Blog do Júlio Gomes

Petraglia: Diniz encaixa no projeto e não sai nem se o Atlético-PR cair

Julio Gomes

Poucas pessoas sabem quem é o atual presidente do Clube Atlético Paranaense. O que todos sabem, no entanto, em Curitiba e Brasil afora, é que quem manda lá é Mário Celso Petraglia. Filho de imigrantes uruguaios e nascido no Rio Grande do Sul, 74 anos atrás, mudou-se para o Paraná ainda na infância e transformou-se em um empresário de sucesso.

Desde 1995, faz parte do noticiário esportivo. É quem manda e desmanda no Atlético. Inegavelmente, a chegada de Petraglia ao poder gerou uma mudança de status. Um clube da classe média brasileira, de alcance apenas regional, hoje luta para entrar no grupinho dos grandes do país.

A estrutura não deixa a desejar a nenhum grande do Brasil e do mundo. O blog foi convidado pelo Atlético a conhecer o CT do Caju e fazer uma entrevista com o atual presidente do Conselho Deliberativo.

Antes que mentes criativas tenham ideias criativas, nenhuma exigência foi feita, nenhuma pergunta foi vetada. Aliás, nenhum questionamento foi feito pelo clube sobre o quê, quando e como seria publicado. Não há relação entre as partes, apenas a profissional.

O blog decidiu dividir o conteúdo em três partes para os leitores. Primeiro, a entrevista com Petraglia, quebrada em duas partes (clique aqui para ler a segunda). Por último, uma observação do dia no clube, as conversas, as andanças pelos corredores do CT do Caju. A entrevista foi feita na terça-feira passada, dia 15 de maio. Antes, portanto, das derrotas do Atlético-PR para Cruzeiro, pela Copa do Brasil, e Fluminense, pelo Campeonato Brasileiro.

Não convém acreditar em dirigentes, dirão os céticos (eu já devo ter dito isso algumas vezes). Mas a forma contundente como Petraglia falou do trabalho de Fernando Diniz me faz crer que este trabalho não será interrompido por cinco, sete ou dez derrotas. ''Ele só sai por vontade própria, pode perder, pode até cair para a segunda divisão. O Fernando é o primeiro que encaixa certinho dentro do projeto'', cravou Petraglia.

Diniz não é apenas o treinador do time principal, mas coordenador técnico geral. O Atlético é um dos poucos clubes do Brasil que contrataram os serviços da empresa belga Double Pass, que revolucionou o futebol de base na Bélgica e na Alemanha. A ideia, de forma resumida, é que os clubes tenham uma filosofia de jogo e esta seja replicada em todas as categorias, com profissionais trabalhando de forma alinhada. ''Fomos buscar o Diniz por isso'', disse ao blog o vice-presidente Márcio Lara.

Demitir o técnico seria quase o mesmo que demitir a visão escolhida para o projeto, que acaba de entrar em uma nova etapa – a que não abre mão da austeridade nas finanças, mas pretende levar o Atlético-PR ao protagonismo de campo, não apenas estrutural.

Abaixo, a primeira parte da entrevista com o mandatário.

Julio Gomes: Como nasce a ideia de contratar Fernando Diniz?

Mário Celso Petraglia: A gente acompanha futebol, estávamos vendo. E tem uma frustração muito grande naquilo que o projeto exige. A vida inteira fui um dos responsáveis por contratar os treinadores. Quando você conversa com eles de forma prévia, se mostram abertos, pró-ativos, comprometidos com o novo, o moderno que o projeto exige. Três dias depois que chegam aqui, mudam. Por que a gente trocou tanto de técnico? Porque é sempre mais do mesmo. Sempre querendo ser o (Emerson) Leão da vida ou o (Vanderlei) Luxemburgo da vida, querendo ser dono do clube. Achar que está tudo errado, trazer jogadores.

JG: Curioso ouvir isso, o que os técnicos mais pedem é que um clube banque seu trabalho…

MCP: Mas é só na teoria. Na prática, mais do mesmo. Aquela coisa velha, aquilo que aprendeu nos minutos de silêncio, não se prepararam, não leram… claro, há exceções que confirmam a regra, mas a grande maioria não leu uma orelha de livro. Passaram dezenas por aqui. Não sabem nada da vida, do homem, do ambiente, da causa e efeito, do que é o futebol, quais são as consequências de esse ser um esporte coletivo, jogado com os pés.

JG: E o Fernando Diniz não é assim?

MCP: O Fernando foi uma indicação de um amigo comum, o Giuliano Bertolucci. Primeiro nos indicaram o Seedorf, conversei com gente do mundo inteiro, tive informações e algumas conversas ratificaram minha preocupação com o Seedorf… é investidor de jogador… entende? Aí veio o nome do Fernando Diniz. Ele tinha acabado de assinar com o Guarani, mas com a cláusula de poder sair para um clube de primeira divisão. Eu disse 'tá bom, fala com ele e pede pra me ligar'. Ele estava passeando com a família em Miami, era fim de ano, precisávamos de uma definição, já que estávamos em um momento de mudança de gestão por aqui. Ele me telefonou. Ficamos uma hora, 40 minutos e parecia que eu o conhecia há 20 anos, tão forte foi a afinidade de pensamento. O Fernando encaixa certinho dentro do projeto. O Atlético Paranaense não vai dar os melhores jogadores, as melhores condições para ele. O Atlético vai dar as condições que tem e ele, com a criatividade dele, a proposta dele, vai tentar fazer algo para ser vencedor.

JG: A grande interrogação é o que vai acontecer nos momentos de baixa esportiva. As derrotas virão.

MCP: Todas as mudanças, todas as transformações, todas as revoluções oscilam. Isso é histórico. Primeira Guerra, Segunda Guerra, Revolução Francesa… Robespierre foi guilhotinado! Revolução Russa. Isso aí eu sabia (que haveria oscilação). Fernando Diniz só sai do Atlético por vontade própria. Pode perder, pode cair para a segunda divisão. É uma realidade. Pela primeira vez eu tenho dentro do projeto algo que me encaixa.

JG: Pela primeira vez em 23 anos?

MCP: Sim. Nesse setor… É importante que a gente deixe claro. O Atlético Paranaense nunca investiu no futebol. Nunca comprei um jogador por vontade própria. E já tivemos dinheiro. Em 2004, eu vendi Fernandinho e Jadson por 20 milhões de dólares, reformei aqui (CT), comprei terreno. Poderia ter botado mais dois ou três jogadores e tentado ganhar mais um título. Mas estávamos trabalhando na imagem, na estrutura, sabíamos que vinha a Copa…

JG: Você disse que o Fernando Diniz fica aqui até quando ele quiser…

MCP: 2018 e 2019 estamos aqui. Aí depende do futuro, que não nos pertence.

JG: Já que não há dinheiro para enormes investimentos, como convencer jogadores top, importantes, a entenderem que vir para o Atlético, em vez de outros, é o melhor a fazer?

MCP: Hoje está dez vezes mais fácil, mas claro que até certo nível – de idade menor, mostramos que é mais fácil fazer uma carreira aqui. Hoje isso o mercado já compra. Tem menino que prefere vir para cá do que ficar em um grande clube. E também chegamos a jogadores para quem não seja determinante o salário. Que tenha outros valores: ambiente, a cidade, o clube pagar em dia, aqui não tem sacanagem, dinheiro por fora, empresário pegando parte do dinheiro e devolvendo para diretor, é o cara se sentir mais completo na atividade como profissional do que exclusivamente mercenário, ou seja, que dê valor a outras coisas, não salário. Isso é fundamental para o projeto. Tem gente que prefere vir ganhar menos aqui, é uma seleção natural.

JG: O Atlético se sente um pouco Asterix na aldeia gaulesa, com pouca companhia contra os mais poderosos?

MCP: O sistema é tão escravizado que quem nasce pária, morre pária. Quem nasceu grande ou cresceu no momento da hegemonia da rádio Globo, do Maracanã, ou seja, no século passado, vai morrer grande. O Santos… o que é o Santos? Se você pegar a curva descendente das torcidas dos clubes esses considerados 12 grandes… em 20 anos o Botafogo não tem mais ninguém.

JG: Aqui no Brasil, no entanto, apesar dessa má distribuição de dinheiro, ainda não se vê a cantada ''espanholização''. Pelo menos nos resultados.

MCP: Há um pseudo nivelamento no futebol brasileiro. É competitivo porque é ruim, daí nivela. Estão todos endividados, clubes comandados por pessoas despreparadas, por mecenas, por pessoas com interesses pessoais, corruptos. Os clubes são roubados faz 100 anos! Por que o Atlético fez o que fez? Porque não roubou. Só. Não deixamos ninguém roubar um fio. O nivelamento é um pseudo nivelamento. Agora vai inverter esse processo, o Flamengo faturou 640 milhões.

JG: Em que prateleira do futebol brasileiro está o Atlético?

MCP: O Atlético bateu no teto. Quando chegamos (à presidência), era o 38o no ranking, era a segunda metade da segunda divisão. Hoje somos nonos do ranking da CBF. Estamos na primeira metade da primeira divisão. Mas bateu no teto. Passar para oitavo, sétimo, sexto, dentro desse establishment… pode esquecer. Faturamos 160 milhões e o Flamengo 640. A hora que ele pagar as contas, pode esquecer. A hora que o Corinthians resolver o problema do estádio dele, esqueça.

JG: Mas a roda da boa gestão não virou ainda para a maioria…

MCP: Mas está virando. Já melhorou muito. Ainda temos um sistema da era Vargas, as leis, a divisão do poder, preservação das competições como estaduais, a convivência do novo com o velho, está retardando isso. A impossibilidade de se criar uma liga, para os clubes terem independência… falar em liga é palavrão. A Globo não vender por todos esses anos a nossa imagem lá para fora, para o mercado internacional. A CBF, a quadrilha, proibir que os clubes tenham espaço para ir lá fora, isso tudo atrofiou nossas marcas e promoveu a seleção, para vender amistosos e camisa amarela. Então esse processo corrupto, com culpa dos dirigentes, atrapalhou muito. O distanciamento do futebol europeu é cada vez maior. Chegou no fundo do poço, mas agora está virando.

JG: Para o Atlético sair deste modelo atual, o futebol precisaria ser mais democrático?

MCP: Precisa ter a visão coletivo, não do individual. A valorização do produto.

JG: É possível isso no Brasil?

MCP: Até 2024, esqueçam, por causa dos contratos de TV. A não ser que aconteça algo novo no mundo, que venha um player que mude tudo, derrube tudo isso. Aposto que vai acontecer… um Facebook entrar nisso e falar 'acabou a brincadeira'. Não vejo ainda acontecendo, mas vejo uma tendência muito forte nesse sentido.

JG: Não foram poucos os momentos de quase ruptura entre clubes e o sistema dominado pela CBF, com o monopólio da TV…

MCP: Do meu tempo para cá, 97 foi a primeira briga. Na primeira vez que briguei com a Globo, eram 10 milhões de dólares para serem divididos entre 24 clubes. Grupo dos que não eram do Clube dos 13 não recebiam nada. Fizemos o Clube dos 12 e vendemos pro SBT por 54 milhões. A Globo de última hora assinou o contrato e…  (palavrão). Houve algum movimento, do Clube dos 12. Depois em 2000, quando a CBF abriu mão do campeonato, quase criamos a Liga. Aí o Clube dos 13 se fortaleceu e, agora, ruptura. Todo o espetáculo é feito para dentro do campo, que a TV vende e o clube não tem acesso. Agora Flamengo e Corinthians começaram a ser mais bem pagos, mas televisão explora isso aqui há 40 anos a preços vis.

JG: Para os que gostamos de futebol e queríamos ver um esporte doméstico mais forte, dá agonia ver como dirigentes do Brasil são incapazes de sentar na mesa e chegar a um acordo que seja mais benéfico para todos, grandes, médios e pequenos.

MCP: Quais são as causas disso? É uma característica de modelo de gestão do futebol brasileiro, instituições sem fins lucrativos, com pessoas eleitas pelos próprios sócios e que não têm visão de médio e longo prazo. Entra o senhor Eduardo (Bandeira de Mello), fica duas gestões e vai embora. Ainda teve sorte que encontrou um grupo que ajudou o Flamengo. Clubes não têm a consciência da força e da capacidade da sua independência. Se têm, são covardes. Não precisamos de ninguém. Governo, Globo, nada, se tivéssemos vontade. Flamengo tem a consciência que vale mais e quanto mais distante for do resto, mais chance ele tem de ganhar. Mas eu pergunto. Você é adversário do Atlético Paranaense ou ou Manchester United ou do Barcelona? Qual é teu nível? Flamengo poderia estar em um nível internacional. Mas precisa entender que o negócio em que ele está inserido precisa crescer como um todo.

JG: Dentro desse cenário de cada um pensando só em si, qual a estratégia do Atlético para conseguir o protagonismo que deseja?

MCP: O Atlético precisa ser protagonista também das mudanças. Nós somos protagonistas em tudo. No campo, é mero efeito. A vinda do Fernando é isso, de mudança de cultura, de mentalidade. É um protagonismo de projeto.

JG: Já que é necessário mudar a estrutura do futebol do país, você não pensa em um dia ser presidente da CBF?

MCP: Não tenho a menor vontade, a menor vocação. Mal me sinto capaz de ser presidente ou presidente do Conselho do Atlético, liderando este projeto. O esporte como um todo é um vetor, é um meio enorme para inclusão social, patriotismo, estudar e envolver as crianças. O Atlético faz isso em um universo pequeno, temos 25 mil alunos em escolinha. Queremos aumentar, ter uma escola por município no Paraná. O esporte usado de forma positiva, aberta, verdadeira, deveria ser uma forma de inclusão social e formação de uma cidadão melhor.

JG: Apesar de todo o avanço estrutural, você não é unanimidade aqui no Atlético. O quanto isso lhe incomoda?

MCP: Feliz do homem que tem a capacidade de gerar ódio e amor. Se fosse só ódio ou só amor, estaria morto nos dois casos.

JG: Um amigo atleticano me pediu para perguntar o seguinte: 'por que o Petraglia acha que está sempre certo'?

MCP: Eu não acho. É uma deformação de visão, um sentimento errado. Eu sou um apaixonado pelas minhas crenças. Eu vim de muito longe, em cima de um caminhão, com oito irmãos, do Rio Grande. E uma das coisas mais fortes que eu tenho de onde cheguei é minha intuição. Jamais tive qualquer sensação de estar sempre certo. O que estou convicto e não abro mão, e nisso ele tem razão, se olhar por esse aspecto, é do projeto. Estou convicto que é possível, que nós podemos ser um dos maiores clubes do mundo. Nisso realmente tenho convicção. Se fizer a coisa certa, e eu sei qual é a fórmula, vamos ser. Não inventei nada. Nada se cria, tudo se copia. É só olhar para fora e trazer.

JG: O Renato Gaúcho tem insistido bastante, ele quer uma estátua pelos serviços prestados ao Grêmio. O Petraglia merece uma estátua?

MCP: Ninguém merece estátua. Não sou favorável a ídolos. O que fica é a obra, não seu autor.

PARTE 2: Em rota de colisão com a torcida, Petraglia não sabe como encher a Arena da Baixada

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