Blog do Júlio Gomes

Diário da Copa: Vladimir e Tatianas

Julio Gomes

Chego esbaforido à estação de trem. Uma das rotinas da minha vida. Sempre atrasado, sempre correndo, sempre deixando para sair no último minuto possível, realmente preciso melhorar.

Desta vez a culpa nem foi tanto minha, mas o fato é que às 21h18 saía o trem para Vladimir. E se tem uma coisa que aprendi neste um mês de Rússia é que os trens são pontuais. Consigo entrar. Ufa! Se eu tivesse perdido esse trem, esse texto nunca poderia ter sido escrito.

Decidi parar em Vladimir, uma cidade no meio do caminho entre Moscou e Nijny Novgorod, pela dificuldade para chegar e dormir em Nijny e também porque aqui do lado fica Suzdal, uma cidadezinha milenar de 10 mil habitantes e que é uma das pérolas da história russa, quase intocada através dos séculos.

Reservei o apartamento minutos antes de entrar no trem. Quase chegando, achei estranho receber uma mensagem no celular. Tatiana era o nome. E ela me buscaria na estação para levar até o apartamento. Oras, mas se o apartamento reservado era justo ao lado da estação de trens, por que eu precisaria da carona?

Chego e lá está Tatiana. Ou melhor. Duas Tatianas. Mãe e filha com o mesmo nome. Não, não é tradição por aqui. “É que meu pai amava muito a minha mãe”, conta, sorridente, Tati filha, que fala inglês. Chamarei as duas pelo apelido que eu mesmo dei, mesmo que elas não saibam.

Elas me levam a um apartamento que realmente não era o alugado. Um lugar escuro, sem comércio por perto, a meia hora andando do centro. Quando me dou conta, já estou dentro do apartamento. É meia-noite, estou cansado, querendo comer e dormir. E dou uma reclamada educada a Tati filha. Olha, não era aqui que eu ia ficar. Tinha reservado um apartamento que era perto de cafés, estou com fome, amanhã quero ir a Suzdal… poxa vida.

Ela me explica que a proprietária do outro apartamento não poderia me receber, daí o plano B. Não há muito o que fazer. Agradeço e me despeço.

Cinco minutos depois, toca o telefone. “Julio, minha mãe quer que você jante em nossa casa”. O quê?? Dei risada, agradeci, mas disse que não, não queria atrapalhar de maneira alguma. Mas ela insiste. Ouço Tati mãe ao fundo falando um monte de coisas em russo – ela realmente já havia me parecido uma mulher espirituosa. Penso um pouco… Por que não?

E lá vou eu para a casa de duas desconhecidas, em um lugar em que o celular não pegava direito e que eu não tinha a menor ideia de onde ficava. Em Vla-di-mir. Tudo para dar errado. Mas esse não é o jeito que encaro esta viagem. Para mim, tudo vai sempre dar certo.

As horas que se sucederam foram das mais divertidas e surpreendentes da Copa, em uma cidade que não tem nada a ver com a Copa. Tati mãe me serviu Borsch, a super tradicional sopa de beterraba que é parte do cardápio dos russos. Mas, claro, não bastava a sopa. Lá vem ela com a garrafa de vodca em mãos. “Vodca! Russian tradition!”.

Mais uma vez, meu “não” inicial é seguido de um retumbante “sim! por que não?”. Champanhe para elas, vodca para mim. “Homens tomam vodca! strong drink, strong drink”. Não tive direito a não querer. Mas tem mais. Tati mãe traz também tomates e pepinos em conserva. Segundo ela, a cada trago de vodca, uma mordida no pepino ou no tomate. “Russian tradition!”.

O pai mora em outra cidade, com o filho mais novo. Tati filha me conta que a namorada do pai está grávida e que ela, com seus 28 anos de idade, não tem muita idéia sobre o que achar disso. Ela namorou por quatro anos com um sueco de origem marroquina, morou em Estocolmo. Está de volta, mas infeliz. É sempre difícil se readaptar, em qualquer país, para qualquer pessoa.

Me conta que as suas amigas só falam de corpo, todas tem 50 kg e ela engordou muito. Se sente deslocada. Tati mãe fala das novelas brasileiras que passam aqui na Rússia. Pergunto a elas se os homens são muito opressores na Rússia. Nenhuma delas concorda. “Fazemos o que queremos”. Não senti convicção em nenhuma das duas.

Com borsch na barriga e vodca na cabeça, me despeço. A noite começou quadrada e acabou redonda.

Só faltava resolver meu problema de ir a Suzdal no dia seguinte. Pergunto a Tati filha onde fica a estação de ônibus, qual era o melhor jeito de chegar lá… Tati mãe, que acho que entendia alguma coisinha de inglês, interrompe a conversa.

Amanhã. Meio-dia. Fique pronto. Todos a Suzdal!

Isso não é a Copa. É a Rússia. Pelo menos a Rússia que eu conheci desde que aqui cheguei.

Esse texto foi publicado originalmente no jornal Gazeta do Povo