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Qual o lugar do Athletico-PR no futebol brasileiro?

Julio Gomes

19/09/2019 11h12

Se falar alguma coisa elogiosa aos times de São Paulo, você é taxado de bairrista-paulista, especialmente por cariocas. Se falar algo elogioso aos times do Rio e São Paulo, você é taxado de bairrista-do-eixo, especialmente pelo pessoal do Sul e de Minas. Se falar em G-12, colocando os times de MG e RS no mesmo patamar dos quatro grandes do Rio e SP, você é novamente bairrista. Também "do eixo", acho. Sei lá, um eixo maiorzinho. Eixo Gaúcho-Sudeste, talvez? Enfim, por aí.

A confusão é tremenda, há um quase completo desconhecimento do que faz a imprensa e das diferenças entre os meios. É óbvio que uma rádio local vai falar de futebol… local. Para o público… local. É claro que há bairrismo. Mas, por bairrismo, pode-se entender "falar para um certo público". E não "defender este e denegrir aquele outro, como se fosse um serviço sujo (ou apaixonado, sei lá)".

Por que digo tudo isso?

Porque considero, sim, que há um G12 histórico no futebol brasileiro. E não sou bairrista. Porque considero, sim, que as grandes forças do futebol nacional estão no Rio e em SP, pelo óbvio motivo de serem as duas principais cidades do Brasil por qualquer ângulo que se olhe. E não sou bairrista. Porque considero, sim, que os grandes de São Paulo são dominantes e seguem sendo enormes em um futebol que se transformou, deixou de ser regional e passou a ser nacional. E não sou bairrista.

São visões que não têm nada de apaixonadas. Dito tudo isso, onde se encaixa o Athletico Paranaense?

O Athletico está fazendo algo muito raro, muito difícil de ser ver. Um reposicionamento histórico. Isso é difícil em qualquer campo: arte, política, música. Você sair de um patamar e ir a outro.

Considero Mario Celso Petraglia um dirigente egocêntrico, autoritário e petulante, com vários vícios de vários dirigentes brasileiros. Mas não dá para tirar o mérito desse cara. Ele é o nome, o rosto, a mente do reposicionamento do Athletico. Ele rouba? Sei lá. Ele faz do Athletico um feudo familiar? Sim. Mas ele funciona para o clube? Sim. E talvez como nenhum outro dirigente tenha funcionado para qualquer outro clube brasileiro.

A cronologia dos últimos 25 anos do Athletico é simplesmente estrondosa.

CT de primeiro mundo construído, ampliado, renovado. Futebol de base bem trabalhado. Estádios construídos, um após o outro, enquanto outros "grandes" brasileiros não fazem um sequer. E resultados. Resultados que foram pingando…

Campeão brasileiro, vice brasileiro, vice da Libertadores, campeão da Sul-Americana, campeão de Copas internacionais, jogadores vendidos para a Europa sem fazer "ponte" em clubes "maiores" e, agora, campeão da Copa do Brasil.

Sem contar a vanguarda na relação desafiadora com federação local, com TV Globo, com pay-per-view.

O Athletico é, disparado, o clube que mais apresenta aspectos do profissionalismo que cobramos no futebol brasileiro. Agora Flamengo, Palmeiras e alguns parcos outros trilham caminho parecido, em maior ou menor medida.

O Athletico fura o G12?

Podemos olhar por vários ângulos. Sim e não.

O G12 é um grupo histórico, de formação do futebol como ele é, de quantidade de gente que segue e se interessa por esses clubes e dos maiores nomes da história do futebol brasileiro – era neles que jogavam os grandes jogadores na época dourada dos anos 60. O Botafogo nunca deixará de ser o clube de Garrincha.

Porém, o que faz um clube grande? Entramos em um debate mega subjetivo. Títulos, tamanho de torcida, influência, estrutura física, cessão de jogadores para a seleção brasileira, dá para escolher critérios.

Talvez o G12 seja algo do passado. Iniciado, vivido e encerrado. Portanto, sem poder ser furado ou negado.

Hoje, no presente, neste século, o G12 não existe. Portanto, já foi furado.

A meu ver, existe um G4: Flamengo, São Paulo, Palmeiras e Corinthians. São os quatro clubes verdadeiramente nacionais do país. Estes só não estarão nas disputas dos maiores títulos por circunstâncias temporais.

E há gigantes locais, alguns mais históricos que os outros, que tentam furar este domínio esportivamente e que fazem o possível para gerar receita explorando mercados – predominantemente locais, o que é natural.

Grêmio, Inter, Cruzeiro e Atlético-MG podem ter mais história, podem ter mais torcida, podem ser mais estaduais do que municipais. Mas o Athletico-PR supera os quatro em outros aspectos tocantes ao projeto de futebol. E os resultados estão aí.

Na minha opinião, é este o lugar que o Athletico ocupa hoje. O mesmo dos quatro de RS e MG. Uma força local, capaz de enfrentar esportivamente os quatro clubes mais populares, ricos e, sim, vencedores do país.

O Santos é um capítulo à parte e é, sim, uma espécie de força regional, apesar de estar em São Paulo. É nacional e local ao mesmo tempo. É histórico e é presente.

Mas os três clubes do Rio ficaram muito para trás. Mas muito mesmo. Os três do Rio não fazem frente aos outros citados. Não entram em Brasileiro, Libertadores, Copa do Brasil, Sul-Americana ou o que seja com chances reais de serem campeões.

O Athletico, sim.

O G12 existiu e não pode ser borrado. Hoje, a correlação de forças é diferente. A história está sendo reescrita. E o Athletico, definitivamente, se transformou em um grande do futebol brasileiro.

Sobre o Autor

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

Sobre o Blog

Este blog fala (muito) de futebol, mas também se aventura em outros esportes e gosta de divagar sobre a vida em nossa e outras sociedades.

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