmente famosas?'', perguntei. ''Sim, claro!'', respondeu o que falava inglês, feliz da vida. ''Famosos pelo absurdo que é. Tem gente sendo presa aqui na Rússia por isso'', blefei, porque sabemos que ninguém está sendo preso por isso. Foi aí que ele fechou a cara e entendeu que eu não estava ali para cumprimentá-lo ou saudá-lo.

''Just because of this little kiss??''… ''só por esse beijinho?''.

''Sim, senhor. Quem define se pode ou não pode, se é 'little' ou não é, é ela, não você'', respondi eu. Um pouco desconcertado, mas não muito, ele murmurou ''I'm sorry''. Enquanto isso, o boboca ao lado, autor da agressão, continuava rindo e filmando como o boboca que era.

''Não é comigo que você tem que se desculpar, é com ela''.

A estas alturas, o que falava inglês já não estava gostando muito daquilo, puxou os outros amigos e eles foram embora. Não queriam me deixar fotografá-los.

''Tento não fazer drama'', me disse Nati Jota, a quem encontrei alguns minutos depois. ''Claro que não é bom que aconteça, mas as coisas estão mudando em relação ao respeito à mulher e a violência de gênero, porque isso é violência de gênero. Trato de não ficar angustiada, trabalho com isso, me meto muito no tumulto, com os torcedores, já me aconteceram coisas piores. Tento dar uma risada, sair, às vezes você está ao vivo, também não pode arruinar todo teu trabalho por isso.''

''Se está falando tanto do movimento feminista, do respeito à mulher, que cada vez menos essas coisas estão acontecendo comigo na Argentina. Não é que a Argentina esteja super avançada, mas se está falando muito neste momento e os homens estão tendo mais cuidado. Mas quem sabe aqui, por ter muita gente de outros países, que talvez sejam mais deslocados… Há países em que ainda não chegou esta consciência'', seguiu Nati.

A repórter parecia muito firme diante de tudo aquilo, muito decidida e – e isso é triste – muito conhecedora da situação. Só se soltou um pouquinho quando perguntei, de forma simples e direta. ''Como você se sente?''.

''Me sinto fraca. Me sinto duplamente fraca. Ser mulher já te faz ser mais fraca que um homem, por questões físicas e sociais, e também porque você está trabalhando, no ar, tomando cuidado com câmera e tudo mais. Não estou concentrada, pensando no que está em volta, é uma questão de confiança com quem está em volta. Você fica exposta.''

Nati tocou no ponto que foi o que mais me chamou a atenção enquanto eu falava com os rapazes do Cazaquistão. Eles realmente não entendiam qual era o problema.

O choque cultural.

Longe de mim querer perdoar ou passar a mão na cabeça, até porque isso não cabe a mim fazer, mas sem dúvida ainda estamos no início de um processo. E será necessária uma grande vontade política e midiática para mudar o estado das coisas e desenraizar o machismo impregnado em todas as sociedades.

Uns 20 minutos depois, percebi que ainda estava tremendo. De raiva, não de medo ou qualquer coisa do tipo. Me senti bem por ter falado com ela e com eles. Sinto muito pelo que fomos e somos, os homens do mundo.