PUBLICIDADE
Topo

Histórico

Categorias

O desprezo inglês pelo Mundial de Clubes é simplesmente ridículo

Julio Gomes

18/12/2019 05h00

Ninguém é obrigado a dar aos diferentes campeonatos de futebol o mesmo peso. E ninguém tem direito de julgar as emoções dos torcedores de futebol.

O cara que acha que ficou "mais feliz" por ver seu time ganhar uma Libertadores do que o outro, que viu o time ganhar a Série C, é apenas mais um exemplar de cidadão que olha apenas para o próprio umbigo.

Não podemos julgar alegrias e tristezas ao falar de times e campeonatos, mas certamente podemos julgar dirigentes de futebol e jornalistas que fazem objetivamente um trabalho mal feito. É o que estamos testemunhando com a chegada de um clube inglês ao Mundial da Fifa.

A imprensa inglesa praticamente ignora a presença do Liverpool no Qatar, fazendo uma cobertura protocolar, seja na imprensa escrita ou falada. Isso é o mais puro anglocentrismo, não passa de mau jornalismo.

E a Liga Inglesa simplesmente marca um jogo do Liverpool pela Copa da Liga, contra o Aston Villa, um dia antes da estreia dos Reds no Mundial, ao melhor estilo sul-americano anos 90. Resultado? O Liverpool manda um time de juvenis, leva de 5 do Aston Villa e está eliminado. O Expressinho de Liverpool não emulou aquele de Muricy.

Ruim para o Liverpool, mas péssimo para a competição, que tem um de seus times mais importantes eliminados, e para a imagem deixada por dirigentes ingleses. O que queriam? Que o Liverpool abrisse mão de levar seu melhor time a Doha?

É simplesmente ridículo.

Eu vivi na Europa, conversei com muitos amigos jornalistas de vários países e tenho claro qual o peso do Mundial de Clubes para eles. É pequeno, de fato. É realmente muito parecido com o peso dado às Supercopas continentais e domésticas.

É como se fosse uma Copa São Paulo de Juniores para os brasileiros. Você assiste, comemora, lamenta, mas não trata como algo maior.

Nesta terça, assisti ao jogo do Flamengo em um hotel no Rio de Janeiro, ao lado de um rapaz chamado Dave. Torcedor do Liverpool (claramente não é fanático), veio para um casamento. "Estou assistindo a este jogo porque estou aqui e o clima da cidade te contagia, acho que se estivesse na Inglaterra não estaria dando bola, não. Acho que nem estaria sabendo", me contou.

Eu perguntei por quem ele estava torcendo, Flamengo ou Al Hilal. "Para o Flamengo, lógico! Seria um jogo muito mais bacana de se ver na final". E aí me pergunto quantos torcedores do Flamengo preferem pegar o Liverpool, em vez do Monterrey, na final em nome apenas do bom espetáculo.

Nenhum torcedor europeu vai chorar de emoção por uma vitória ou uma derrota no Mundial, como acontece aqui no Brasil. Eles têm direito disso, Dave tem direito de encarar o Mundial como quiser. Outra coisa é como os profissionais da área encaram o torneio.

Lembram do Manchester United no Mundial de Clubes de 2000, aqui no Brasil? Os caras vieram para tomar caipirinha, uma vergonha completa, uma falta de respeito. E se fosse britânico, o treinador do Liverpool de hoje? Era capaz de seguir a cartolagem e os jornalistas e preferir jogar a Copa da Liga Inglesa.

Não à toa, nos 15 Mundiais disputados neste formato Fifa, quatro vezes houve presença inglesa e só uma vez o clube inglês foi campeão.

Sorte de quem gosta de futebol que o técnico do Liverpool é alemão, e alemão não brinca com coisa séria.

Eu nunca vi Real Madrid ou Barcelona fazerem algo parecido com o que fazem os ingleses. Para começo de conversa, a imprensa que segue Real e Barça segue até no inferno, se for preciso. Talvez pela grande presença de jogadores sul-americanos, o próprio elenco desses clubes sinta mais a vontade de ganhar.

Os clubes europeus não ficam se preparando para isso como os nossos, poupando jogadores, abrindo mão de campeonatos – nem perto. OK, isso existe e podemos conviver com isso. Também não quer dizer que ignorem completamente ou que entrem para perder. Até porque nesse esporte chamado futebol ninguém entra pra perder, nem jogo de casados contra solteiros.

Podemos dizer que os clubes não-ingleses até que fazem seu papel. Mas o desprezo de dirigentes e jornalistas britânicos é… desprezível.

A Inglaterra já foi a maior potência do planeta e é inegável que a sociedade britânica "deu certo". Mas em algumas coisas eles simplesmente não têm noção do ridículo que passam.

Sobre o Autor

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

Sobre o Blog

Este blog fala (muito) de futebol, mas também se aventura em outros esportes e gosta de divagar sobre a vida em nossa e outras sociedades.

Julio Gomes