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Por que haverá gente torcendo pela Argentina amanhã?

Julio Gomes

01/07/2019 15h27

"Meu compromisso é com a história. Por isso vou torcer por Messi".

Achei justa, a frase do meu amigo. Já torcemos juntos pela seleção brasileira na adolescência, com camiseta e tudo. Eu, confesso, desde que comecei a trabalhar com isso, em 1998, passei a ter uma relação estritamente profissional com a seleção.

Tem times que gostei mais e que gostei menos desde então. Isso, em regra, em função dos personagens envolvidos. Ou seja, torcer pelo bem de alguns caras que eu gostava ou que sempre foram bacanas comigo profissionalmente.

Nunca fui pacheco ou metido a patriota, até porque sempre achei que patriotismo fosse outra coisa, e não "Brasil (ou o país que seja) acima de tudo". Aliás, esses "acima de tudo" sempre deram em merda, porque nada está acima de tudo. Tudo é relativo.

Em 2002, 17 anos atrás, eu não chorei, como havia chorado em 94. Estava no estádio e preocupado com minhas matérias. Em 2014, cinco anos atrás, eu não chorei, como havia chorado em 90. Estava no estádio e preocupado com minhas matérias.

Meu amigo não é jornalista e nem trabalha com isso, então não teria por que criar qualquer distanciamento com a seleção.

Mas criou. E vai torcer pela Argentina na semifinal da Copa América.

Uau. Pausa dramática.

Ele elenca os motivos.

Primeiro, o já citado, acha que Messi finalmente ganhará o reconhecimento histórico com a camisa da Argentina se for protagonista de uma eliminação do Brasil em solo brasileiro. "Não é possível as pessoas continuarem com esse papinho, que se o Messi saísse do Barcelona não seria tudo isso…"

Estou de acordo. O fato é que Messi, o maior jogador que vi jogar, tem uma conta pendente. Fazer algo grande com a camisa da Argentina. Uma partida histórica contra o Brasil seria suficiente? Acho que sim. Mas se a Argentina passar, digamos, nos pênaltis e depois perder a final, aí Messi fica no mesmo patamar. Tenho a impressão de que essa é a última chance para Messi fazer algo grande de verdade com a Argentina.

O segundo motivo do meu amigo é clássico, já ouvimos faz tempo. A seleção brasileira está desconectada do futebol brasileiro. E o futebol brasileiro é o que move torcedores. São os clubes. Meu amigo, digamos, não é um apaixonado pelo Corinthians. E afirma que existe um corintianismo claro na seleção de Tite, que por isso os jogadores do time dele não são convocados.

Já teve de tudo, né? Carioquismo, gauchismo. O fato é que cada vez menos jogadores daqui são convocados, então o torcedor tem menos conexões com a seleção. Basta ver o efeito Éverthon Cebolinha. Se Tite tivesse chamado mais uns dois ou três protagonistas daqui para esta Copa América, poderia ter gerado um fato novo.

O terceiro motivo é mais recente. Meu amigo diz que pegou "um bode irreversível" da camisa da seleção, "sequestrada por movimentos de direita que em nada representam meu modo de pensar sobre o país e a vida em sociedade".

Em uma sociedade rachada como a nossa – aliás, o mundo está rachado, apenas mudam alguns argumentos aqui e ali -, a camisa da seleção deixou de ser símbolo de união nacional, passou a ser símbolo de fragmentação. Aliás, creio que o Brasil perdeu seu único e último símbolo de união nacional. Tem muita gente que não consegue mais usar a canarinha, sente constrangimento.

"A azul até dá pra usar, mas a amarela de jeito nenhum", fala.

A quarta razão, segundo ele, é que não suporta mais o Campeonato Brasileiro parado por causa de uma seleção que nem convoca mais jogadores daqui. "Quero ver meu time jogar!".

Neste momento, tento explicar: "Mas a culpa não é da seleção, é da CBF, do calendário, dos torneios internacionais…"

Mas ele não está muito disposto a ouvir.

E na conversa aparece uma quinta razão. Ficam aí forçando a barra para odiarmos argentinos, nunca vi sentido nisso.

Não tentei e não tentarei mudar os sentimentos do meu amigo. Eles me fizeram pensar que, talvez, muita gente esteja ao lado da Argentina na partida de amanhã. Talvez secretamente, entre familiares. Talvez abertamente. Ou talvez fale que esteja só pra causar, mas na hora H vai comemorar loucamente a vitória da seleção brasileira – que, a meu ver, é bastante favorita para o confronto.

Já faz tempo que a seleção não arrebata corações, muitos de seus "porta-vozes" são figuras simplesmente lamentáveis, tanto na CBF quanto na imprensa. E, juntamente com tantos outros colegas, já denunciamos faz tempo a maneira como o povão foi alijado de assistir à seleção no estádio. Nunca joga aqui e, quando joga, é impossível pagar para ver. Uma hora essa conta chega.

Acredito que, pelas razões apresentadas, meu amigo será chamado de:

1) paga pau do futebol internacional; 2) palmeirense; 3) comunista; 4) ignorante; 5) paga pau de argentino.

Claro que o mais fácil é sempre agredir, em vez de entender. E olha que eu achei que a ausência forçada de Neymar geraria mais conexão entre brasileiros e seleção nesta Copa América.

A esse ponto chegamos. Parabéns aos envolvidos.

 

Sobre o Autor

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

Sobre o Blog

Este blog fala (muito) de futebol, mas também se aventura em outros esportes e gosta de divagar sobre a vida em nossa e outras sociedades.

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