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Até Senegal joga bola! Seguiremos aceitando as porcarias que vemos?

Julio Gomes

10/10/2019 11h05

Seguimos, aqui no Brasil, o país do resultadismo (em tudo, não só futebol), vangloriando o resultadismo. Aceitando que times de futebol joguem de forma ridícula, em nome do resultado final. "Ganhou o quê?" é a frase mais comum do debate na mesa de bar. É assim que se define quem presta, quem não presta.

Mas o futebol jogado no resto do mundo é outro, e já faz um tempo. Até Senegal, vejam bem, Senegal, joga jogando. Joga com a bola, tenta agredir. Não tem nojo de ficar com ela.

A seleção brasileira só foi melhor do que Senegal nos 20 primeiros minutos do bizarro amistoso disputado na Ásia. Foi quando saiu o belíssimo gol de Firmino, quando Neymar e Coutinho participaram mais do jogo, pecando apenas no preciosismo.

A partir daí, foi quase só Senegal. Tocando a bola, sem rifar. Com dificuldades, claro, o futebol de hoje em dia é intenso, não é fácil. A execução de Senegal é falha. Não foi um banho de bola dos africanos, mas foi um jogo de igual para igual, em que eles foram melhores.

Aliás, o jogador mais importante em campo era senegalês: Mané, do Liverpool. As arquibancadas estavam cheias de camisas do Liverpool, não do PSG.

A seleção tem obrigação de golear Senegal? Não, não tem. Tudo está mais nivelado.

Mas não vejo por que fazer esses amistosos se for para jogar de forma blasé, protocolar. O Brasil testa pouco, gasta muito tempo e horas de avião para cumprir tabela (comercial) nestes amistosos. E nem interesse mais desperta, menos da metade do estádio estava ocupado.

São três amistosos seguidos deploráveis da seleção, por atitude e futebol.

O jogo desta quinta pode até trazer alguma observação individual para Tite. Mas é até cruel fazer avaliações assim quando parte do time joga por jogar, outra parte joga para provar algum valor. Parece que o que importa mesmo são as resenhas na concentração.

Os amistosos da seleção são encontros de amigos para partidas no estilo "churrasco do domingo", que só servem para atrapalhar os clubes (por culpa do calendário, diga-se, não da seleção).

Para mim, jogos como o de hoje servem menos para falar da seleção brasileira, mais para falar do futebol brasileiro. Pelo calendário, já citado, e pela bola.

Enquanto aqui nessas bandas os times dos "gringos", Jorge Jesus e Sampaoli, jogam bola, o resta da turma (salvo poucas exceções) parece que tem raiva da bola. Sim, eu sei que há várias maneiras de se ganhar um jogo de futebol.

Mas a tendência mundial hoje em dia é de jogar, é de futebol propositivo, não reativo, é de agressão. Aqui, nos acostumamos e parece que gostamos dessas porcarias, desde que venha o tal resultado. O que importa para o torcedor, dizem, é o resultado. Antes ele fosse com seus clubes tão exigente quanto é com a seleção brasileira.

Porque, hoje em dia, até Senegal joga bola. E aqui seguimos tratando quem quer jogar bola como uns "malucos beleza", que ousam praticar o tal… futebol.

Sobre o Autor

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

Sobre o Blog

Este blog fala (muito) de futebol, mas também se aventura em outros esportes e gosta de divagar sobre a vida em nossa e outras sociedades.

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