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Julio Gomes

Santos e o pior negócio do mundo

Julio Gomes

28/01/2014 19h08

Vamos começar com alguns fatos sobre o caso Neymar-Santos-Barcelona.

Primeiro: é errado dizer que Neymar custou 80 e tantos milhões de euros. Porque, quando falamos de negociações entre clubes por um jogador, falamos do valor pago de um clube a outro. E não colocamos salários e outros bônus no meio. O que o Barcelona paga a Neymar após a assinatura do contrato de trabalho entre eles tem de ficar fora dessa conversa.

Segundo: Neymar pai veio a público dizer que fez um acordo de prioridade com o Barcelona, que depois virou um pagamento de indenização. O acordo foi feito em 2011 e rendeu, à empresa do pai, 40 milhões de euros.

Sendo assim, ao Barcelona a compra de Neymar custou 57 milhões de euros. 40 deles foram pagos ao empresário do jogador, a título de garantia/indenização. E 17 milhões de euros foram pagos ao Santos.

Muito bem.

O artigo 18.3 do regulamento de transferências da Fifa diz o seguinte:

Um clube que pretende firmar um contrato com um profissional deve informar o clube atual do jogador por escrito antes de começar qualquer negociação com ele (atleta). Um profissional só está livre para acertar um contrato com outro clube se o contrato dele com o clube atual estiver encerrado ou se encerrará nos próximos seis meses.

Todos os que trabalhamos e vivemos o futebol conhecemos essa regra. Um clube só negocia com o jogador se o outro clube der permissão ou se faltarem seis meses ou menos para ele estar livre.

Um advogado esportivo dos bons, consultado por este blog, é claro em seu entendimento. "O negócio feito entre Barcelona e Neymar é anômalo, é algo que não vemos. E parece ser um claro recurso para driblar o artigo da Fifa".

É bastante simples: se o Santos não deu autorização para o Barcelona negociar com Neymar ou seus representantes, ele pode ir à Fifa e tem grandes chances de ganhar. Se o Santos autorizou o jogador a fazer o que fez, por escrito, não tem do que reclamar.

E aí, quem tem do que reclamar são seus torcedores.

Neymar levou o clube nas costas em 2011 rumo a uma Libertadores que não via desde a década de 60. Já era o grande nome da seleção brasileira e do futebol brasileiro. Como o próprio pai admitiu, havia muita gente disposta a pagar, em 2011, o valor da multa na época: 45 milhões de euros. O Santos receberia, no mínimo, isso. Se vendesse Neymar em 2011. Vendeu por quase um terço disso dois anos depois, com o jogador mais valorizado ainda.

(Nota: Sim, é verdade que a DIS levaria quase metade dos 45 milhões em 2011, assim como levou quase metade dos 17 milhões no ano passado)

Vamos nos colocar no lugar de LAOR e do Santos em 2011. O jogador queria ficar. É o que dizia na época e é o que diz o pai hoje. Havia, portanto, a possibilidade de segurar Neymar por mais um, dois, três anos e contentar, além da torcida, a TV Globo e outros tantos que não queriam ver Neymar sair do país. Se fossem três anos, ele sairia "de graça" em 2014.

Isso já me pareceu, quando do anúncio em 2011, um verdadeiro absurdo. "Mas o Santos vai ganhar muito dinheiro tendo Neymar. Dinheiro da televisão, aumentar o número de torcedores, lutar por títulos". É o que argumentaram, então, dirigentes e defensores da estratégia.

Eu nunca vi grandes clubes europeus comemorarem um contrato que permitiria a sua maior estrela sair de graça ao final dele. Os clubes estão constantemente renovando contratos e ampliando prazos, justamente para que isso não aconteça de maneira alguma. Ao Santos, parecia uma vitória o simples fato de Neymar ficar. O ônus, pelo discurso de LAOR, seria uma saída de graça em 2014. No entanto, o bônus nesse período seria compensatório.

Aí, já chega uma pergunta crucial. No ano e meio a mais que manteve Neymar (2012 e metade de 2013), será que o clube arrecadou 28 milhões de euros a mais, pela simples presença dele, do que arrecadaria? (45 que eram a cláusula em 2011 menos os 17 que foram efetivamente pagos em 2013). Essa é uma pergunta que os dirigentes santistas precisam responder. Vender o Neymar por 17 em 2013 (ou se ele saísse de graça em 2014) foi mais vantajoso financeiramente do que teria sido vendê-lo em 2011?

(OK, OK, tem a parte da DIS. Podemos baixar de 28 para 15 milhões de euros. A pergunta segue igual. E a resposta, desconfio, também).

Esportivamente, já sabemos a resposta. Não, não foi. Sim, o Santos foi campeão paulista em 2012. E daí? Ao longo do resto do ano, Neymar ficou mais ausente do que presente, por causa da seleção brasileira. E isso era possível de ser previsto pelos dirigentes santistas. Em 2013, jogou outro Paulista. E saiu. O último ano e meio foi esportivamente irrelevante para o clube.

E financeiramente? Aguardamos resposta, se é que ela virá.

Mas voltemos ao contrato. Vamos imaginar, e acho que é o cenário mais provável, que o Santos tenha autorizado Neymar a fechar seu acordo de prioridade com o Barcelona.

Oras, se eu fosse a DIS estaria P da vida. O investidor foi necessário para que o jogador ficasse, pagando salários (com o aporte de dinheiro que fez nos anos anteriores), etc. Foi quem, em resumo, permitiu que Neymar não saísse ainda antes. E aí é deixado no escuro no momento da venda?

Se um PSG ou um City da vida viesse, digamos, no meio de 2012 e oferecesse 200 milhões de euros ao Santos por Neymar. O que aconteceria? Será que o Santos conseguiria fazer a venda? Lógico que não! Afinal, Neymar já estava comprometido com o Barcelona. A partir de 2011, o Santos nunca conseguiria fazer uma venda melhor de Neymar. Teria de vendê-lo (e barato) para o Barcelona, e somente o Barcelona, porque este seria o único clube com quem o jogador toparia negociar.

A DIS, me parece à distância, foi trapaceada nesse negócio todo. E o Santos fez o que podemos chamar de pior negócio do mundo.

Tinha um jogador de 80, 100 milhões de euros em mãos. E vendeu por 17.

Sobre Neymar pai. Elogio a coragem de vir a público falar sobre os contratos. Mas assinou, hoje, uma confissão de falta de ética. Sem contar a falta de transparência sempre que questionados sobre a história, sem contar o fato de Neymar jogar todo um Mundial já acordado com o clube adversário… tem mais. O espírito do artigo 18.3 da Fifa existe exatamente para evitar que jogador e um determinado clube deem balão em outro clube. O balão foi dado.

Agora, só resta saber se o Santos levou o balão com gosto ou sem saber. O silêncio atual nos indica a primeira opção. Sendo a primeira ou a segunda, o torcedor santista pode coçar a cabeça. O clube dele fez o pior negócio que eu já vi no futebol.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

Sobre o Blog

Este blog fala (muito) de futebol, mas também se aventura em outros esportes e gosta de divagar sobre a vida em nossa e outras sociedades.