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Destino do Flu é jogar para não cair (com ou sem Diniz)

Julio Gomes

19/08/2019 12h25

A pergunta é muito simples. Se, no jogo em que bateu recorde de finalizações e teve dois pênaltis não marcados, o Fluminense tivesse vencido o CSA, Fernando Diniz seria demitido?

Sim ou não?

Eu sei a resposta, você aí também sabe a resposta. É "não". Ainda mais antes de jogos decisivos contra o Corinthians pela Sul-Americana, uma competição em que o Fluminense está bem, firme, com campanha sólida.

Se um time amassa o outro e a bola não entra… é do jogo. Não é coisa de técnico.

"Ah, mas os resultados do Diniz em Brasileiros (com Atlético-PR e Flu) são pífios, não é só por esse jogo".

Mentira. A demissão HOJE é sim por esse jogo. Lembrem-se da resposta à pergunta acima. O normal teria sido um 3 a 0 do Fluminense ontem. Se fosse, torcedor não estaria enchendo, os microfones das rádios cariocas não estariam fervendo, dirigentes não atuariam como torcedores e Diniz seguiria.

Dito isso, os resultados de Diniz não ajudam.

Tenho muito cuidado ao avaliar trabalhos com numerinhos e lista de títulos. Quem olha só para numerinho, pode achar que o Palmeiras do primeiro semestre era uma máquina de jogar futebol. Quem olha só para numerinho, pode achar que o Palmeiras pós-Copa América justifica a demissão de Felipão.

Nem uma coisa nem outra.

Para tudo, há contexto. O Fluminense, além de ser um time bastante fraco, perdeu jogadores importantes. Com Diniz ou sem Diniz, vai jogar para não cair.

A realidade do Fluminense pré-Unimed era a de jogar para não cair (caiu em 96 – só que não -, caiu em 97, caiu em 98, jogou Série C em 99 e subiu de elevador direto de volta para a elite). A realidade do Fluminense, hoje, é a mesma já vivida há um tempo um pouquinho maior por Vasco e Botafogo: jogar para não cair.

Fernando Diniz incomoda muita gente.

Incomoda porque neste país coragem é um atributo em falta. E, dentro de sua própria covardia do dia a dia, muitos se sentem atacados por verem alguém ser tão elogiado por algum que eles não têm. É como se os elogios a Diniz se traduzissem automaticamente em críticas a outras tantas pessoas. E elas se sentem atingidas.

O futebol brasileiro precisa de mais coragem. De gente como Diniz, Sampaoli, Jorge Jesus, Rogério Ceni, Renato Gaúcho. A chegada desses caras tira um pouquinho da pressão sobre Diniz, mas ao mesmo tempo, lógico, expõe a falta de resultados dele.

Ele precisa melhorar, sem dúvida.

A mídia não "blinda" Diniz. Parte da mídia elogia Diniz, exatamente por ver nele um sopro de esperança dentro da tosqueira que se transformou o futebol brasileiro. A defesa de sua figura extrapola o futebol, passa por algo conceitual.

O Brasil é uma sociedade resultadista e imediatista, onde fins costumam justificar meios. Entre Argel Fucks e Diniz, a maioria prefere um Fucks mesmo. Todos têm direito. E eu, como outros, temos direito de idealizar um mundo e um futebol diferentes.

Mas a saída de Diniz, enfim, não muda o status do Fluminense. Vai jogar para não cair e, talvez, cair. Com ou sem ele.

 

Sobre o Autor

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

Sobre o Blog

Este blog fala (muito) de futebol, mas também se aventura em outros esportes e gosta de divagar sobre a vida em nossa e outras sociedades.

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