Blog do Júlio Gomes

Árbitro de vídeo é necessário, mas cria risco de tapetão no Brasileiro

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A notícia do dia é essa aqui, assinada pelos ótimos Pedro Ivo Almeida e Rodrigo Mattos. A CBF resolveu antecipar o uso de árbitro de vídeo no Brasileiro, após o gol de Jô no domingo, que deu a vitória ao Corinthians sobre o Vasco. O lance foi irregular e seria facilmente anulado por vídeo.

Eu sou um grande defensor do uso do vídeo no futebol. Mas coisa ainda está engatinhando e há inconsistências.

Não há debate sobre lances de bola entrar ou não e de impedimento. São lances que são ou não são, sem margem de interpretação. Não tem meio gol ou meio impedimento. Se, com o posicionamento de câmeras e tecnologia, for possível cravar o lance, nem precisamos de árbitros para checar o vídeo. É preciso ter a confiabilidade do olho do falcão, do tênis.

Há outros lances bem mais complexos. Há pênaltis claros que árbitros simplesmente não viram e apitariam se tivessem visto. Mas há outros lances que o árbitro viu no campo e tomou uma decisão (de falta ou não falta, vermelho ou não vermelho). E aí? Por que deixar nas mãos de outros dois ou três árbitros, no ar condicionado, vendo o lance em câmera lenta?

Há erros de direito, tipo o cartão equivocadamente dado a Gabriel, do Corinthians, no famoso dérbi do Paulistão. Esses seriam corrigidos com vídeo.

Oito maneiras em que o árbitro de vídeo pode mudar o futebol

Enfim, há muito debate sobre o uso. Quando ele é correto e justo? É preciso de tempo. De dinheiro. De testes. De preferência em campeonatos menores.

Implementar o árbitro de vídeo no meio do Campeonato Brasileiro cria uma inconsistência impressionante. E, possivelmente, jurídica.

Em vários lances, teremos ''justiça'' daqui para frente. Mas e os que ficaram para trás na mesma competição?

O gol irregular de Jô contra o Vasco. Os dois impedimentos mal marcados de Jô, que prejudicaram o Corinthians contra Coritiba e Flamengo. O pênalti escandaloso não dado para o Avaí contra o Vitória, lá na primeira rodada. Bolas que não sabemos se entraram ou não entraram em um par de jogos, como Fluminense x Chapecoense. Tem para todos os gostos, 24 rodadas já foram disputadas, 239 jogos.

Este blog tem feito um levantamento desde o início do campeonato de erros de arbitragem – com a ajuda de especialistas de diversos canais de TV e as próprias análises da CBF. Até agora, foram 46 pênaltis que deveriam ter sido marcados e não foram. Houve 13 pênaltis mal marcados. Gols mal anulados? 9. E outros 13 gols irregulares que acabaram sendo validados.

São muitos erros que ficaram para trás e que poderiam, se houvesse árbitro de vídeo, ter construído uma história diferente do campeonato. Tudo seria diferente.

Nem mesmo na Alemanha, um país ultraorganizado em tudo, o árbitro de vídeo passa ileso. O Colônia quer a anulação do jogo deste fim de semana, em que perdeu por 5 a 0 do Borussia Dortmund.

Imaginem aqui, no país do tapetão, o que acontecerá com uma implementação desse tipo em pleno voo? Haverá argumento jurídico de sobra para quem se sentir prejudicado. Apertem os cintos. Vem bagunça por aí.

Adendo: o Regulamento Geral do Brasileiro meio que cria uma proteção para isso, como podemos ver abaixo. Mas, sinceramente, acho que é uma proteção bastante frouxa.

Art. 77 – O uso de ''AV'' deve ocorrer, a partir do momento em que a Comissão de Arbitragem da CBF apresente condições técnicas e materiais – o que poderá se dar no curso de qualquer das competições que coordena, independentemente de fase.
§ 1º – A CBF não está obrigada a utilizar a tecnologia da arbitragem em todos os jogos da
mesma competição ou da mesma rodada, na medida que depende de condições técnicas e
materiais para fazê-lo.