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VI-EI-ÁR, VI-EI-ÁR! Uma noite de futebol em Nova York

Julio Gomes

12/09/2019 06h00

Não tem como começar este texto de outra maneira, que não seja de trás para frente. Começando pelo final.

O jogo é entre New York City e Toronto alguma-coisa (confesso que não pesquisei, mas deve ter algum "Rapid" ou "Fire" ou "Snows" ou coisa que o valha no nome). Estamos no Yankee Stadium, templo do baseball americano.

Se os caras fazem uma quadra de basquete virar um rinque de hóquei no gelo e vice-versa em poucas horas, nem é tão absurdo pensar no campo de baseball que vira campo de futebol e vice-versa. Fica meio esquisito, porque o estádio não tem a forma geométrica de um estádio de futebol. Mas beleza, funciona.

O jogo está empatado por 1 a 1. Último lance, o rapaz do NY City avança na área, leva uma pancada no nariz, sai sangrando. Vai ver que quebrou o nariz. Mas o juiz dá falta do próprio atacante no lance, antes de levar o cotovelaço. O telão mostra a jogada. Eu não vejo falta do atacante. Vejo pênalti. Lance difícil. Mas, se o juiz viu falta antes, viu falta. O senhor Christopher Penso, este é o nome dele, faz o certo. Não vai para a telinha do VAR.

Só que o telão mostrou o lance. A revolta é geral. Nova York inteira está a ponto de desabar sobre sua cabeça! :-)

Começa, então, o coro. O estádio entoa três sílabas. Ou letras. Três sons. O som da desgraça. Ou da cultura. Sei lá.

Vi-ei-ár. Vi-ei-ár. Vi-ei-ár….

O coro aumenta. Todos gritam. É um apelo coletivo. Eu peço para minha filha ficar quieta um pouco. Limpo os ouvidos. É aquilo mesmo? Estou ouvindo bem?

Vi. Ei. Ár….

Vi. Ei. Ár…

Vi de V. Ei de A. Ár de R.

V-A-R.

É aquilo. Puxo o celular e gravo. Pego só o finalzinho.

A TORCIDA, QUE NÃO GRITOU NIU-I-OR-QUE, NIU-I-OR-QUE NENHUMA VEZ NO JOGO, ESTAVA PEDINDO O VAR. O VAAAAAAR!

Sabem, naquele mesmo ritmo de Iu-És-Ei, Iu-És-Ei… USA, USA. Ou de Êmm-Vi-Pi, Êmm-Vi-Pi… MVP, MVP.

Cara, três letrinhas pegam aqui. Pegam muito. E árbitro de vídeo não é novidade aqui. É cultura. É parte da sociedade esportiva americana, cultura capitaneada pela NFL.

Os caras chamaram o VAR. Em coro. O estádio inteiro.

Mas não deu para o pessoal. O juiz pode até ter errado, mas tomou a decisão correta de não ir à telinha. Deu uma banana para a torcida, talvez com a certeza de que não teria exatamente de sair escoltado de campo.

Aliás, árbitro que havia dado dois pênaltis para o visitante Toronto no jogo. O primeiro, em um puxão de camisa meio mandrake, não sei se eu apitaria, não. Esse o Toronto meteu, empatando em 1 a 1. O segundo pênalti, já no fim do jogo, foi dado, vejam só, com o auxílio do VAR. Um desses cruzamentos cortados com o braço. Mas o goleirão Sean Johnson pegou.

Se houvesse mesa redonda depois da rodada, o que não há, o juiz seria o tema. Deu uns pênaltis meia bocas… não foi ao vídeo no lance final, com o cidadão ensanguentado na cara, nem para dar uma espiada. Saiu de campo com um sonoro "fuck you, ref", "fuck you, ref" (dispensa tradução) ecoando pelo Yankee Stadium.

Se houvesse mesa redonda, teriam que falar também que o Toronto foi o melhor time em campo e merecia ter vencido. Time de, vejam só, Altidore, aquele, e Michael Bradley, aquele. Mas um tal de Benezet, francês, ex-Guingamp, e um Pozuelo, espanhol meio marrento, das bases do Bétis, perderam uns gols que foram brincadeira – além do pênalti.

A real é que o jogo foi uma peladaça. Meio Série B nossa. Com gramado bom, sem pancadaria nem cera. Mas o baixo nível técnico é nítido. E estamos falando de dois dos times mais bem colocados da MLS. A liga precisa navegar muito ainda.

Me chamou muita atenção a bandinha "organizada" atrás de um dos gols. Os instrumentos musicais e os ritmos são idênticos aos dos estádios argentinos, uruguaios e que se ouvem muito também nos jogos de Grêmio e Inter. Faltaram as faixas verticais e os papéis higiênicos (imaginem o desespero da NYPD! rindo alto). Mas com aquele ritmo e as camisas azuis claras, dava para lembrar de algum jogo da Celeste ou do Racing.

Na real? Tinha mais ambiente que um monte de arena modernosa brasileira. Mas é muito nítido também que a torcida não "acompanha" ou não "interfere" no jogo. Não empurra o time, não pega fogo. É um público de entretenimento mesmo, que é a marca de qualquer esporte nos Estados Unidos – ainda que o fluxo de estrangeiros seja nítido na arquibancada (eu flagrei uma camisa do Flamengo, uma da Colômbia, uma do Emelec, uma do Real Madrid, várias de clubes ingleses, estamos em Nova York, afinal).

Eu mesmo comi meu hot dog e tomei uma cervejinha, o espírito consumista sequestrou meu bom senso alimentar.

Fui ao jogo de metrô, com a família toda. Não havia esquema algum preparado. Foram 19 mil pessoas ao jogo, muitas entrando atrasadas, como eu. O esquema de segurança em volta do estádio era forte, mas não sei se é sempre assim ou se porque era 11 de setembro.

O metrô deixa na porta do Yankee Stadium. A lojinha na boca do metrô divide espaço entre camisas dos Yankees e do NY City – que, alías, não é azul clarinho à toa, o Manchester City é dono de 80%, os outros 20% são justamente dos Yankees.

O estranho mesmo é estar num verdadeiro templo… de outro esporte. O Yankee Stadium é, sei lá, um Maracanã, talvez. É verdade que é um estádio novo (2009), o antigo foi abaixo, mas é a casa da franquia mais vitoriosa entre todos os esportes americanos. As paredes só tem referências aos Yankees. O tour que fiz no intervalo me levou à área "monumental" onde estão aposentados VINTE números de camisas.

Não é de um clube qualquer que estamos falando. O City está sendo amigavelmente hospedado lá. Fala que vai fazer um estádio para ele, mas não se sabe quando nem onde. Tem colocado 20 mil pessoas em seus jogos, mas em um estádio em que cabem 50 mil, que fica parecendo vazio, e que é explorado comercialmente pensando nos Yankees, logicamente.

Até pelo contraste gerado, por estar no estádio de uma franquia tão gigantesca dos esportes americanos, saio do estádio com a sensação de que a MLS ainda está muito, muito, muito longe de ser uma liga de primeira ou mesmo segunda linha.

Me refiro tanto a qualidade, se compararmos com o futebol de outros lugares, quanto ao espaço aqui nos EUA, na competição forte com outras modalidades. Não foi de um dia para o outro que futebol americano, baseball e basquete conquistaram mercado. São décadas e décadas.

Ressalva à parte pelo sucesso do feminino, sinto que o futebol ainda tem muitas barreiras a superar. Não é coisa de americano. Não é coisa para americano.

Mas de VAR…. de VAR eles gostam!

 

Sobre o Autor

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

Sobre o Blog

Este blog fala (muito) de futebol, mas também se aventura em outros esportes e gosta de divagar sobre a vida em nossa e outras sociedades.

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