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E agora, Brasil? E agora, Fifa?

Julio Gomes

27/11/2013 15h39

Tudo é muito recente. E temos que ter cuidado para não falar bobagens e sermos levianos.

O gravíssimo acidente no Itaquerão tem basicamente dois ângulos a serem abordados. Um, a tragédia e as vítimas. O segundo, que é o que dominará o noticiário a partir de agora, a Copa do Mundo.

Em relação aos mortos, eu só posso torcer para que não sejam mártires de famílias destruídas. Não adianta nada fazer uma estátua para eles e que seus dependentes estejam morrendo de fome. Neste momento, me passa muito menos pela cabeça a tal "solidariedade" e, muito mais, saber como essas famílias serão tratadas e indenizadas. Espero que o poder público seja ativo e não deixe que construtora, ou quem quer que seja, se saia à la Palace 2. Enrola, vai pra Justiça, fica 10 anos esperando resposta, faz um acordo vergonhoso e por aí vai.

As famílias destes operários precisam ser indenizadas de forma imediata e contundente. Que a dor das mortes seja aplacada, pelo menos, por uma vida mais digna para os filhos destes homens nas décadas que virão. Palavras são fáceis de serem ditas. Talvez palavras bastem para essas pessoas hoje, no dia da tristeza. Mas e amanhã? E depois? Que os responsáveis sejam isso… responsáveis. É o mínimo.

O segundo ângulo é o da Copa do Mundo.

É importante, ainda que quase impossível (basta clicar em comentários meia hora depois da publicação deste post), dissociar a questão clubística desse assunto. O corintiano está mais preocupado com o Corinthians, com ter o sonhado estádio, do que propriamente com a dinheirama pública e as picaretagens de bastidores. O anti-corintiano está mais preocupado em não ver o Corinthians com um estádio do que propriamente com a dinheirama pública e as picaretagens de bastidores.

Minha posição sempre foi muito clara e independente da questão clubística. Dinheiro público não poderia ter sido colocado em estádios. Dinheiro público tinha que ser usado exclusivamente para obras relacionadas às cidades. O que vemos? Um derramamento de dinheiro público nos estádios, a maioria deles sem estudos sérios de viabilidade, e obras de mobilidade e infraestrutura todas atrasadas ou canceladas.

O Itaquerão, forrado de acordos políticos, isenções fiscais e empréstimo a juro quase zero do BNDES, é um desses exemplos. Me espanta a quantidade de amigos corintianos que estão se lixando para o absurdo do uso de dinheiro público, tudo em nome do time, da paixão. Eu sempre fui contra esta obra, como todas as outras em que o meu dinheiro, o nosso dinheiro, foi usado para beneficiar um grupo específico (seja clube ou empreiteira). Sempre fui favorável à Copa. Mas com donos de estádios cuidando de estádios, dinheiro público sendo usado para o resto, para o que realmente importa e fica para as pessoas.

O que esperar agora? Que a Copa do Mundo não seja a desculpa para que mais 1 bilhãozinho ou 2 bilhõezinhos do nosso dinheiro sejam derramados. Apenas isso. É a construtora que tem que se responsabilizar pelo estrago do Itaquerão, não o poder público. Se isso afetar a Copa, paciência.

O poder público tem a obrigação de investigar. Perícia, laudos, garantias de que nada parecido vá acontecer de novo, que as estruturas não estejam abaladas e por aí vai. Conhecendo a burocracia do nosso país, fosse essa uma obra comum, estaríamos falando de meses e meses e meses de obra parada.

Como sempre, apesar de sabermos que a Copa será aqui há quase uma década, as coisas foram deixadas para a última hora. E, quando se deixa algo para a última hora, perde-se a margem de erro. O erro ocorreu. Foi grande e trágico. E agora?

Como disse. Se as investigações forem feitas de maneira séria e "normal", essa obra ficará embargada por meses e simplesmente não haverá tempo para que o estádio esteja pronto e testado para o Mundial. Não precisa ser engenheiro para saber isso, basta conhecer procedimentos após um acidente fatal como este. Outra coisa é que as investigações e a Justiça sejam atropeladas em nome da Copa. Enterrem os mortos, sumam com o entulho, arrumem uns laudos, batam em alguns repórteres e "vamos embora".

E agora, Brasil? E agora, Fifa? O que será desta vez? O de sempre?

 

Sobre o Autor

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

Sobre o Blog

Este blog fala (muito) de futebol, mas também se aventura em outros esportes e gosta de divagar sobre a vida em nossa e outras sociedades.

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