Blog do Júlio Gomes

Técnicos brasileiros e o dilema: dinheiro ou profissionalismo?

Julio Gomes

Dorival Júnior começou o ano com cara de demitido. Ainda não foi. Mas quem duvida que será? Oswaldo de Oliveira começou o ano da mesma forma. E já foi.

E essas demissões ocorrem por causa da imprensa, que fica repetindo esse tipo de coisa? (''está por um fio'', ''é questionado'', ''sofre pressão'', etc…).

Não, estas demissões ocorrem porque o amadorismo é a marca registrada do futebol brasileiro. O amadorismo deveria estar apenas na arquibancada. O torcedor médio, ainda que ache que saiba muito de futebol, porque ele assiste a um monte de jogos e bate suas peladas, sabe pouco do todo que envolve o esporte. E não tem obrigação de saber, não!

O público que vai a um show de qualquer tipo de música não precisa entender de equipamentos, composições, melodias, performances, etc, etc, etc, para gostar ou não de um show. O público não tem que ser profissional. Ele é amador, consumidor, apaixonado.

Então que torcedores estejam o tempo inteiro pedindo demissões de técnicos, chamando de burros, opinando sobre quem tem que jogar, isso é para lá de normal. Até mesmo os organizados são-paulinos irem ao CT na madrugada pedir Luxemburgo pode ser visto como normal.

O que é anormal é que se dê ouvidos.

E aí entramos no amadorismo que permeia o futebol brasileiro. Amadorismo que está na imprensa, sim, na forma de muitos ''jornalistas'' que estudam pouco o jogo, que nunca foram a treinos, nunca fizeram cursos, que acham que entendem de futebol com a mesma base dos torcedores que acham que entendem de futebol. E amadorismo que está nos corpos diretivos dos clubes, que também enxergam futebol como torcedores e que têm pouca ou nenhuma base para tomar as decisões que tomam.

E este amadorismo dos dirigentes é o mais grave de todos.

Talvez o profissionalismo do futebol brasileiro esteja mesmo apenas no campo e nas exceções (entre dirigentes e mídia). O que é muito pouco. E que deixa verdadeiros profissionais à mercê de decisões zero profissionais.

Percebemos a agonia de gente séria, como Dorival Jr, quando percebe que seu trabalho será julgado por quem não tem condições de julgá-lo.

Porééééém, existe um outro lado, certo? Treinadores de futebol aqui no Brasil ganham muito dinheiro. Muito mesmo. E, uma vez que entrem no tal círculo de técnicos de Série A, nunca ficam desempregados. Muitos deles se acomodam nessa situação (que, convenhamos, é bastante cômoda). Treina um time aqui, perde uns jogos, culpa o calendário e a falta de tempo, é demitido, leva uma grana da multa rescisória, vai esquiar em Bariloche, toca o telefone, assume outro time, segue o jogo.

Vimos, ao longo de décadas, treinadores brasileiros irem mundo afora destilar conhecimento e ganhar muito dinheiro. Isso também já acabou. Porque o conhecimento de futebol não é mais exclusividade de brasileiros.

O que não vemos é treinadores brasileiros saírem do Brasil para desbravar os principais mercados do futebol mundial.

Não vemos treinadores, entre os ''consagrados'' daqui, entre os que fazem parte do tal círculo de Série A, saírem do Brasil para pegar times pequenos e médios da Europa. Investir na carreira, fazer cursos de treinamentos, idiomas, de psicologia, aprender culturas.

Não vemos esses caras dispostos a ganhar quatro, cinco, dez vezes menos e irem assumir um Braga, um Belenenses, um Freiburg, um Bologna, um Alavés.

Nestes clubes, não há fama. Não há holofotes. Não há tanto dinheiro. Mas há profissionalismo. O profissionalismo que os técnicos brasileiros tanto cobram aqui. E quem sabe um trabalho de sucesso em um clube menor não pode alçá-los a voos muito maiores? Isso acontece corriqueiramente com treinadores sul-americanos. Pochettino, Pellegrini, Sampaoli e por aí vai.

''Ah, Julio, então os treinadores brasileiros devem desistir de melhorar o futebol brasileiro e apontar os erros?''.

Não estou falando exatamente isso, ainda que este discurso (honesto e real, diga-se) esteja cansando a beleza de todos nós. Mas os treinadores brasileiros mostram-se incapazes de sentar na mesa e chegar, ENTRE ELES, a uma série de regras e códigos que ajude a fomentar o profissionalismo do futebol brasileiro. Porque, como eu já disse mais acima, tem gente que se beneficia muito da dança das cadeiras.

Os treinadores poderiam, como classe, exigir uma série de coisas da CBF e dos clubes. Mas algumas dessas regras significariam um corte na própria carne. E aí ninguém quer…

Então, sim. Vamos considerar que o círculo vicioso do futebol brasileiro é inquebrável. E, neste cenário, os treinadores daqui precisam tomar uma decisão. Fama, dinheiro, possibilidade de títulos, arroz e feijão e camisas pesadas de um lado. Profissionalismo, estabilidade, morar em um apê menor e evolução do outro.

Me espanta como quase 100% da turma prefere a primeira opção. E, se é assim, que seja assim.

Se Dorival for mesmo demitido pelo São Paulo, um clube que virou triturador de técnicos, eu criticarei. Como critico sempre que vejo dirigentes agindo como amadores ou jogando para a torcida. Mas, ao mesmo tempo, direi.

''Vai nessa, Dorival. Mostre para a gente como se faz. Onde te deixarem fazer''.