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A Fifa passa do ponto ao tratar Luis Suárez como um criminoso

Julio Gomes

26/06/2014 15h11

Luis Suárez viajou. Não uma nem duas, mas três vezes. Não se morde ninguém. Nem no campo de futebol nem em lugar algum, ainda que essa pareça ser a primeira agressão que o ser humano saiba cometer (quem tem filho pequeno na escola, sabe).

À parte o que nós, jornalistas, dizemos ou vocês, leitores, torcedores e amantes do futebol, fico com o dizem jogadores e ex-jogadores (quem está ou esteve lá): é um código não escrito. Não se cospe em ninguém. Não se morde ninguém.

Um jogo de futebol é algo muito tenso, a adrenalina fica no alto o tempo inteiro. Muitos não conseguem controlar em vários momentos e essa descarga vira de tudo: um bico na canela, um xingamento, uma cabeçada, uma mordida. Luis Suárez parece ser único nesse sentido, porque realmente não vemos muitas mordidas por aí.

O que eu não entendo é essa capacidade que alguns engravatados têm para diferenciar agressões. Por que a cabeçada de Pepe em Thomas Muller rende um jogo, o cotovelaço pelas costas de Song rende três e a mordida de Suárez, nove?

Porque um é reincidente? Bem, Pepe não tem exatamente um histórico limpo. Porque um lance anterior "provocou" a agressão? Bem, não sabemos o que o "santinho" Chiellini falou ou até mesmo fez a Suárez durante aquele jogo. Porque não "pegou em cheio"? Oras, precisa? Agressão é agressão. No sentido de machucar, a dentada não é das piores. O cotovelaço pelas costas de Song dói mais e é mais perigoso. E é pelas costas.

Ao escolher que uma cabeçada rende um jogo, um cotovelaço rende três e uma mordida rende nove, os homens da Fifa mandam dois recados. O primeiro, que o que Suárez fez não é aceitável em nenhuma circunstância. O segundo, que cabeçadas e cotovelaços são lances que "fazem parte" do futebol. São colocados em uma categoria abaixo da dentada.

Como assim chegamos ao ponto de considerar algumas agressões aceitáveis, outras não?

É essa falta de critério que incomoda. Vemos coisas absurdas no futebol e que não são punidas da mesma forma.

Eu conheço bem a maneira como a imprensa inglesa lida com esse tipo de coisa. Uma mordida não é aceitável. Um carrinho criminoso que rompa ligamentos ou quebre uma perna é tido como lamentável, mas "parte do jogo". Eu não concordo com essa visão. É cultural. Na Inglaterra, uma queda na área na tentativa de ludibriar o árbitro não é aceitável. Na América do Sul, o jogo é mais visto como um jogo de "engano", de "esperteza".

Na Inglaterra, o fato de Luis Suárez ter metido a mão na bola naquele jogo contra Gana, em 2010, é inaceitável. É considerado uma "trapaça". Eu discordo completamente dessa visão. É o último minuto da prorrogação de um jogo de Copa do Mundo. O jogador não está trapaceando, roubando. Ele está metendo a mão na bola para evitar um gol. Ele sabe que será expulso e ele sabe que muito possivelmente o gol sairá do mesmo jeito, mas de pênalti. Só que não saiu e o ato deu certo. Foi Asamoah Gyan quem perdeu o pênalti, não Suárez.

A partir desse momento, Suárez fica marcado. Tudo o que ele faz, fala ou mostra é analisado com lupa. E muito do que ele faz dentro de campo vai contra, conceitualmente, o que se considera correto no país em que ele joga. É óbvio que há má vontade com o cara na Ilha. E isso me parece ter afetado, de alguma forma, a decisão tomada pela Fifa.

Eu não acho correto que jornalistas britânicos tenham sido mal tratados durante a entrevista coletiva de Diego Lugano, em Natal. É um absurdo. Mas será que haveria jornalistas britânicos em Natal se não fosse a mordida? Uma mordida vira algo maior do que o resultado, do que a parte esportiva da Copa do Mundo? Por que não havia ninguém para perguntar sobre a cabeçada de Pepe ou o cotovelaço de Song? Porque são lances "normais" e "aceitáveis"? Nesse sentido, eu entendo o desabafo de Lugano.

Não estou dizendo que concordo. Estou dizendo que compreendo. E é essa visão que o Uruguai leva, a de que a pressão externa, a "perseguição" a Suárez, gerou tal punição.

Acho uma tempestade em copo d'água o que foi feito nos últimos dias. De fato, a mordida não é uma jogada que tira o outro do campo, que tem consequências para o Mundial esportivamente e nem que inspire pessoas a fazerem o mesmo. Não é que estejamos vivendo um momento de mordidas desenfreadas, uma epidemia de dentadas nos campos de futebol. Crianças não precisam ver a punição a Luis Suárez para saberem que não devem morder companheiros de futebol.

Assim que saiu a punição, analisei atentamente o que foi escrito no Twitter. Era nítido como minha timeline "europeia" falava sobre uma punição branda demais. Enquanto minha timeline "sul-americana" reclamava de uma punição exagerada.

É cultural. Eu respeito muito quem considera que seja inaceitável o que fez Luis Suárez, ainda mais por ser a terceira vez que o cara faz isso. Mas a Fifa deveria representar todas as visões que o mundo tem do futebol, e ela acabou representando só uma.

Eu até entendo os quatro meses de punição. Ou seja, vai perder a pré-temporada de seu clube e dois meses da temporada, seja na Inglaterra ou na Espanha. Condizente com a punição pela mordida anterior. Agora… nove jogos internacionais? Não seria normal apenas tirá-lo da Copa do Mundo? A punição de quatro meses já resolveria.

Uma coisa é a punição de dez jogos da Premier League, um campeonato de 38 rodadas. Outra coisa é uma punição de nove jogos no âmbito de seleções, em que são realizadas pouquíssimas partidas oficiais. O que a Fifa fez, de fato, foi tirar Luis Suárez não só da Copa do Mundo, mas também da Copa América do ano que vem. Está certo fazer isso? Privá-lo de jogar um campeonato importante daqui um ano? Para mim, um completo exagero.

Mas nada, nada, nada mais exagerado do que obrigá-lo a abandonar a concentração e proibi-lo de entrar nos estádios. De repente, Suárez se transformou em um criminoso, em um leproso. Como se todos que olhassem para ele fossem sair por aí dando dentadas nos ombros alheios.

O cara já não vai poder jogar a Copa do Mundo! Deixará a seleção dele na mão. Não é dor suficiente? Precisava tirá-lo da concentração do Uruguai?? Não deixá-lo ir ao estádio torcer, mesmo que seja na arquibancada, junto aos seus??

Me parece mais que um exagero. Me parece desumano.

Ou seja, qualquer um aí que comprou ingresso pode ver a Copa. Ninguém precisa mostrar antecedentes criminais para comprar um ingresso de Copa. A arquibancada aceita gente que pode ter sonegado, roubado, batido em mulher, mordido alguém, brigado em estádio, até matado. Mas a arquibancada não aceita Luis Suárez.

Luis Suárez não é um criminoso. É apenas um jogador de futebol que voltou a fazer bobagem, como tantos outros. Deveria ser punido apenas como jogador de futebol, no campo. Não como ser humano, fora dele.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

Sobre o Blog

Este blog fala (muito) de futebol, mas também se aventura em outros esportes e gosta de divagar sobre a vida em nossa e outras sociedades.