Blog do Júlio Gomes

Diário da Copa: Onde estão os europeus?
Comentários Comente

Julio Gomes

O trem foi longo. O mais longo que já peguei na vida. Foram 17 horas de Samara a Volgogrado. O sacrifício não foi só por causa do futebol. Desde criança, sempre fui um apaixonado pela história da Segunda Guerra. E, por qualquer ângulo que se olhe, Stalingrado está no centro de tudo.

Mas de Stalingrado, hoje Volgogrado, falarei mais amanhã. Hoje, quero contar sobre Howard. Meu novo amigo inglês, que deve estar feliz da vida com o gol de Harry Kane no finalzinho contra a Tunísia.

Conheci Howard, 59 primaveras, quando estava dando uma passeada pelo trem. Um trem antigo, feio, nada a ver com o bonitão que eu tinha pego para ir a Saransk. A terceira classe é uma coisa de louco. São várias “camas” bem perto uma da outra, a galera comendo, dormindo, falando. E um calor danado, porque não tem ar condicionado.

Percebi um homem ali com aquela linda camisa vermelha da Inglaterra e puxei papo. Que papo! Conversamos por mais de três horas. Tempo não era o problema no nosso trem. Falamos sobre tudo. Tudo o que se pode imaginar. Sobre os Ladas do meu irmão, sobre como os russos não usam cinto de segurança, sobre o Brasil de 70, sobre a Inglaterra de 70 (para ele, a melhor de todos os tempos, apesar de não ter chegado longe na Copa), sobre o Chelsea, sobre Mourinho, sobre guerras.

Conversamos por tanto tempo que alguma russa começou a olhar torto ali na terceira classe. “Me deixem dormir!”. Mas ninguém falou nada.

O que me chamou mais a atenção foi o que Howard me falou sobre como os ingleses olham para a Rússia. “Propaganda”. A palavra que ele mais usou. O governo fez de tudo para que as pessoas não viessem para a Rússia. Pintaram o país como um lugar de bandidos e mafiosos. Não vá!

Mas Howard é casado com uma russa. Seus três filhos passaram o inverno em Saratov, cidade da família dela e onde ele embarcou no trem. Medo? Medo do quê? “As pessoas estão perdendo uma chance incrível de conhecer a Rússia! Você está com medo aqui, Julio?”

Não. Claro que não. Mas claramente o terror psicológico pegou. A Europa Ocidental, salvo um ou outro mais apaixonado, não está aqui na Copa. Ingleses, alemães, dinamarqueses… ficaram em casa. Uma pena. Quem veio, está se divertindo. Ainda mais se for inglês.

Leia também no UOL Esporte: Tensão com a Rússia faz europeus jogarem a Copa fora de casa

 

 


CBF joga para a torcida ou não sabe como funciona o VAR
Comentários 5

Julio Gomes

Como deve ser usado o árbitro de vídeo? Qualquer conversa sobre o tema precisa começar com essa explicação. Eu, em meia hora de entrevista de Massimo Bussacca, o suíço chefe da arbitragem, e uma rápida visita ao lugar onde ficam as comissões vendo os jogos, já entendi. Mas, aparentemente, a CBF e outras pessoas do futebol não entenderam – ou fingem que não entenderam.

É assim: o juiz de campo toma as decisões que tomar. Se, em algum momento, a comissão de vídeo perceber alguma coisa clara, que pode não ter sido vista pelo juiz ou pelo bandeirinha, eles avisam. O juiz de campo pode aceitar a opinião de fora cegamente. Ou pode querer rever ali à beira do campo o lance em discussão. E ele, o juiz de campo, toma a decisão final.

Então vamos falar do lance de Brasil x Suíça. O juiz de campo não vê o lance ou não vê falta no lance. Não existe essa de ele ''consultar o VAR'', como muita gente vem dizendo.

Os árbitros de vídeo irão rever a imagem. Se eles virem uma falta clara ali e perceberem que o juiz não viu no campo, cabe a eles a iniciativa de avisar. ''Olha, tem um lance que achamos que pode ser falta dentro da área''. E aí cabe ao árbitro de campo dar a falta ou rever a imagem na lateral do campo.

Mas, se o árbitro de vídeo também interpretar que não houve nada ou então se o árbitro de vídeo perceber que o de campo tinha uma clara visão do lance, ele não tem que falar nada mesmo. Senão o futebol vai virar uma chatice. Play on. Segue o jogo.

Não adianta esperar do árbitro de vídeo uma reinterpretação do que foi definido no campo. Ele só chamará o juiz no rádio para falar de lances muito claros, sem quase nenhuma margem para interpretação.

Inicialmente, achei boa a postura de Tite, normal a dos jogadores e exagerada a dos colegas de imprensa. Mas, depois, a partir do momento em que a CBF resolve reclamar oficialmente sobre o uso do VAR, me parece uma falta de conhecimento sobre o sistema. Ou o famoso ''jogar para a torcida''. Reclamar só para dar satisfação.

Em sua representação, a CBF questiona como foi a comunicação entre os árbitros. O que isso importa? Simplesmente não está sendo aceita uma outra interpretação sobre os lances.

Vocês acharam falta em Miranda? Eu, por exemplo, não achei. Se ele tivesse atacado a bola, aquele empurrão seria suficiente para desestabilizá-lo e ele possivelmente iria ao chão. Mas, estáticos na área, o uso de braços é normal. Eu não daria a falta, e este deve ter sido o mesmo pensamento dos árbitros envolvidos. Respeito quem diz que é falta. É lance de interpretação, não de revisão.

Querem outro exemplo? Os ingleses estão reclamando até mais do que os brasileiros. Ontem, Inglaterra e Tunísia. Eu não daria o pênalti que o colombiano Wilmar Roldán deu para a Tunísia. Mas ele viu o lance e decidiu. Não existe essa de o VAR falar ''olha, não foi, viu''. Não é assim que funciona! A não ser que o árbitro de vídeo veja algo claro, do tipo, ''reveja a imagem, porque o defensor toca na bola antes'', ou algo do tipo, ele não tem nada a fazer. A interpretação do árbitro de campo manda.

Outra coisa são os dois agarrões em Harry Kane na área, lances que o juiz de campo pode não ter visto e, aí sim, cabe ao pessoal do vídeo alertá-lo.

Acredito que a tendência daqui para frente é árbitros marcarem menos coisas – bandeirinhas então, nem se fala. É muito mais simples não marcar e depois ser avisado/rever para marcar. Do que apontar um pênalti e depois desmarcá-lo.

O VAR, e a Fifa deixou isso bem claro, não é uma consulta constante. E não é um debate constante de interpretações por rádio. Ele aparece para ajudar em lances muito claros. Não foi o caso da suposta falta em Miranda e nem nos lances reclamados pelos ingleses.

Segue o jogo!

 

 


Diário da Copa: Sem segredos
Comentários 1

Julio Gomes

Décadas em segredo. Samara, hoje mundialmente conhecida, sede de Copa do Mundo e com o estádio mais bonito que eu já vi, foi uma cidade fechada por décadas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os soviéticos, diante de eminente invasão dos alemães a Moscou, transformaram Samara na segunda capital. Se o pior acontecesse, o governo se mudaria para lá. Tudo estava pronto. Tudo mesmo.

Até mesmo um bunker foi construído para Stalin, 37 metros abaixo da terra – não se sabe se um dia ele colocou os pés lá, afinal, o Exército Vermelho derrotou Hitler.

Após o final da guerra, Samara, que tinha outro nome (Kuibychev), passou a ser uma cidade fechada para estrangeiros. Ninguém poderia entrar – aliás, até hoje há alguns cursos nas universidades russas que são proibidos para estrangeiros, como o que ensina a construir mísseis. É até compreensível, convenhamos.

A abertura e a mudança para o nome antigo só vieram após o colapso da União Soviética. Foi também quando o bunker de Stalin, desconhecido até da população local, foi descoberto.

Para mim, é difícil imaginar uma cidade fechada. O conceito nos é estranho e desconhecido. E eles não gostam muito de falar sobre isso. Elena, a guia que mostra o bunker para os turistas (só em russo, como tudo por aqui), conta que não se lembra de Kuibychev, só da cidade como ela é hoje.

Foi em Samara que Yuri Gagarin passou seus primeiros dias após se transformar no primeiro homem a viajar para o espaço – em um foguete construído em… Samara. Hoje, um pequeno e simpático museu relembra a epopeia e expõe, na porta, um foguete de verdade, 60 metros de altura, dado à cidade para celebrar o feito dos soviéticos.

É uma cidade bonita e feita, alegre e cinza ao mesmo tempo. Podemos encontrar nela várias micro Rússias. A nova, que se abre, a antiga, fechada e secreta.

Por falar em segredo, não deveríamos estar tão surpresos com os tropeços de Brasil, Alemanha e Argentina na estreia. O futebol mudou demais, o equilíbrio é total. Nunca os favoritos foram tão pouco favoritos como hoje em dia.


Diário da Copa: Sorrir e chorar como os peruanos
Comentários Comente

Julio Gomes

Poucos acreditaram quando Saransk, uma pequena e pouco importante cidade de 300 mil habitantes, foi escolhida como sede da Copa do Mundo. Assim como poucos moradores de Saransk, ontem, acreditaram no mar de peruanos que se espalhava pelas belas ruas da cidadezinha.

Nós, brasileiros, até que nos acostumamos rapidamente às marés sul-americanas, que marcaram nossa Copa do Mundo. Mas na Rússia?? Peruanos??

Quando decidi vir a esse jogo, imaginei uma cidade dividida e uma grande confraternização entre alguns milhares de sul-americanos e escandinavos. Nunca imaginei um punhado de dinamarqueses e quase 40 mil peruanos.

Logo na chegada a Saransk, algumas vans, do tipo lotação, começaram a transportar peruanos e mais peruanos para o centro da cidadezinha, que tem uma bela praça, uma linda igreja ortodoxa e não muito mais. Foi quando conheci Dmitri, loiro, olhos azuis, cabelo desarrumado e camisa da Dinamarca. Comecei logo a falar inglês, ele respondeu, conversamos. E não é que o Dmitri de dinamarquês não tinha nada?

Virou fã quando aquele time de Laudrup fez o que fez na metade dos anos 80. Lembram da Dinamáquina?

Pois bem. Três horas depois, Dmitri me perguntava. Será que algum peruano topa trocar a camisa comigo?? Estava absolutamente encantado com o que estava vendo nas ruas de Saransk.

Esta é minha quinta Copa do Mundo. Eu não me lembro de ter visto um jogo com um ambiente como este. Nem os da Alemanha em 2006 nem os da África em 2010 e muito menos os do Brasil em 2014. Os peruanos não estavam apenas torcendo. Foi uma comoção. Um êxtase total e absoluto.

“Como no te voy a querer, como no te voy a querer, si eres mi Peru querido, mi país bendito, que me vió nascer”.

Durante o hino peruano, me arrepio só de escrever, o estádio cantou. A ótima acústica ajudou. Um peruano a poucos metros de mim chorava como um bebê. Aos prantos. Chorei também. O futebol segue me emocionando e é por essas coisas que eu pego 200 trens, fico sem comer nem dormir, ando horas para chegar aos estádios.

No fim, tudo se resume a isso. As pessoas. A emoção de cada um. Nem Cueva conseguiu estragar esse dia. O Peru mudou Saransk para sempre.

 


Diário da Copa: no trem com Dmitri, Andriy e Ronaldo
Comentários Comente

Julio Gomes

Primeiro, me senti como se fosse em um filme daqueles antigos, de espiões. Estação de trem. Uma praça escura. Um pequeno lance de escadas leva à plataforma. Também escura. Sai fumaça da parte de cima de um dos vagões. Não está frio nem calor. Em frente a cada uma das portas, uma mulher. Todas vestidas com o uniforme verde escuro da companhia de trens russa.

Encontro meu vagão. ''Passport''. Eu pego o passaporte, esboço um sorriso, que não tem retribuição. Fico pensando se não tenho nenhum microchip na mochila, algo que me faça ser preso e levado ao interrogatório numa salinha da estação, com um comandante soviético fumando cigarro atrás da mesa. Enquanto penso na bobagem, levo uma bronca. Tipo, ''vai entrar ou não vai?''. Entro.

Minha cabine tem quatro camas. A minha é a 27. Fica na parte de baixo, ainda bem. Do outro lado, um senhor de bigode acena com a cabeça e continua fazendo o que estava fazendo no celular.

Saio, percorro o corredor e vejo dois russos assistindo ao Portugal x Espanha no celular. É verdade! O jogo! Eu havia visto só o primeiro tempo. Quando passo pela cabine, Diego Costa empata a partida. Pergunto se posso assistir com eles. Falo logo que sou do Brasil.

Aí sim, sorriso no rosto. Dmitri e Andriy viraram meus melhores amigos por meia hora. Torcedores do Krylia Sovetov, time de Samara, estão indo para o mesmo lugar que eu. Saransk, para o jogo entre Peru e Dinamarca.

Dmitri fala um pouquinho melhor o inglês. Conversamos de Tite, de Samara, do Rio de Janeiro, de Lopetegui e, claro de Cristiano Ronaldo. A história não é nova, mas é incrível a capacidade que o futebol tem de produzir amizades, ainda que efêmeras.

Último minuto, falta para Portugal. Eu já sei o que vai acontecer. Eles, acho, também sabiam. Todo mundo sabia. Cristiano é o maior e melhor atacante que já vi jogar.

Andriy aplaude, Dmitri cerra os punhos. Eu arranho meu russo. ''Ôtchin haraxó!''. Ele é muito bom! Andriy me pergunta. ''Como se fala muito bom em português?''. Cristiano Ronaldo? Não, ele não é muito bom. Ele é gênio. É a palavra que me vem na cabeça. Gênio, Andriy.

Nos despedimos, volto para minha cabine. O senhor de bigode já está dormindo. Ele não ronca, ainda bem.


Empate foi castigo exagerado. Argentina mereceu a vitória
Comentários 3

Julio Gomes

Esse empate entre Argentina e Islândia estava mais do que cantado. Não era óbvio? A seleção poderosa em crise, a seleção poderosa que adora dar essas bobeadas, contra a seleção candidata a Cinderela da Copa e que tem conseguido sempre incomodar os maiores.

No entanto, o empate não foi o resultado justo para a partida. A Argentina foi muito superior, especialmente no segundo tempo. Não teve só uma posse de bola bizarramente maior, acima de 70%, mas transformou essa posse em chances. A bola não entrou porque não quis entrar.

E, creio, será a tônica para esta seleção. Está claro que as coisas não andam bem. O espírito é negativo, é um time que transmite insegurança. E, quando as coisas não andam bem, a bola resiste.

A melhor chance, claro, veio no pênalti perdido por Messi – pênalti inexistente, na minha opinião. Poucos minutos depois, no entanto, árbitros de campo e vídeo deixaram de marcar uma penalidade clara em Pavón. Elas por elas. Não dá para reclamar da sorte quando teu melhor jogador desperdiça uma chance assim.

Como também não para reclamar de falta de vontade. O time quis, tentou de todos os jeitos e até o fim. Nunca se acomodou nem teve medo. Essa é a boa notícia para os argentinos.

A má é que tem agora uma final contra a Croácia, uma seleção capaz de tudo – do melhor e do pior.


Quando um homem só vale tanto quanto um timaço
Comentários Comente

Julio Gomes

O que mais falar de Cristiano Ronaldo? Ainda tem gente que consegue encontrar defeitos. Eu não consigo. Só vejo qualidades. O maior atacante que já vimos é o homem da Copa, que ainda mal começou. Pelo menos por enquanto.

Cristiano fez tudo sozinho nos 3 a 3 entre Portugal e Espanha. Jogo dentro do script – surpresa, talvez, o alto número de gols.

A Espanha com posse e controle, Portugal com organização, vontade e Ronaldo. Os espanhóis mostraram coração, não parece ser um time afetado mentalmente pela demissão de Julen Lopetegui anteontem. A única crítica é o modo como o time parou após o 3 a 2.

Relaxou demais. É verdade que, com o placar a favor e depois de remar tanto para chegar à virada, o jogo mudaria. Mas ainda faltava muito tempo para a Espanha sentar em cima do placar. E do outro lado tem um tal Ronaldo.

Portugal não é um timeco. É o campeão da Europa, oras. Alguma chance teria. E teve. E fez.

Para a Espanha, fica uma boa notícia. O time é bom, continua bom e não parece ter derretido pela crise extra-campo. Para Portugal, fica um empate com sabor de vitória. E uma preocupação. O time produziu muito pouco quando esteve atrás do placar.

Contra Irã e Marrocos, o jogo será assim. Será de Portugal a responsabilidade de atacar, de fazer o jogo acontecer.

Cristiano Ronaldo faz Portugal chegar ao nível de um timaço, como a Espanha. Não é pouca coisa.


Diário da Copa: Os Milagres da Rússia
Comentários Comente

Julio Gomes

O plano era um só. Assistir ao jogo da Rússia na Rússia. Tanto se falou do desinteresse, da falta de clima de copa, de uma Rússia gelada e distante do mundial. E na hora H? Seria assim?

Cheguei em Samara em cima da hora. A viagem foi mais longa do que eu pensava e queria. Cheguei no hotel, reservado havia meses (Santa internet), 10 minutos antes do jogo.

E agora?

Rapidamente deixei as coisas no hotel, troquei de roupa e chamei um táxi pelo celular (Santa internet).

Para onde ir? Eu não sabia. Não havia tido tempo de pesquisar. Entrei no táxi. Fiquei na dúvida se o rapaz era maior de 18. Devo ser eu ficando velho.

English? No. Eu já pergunto só por perguntar. Ainda mais em Samara. Jogo rolando. Já estava 1 a 0 e eu estava aflito. Ainda mais porque achei que não haveria trânsito em Samara na hora do jogo. Que nada! Cheio de carro e gente na rua. Imaginem o Brasil estreando numa copa em casa. Bem, nem é preciso imaginar, é só voltar quatro anos no tempo. Ruas vazias. Copa do mundo!

Primeiro pensamento. Ninguém tá dando bola para isso aqui. Maxim. Maxim era o nome dele. Maxim? E agora? Rãssía. Match. Championat mira (já aprendi como se fala copa do mundo em russo).

Da. Sim. Já percebi uma coisa por aqui. Tem uma galera que entende ingles, mas não fala. É sempre um desafio sair falando, eu sei que é. Maxim entendia o que eu falava. E, o principal, entendia o que eu queria.

Lá vamos nós. Maxim não só me leva até o bar onde a torcida do krylia sovetov assiste aos jogos. Ele também entra junto. Que craque!

Quando eu cheguei, já estava 2 a 0. Ambiente relaxado. Mas não contagiante. Aí já nem acho que tem a ver com interesse ou não. Tem a ver com jeito de ser. Nós somos como somos. Russos são diferentes. Gesticulam menos, são menos expressivos. Isso não quer dizer que não sintam ou não gostem.

Bem, frieza nenhuma resiste a quarto e quinto gols no final. O bar inteiro se abraçava. já passamos para a etapa do contagiante. Fiz o famoso “toca aqui” com dois ou três russos.

Maxim pede o meu celular emprestado e escreve: “чудо”. Chudo. Milagre.

É isso aí, maxim. Milagres acontecem!


Demissão de técnico espanhol é burra e vergonhosa
Comentários 27

Julio Gomes

A decisão do presidente da Federação Espanhola, Luis Rubiales, é inacreditável. Algumas horas depois da demissão do técnico Julen Lopetegui, ainda é difícil engolir que um dirigente tenha ido tão longe por uma questão de ego.

Porque é isso, nada mais. Ele pode dar a série de argumentos que quiser, pode contar o conto que quiser. Lopetegui foi demitido porque um cartola se sentiu #chateado por ter sido o último a saber da negociação com o Real Madrid.

Vejam, não tiro culpa do Real Madrid e de Lopetegui. As duas partes foram de uma insensibilidade incrível. Não custava ter falado com os jogadores, com a Federação, terem feito um comunicado conjuntos, etc, etc, etc.

Lembro-me, porque vivi de perto, dos casos envolvendo Luiz Felipe Scolari quando era técnico de Portugal. Convidado pelo Benfica antes da Euro-2004, pela Inglaterra antes da Copa-2006, pelo Chelsea antes da Euro-2008. Nos dois primeiros casos, Felipão não aceitou nem conversar. Na terceira vez, até para o cavalo selado não ir embora de novo, conversou com a Federação antes e só então se sentou para fechar com o Chelsea.

Sem dúvida, faltou tudo para o Real e para Lopetegui. A começar por inteligência. Não é a mesma coisa um técnico de qualquer outro país ser anunciado pelo Real Madrid ou o técnico da Espanha ser anunciado pelo Real Madrid – uma seleção que demorou décadas para superar as diferenças regionais e criar uma espécie de união nacional.

Agora, o presidente da Federação não está lá para ficar melindrado. Ele está lá para fazer o melhor possível para que sua seleção chegue o mais longe possível. Uma pergunta seca para o tal Rubiales: as chances da Espanha aumentam ou diminuem com a demissão de Lopetegui?

Não há debate sobre esta resposta. O presidente da Federação diminuiu as chances espanholas. Criou um clima de instabilidade a um dia do início do Mundial, indo contra a opinião de vários jogadores, incluindo seu capitão. O próprio Fernando Hierro, com uma carreira insignificante de técnico, mostrou seu descontentamento enquanto era anunciado como o novo comandante para a Copa.

Além disso, a Espanha virou chacota mundial. O que tampouco é missão de um dirigente. Fazer seu país passar vergonha.

O que esperar da Espanha? Bem, a principal torcida é para que Hierro tenha prestado bem atenção nas conversas, estudos e decisões de Lopetegui. Porque ele terá de seguir todas elas. Não há como mudar um trabalho que é bem feito e vem dando certo.

Torcer também para que nenhum jogador fique a tal ponto irritado com a Federação que não produza o que deveria ou poderia produzir. E, claro, torcer para que Hierro não tenha de tomar grandes decisões durante os jogos. Grandes mudanças táticas, lesões, essas coisas.

Pior: os jogadores mais experientes do elenco, gente como Sergio Ramos, Piqué, Iniesta ou Busquets, não têm o menor perfil de serem o ''técnico em campo''. Cada um tem suas qualidades, mas nenhum deles é Xavi.

Difícil imaginar que todas essas estrelas irão se alinhar. No meu ponto de vista, a Espanha cai da primeira prateleira de favoritos para a segunda.

Se for campeã, será a primeira campeã sem técnico da história – comprovaria a tese de supervalorização do cargo de muita gente. Os outros treinadores do mundo devem estar com a barba de molho…


Argentina não aprende a lição: os malas sempre se dão mal na Copa
Comentários 39

Julio Gomes

Para torcedores e jornalistas, ir ao quartel general da Argentina na Copa é castigo, não é prazer. Os argentinos se isolaram no vilarejo de Bronnitsy. Não é apenas longe de Moscou, é longe de qualquer estação de transporte público (e olha que os trens chegam a qualquer lugar na área da capital russa). Até aí, tudo bem. A seleção argentina tem de pensar no que é melhor para ela esportivamente.

A guerra da seleção com a imprensa é conhecida. Mas será que as condições de trabalho precisavam ser tão precárias? Será que era necessário deixar de fora do tal treino público uma quantidade razoável de jornalistas (quase todos asiáticos, não amigos do assessor de imprensa argentino)? Será que era necessário estabelecer contato zero (nada de entrevistas, nem mesmo as chatíssimas coletivas)?

Tudo isso ainda seria relativamente compreensível se houvesse uma relação próxima da seleção argentina com seu público, com seu torcedor. OK, não precisamos da imprensa. Porém… não é o caso. O distanciamento é flagrante. E ficou comprovado com o descaso da Argentina com seu público no treino ''público'' de ontem, apenas para russos (na foto abaixo, a turma que ficou de fora).

Esta é minha quinta Copa do Mundo. E tive a sorte de, de alguma maneira, ter visto e sentido de perto o ambiente das quatro seleções campeãs dos Mundiais que cobri.

Em 2002, a seleção brasileira era a mais aberta da história moderna. A família Scolari abraçava todo mundo. Os jogadores davam entrevistas todos os dias, se encontravam com jornalistas e torcedores no lobby dos hotéis, andaram até de trem – sem aquele isolamento completo na plataforma ou no vagão.

Em 2006, a Itália recebia todo mundo em sua Casa Azzurra perto de Dortmund. Tinha comida (da melhor), vinho e, claro, o que importa, respeito e acesso aos jogadores e comissão técnica. Em 2010, a Espanha na África também vivia um ambiente relaxado. Em 2014, a Alemanha fez o que fez na Bahia. Sempre ambientes positivos, para cima. De confiança e boa convivência.

Em nenhum dos quatro Mundiais eu encontrei tal ambiente na seleção argentina. Nenhum. Sempre uma atitude muito negativa entre jogadores, comissão técnica e dirigentes e o entorno que os rodeia. Eu não tenho nada contra argentinos e a Argentina. Pelo contrário. Não faço parte do medíocre time dos que tentam criar esse ódio entre nós e eles.

Mas é inegável o mau humor. Os caras são malas no ambiente seleção. A exceção, claro, sempre foi o estádio, onde o torcedor argentino de Copa do Mundo é, disparado, o melhor que tem. Aqui na Rússia, certamente empurrará sua seleção de novo.

Só não sei se ela merece.

Nas quatro Copas e duas Euros que vi de perto, as seleções malas – me lembro também da França-2006, da Inglaterra sempre, do Brasil-2010, entre outras, sempre acabam se dando mal. Sempre. E as seleções que mantêm ambiente positivo, com seus seguidores e jornalistas, sempre se dão bem.

Claro, porque o que vemos pessoalmente é apenas um cheiro do que deve estar acontecendo lá dentro dessas seleções – descontração, pensamento positivo, boas vibrações. E também nunca é bom deixar tanta gente irritada, né? Começa a rolar torcida contra, vudu, essas coisas.

A Argentina tem grupo difícil, cruzamento difícil, time que não está pronto, melhor jogador falando em aposentadoria, técnico que vai sair e não tem confiança de ninguém, relação de guerra com quem a rodeia. A receita perfeita do fracasso.