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Final dos sonhos é maior para a Espanha do que para o Brasil, que já "ganhou" a Copa

Julio Gomes

28/06/2013 00h40

Quando morava na Espanha, adorava um programa de futebol que discutia a rodada, tinha entrevistas, falava dos lances polêmicos do fim de semana. O nome do programa? "Maracanã".

Este é o tamanho da idolatria dos espanhóis pelo futebol brasileiro, caso de amor que começou na Copa de 82, lá no território deles. A que talvez tenha sido a última seleção a jogar o mais puro futebol brasileiro definiu, para a Espanha, 31 anos atrás, o que significava jogar um futebol bonito.

A de domingo é a final que todos queriam, que todos querem. Nós e eles. Somente dois países, na história centenária do futebol, foram capazes de aliar duas coisas no mundo das seleções: títulos importantes ao longo de muitos anos e uma maneira de jogar que influenciou outros a tentarem o mesmo. O Brasil do meio do século passado e a Espanha do início deste.

Houve quem influenciasse sem formar dinastias, como a Hungria e a Holanda. Houve quem vencesse sem influenciar, como a Alemanha ou o Brasil do fim do século. O Brasil de Pelé fez o mundo se apaixonar pelo esporte. A Espanha de Xavi e Iniesta criou um domínio inédito em sua era globalizada.

Antes de falar da final, precisamos passar pela semi.

A Itália foi brilhante no primeiro tempo. Em um país onde o futebol é visto de maneira oposta à nossa, em que defender vale mais que atacar, o que Prandelli vem conseguindo é notável. O sistema que parou e confundiu a Espanha tinha três zagueiros e dois jogadores pelos lados do campo, Maggio e Giaccherini, que foram capazes de marcar Pedro e Alba e também atacar. Defender e atacar com volume, o mantra do futebol moderno.

Alba sofria pela esquerda com Maggio atrás, muito mais do que Arbeloa sofria com Giaccherini – este, por sua vez, não atacava tanto, mas matava Pedro. No meio, a Itália deixou quatro jogadores para igualar os quatro da Espanha. Considerando que Silva e Xavi não jogaram bem, o meio ficou italiano. Lá na frente, Gilardino (se fosse Balotelli tudo poderia ser diferente? Poderia. Ou não).

No segundo tempo, a Espanha melhorou quando Navas entrou no lugar de Silva, o que segurou os alas italianos e também Alba, já que Pedro posicionou-se à frente dele e inibiu Maggio. No meio, a Itália seguia com superioridade, mas Pirlo teve uma tarde ruim. O jogo ficou equilibrado, e aí o calor e a umidade fizeram o resto.

(Aqui, um parênteses. Este será um grande problema para muita gente no Mundial do ano que vem. O calor existe em qualquer lugar, mas a umidade dos trópicos é única. Com todo mundo em fim de temporada e horários como o das 13h, jogar em cidades tropicais será um desafio e tanto).

Somente na prorrogação a Espanha ficou perto de ganhar o jogo, foi o resultado de ter desacelerado o ritmo e se poupado. A Itália correu mais, arriscou no primeiro tempo e ficou sem pernas. Mesmo jogando mal, e a Espanha jogou verdadeiramente mal hoje, poderia ter vencido na prorrogação. Seria a repetição do filme da final da Copa, quando sobrou fisicamente contra a Holanda. Vieram os pênaltis, que definitivamente não são loteria, e a classificação, repetindo o que acontecera nas quartas de final da Euro-2008, em Viena.

Pois bem. A Itália mostrou um caminho de como parar a Espanha, mas esse caminho não tem como ser seguido pelo Brasil no domingo. Se quiser COPIAR o sistema de Prandelli, Felipão teria de sacar Hulk e Fred do time, colocando Dante para formar a linha de três atrás e montando a superioridade no meio de campo com Luiz Gustavo, Paulinho, Hernanes e Oscar. Neymar seria o homem de referência na frente. Daniel Alves seria o Maggio para cima de Alba, Marcelo seria o Giaccherini do outro lado.

Ele não vai fazer isso. Não vai porque não treinou assim e também porque possivelmente não daria certo. Os laterais brasileiros não têm a mesma capacidade de marcação, e mesmo o time, como um todo, nunca aprendeu na vida a ter a absurda disciplina tática dos italianos.

Felipão pode botar Hernanes no lugar de Hulk para reforçar o meio. Ou pode manter Hulk, para tentar meter um gol de cara roubando uma bola na frente. Isso importa? Importa. Ganhar importa? Importa. Mas o que importa mesmo é que o Brasil já conseguiu o que queria, o objetivo de Luiz Felipe Scolari está cumprido.

A seleção fez, em um mês, jogos grandes contra Inglaterra, França, Japão, México, Itália, Uruguai e, agora, Espanha. Times fortes, escolas diferentes, climas variados, situações de jogo que dão bagagem. A Copa das Confederações está ganha.

Já vimos que o público vai apoiar o time e não vaiar, como faz por fanfarronice nos amistosos. Já vimos que jogar em casa faz diferença, empurra jogadores. Já vimos que há um time montado, uma variável tática e uma maneira de jogar. Pensem. Talvez o Brasil saísse da Copa das Confederações sem nada disso.

Agora, a cereja no bolo. Será possível medir forças contra a melhor seleção de futebol nos últimos sete anos, a seleção que tomou do Brasil o posto de melhor do mundo.

Talvez a seleção brasileira ganhe a competição. Nesse caso, será importante para a confiança do grupo de jogadores, mas não servirá muito achar que "a Espanha não é de nada", "seguimos sendo os melhores" e por aí. Talvez, a seleção brasileira perca. Nesse caso, haverá um sem número de lições a serem tomadas e será bom para amenizar um clima de festa que pode atrapalhar no ano prévio à Copa.

Para o Brasil e para Scolari, está ótimo de todos os jeitos.

Para a Espanha, não.

Retomo a história do início do post, do programa chamado "Maracanã". O respeito que eles têm pelo Brasil é algo tremendo, é um respeito que o Brasil não tem por ninguém no futebol. Vou tentar fazer uma comparação. Como na época em que Gustavo Kuerten era número um do mundo, todos nos orgulhávamos disso. Mas quando ele iria enfrentar Sampras ou Agassi, sempre vinha aquela coisa de "agora sim, vai pegar o melhor". Ainda que os caras não fossem mais os melhores naquele momento! Mas era o respeito pela história.

O espanhol sente em relação à seleção brasileira o que sentíamos em relação ao Guga antes de jogos contra Sampras ou Agassi. Isso chama-se respeito. Respeito que, repito, o futebol brasileiro não tem por muita gente – a prepotência é nítida na mídia, treinadores, jogadores e torcedores. Criamos um monumento lindo de cinco andares que virou pedestal, de onde todo mundo só olha para baixo. Só que já tem gente lá mais para cima.

"A Itália foi melhor do que nós", disse Del Bosque após o jogo. "Tivemos sorte", falou Casillas. Curioso, para uns soberbos. Não vi ninguém do Brasil falar que o Uruguai foi melhor na quarta-feira. E foi. E nem ninguém dizendo que o Brasil teve sorte. E teve.

Para a Espanha, esse é um dos maiores jogos da história do futebol deles. Do tamanho das finais europeias e de Copa. Porque é contra o Brasil e porque é no Maracanã, um estádio "mítico", como eles gostam de falar.

Enquanto tem gente aqui no Brasil chamando os caras de soberbos, relato que conversei com seis ou sete jogadores da Espanha, ainda lá em Fortaleza. E todos me disseram a mesma coisa: jogar contra o Brasil no Maracanã é um sonho de criança. Não para provar que são os melhores. Mas porque querem se provar contra os melhores. Para eles, os melhores sempre seremos nós. Eles não tomaram o posto, só estão ocupando por um tempo e curtindo pra caramba enquanto dura.

Xavi, ao El País, falou: "Joguei 123 partidas pela seleção e nunca peguei o Brasil! Essa é a maior motivação". Hoje, Piqué, no Twitter: "Jogaremos a final contra o Brasil e no Maracanã. O que mais dá para querer??". Capa do Marca desta sexta: "Jesús, que final!". Brincando com o pênalti anotado por Navas e, ao mesmo tempo, pontuando. Esta é "A" final.

Para o torcedor brasileiro, está claro que virou questão de orgulho ganhar da Espanha e "decretar" que esse futebol "chato" toma pau do nosso. Para Scolari, a final é mais um passo de um processo que precisa estar concluído ano que vem. Para a Espanha, a final é como se fosse o último passo antes da glória definitiva. Ganhar dos melhores no maior estádio de futebol da história, a casa deles. Para a Espanha, isso é mais que um jogo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

Sobre o Blog

Este blog fala (muito) de futebol, mas também se aventura em outros esportes e gosta de divagar sobre a vida em nossa e outras sociedades.