Blog do Júlio Gomes

Diário da Copa: Hora de conhecer a nova Rússia

Julio Gomes

O texto abaixo foi publicado originalmente na ''Gazeta do Povo'', do Paraná.

Escrever no avião. Está aí uma rotina na vida de quem cobre grandes eventos esportivos. Eu não durmo mesmo… você dorme? Tenho uma inveja danada de quem dorme em avião. Posso te chamar de você, cara leitora, caro leitor? É verdade que acabamos de nos conhecer. Mas o que não queremos neste espaço é formalidade! Este será um espaço de apresentações.

Primeiro, vou me apresentar. Depois, a Rússia. Uma nova-velha Rússia. Um pais de passado e presente de autoritarismo e conflitos. Mas que entra na modernidade e se mantém no topo em coisas que o nosso Brasil segue ignorando, pesquisa e conhecimento.

Esta será a minha quinta Copa do Mundo. Às vezes olho para trás e fico sem acreditar. Virei jornalista para viver, estar e contar sobre os grandes momentos do esporte. O esporte sempre foi minha paixão. O amor pelo jornalismo veio depois.

Quando embarquei para a Coreia do Sul, 16 anos atrás, estava tão pilhado, excitado pela viagem em cima da hora – só cheguei para o segundo jogo do Brasil -, que talvez não tenha me dado conta. Caramba, eu tinha só 22 anos de idade!

Trabalhava no UOL havia quatro, desde a primeira Copa digital. Em 94, chorei rios de lágrimas assim que Baggio perdeu aquele pênalti. Em 98, havia trocado de uniforme. Tirei a camisa da seleção, vesti a do jornalismo.

Eu sei que muita gente não entende ou nem acredita que consigamos separar as coisas. Mas é assim. Minha relação com a seleção mudou há 20 anos. Do nada. Sem que eu fizesse esforço algum. Adiantamos a fita a Yokohama, o jogo do penta. Eu escrevia freneticamente enquanto alguns colegas choravam de emoção na tribuna de imprensa. Eu entendo. Respeito. Apenas mudei. Não é torcer contra. Nem a favor. Minha missão é contar. Observar. Analisar.

Me mandaram, pois, para a Ásia. E depois para a Alemanha. Para a África do Sul. Para rodar o Brasil em 2014. E, agora, eu resolvi eu mesmo me mandar para a Rússia. Mesmo que o preço tenha sido o olhar tristonho da minha filha de quase 5 anos, que nunca ficou longe do pai. ''Vou agarrar na tua perna para você não ir''. Choro um pouco. E não tenho vergonha disso.

Costumo organizar minhas memórias em Copas. Dizem que os ciclos das nossas vidas têm 7 anos. Acho que os meus têm 4. E esta primeira separação das minhas filhas – tantas outras virão, eu sei – já entrou para a minha história.

Mas… É a Copa do Mundo! Aqui no avião, enquanto escrevo, converso com minhas duas novas amigas. Marta, uma senhora argentina apaixonada por futebol, por Cristiano Ronaldo, pelo San Lorenzo e o Papa. Na outra poltrona, Cristina, que odeia o futebol.

O papo vai para a política. Uma odeia Macri. A outra atura. Mas conversam de forma civilizada e apaixonada. E me lembro que conversar sobre política no Brasil hoje é proibido. Nossa sociedade está doente.

A Copa é quando, de alguma forma, nos unimos. No máximo alguém vai gostar mais e alguém vai não gostar tanto de Neymar. É mais do que um torneio. É o momento em que quem ama o futebol vive o êxtase. E quem não gosta passa a gostar. E quem é criancinha começa a criar laços. São as reuniões de família, as conversas de bar, o Galvão Bueno, as mesas redondas.

Quem eu acho que vai ganhar? O Brasil. Porque tem organização e um jogador desequilibrante. Outros com a mesma capacidade estão em times piores ou desorganizados. Outros times bem arrumados não têm caras tão diferentes.

Ainda assim, coloco França e Espanha no mesmo nível de favoritismo do Brasil. Seleções com experiência e uma juventude pronta para fazer algo grande. A Alemanha está abaixo desta vez. A Argentina, muito abaixo.

Mas atenção. Esta é a Copa do equilíbrio em uma era global. Há umas 20 seleções em estágios parecidos se olharmos aspectos táticos, técnicos e físicos. Qualquer time ''médio'' pode encaixar quatro jogos bons, dar um pouco de sorte e ser campeão. Portugal, Inglaterra, Bélgica, Colômbia, Uruguai… Eu não gosto de analisar futebol pelo passado. E o presente é de um equilíbrio tremendo, como nunca antes visto.

Futebol à parte, a minha empolgação reina na chance de conhecer as entranhas da Rússia. Já estive em Moscou e São Petersburgo. Duas cidades magníficas. Agora é a hora de conhecer a outra Rússia. Saransk, Samara, Kazan… a hora de conhecer o Volga. Os Urais. O Cáucaso. O Mar Negro. A hora de andar muito de trem. A hora de arranhar o russo que com muita petulância me propus a aprender nos últimos três meses – e que, lógico, só me levará a um ''oi tudo bem, como você vai?''. A partir daí, é aventura.