Blog do Júlio Gomes

Não tem santo no caso Arrascaeta-Flamengo-Cruzeiro

Julio Gomes

Tomar partido é tentador. O torcedor do Flamengo e De Arrascaeta dirão que o jogador tem direito de decidir seu destino. Ninguém pode tirar a razão. O Cruzeiro dirá que o jogador falta com o profissionalismo ao forçar a saída e faltar a treinos. Ninguém pode tirar a razão.

Tomar partido, repito, é tentador. E a nós, jornalistas, é exigido isso aí. No mundo de hoje em dia, é necessário tomar partido. Estar deste ou daquele lado. Eu não caio nessa.

O caso De Arrascaeta é similar a tantos outros na história do futebol. Novidade zero.

É possível que em alguns casos o jogador tenha tido a razão, tenha sido sufocado pelo clube que era seu ''dono''. É possível também que em alguns casos o clube tenha tido a razão.

Exemplo recente? Philippe Coutinho no Liverpool. Perdeu jogos importantes do clube alegando lesão para, dias depois, aparecer jogando pela seleção brasileira. O castigo? Precisou esperar seis meses para, enfim, ser negociado com o Barcelona. O Liverpool fez o que lhe cabia, não permitiu que o jogador se mostrasse maior que a instituição. Bateu o pé. Coutinho, diga-se, cumpriu sua parte e jogou bem nestes meses que separaram as investidas do Barça (estamos falando do segundo semestre de 2017).

A Fifa proíbe clubes de assediarem jogadores justamente por causa disso. Só é possível negociar com um jogador quando ele está a seis meses do fim do contrato. Antes disso, é necessário que a conversa seja clube-clube. Depois de um acordo, fala-se com o jogador.

Mas a vida real, especialmente no Brasil, é diferente. A lei da Fifa não ''pegou'' aqui, e não é a única. Nenhum clube reclama na Fifa pelo assédio a seus jogadores, e possivelmente a razão para isso é que, amanhã, o clube que hoje é vítima estará fazendo a mesma coisa.

O ideal era que Cruzeiro e Flamengo tivessem se acertado e pensado no melhor para ambos e também para o cidadão De Arrascaeta. A realidade é que os dirigentes não estão nem aí para o cara, e empresários manipulam essas situações de forma a forçar a negociação.

Será que se Arrascaeta não fizesse o que está fazendo o Cruzeiro aceitaria vendê-lo? Será que é verdade que o Cruzeiro venderia por 5 milhões de euros para qualquer um, menos para o Flamengo? Os clubes respeitam o que querem os jogadores? Será que o uruguaio conta a verdade ao dizer o que disse da reunião com o vice cruzeirense e que seu celular foi vazado?

É fácil ficar horas e horas chamando o jogador de anti-profissional. Não farei isso. Tampouco passarei pano. Ele poderia aparecer nos treinos, reunir técnico, colegas de time e imprensa e deixar tudo mais claro.

Na real, acabamos sendo forçados a opinar em cima de fragmentos de informações. Só é possível tomar partido se você é a mosquinha quietinha ali no vidro da sala de reunião, onde tudo aconteceu e foi falado.

Nessas histórias, não costuma haver santo. E a figura do empresário, tão execrada, só existe com o tamanho atual devido à falta de profissionalismo e organização dos clubes. Entre o que acontecia no passado, quando os clubes eram literalmente donos da vida dos jogadores, e o que acontece hoje, quando às vezes, esporadicamente, um jogador se rebela… não tenho dúvidas, o cenário menos pior é o atual.

O jogador é o elo fraco desta relação e raramente (alguns poucos) podem ''forçar a barra''. Mas que as coisas poderiam acontecer de forma mais civilizada, isso poderiam.