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Julio Gomes

Os erros de Robinho. Os erros com Robinho

Julio Gomes

12/07/2013 02h13

Passamos os últimos dias lendo notícias sobre a tentativa do Santos em repatriar Robinho. Eu, confesso, achei que tal negócio sairia desde antes mesmo da oficialização da venda de Neymar para o Barcelona. Era óbvio, não era? Vai o maior jogador do clube nos últimos três anos, usa-se o dinheiro para a volta do ídolo anterior, ainda em idade plena para fazer diferença esportiva.

Acabou não acontecendo. Por que? Não há muito mistério aqui. A conta não fechou para uma, duas ou três das partes envolvidas. O Santos argumenta que chegou a um acordo com o Milan, mas Robinho pediu um salário alto demais. E essa justificativa vem se desenhando há dias, pois a mídia nacional, com difícil acesso a Robinho e ao Milan, acaba justamente virando porta-voz do Santos no imbróglio todo.

Desde o início das tratativas, o Santos vem soltando notícias sobre os altos valores pedidos por Robinho, inclusive com números – por sinal, negados taxativamente pela advogada do jogador. Até que, na última quarta, veio o comunicado santista dizendo que não haveria acordo. Na mesma tarde, Luis Álvaro de Oliveira Ribeiro deu uma descontraída entrevista aos amigos do "Na Geral", na Rádio Bandeirantes, e, apesar de ter começado com um simpático "o Robinho é meu amigo pessoal, não posso aqui revelar valores", na frase seguinte ele jogou toda a culpa pelo fracasso nos "altos valores" pedidos pelo jogador. Segundo Laor, o Milan aceitou a pedida do Santos.

Este blog havia falado com Robinho horas antes, notícia estampada pelo UOL e menos repercutida do que eu imaginava, dado que, afinal, estava sendo ouvido o sujeito central de tudo isso. Robinho não aparentava algum tipo de pressa para deixar o Milan e voltar ao Brasil, mas ainda assim disse que, se os clubes se acertassem, o salário não seria um problema. Ontem, em nota, rechaçou a versão santista, atacou e disse ter aceitado ganhar 35% menos do que ganha.

Primeiramente, não vejo problema algum pelo fato de o negócio não ter saído. É lícito que o Santos não considere um investimento seguro, é lícito que o Milan não aceite o dinheiro proposto, é lícito que Robinho não aceite ganhar menos. Você aí, que está lendo, antes de malhar jogador de futebol deveria fazer um auto-exercício: trocaria de emprego para ganhar um terço a menos de dinheiro? Ou metade? Ou 10%?

"Ah, mas esses caras já ganham muito!". "São todos mercenários". "Está pedindo muita grana e já se entupiu de dinheiro!". Esses e outros "argumentos" eu li e ouvi nas últimas horas. Como se tivéssemos o mínimo de direito de julgar uma coisa dessas. É realmente muito fácil falar e julgar os outros, parece que o futebol dá esse direito quando o assunto é dinheiro. Só que não dá – pelo menos eu não me sinto em tal posição e acho que muita gente fala demais antes de refletir.

O Santos é o clube que acaba de negociar Neymar em termos que ninguém sabe quais são. Falou uma coisa, ouviu o Barcelona falar outra totalmente diferente e ainda vê a DIS, o grupo investidor que permitiu a permanência do atleta, ir à Justiça para saber os valores exatos e buscar seus direitos. Transparência ZERO nisso tudo. Tem gente mentindo forte nessa história, e não tem muito jeito de ser o Barcelona.

Eu não sei se o Santos está mentindo ou exagerando no caso Robinho. Mas me espanta a facilidade com que dirigentes de futebol jogam uma torcida contra um dos maiores ídolos da história do clube – um dos dois dos últimos 50 anos. Para um cara que teve a mãe sequestrada e que construiu uma história no Santos, não deve ser fácil ver, de longe, alguns senhores que nunca calçaram chuteiras bradando aos sete ventos que ele ganha um milhão, quer ganhar um milhão ou coisa do tipo. Eu ficaria enfurecido.

Robinho cometeu, a meu ver, dois grandes erros na carreira, ambos relacionados à falta de uma boa condução da mesma. Primeiro, acreditou de verdade que, na Europa, seria questão de tempo até que se transformasse "no melhor do mundo".

Ele brilhou no Brasil na pior década técnica da história do futebol brasileiro, em um momento de abertura do mercado europeu, de moeda (o Real) desvalorizada e de pujança econômica lá na Europa. Nos anos 2000, saía todo mundo antes mesmo de chegar aos times principais aqui no Brasil. Na seleção titular de Felipão hoje, cinco jogadores (meio time) passaram por esse processo na década passada, saindo do país ainda adolescentes. Não jogaram na nossa primeira divisão. Qualquer um que pintasse minimamente bem, no profissional ou na base, já ia embora.

Hoje, há alguns anos, com a maior organização de alguns clubes daqui, mais dinheiro rodando e com a crise brava vivida pela Europa, o futebol brasileiro está se fortalecendo novamente. Dez anos atrás, vivia seu momento mais baixo. E é nesse cenário que Robinho "voa".

Quando chega lá, meu amigo, vê que a história é outra. O nível é outro. E, ainda assim, insiste no discurso. Faltou uma santa alma para orientá-lo a parar com a tal coisa de "ser o melhor do mundo". Colocou um objetivo, individualista e que nenhum jogador deveria ter em esporte coletivo, lá no alto. E aí pagou e paga o preço. Porque nunca foi o melhor do mundo, o que não impede de ter sido muito, muito bom no que faz.

O segundo grande erro de Robinho foi ter saído do Real Madrid. Ele fez três ótimas temporadas no clube, e falo com propriedade porque acompanhei ao vivo, ao pé do gramado, quase metade dos jogos que ele fez. O amigo leitor deve se lembrar que, naqueles anos, a ESPN havia perdido os direitos de transmissão do campeonato e poucos jogos dele foram mostrados/vistos aqui no Brasil – pouca gente sabe até hoje que a operadora Sky tem desde 2006, em sua plataforma, jogos exclusivos da Liga.

Ou seja. Muita gente que fala que Robinho "não fez nada" no Real Madrid pouco viu o que ele jogou no clube. Em três anos, ganhou dois títulos e foi importantíssimo, especialmente no segundo, o de 2007/2008 (para mim, auge de sua carreira veio em 2007). E isso porque passaram quatro técnicos pelo período no Real e teve até troca de presidente, momento conturbadíssimo do clube.

Era um vestiário difícil, já sem Ronaldo e Roberto Carlos e com troca forçada de liderança, com Casillas engolindo Raúl. Naquele verão de 2008, Luiz Felipe Scolari assumiu o Chelsea e escolheu Robinho como a prioridade número um. Era a chance de ir de um grande para outro e jogar com um técnico brasileiro, de quem teria apoio total. Pois é. Só que fizeram tudo errado na época. Forçaram a saída, Robinho e seu staff, de maneira bruta, pouco política, mal educada. Mexeram com o orgulho do Madrid, um clube para lá de orgulhoso. E aí chegou em um ponto em que Robinho não tinha mais clima para ficar no clube e teria de sair para qualquer lugar, menos o Chelsea. Acabou indo parar no Manchester City, e aí a curva ascendente mudou de curso.

Ele ainda achava que poderia ser melhor do mundo. E saía do maior clube do mundo. Dois erros gigantescos.

Ainda assim, Robinho teve anos muito bons com a seleção brasileira entre 2005 e 2010. Fez uma Copa das Confederações espetacular em 2005 e, penso eu, deveria ter sido titular na Copa de 2006 no lugar de um dos dois "gigantões" do ataque de Parreira. Depois, foi o homem mais vezes convocado e que mais jogou na era Dunga, meteu 21 gols naqueles quatro anos (só 1 a menos que Luis Fabiano). Era o principal nome de Dunga ao longo do ciclo, essa que é a verdade. Fez uma enorme Copa América em 2007, na Venezuela, e fez uma muito boa Copa do Mundo de 2010 – marcou um belo gol contra a Holanda no jogo da eliminação.

Pelo que jogou no Santos, depois no Real, depois no Santos de novo, no início no Milan e pela seleção até 2010, me parece que Robinho esteve longe de ser o melhor do mundo. Mas também muito longe de ser esse "fracassado" e "enganador" que muitos pregam. Ele teve uma carreira muito, mas muito melhor do que muita gente fala. São oito anos em clubes relevantes das três ligas de futebol mais importantes do mundo.

E vai completar 30 anos em sua quarta temporada no Milan, um dos maiores clubes da Europa. Foi bem lá? Bom, poucos se lembram, mas ganhou o título italiano (após seis anos de seca do Milan) logo na primeira temporada, sendo o jogador de linha que mais vezes entrou em campo e sendo artilheiro, com os mesmos 14 gols de Ibrahimovic e Pato. Pouco? Não. Muito. Depois, é verdade, perdeu espaço e muitos jogos por lesão nas últimas duas temporadas.

Se Robinho voltasse hoje ou mesmo ano que vem para o futebol brasileiro, teria um impacto muito positivo. No Santos ou onde quer que seja. É um jogador talentoso, que não tem a mesma velocidade de antes, mas que agregou muito na parte tática de seu jogo. Iria fazer a mesma diferença de Neymar? Lógico que não. O torcedor santista esperaria isso? Acho que sim. Equivocadamente, porque não é isso que deveria se esperar dele.

Robinho pisou na bola no passado. Errou em um objetivo ousado que traçou e errou ao deixar o Real. Mas quem pisa na bola agora é o Santos. Não por não trazê-lo, mas por jogar um ídolo aos leões. E erra também quem não dá valor ao que ele fez na carreira e o que ainda poderia fazer aqui no futebol brasileiro.

 

Sobre o Autor

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

Sobre o Blog

Este blog fala (muito) de futebol, mas também se aventura em outros esportes e gosta de divagar sobre a vida em nossa e outras sociedades.