Blog do Júlio Gomes

O grande injustiçado na lista de finalistas do prêmio da Fifa

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A Bola de Ouro voltou a ser o que era. Então, sinceramente, o prêmio Fifa volta, para mim, a ser o que era. Um prêmio secundário. Sei que serei minoria no Brasil, um país obcecado por chancelas oficiais de títulos, prêmios e por aí vai.

Independente disso, saltou aos olhos uma gigantesca injustiça. E que, aliás, mostra bem por que o prêmio da Fifa não deve ser levado tão a sério. Os votantes, em sua esmagadora maioria, são pessoas à margem, muito à margem, de onde o futebol é jogado, estudado, conversado. São pessoas que veem jogos pela TV e acabam influenciados pela própria mídia local. Até pelo marketing mundial imposto por grandes marcas.

Não é possível que uma lista dos três melhores técnicos da temporada não tenha Leonardo Jardim, o português de 43 anos de idade que levou o Monaco ao título francês e à semifinal da Champions League (passando, no caminho, pelo time de Guardiola).

São feitos inacreditavelmente mais difíceis de serem atingidos do que, por exemplo, os de Antonio Conte e Massimiliano Allegri, os outros finalistas ao lado de quem será o óbvio vencedor, Zinedine Zidane (e com justiça).

Allegri levou a Juventus a mais um doblete na Itália e à final da Champions. Conte levou o Chelsea ao título da Premier inglesa, tendo a devida folga no calendário por não ter disputado competições europeias. Grandes feitos, grandes trabalhos, palmas para eles.

Mas e o que fez Jardim no Monaco?

Nascido na Venezuela, mas filho de pais portugueses, voltou cedo à terrinha e é um desses exemplos de como o conhecimento teórico do futebol está aprofundado e rendendo grandes frutos em Portugal. Leonardo Jardim não foi jogador de futebol, como tantos outros portugueses de sucesso. Começou como assistente técnico aos 27 anos.

Depois de duas ótimas temporadas no Sporting, foi pescado pelo Monaco em 2014. E, em sua terceira temporada, o time explodiu. A ponto de conquistar um campeonato amplamente dominado pelo Paris Saint-Germain nos últimos quatro anos.

Chegar entre os quatro semifinalistas da Champions pode ser algo fortuito, dependendo da trajetória, dos sorteios, mas as chancelas foram o título francês e o fato de o Monaco ter apresentado uma quantidade de gols absurda na temporada, próxima de Real Madrid e Barcelona.

Mas, mais do que conquistas, já que evito ser um resultadista, o que mais chama a atenção são os frutos que o trabalho de Leonardo Jardim trouxe ao Monaco.

O Monaco vendeu o lateral Mendy e o meia Bernardo Silva ao Manchester City por 107 milhões de euros, o volante Bakayoko ao Chelsea por 40 e, claro, a cereja do bolo, emprestou Mbappé, de 18 anos, ao PSG e receberá 180 milhões de euros por ele no ano que vem.

Mendy, de 23 anos, havia sido comprado por 13 milhões um ano antes, foi embora por 57,5 – mais de 300% de lucro. Bernardo Silva chegara junto com Jardim, por empréstimo. Em janeiro de 2015, o Monaco pagou ao Benfica 15 milhões de euros por ele. Foi vendido por três vezes mais – e o valor pode chegar a 75 milhões com bônus de desempenho. E Bakayoko, que tem a mesma idade que os dois jogadores do City, foi comprado por 8 milhões junto ao Rennes, também chegou junto com Jardim. Foi vendido por cinco vezes mais.

Tem Mbappé, claro, pinçado da base do Monaco e trabalhado dentro do próprio clube. Isso sem contar outros tantos jovens que ainda estão no elenco do Monaco ou que o clube trouxe por preços baixos no mercado. Gente como Lemar, Tielemans…

Esse é o trabalho que mais valorizo em um treinador de futebol: a construção de jogadores. Ainda mais um cara que não tem o respeito imediato da boleirada, por não ter sido jogador. Ninguém passou nem perto de mudar o mapa do futebol europeu como Leonardo Jardim. Seu trabalho pode ter repercussão até mesmo na Copa do Mundo do ano que vem – se a França for campeã, será porque essa turma toda do Monaco foi aproveitada e jogou bem.

Neymar entrou na lista dos três melhores pelo nome que tem. Foi uma temporada de um jogo só. Mas até aí, tudo bem. Cristiano Ronaldo ganhará o prêmio Fifa, a Bola de Ouro, nos votos dos outros jogadores, nos votos entre quem fala português, entre quem não fala, entre homens, entre mulheres, entre quem não viu um jogo sequer, entre quem viu todos. Enfim.