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Após a década do abismo, futebol espanhol volta a respirar

Julio Gomes

2026-05-20T19:07:00

26/05/2019 07h00

O Valencia conquistou ontem a Copa do Rei da Espanha, após vencer o Barcelona por 2 a 1 na grande decisão. Muitos dirão: prêmio de consolação em um torneio menor. Eu digo: sinal de novos tempos no futebol espanhol. Ou melhor, esperança de resgate dos velhos tempos.

Para explicar tudo isso, é preciso olhar para alguns números desta década, que vai chegando ao final. A década que eu chamo de "década do abismo". Vamos falar primeiro da Copa do Rei. Desde a temporada 10/11, início da década, a Copa teve nove finais. Em todas elas, ou Barcelona ou Real Madrid estavam presentes – o Barça ganhou cinco e foi vice três vezes, duas derrotas em confrontos contra o próprio Real e agora esta contra o Valencia.

Quer os placares das finais vencidas pelo Barça na década? 3-0 e 3-1 sobre o Athletic Bilbao, 3-1 no Alavés, 5-0 no Sevilla, 2-0 na prorrogação contra o próprio Sevilla, na única em que foi desafiado (2016). Ou seja, finais facilmente vencidas.

Vamos olhar agora para a década passada. Em 10 finais, o Barcelona esteve em somente uma (título em 2009, já com Guardiola). O Real Madrid, somente em duas – e perdeu ambas. Quer a lista de campeões da Copa do Rei na década passada? Lá vai: Zaragoza (2), La Coruña, Mallorca, Betis, Espanyol, Sevilla (2) e Valencia. Foram anos em que eu vivia na Espanha e respirava o dia a dia do futebol de lá. A década anterior, a de 90, teve somente um título de Copa do Real e dois do Barça.

O mata-mata, como sabemos, equilibra confrontos. Vejam, Real e Barça sempre dominaram na Espanha, especialmente o primeiro. Mas nunca aconteceu na história o que aconteceu na década que se encerra, ou seja, a que vivemos. Nem mesmo o mata-mata e sua imprevisibilidade foram capazes de mitigar a imensa vantagem financeira (e esportiva) dos dois gigantes nos últimos anos.

Muito disso se deve à divisão do dinheiro de direitos televisivos. Negociando individualmente, Real Madrid e Barcelona passaram a ter receita mais de dez vezes maior do que vários clubes menores da Liga Espanhola. Para se ter uma ideia, na Premier League inglesa a diferença entre o que mais ganha e o que menos ganha não passa da grandeza 1,6 – ou seja, nem o dobro.

Foi criado um abismo econômico que, logicamente, se transformou em abismo esportivo. Salvo o Atlético de Madrid, que conseguiu organizar as finanças, fazer boas contratações, boas negociações de direitos e, claro, tirou a sorte grande ao "achar" Simeone, ninguém passou nem perto de desafiar Real Madrid e Barcelona.

Passamos a ver Ligas com recordes de pontos, gols, etc, etc, sem qualquer desafio esportivo para os gigantes.

Talvez por ter voltado da Espanha em 2009 e ter visto e vivido lá anos de equilíbrio, grandes desafios aos gigantes, uma Liga pujante, eu tenha me incomodado tanto com o menosprezo encontrado aqui no Brasil com a chamada "Liga de dois times". Chegou a ser chamada de "Gauchão com grife".

Bem, era uma meia verdade. Mas sim, tinha sentido. Podemos interpretar que o Barcelona, especialmente nos anos Messi-Guardiola-Xavi-Iniesta, com os maiores times de sua história, bateria recordes com ou sem adversários à altura. Mas será que alguns times bem mais ou menos do Real Madrid teriam feito os pontos que fizeram? O Real contrataria Cristiano Ronaldo independente da divisão de dinheiro da Liga, mas ganhar quatro Champions em cinco anos fica muito mais fácil quando o desafio doméstico é inexistente.

O Real pode ter sido totalmente dominado pelo Barcelona nesta década no âmbito doméstico, mas nunca, em nenhum momento, precisou se esforçar para estar entre os primeiros da Liga e ir à Champions seguinte.

É verdade que Atlético de Madrid e Sevilla conseguiram magníficos feitos europeus no período, e tudo o que estou contando faz com que o título espanhol do Atlético, em 2014, tenha de ser considerado um dos maiores feitos já vistos no futebol europeu. Mas não dá para negar que a Liga havia perdido quase que completamente a competitividade.

Pois bem. As pessoas começaram a perceber isso na Espanha também e, em 2015, um decreto governamental forçou as negociações de direito a serem feitas coletivamente de novo. E os clubes médios e menores da Espanha começaram a ganhar mais dinheiro. Como os valores absolutos subiram, Barça e Real continuaram com os mesmos ingressos de antes, porém a diferença para os menores orçamentos da Liga, que chegou a ser superior a dez vezes, hoje está abaixo de quatro.

O Barcelona deste ano é o pior campeão espanhol da década, em termos de pontos ganhos. Com 26 vitórias (um número ainda alto, sem dúvida), o Barça colecionou seu menor número de sucessos em 38 rodadas de Liga desde a debacle de 2008, que acabou com saídas de Rijkaard, Ronaldinho e Deco.

O título da Copa do Rei do Valencia tampouco ocorre por acaso. Ele vem acompanhado de uma temporada em que Real Madrid e Barcelona ganharam jogos com menos facilidade, sofreram derrotas inesperadas… tiveram que jogar bola, enfim. Uma temporada que, passados alguns anos da nova distribuição de dinheiro, nos mostra que o abismo precisava ser revisto e diminuído.

O orçamento dos dois gigantes ainda é muito maior e, após a temporada de vexames do Real e, por que não, do Barça, apesar do título da Liga, a promessa é de uma verão de investimentos.

Mas o futebol espanhol, após 10 anos de sufocamento, volta a respirar. Volta a olhar para um duelo entre Valencia e Barcelona, por exemplo, sem aquela certeza de goleada.

Seja bem vinda de volta, senhora competitividade.

 

Sobre o Autor

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

Sobre o Blog

Este blog fala (muito) de futebol, mas também se aventura em outros esportes e gosta de divagar sobre a vida em nossa e outras sociedades.

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