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Julio Gomes

Entenda o Futebol maiúsculo da Espanha em cinco atos

Julio Gomes

17/06/2013 12h10

Será que o brasileiro gosta mesmo de futebol?

Vejam bem, uma coisa é jogar bola. É reunir os amigos, jogar na escola, no playball, na várzea. Outra coisa é gostar de futebol. É assistir, entender, se aprofundar, admirar uma movimentação, não só um drible. Tenho sérias dúvidas. Na verdade, na minha opinião, não, o brasileiro (em geral) não conhece muito e gosta pouco de futebol. Gosta de jogar. Gosta de torcer. Gosta quando seu time ganha. Não passa muito disso. Respira pouco o esporte, o futebol como modalidade esportiva.

Domingo, no Recife, minhas esperanças se renovaram. A Espanha começou o jogo sendo vaiada, houve gritos de "U-ru-guai" ecoando pelo estádio. Pouco a pouco, as vaias foram virando aplausos. A torcida contra virou admiração. O torcedor soube apreciar o que estava vendo.

É que não dá para não gostar. Há um sentimento generalizado (aqui no Brasil, logicamente) de que o jogo da Espanha é "chato", muita gente fala isso nas redes sociais e (que temeridade!) com microfones nas mãos. Como se "legal" e "chato" fossem adjetivos minimamente aceitáveis para uma ANÁLISE de futebol. O grupo de detratores da Espanha pode ser dividido em dois. Um, com gente que acompanha futebol de verdade (não só seu clube) e, de fato, prefere um jogo mais agudo, mais vertical (tipo o da Alemanha). Esses, eu respeito. Respeito mesmo. Mas o grupo maior é de gente com pura inveja mesmo. Inveja pelos resultados recentes, pela identidade, pela Espanha fazer o que o Brasil não faz mais.

Minhas esperanças se renovaram porque a Espanha conquistou corações, domingo, usando somente uma arma: a bola.

Ver futebol ao vivo é muito diferente de ver pela TV, amigos. Ao vivo, no campo, tem-se uma noção muito melhor da velocidade do jogo, da movimentação dos jogadores, da dificuldade para acertar um passe, para trocar milhares de passes com o adversário tentando desesperadamente bloquear as jogadas. Os 40 mil que viram o espetáculo da Espanha foram percebendo tudo isso ao longo do jogo. As vaias viraram aplausos, os gritos de "U-ru-guai" deram lugar aos de "Es-pa-nha", o futebol angariou simpatizantes. Iniesta começou a arrancar suspiros com seu jogo simples e sofisticado ao mesmo tempo. Um craque.

A Espanha está anos-luz à frente de todas as seleções do mundo, exceto a Alemanha – que conseguiu desenvolver um estilo também técnico, que também valoriza a posse de bola, que também pressiona o rival com 11 jogadores, mas busca o gol de forma mais vertical. O resto, está muito atrás dessas duas. Algum outro país pode ganhar a Copa? Claro que sim. Ontem mesmo, tivemos um cheiro dessa coisa linda que se chama futebol. Dominado o jogo inteiro, o Uruguai meteu um gol de falta no fim e fez a Espanha sofrer. Em um jogo, tudo pode acontecer. Mas depende-se muito mais da sorte, de soluções individuais e das arbitragens do que de outra coisa.

Como eu já contei em um post anterior, a ausência de Xabi Alonso fez a Espanha voltar a um esquema ofensivo, com um 9 plantado em frente à área, fazendo o pivô. Abaixo, com algumas imagens que captei na Arena Pernambuco, vamos explorar um pouco como joga essa Espanha, como ela se distribui em campo. Primeiro, a foto. Depois, o comentário. Espero que gostem!

 

IMAGEM 1

Esta imagem número 1 mostra um fluxo de ataque pela direita. Pedro, que tem a bola, abre o campo para aquele lado, enquanto Alba faz o mesmo do lado esquerdo, para espalhar a defesa rival. Na imagem, Fàbregas aparece adiantado, enquanto Soldado se movimenta para a direita do ataque, para dar a opção do passe. Xavi e Iniesta se aproximam pelo meio, Arbeloa se aproxima vindo de trás. A busca é constante por maiorias. Os jogadores se aproximam entre si para dar a opção do passe. Isso só vem com muitos automatismos. A movimentação é natural, porque ela foi aprendida ao longo da vida desses caras.

Ontem, sete titulares eram jogadores do Barcelona, eles foram formados, desde pequenos, a ler o jogo de futebol dessa maneira. Somente com muita teoria, que se aplica na prática, é que se decora uma maneira de jogar tão particular.

 

IMAGEM 2

Esta imagem número 2 está um pouquinho desfocada, perdoem o fotógrafo. Mas vejam quantas informações temos nela. O ataque, agora, acontece pela esquerda. Cesc Fàbregas é o destino do passe de Alba e, antes mesmo de a bola chegar, o pescoço está virado. Ele não está olhando para a bola, ele está olhando para Xavi, buscando a opção já do próximo passe. Iniesta também se aproxima, assim como Sergio Ramos, o que faz a Espanha ter, naquele espaço de 15 metros, cinco jogadores. Maiorias. É um futebol de criação de maiorias o tempo inteiro em campo, até encontrar o passe decisivo para o gol. Pedro, lá no alto, se posiciona pronto para fazer as diagonais que tanto confundem as defesas rivais. E Arbeloa se movimenta para o centro do campo, para formar a linha com Busquets e Piqué, já que Sergio Ramos avançou. Automatismos.

 

IMAGEM 3

A imagem 3 mostra a profundidade que o jogo da Espanha ganha com a presença de Soldado, de um 9 fixo. Contra o Uruguai, jogou Soldado, e jogou bem. Torres e Villa, que fizeram uma temporada inferior à de Soldado, ficaram no banco. Um deles, ou talvez os dois, vai jogar contra o Taiti. Na imagem acima, o campo aberto por Pedro e Alba, as aproximações para criar maiorias e a presença de Soldado mais à frente, prendendo dois zagueiros com ele. Assim, sobra mais espaço para os outros e ficam mais fáceis as infiltrações. A presença do 9 empurra o time rival para trás. É uma solução importante, veremos se Del Bosque vai mantê-la com a volta de Xabi Alonso, na Copa do ano que vem.

Outra coisa que chama a atenção é o posicionamento do time. A linha de trás joga 5 metros à frente da linha do meio do campo. O jogo todo da Espanha acontece em 30 metros, do primeiro ao último homem. Esse encurtamento do campo é muito raro de ser visto no futebol praticado no Brasil.

 

IMAGEM 4

Aqui, uma jogada que dá errado. A Espanha perde a bola, mas imediatamente já busca soluções para recuperá-la. É a pressão, exercida por todos os jogadores. Todos. Não é só aquela marcação "engana bobo", mas uma marcação de verdade, não dando respiro ao adversário. No total, durante todo o primeiro tempo, o Uruguai ficou 6 minutos com a bola. 6 minutos. Parem um pouquinho para pensar nisso. 10 segundos aqui, 15 segundos ali, 4 segundos acolá… 22% de posse de bola para o Uruguai no primeiro tempo. Não jogou, pois. Esse é o passo número 1 do jogo da Espanha, a pressão para recuperar a bola.

 

IMAGEM 5

Mais uma imagem que mostra Pedro e Alba abrindo o campo. Esse é um contra ataque, e Cesc Fàbregas é quem tem a bola. Enquanto Xavi e Iniesta flutuam para os lados, Cesc é um jogador mais vertical e logo busca a associação com Soldado. Exatamente assim, saiu o segundo gol. A escalação de Fàbregas, em vez de Silva, no meio, faz da Espanha um time mais incisivo.

Gostaram do post? Se sim, tentarei fazer o mesmo no jogo do Brasil, quarta, contra o México. Comentem, espalhem por aí, compartilhem! Se ainda não me segue no Twitter, basta clicar em www.twitter.com/juliogomesfilho.

Sobre o Autor

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

Sobre o Blog

Este blog fala (muito) de futebol, mas também se aventura em outros esportes e gosta de divagar sobre a vida em nossa e outras sociedades.