Blog do Júlio Gomes

Salvem os estaduais! Nosso futebol depende do resgate regional

Julio Gomes

Um grande número de campeonatos estaduais começaram no meio da semana, em todo o Brasil. Ouviremos nas rádios, TVs e leremos em colunas de jornal e blogs que os estaduais não são mais os mesmos, perderam importância, precisam acabar, etc, etc, etc.

Eu vejo de forma diferente. Na minha modestíssima opinião, entre as várias razões para a derrocada do futebol brasileiro nos últimos 20 anos está o sucateamento dos estaduais. E vou explicar.

Primeiramente, é importante deixar claro que os estaduais que eu gostaria que existissem não são esses que estão aí. Com o calendário atual do futebol brasileiro, com os regulamentos mirabolantes e bizarros, feitos para os grandes acabarem ganhando o título e para atender coronéis ou políticos do interior, que batem no peito dizendo que trouxeram os grandes para a cidade.

Com o formato atual do futebol brasileiro, é fato que os estaduais não ajudam em nada os pequenos e estrangulam o calendário dos grandes. Consequentemente, temos campeonatos desinteressantes e o público não é bobo. Não vai ao estádio e nem se importa com os jogos, o que afasta anunciantes.

Os estaduais são fundamentais. Mas precisam ser completamente repensados, e falarei disso mais para frente no post.

Por que, afinal, eu considero os estaduais tão importantes?

Entre outros fatores, o principal, o mais importante, é a formação e revelação de jogadores, técnicos e profissionais do esporte.

O Brasil está perdendo a rodo jogadores jovens para outros mercados. Perde sem que eles joguem por aqui. É por causa do dinheiro? Não só. Um rapaz que joga bola pode, hoje, até ter como sonho definitivo vestir a camisa do Barcelona ou do Real Madrid. Mas, para chegar lá, ele certamente prefere brilhar antes nos clubes grandes daqui do que no Estoril ou na Udinese.

O principal fator é o sucateamento das classes média e baixa do futebol brasileiro. Não é falta de dinheiro. É concentração de dinheiro.

O sistema nacionalizado do futebol brasileiro pode até deixar felizes os torcedores dos grandes clubes, que são a maioria do país. Só que ele essa elitização (que vida existe fora da Série A?) gera um encolhimento do mercado. E faz com que seja muito mais difícil para os próprios grandes clubes garimpar talentos.

Cada vez mais notamos que a cultura esportiva no Brasil vai minguando. E o torcedor de futebol cada vez mais se importa apenas com vitória. É raro encontrarmos identificação com clubes e, principalmente, cidades.

A grande exceção da atualidade é Chapecó.

Imaginem que bacana se tivéssemos dezenas de cidades como Chapecó? Chapecó é uma cidade de mais ou menos 200 mil habitantes. Vou citar aqui 40 cidades com mais de 200 mil habitantes – algumas com clubes de futebol que já tiveram alguma relevância e hoje praticamente desapareceram ou estão sem protagonismo neste futebol nacionalizado:

Criciúma, Araraquara, Marília, Itabuna, Arapiraca, Volta Redonda, Governador Valadares, Santarém, Limeira, Cascavel, Uberaba, Ponta Grossa, Vitória da Conquista, Caruaru, Pelotas, Vitória, Cariacica, Bauru, Anápolis, Piracicaba, Maringá, Campina Grande, Rio Preto, Caxias, Campos dos Goytacazes, Juiz de Fora, Aracaju, Uberlândia, Ribeirão Preto, São José dos Campos, Campo Grande, Cuiabá, João Pessoa, Teresina, Natal, Maceió, São Luís, Manaus, Belém, Brasília.

Alguém dirá que cabe a estas cidades terem clubes organizados e com apoio da própria cidade (população, poder público, empresários locais) para replicar o que faz a Chapecoense.

Pode até ser. Mas aí precisaríamos de uma primeira divisão nacional com quantos clubes? 40? 50? Quem defende esta teoria está disposto a isso?

Sim, é necessário que os clubes se organizem e tenham apoio da própria cidade. Eu acho, imagino, que a população de Manaus adoraria ter um clube bacana e forte para torcer, em vez de ficar torcendo pelo Vasco à distância.

Como fazer, no entanto, para que estas cidades brasileiras tenham a capacidade de bancar e curtir a existência de clubes saudáveis e que atraiam a atenção da própria população? Para começar, precisam ter calendário e motivação.

Vejam, é praticamente impossível, com o modelo atual de Séries A e B com pontos corridos, dinheiro de TV, etc, que estas cidades possam entrar no restrito círculo. Na elite. Impossível, eu diria. A Chapecoense é uma aberração. Não podemos nos pautar por exceções para estabelecer regras.

Nos Estados Unidos, a NBA tem apenas 30 franquias profissionais. Mas o esporte escolar e universitário bem organizado permite que o basquete seja jogado nas estranhas do país inteiro. Permite que quem goste de basquete possa acompanhar os jogos locais, independente de sua cidade ter ou não um time na NBA. Permite que os talentos sejam treinados e apareçam.

Na Alemanha, a Bundesliga tem apenas 36 times, duas ligas. Da terceira para baixo, são ligas regionalizadas, bem cuidadas, organizadas, fomentadas pela Federação Alemã de futebol. É lá que ocorre todo o trabalho de base, de pinçar e trabalhar o talento e o interesse locais. Para que depois esses jogadores passem a jogar nos clubes maiores.

Pensem nos grandes clubes do Brasil, a elite da elite, como franquias da NBA. E pense nos pequenos e médios como as universidades da NCAA.

Tudo bem, o Brasil pode até ter Séries A e B elitizadas. Mas de alguma forma é necessário entrelaçar a terceira divisão com os estaduais.

Os estaduais precisam ser jogados durante o ano inteiro, sempre e somente aos fins de semana. Uma opção de lazer local, nada de jogos na quarta à noite. E precisam, sim senhor, serem subsidiados pela CBF. Afinal, de que serve o caminhão de dinheiro que a CBF ganha com a seleção brasileira (o maior produto do país) se não for para fomentar o esporte no país?

A CBF tem, sim, a obrigação de custear viagens, cursos, treinamentos e prover material esportivo, tecnologia e conhecimento para os pequenos e médios clubes país afora. Para que eles possam fazer toda a varredura de talentos locais, nas escolas inclusive, para que eles possam ter o direito sobre esses jogadores (e não deixá-los nas mãos de empresários), para que eles possam crescer como seres humanos e eventualmente virar jogadores de futebol de alto nível.

Caras que seriam vistos jogando por seus clubes localmente, em torneios estaduais e/ou regionais, e possam então dar o salto para algum clube maior da região ou até a nível nacional, em vez de saírem daqui com 15 anos direto para a Europa – muito mais do que o dinheiro, o que seduz essa molecada é a perspectiva de carreira estável por lá, em detrimento da total bagunça daqui.

Sim, eu sei que muitas das cidades que eu citei acima estão no Estado de São Paulo. Mas é muito bem possível organizar o futebol brasileiro em campeonatos regionais.

Um no Sul (RS, SC e PR), um em SP, um Sudeste (RJ-MG-ES), um no Centro-Oeste, um no Norte, um no Nordeste. Entre seis e oito grandes ''Estaduais''. Ligas semi-profissionais. E abaixo delas, ligas amadoras.

É necessário que esses times joguem o ano inteiro, com calendário, com organização, com regulamentos interessantes e dinâmicos (talvez até pontos corridos, para garantir mesmo calendário e receita). E lá em outubro podem ocorrer ''fases finais'' destes campeonatos. Quem for melhor ao longo do ano, é premiado com o direito de receber os clubes ''grandes'' do país em verdadeiros festivais para estas cidades, que durariam 1 ou 2 meses.

Os grandes não podem ficar jogando com qualquer time do interior, como acontece hoje. Precisa ser com os melhores, com os que fizerem por merecer.

Neste momento de fases finais, em outubro e novembro, os regionais podem até serem ''des-regionalizados'' para virarem fases finais somente estaduais. Quadrangulares em estados menores, talvez hexagonais ou octogonais em estados como SP, RJ, RS, MG, PE, etc. Com regulamentos dinâmicos, em que o pequeno possa enfrentar o grande em sua casa. Com semifinais e finais, grandes momentos para a história. E em uma situação de fim de ano em que todos os clubes grandes do Brasil que não tiverem vencido o Brasileiro ou não estiverem em uma final de Copa do Brasil ou Libertadores darão toda a atenção do mundo à competição local.

O futebol regional é a essência do futebol brasileiro. Nosso futebol nasce, cresce e triunfa de forma regional, não nacional. A rivalidade local impulsiona o interesse pelo esporte. Cria grandes jogos, cria ídolos.

As cidades pequenas e médias do Brasil PRECISAM ter a possibilidade de que seus filhos joguem pela cidade. Joguem por seus primos, familiares, amigos, namoradas. Apareçam. Sejam revelados para o mundo.

Alguns não irão tão longe. Serão veteranos em seus clubes locais. Mas pelo menos terão jogos para disputar o ano todo, salário para receber e sustentar a família, a perspectiva de trabalhar nestes mesmos clubes no futuro, seja em comissões técnicas, área de saúde ou pinçando talentos nas escolas.

O futebol brasileiro é o caos, entre outras coisas, porque só temos olhos para os Flamengos, Corinthians, Palmeiras, Cruzeiros, Grêmios e Bahias da vida. Porque a CBF só acumula dinheiro, sem distribuir riqueza e conhecimento. Nós não sobreviveremos com 10 clubes grandes e outros 15 coadjuvantes, minha gente.

É necessário voltar às origens. Com inteligência, claro, com a perfeita noção de que a economia mudou e os clubes precisam ser colocados em duas prateleiras diferentes.

A Inter de Limeira não mais vai ser campeã paulista em cima do melhor Palmeiras possível para o momento e desesperado atrás de um título. Mas a Inter de Limeira pode perfeitamente jogar o ano inteiro, ter um time decente, um clube que dê orgulho para a cidade, que atraia alguns milhares de pessoas todos os domingos para vê-la jogar contra outros times do interior, que tenha um time recheado de jovens que possam no futuro vestir a camisa da seleção brasileira e levar o nome de Limeira para o mundo e que, de quebra, se triunfar entre os seus no interior, possa sim voltar a enfrentar o Palmeiras por um título paulista, numa grande festa de fim de ano, quando o Palmeiras já tiver cumprido todos os seus compromissos maiores e mais rentáveis na temporada.

Salvem os Estaduais! Estaremos todos salvando a nós mesmos.