Blog do Júlio Gomes

Milagres de De Gea mostram: é a hora do United
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Julio Gomes

Desde que Mourinho levou um pé no traseiro e Solskjaer, ídolo histórico, assumiu o Manchester United, o time só ganhou. São seis de seis, feito inédito para um treinador estreante no clube.

Hoje, era a prova de fogo. O primeiro jogo grande com o norueguês no banco, clássico contra o Tottenham, em Londres. E o Manchester United ganhou mais uma, 1 a 0.

A atuação do goleiro espanhol De Gea é para entrar para a história. No segundo tempo, ele simplesmente fechou o gol, fazendo meia dúzia de defesas extraordinárias. Não foram defesas triviais, foram milagres à queima-roupa (no total, foram 11 paradas).

Depois de um primeiro tempo equilibrado, em que o United foi melhor no início e achou o gol já no finalzinho, o segundo tempo foi de um time só. O Tottenham dominou completamente a partida e foi acumulando chances de gol, parando sempre em De Gea. Mais um jogo fantástico da Premier, com muito ritmo e de prender o fôlego.

O United, de time carrancudo, chato de ver, de mal com a vida sob Mourinho, virou aquele time estrelado, quando tudo dá certo. O jogo deste domingo é o exemplo perfeito.

E ninguém quer enfrentar times iluminados, certo? Impossível não pensar no duelo entre Paris Saint-Germain e Manchester United, pelas oitavas da Champions, em fevereiro.

Na Premier, o United já alcançou a pontuação do Arsenal e está a seis do Chelsea, a sete do Tottenham. Difícil imaginar que não invada o G4 logo logo. Brigar pelo título é impossível, devido à distância para o Liverpool. Mas, no mata-mata… de repente, o gigante adormecido acordou.


Vexame do PSG é valioso ou sinal de coisas piores?
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Julio Gomes

Para quem não viu, o Paris Saint-Germain deu um vexame ao ser eliminado da Copa da Liga Francesa, quarta, pelo ''poderoso'' Guingamp, lanterna da Ligue 1.

É isso aí. No Campeonato Francês, o PSG tem 47 pontos, com 15 vitórias e 2 empates em 17 jogos. O Guingamp tem 11 pontos, com 2 vitórias em 18 jogos. E o detalhe: a vitória do Guingamp na quarta, de virada, foi conseguida no Parque dos Príncipes.

Foi somente a segunda derrota do PSG na temporada – a outra havia sido para o Liverpool, pela Champions League.

A eliminação chama a atenção por vários motivos. O PSG ganhou as últimas cinco Copas da Liga da França. Ganhou as últimas quatro Copas da França. E ganhará daqui a alguns meses o sexto título da Ligue 1, o Campeonato Francês, sem sete anos. Desde que o dinheiro do Qatar começou a ser injetado, o clube virou dominante no cenário nacional.

Dominante de verdade. Tirando um ano bom do Monaco, na temporada retrasada, o PSG nunca foi sequer ameaçado.

Para piorar tudo, apesar de a Copa da Liga ser a competição menos importante do ano, o PSG que perdeu do Guingamp tinha em campo o time titular. Thiago Silva, Di María, Neymar, Mbappé… a turma toda. Isso é o que chamou mais a atenção.

O que podemos tirar dessa derrota?

Só o tempo nos dirá.

O grande objetivo do PSG é a Champions League, o investimento todo foi feito para o clube conquistar a Europa. Nos últimos anos, a impressão é que a Europa não era conquistada, entre outros motivos, pela falta de competitividade no futebol doméstico.

A primeira fase da Champions atual já mostrou isso. O PSG ficou a um fio de ser eliminado já na fase de grupos, perdeu contra o Liverpool e deu sorte de sair vivo com dois empates contra o Napoli. Jogos que se intercalaram com goleadas fáceis no futebol ''de casa''.

Talvez essa mesma falta de competitividade e a rotina de vitórias fáceis tenha levado ao vexame desta semana.

Ou talvez não. Talvez na hora H a gente descubra que o PSG nunca chegou a encaixar como time para os duelos grandes de verdade. No dia 12 de fevereiro, o PSG viaja a Manchester para enfrentar o United pela ida das oitavas de final.

Desde que Mourinho foi demitido e Solskjaer assumiu, o United ganhou cinco de cinco, com 16 gols marcados. Um reencontro total com a torcida e com o futebol. É um dos times mais quentes da Europa, e os confrontos contra Tottenham e Arsenal, em Londres, ainda neste mês de janeiro, darão pistas mais sólidas sobre este ''novo'' time.

Será que a derrota para o Guingamp é apenas o presságio do desastre? Ou será que servirá como toque de atenção para o Paris jogar todas as partidas com a devida e necessária seriedade?

Quando saiu o sorteio das oitavas da Champions, não havia muitas razões para o PSG para se preocupar. Agora, há duas. O United. E o próprio Paris.

 


Flamengo fica mais forte, mas ainda precisa de muito mais
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Julio Gomes

Chegam De Arrascaeta e Gabigol. Um tem 24 anos, o outro, 22. Ambos talentosos. Não dá para negar que o Flamengo é mais forte com os dois do que sem os dois.

Ambos são jogadores de muita velocidade, letais em um futebol de transição rápida, ambos bons finalizadores de jogadas. Só a chegada deles já nos dá a indicação de que o Flamengo-2019 será um time de mais velocidade e menos nhém nhém nhém.

A posse de bola, ainda mais uma posse estática, já está virando coisa do passado no futebol. Tudo é muito dinâmico.

Mas De Arracaeta e Gabigol, por mais que tragam impacto e que sejam jogadores para muitos anos, não resolvem os pepinos principais do Flamengo, principalmente se compararmos com o Palmeiras. Porque é isso, não adianta olhar para o Flamengo no contexto geral do futebol brasileiro. É preciso olhar no contexto dessa disputa específica.

Flamengo e Palmeiras são os mais ricos, são os donos do dinheiro, são os clubes de elenco mais farto e que começam o ano, de novo, como favoritos a tudo. Logo, muita coisa pode acontecer. Há outros times promissores, como São Paulo e Corinthians, e há outros que mantém certa qualidade, como Grêmio, Inter, Cruzeiro e Atlético-MG.

Só o fato de o Fla ter tirado de um adversário direto, o Cruzeiro, um jogador como o uruguaio, já mostra esse domínio de mercado.

Pois bem, se nos atermos à comparação Flamengo-Palmeiras, é fácil notar que o setor defensivo flamenguista é muito inferior (zagueiros/laterais/volantes). Contratar Dedé teria sido mais importante do que De Arrascaeta e Gabigol. Rodrigo Caio é uma incógnita.

Tem mais. Gabigol é um exemplar perfeito da geração de mimadinhos que acham que são mais do que são e que estão acima do bem e do mal. Fechou as portas na Europa por isso, não por falta de talento. Para o Brasil, no entanto, é bom o suficiente e bajulado o suficiente para funcionar.

Com Cuca, entrou na linha e ajudou o Santos. Abel tem o perfil parecido, de treinador mais velho, com história e que será respeitado. Essa relação Abel-Gabriel precisa dar certo para o Flamengo, senão terá sido um investimento caro e de pouco resultado.

Parece faltam a Abel a figura (ou as figuras) de líder do elenco. Aquilo que eram Deco, Fred e outros no Fluminense campeão. Aquilo que são Felipe Melo, Prass e outros no Palmeiras de Felipão. O Flamengo está investindo no talento, mas construção de elenco vencedor passa por mais do que isso.

Enfim, a torcida do Flamengo deve e pode estar feliz. Mas há muitos mais problemas para serem atacados. Senão, vai continuar só no cheirinho.


Não tem santo no caso Arrascaeta-Flamengo-Cruzeiro
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Julio Gomes

Tomar partido é tentador. O torcedor do Flamengo e De Arrascaeta dirão que o jogador tem direito de decidir seu destino. Ninguém pode tirar a razão. O Cruzeiro dirá que o jogador falta com o profissionalismo ao forçar a saída e faltar a treinos. Ninguém pode tirar a razão.

Tomar partido, repito, é tentador. E a nós, jornalistas, é exigido isso aí. No mundo de hoje em dia, é necessário tomar partido. Estar deste ou daquele lado. Eu não caio nessa.

O caso De Arrascaeta é similar a tantos outros na história do futebol. Novidade zero.

É possível que em alguns casos o jogador tenha tido a razão, tenha sido sufocado pelo clube que era seu ''dono''. É possível também que em alguns casos o clube tenha tido a razão.

Exemplo recente? Philippe Coutinho no Liverpool. Perdeu jogos importantes do clube alegando lesão para, dias depois, aparecer jogando pela seleção brasileira. O castigo? Precisou esperar seis meses para, enfim, ser negociado com o Barcelona. O Liverpool fez o que lhe cabia, não permitiu que o jogador se mostrasse maior que a instituição. Bateu o pé. Coutinho, diga-se, cumpriu sua parte e jogou bem nestes meses que separaram as investidas do Barça (estamos falando do segundo semestre de 2017).

A Fifa proíbe clubes de assediarem jogadores justamente por causa disso. Só é possível negociar com um jogador quando ele está a seis meses do fim do contrato. Antes disso, é necessário que a conversa seja clube-clube. Depois de um acordo, fala-se com o jogador.

Mas a vida real, especialmente no Brasil, é diferente. A lei da Fifa não ''pegou'' aqui, e não é a única. Nenhum clube reclama na Fifa pelo assédio a seus jogadores, e possivelmente a razão para isso é que, amanhã, o clube que hoje é vítima estará fazendo a mesma coisa.

O ideal era que Cruzeiro e Flamengo tivessem se acertado e pensado no melhor para ambos e também para o cidadão De Arrascaeta. A realidade é que os dirigentes não estão nem aí para o cara, e empresários manipulam essas situações de forma a forçar a negociação.

Será que se Arrascaeta não fizesse o que está fazendo o Cruzeiro aceitaria vendê-lo? Será que é verdade que o Cruzeiro venderia por 5 milhões de euros para qualquer um, menos para o Flamengo? Os clubes respeitam o que querem os jogadores? Será que o uruguaio conta a verdade ao dizer o que disse da reunião com o vice cruzeirense e que seu celular foi vazado?

É fácil ficar horas e horas chamando o jogador de anti-profissional. Não farei isso. Tampouco passarei pano. Ele poderia aparecer nos treinos, reunir técnico, colegas de time e imprensa e deixar tudo mais claro.

Na real, acabamos sendo forçados a opinar em cima de fragmentos de informações. Só é possível tomar partido se você é a mosquinha quietinha ali no vidro da sala de reunião, onde tudo aconteceu e foi falado.

Nessas histórias, não costuma haver santo. E a figura do empresário, tão execrada, só existe com o tamanho atual devido à falta de profissionalismo e organização dos clubes. Entre o que acontecia no passado, quando os clubes eram literalmente donos da vida dos jogadores, e o que acontece hoje, quando às vezes, esporadicamente, um jogador se rebela… não tenho dúvidas, o cenário menos pior é o atual.

O jogador é o elo fraco desta relação e raramente (alguns poucos) podem ''forçar a barra''. Mas que as coisas poderiam acontecer de forma mais civilizada, isso poderiam.


Sorte sorriu para o City na vitória sobre o Liverpool
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Julio Gomes

O Manchester City ganhou do Liverpool por 2 a 1, diminuindo a desvantagem para quatro pontos, tirando a invencibilidade do líder e colocando fogo na Premier League inglesa.

Antes de mais nada, um parênteses. Espero que todos os técnicos e jogadores do Brasil, principalmente os da base, tenham assistido a essa partida. Dois times taticamente perfeitos, agressivos, jogando todas as fases do jogo, sem abdicar de nada. Esse é o futebol que amamos.

A vitória teve mérito, raramente não é assim. Mas teve muito de sorte também.

O City se livrou por um centímetro (para ser mais exato, 11 milímetros) de fazer um gol contra no primeiro tempo. Após tabela maravilhosa entre Salah e Firmino e assistência do egípcio, Mané chutou na trave. Na volta, Stones, zagueiro do City, se apavorou e chutou a bola em cima de Ederson. A bola ia entrando quando o próprio Stones salvou. A tecnologia da linha do gol mostrou que não entrou por isso aí, um centímetro.

Sorte também o fato de Lovren, zagueiro croata supervalorizado, ser do Liverpool, não do City. Foi ele quem teve a velocidade de um mastodonte no final do primeiro tempo e deixou Aguero se antecipar, dominar, girar e fuzilar, sem chance para Alisson. A bola passou no único lugar por onde poderia passar, no pequeno espaço entre o goleiro brasileiro e a trave.

Lovren voltaria a vacilar três vezes no segundo tempo, mas o City não aproveitou. O zagueiro croata é velho, lento, é claramente o ponto fraco de uma defesa que leva poucos gols – o que valoriza ainda mais o outro zagueiro, o holandês Van Dijk.

Ironicamente, após o justo empate do Liverpool, marcado por Firmino (após falha de Danilo no lance), foi Van Dijk, com suas pernas longas, que deu condição de jogo, novamente por um centímetro, para Sterling receber uma boa bola, avançar e dar a assistência para Sane fazer o gol da vitória.

O chute cruzado do alemão bateu na trave e entrou, ao contrário do chute de Mané no primeiro tempo, que bateu na trave e voltou para a área.

No segundo tempo, houve pelo menos dois bate e rebates na área do City, aquelas bolas que podem cair em qualquer pé, mas que acabaram não entrando.

O resultado normal para o jogo seria um empate. O Liverpool fez por merecer e encurralou o City nos 20 minutos finais, coisa muito rara de se ver quando um time comandado por Guardiola está em campo.

Mas, nos detalhes, o jogo caiu para o City, não para o Liverpool. O futebol é assim. Quando dois times se equivalem e fazem bons jogos, o placar final será decidido por um erro, por uma genialidade, por um centímetro para lá ou para cá.

Para o time azul de Manchester, uma noite perfeita. Para o Liverpool, no entanto, não foi um desastre completo. O time mostrou não sentir a pressão, jogou pela vitória e merecia outro resultado. Não amarelou, enfim. Ainda são quatro pontos de vantagem e o sonho de acabar com a seca de 29 anos sem título da Premier mais do que vivo.

 


Time de 2018, Liverpool começa o ano com desafio gigante
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Julio Gomes

O Liverpool foi o grande time de futebol de 2018. E não falo isso naquela de ''a última impressão é a que fica''. Não, é a impressão de um ano todo.

Vamos lembrar que, no primeiro semestre, o Liverpool foi até a final da Champions League, eliminando no caminho o Manchester City, de Guardiola, destruidor de todos os recordes na Premier League. Vamos lembrar que é com a camisa do Liverpool que joga Salah, o jogador de um país sem tradição alguma e que ousou se colocar no nível, tanto técnico quanto estatístico, de Cristiano Ronaldo e Messi.

E, claro, vieram a Copa do Mundo e o segundo semestre. A Copa nos mostrou que o futebol de posse de bola se transformou rapidamente no futebol da intensidade e das transições (hoje, passar a defender depois de atacar e atacar depois de defender, as duas transições, para contra atacar e para evitar contra ataques, são mais importantes do que simplesmente atacar ou simplesmente defender).

O Liverpool é o time de futebol do mundo que melhor compreende e executa o futebol do momento, à imagem de seu técnico, o alemão Jurgen Klopp.

Mesmo nos tempos de Borussia Dortmund, Klopp já era um anti-Guardiola de sucesso. Não uma nêmesis do tipo Mourinho, de extremos, criando uma rivalidade agressiva tanto em campo como no discurso. Klopp é um boa gente. Sua rivalidade com Guardiola não se trata de algo pessoal e midiático, mas estratégico.

Só que Klopp, apesar de ser uma pedra no sapato guardiolista, vai agora além dos momentos pontuais em que há um confronto direto. Agora o time de Klopp conseguiu transformar a intensidade em consistência (e tudo isso em um ano em que o Liverpool perdeu Philippe Coutinho).

Se, na temporada passada, o Liverpool era uma espécie de Robin Hood – leão nos jogos contra os outros grandes, gatinho contra os times médios e pequenos, uma verdadeira peneira defensiva -, agora os Reds passaram um turno inteiro sem perder um ponto sequer para um time fora do ''big six'' (os três maiores de Londres e os dois de Manchester).

O primeiro jogo gigantesco de 2019, hoje à tarde, coloca frente a frente Manchester City x Liverpool.

A percepção geral é que a pressão está toda do lado do time de Guardiola, pois é ele que joga em casa, que está sete pontos atrás e que, se perder, pode dar adeus ao título.

Não vejo assim. A pressão existe para os dois, mas, para mim, é maior para o Liverpool. Porque é o Liverpool que não ganha o Campeonato Inglês desde 1990 (nunca foi campeão na era Premier League e perdeu para o United o posto de maior vencedor do país).

O Liverpool é o raro clube grande europeu (o único, na real) que escolheria ganhar a liga doméstica do que a Champions League. O Liverpool PRECISA ganhar a Premier League neste ano, dado que montou um belo time e chega à metade do campeonato com vantagem considerável.

Se vencer hoje, o Liverpool dará um passo gigante para isso. Mas, e se perder? A vantagem cai para quatro pontos, as interrogações invadem a cabeça, o City ganha muita força e ainda faltará um mundo de 17 jogos. O empate hoje seria ótimo para o Liverpool. Mas será que o time de Klopp jogará pensando nisso? Se conformará com isso?

Não é e nunca foi a característica dos times de Klopp.

Hoje é dia para o Liverpool mostrar toda sua grandeza. Mostrar se esse time, que é quem melhor joga futebol no planeta já há meses, tem o DNA dos campeões. O resultado importa. Mas, a forma, ainda mais.

 


Portugal ensina a lição que parece impossível de ser aprendida no Brasil
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Julio Gomes

Quatro medalhas de ouro, todas no atletismo. Oito de Prata. Doze de bronze. São 24 medalhas no total. Na Rio-2016, um país com tal desempenho acabaria em vigésimo lugar no quadro de medalhas.

Portugal tem esses números de medalhas em toda a história dos Jogos Olímpicos.

Uau. Surpreendente, até. Portugal é um país pequeno, nunca foi nem será dos mais ricos, mas é um país europeu e que ama esportes. 24 medalhas na história? O Brasil, que não é nenhuma potência, ganhou 19 só no Rio!

Mas aí eu pergunto: o que é mais importante? Ganhar medalhas? Ou proporcionar a prática esportiva à população?

E aí, caro leitor, caro leitora, temos muito o que aprender com os portugueses. Aliás, a cada dia que passa fica mais fácil notar que temos muito a aprender com os portugueses em praticamente tudo nessa vida.

É claro que ter ganhadores no esporte ajuda a divulgar, incentivar, promover. Mas, me digam, o que aconteceu com o tênis brasileiro pós-Guga? Ou com a ginástica pós-Daiane? Ou com a natação pós-Cielo?

O Brasil recebeu uma Copa do Mundo, Olimpíada, Jogos Pan-Americanos, um caminhão de eventos internacionais e… nada. A última notícia? Não haverá mais ministério do Esporte. O esporte aqui é algo secundário. É visto como gasto supérfluo. As pessoas se importam com a vitória ou derrota do time, com a gozação no trabalho ou no bar. Mas não há cultura esportiva.

Em comum entre todas as nações bem sucedidas do mundo está o esporte como ponto central.

Em Portugal, tive a chance de conhecer 11 dos 14 centros de alta performance pelo país – literalmente espalhados, sem qualquer tipo de concentração nas duas principais cidades, Porto e Lisboa. A reportagem está aqui.

A divulgação dos centros é parte de um plano: Portugal quer receber equipes de diversos países e tornar todos os centros sustentáveis financeiramente. É um país europeu, a poucas horas de voo de tantos outros, com bom clima, paz e tranquilidade.

E os portugueses vão consolidando a imagem de bons anfitriões. Em nosso périplo, conhecemos uma figuraça, José Veiga Maltez, uma espécie de prefeito de Gologã, cidade que abriga o centro de referência de esportes equestres. Abriu a própria casa (ou mansão, como queiram), explicou que o tataravô teve a visão de comprar aquelas terras enquanto a corte fugia para o Brasil, mostrou sua coleção de charretes de várias épocas, seus cavalos, desfilou de carro antigo, ele para a cidade por onde passa.

Comunicação é tudo. No melhor cenário, Portugal conseguirá atrair clientes das diversas modalidades para viabilizar economicamente todos os centros de alto rendimento.

Na pior das hipóteses, pequenas comunidades podem utilizar a preços módicos quadras de tênis, badminton, piscinas, pistas de atletismo ou um alojamento de boa qualidade. Sem contar as parcerias com universidades e escolas, a intersecção, a troca de conhecimento.

Em Maia, perto do Porto, jogar tênis em uma quadra de saibro coberta custa 5,90 euros por hora. A poucos metros, dezenas de crianças de primeira e segunda idades lotam um ginásio e aprendem a usar argolas, saltar sobre o cavalo e dar mortais na trave.

Em Viana do Castelo, o surfe faz parte do curriculum escolar desde 2013.

Isso é valorizar, dar protagonismo e inserir o esporte na sociedade. O resto é conversa fiada.

Tags : Olimpíada


Após 10 anos, Guardiola, afinal, perde o trono
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Julio Gomes

Pep Guardiola surge como treinador de futebol, para os olhos de todos nós, há 10 anos. Um pouquinho mais que isso, para ser mais exato. No meio de 2008, ele assumia, para a surpresa de muitos, o time principal do Barcelona, sucedendo Rijkaard.

E, desde então, firmou-se como o grande gênio da classe.

Não adianta contarmos apenas os títulos para definirmos quem é melhor, isso é puro resultadismo, é tudo o que combato no futebol e na vida. Um golpe de sorte, uma genialidade, um erro, um centímetro – no futebol, qualquer coisa pode definir um título. É analisando desempenho e consistência e ouvindo o que dizem os próprios atletas e pares que fica mais justo apontar melhores e piores, profissionais de sucesso ou nem tanto.

Os times de Guardiola são os melhores do mundo desde que ele passou a brincar dessa coisa de ser técnico. Times com impressão digital, como se fossem um quadro assinado por um maestro, um roteiro de cinema com cada frase e cada take pensados de forma magistral.

Alguns ganharam tudo, outros não. Mas os times que ficam marcados são sempre os dele. As quatro Champions em cinco anos do Real Madrid importam, e muito. Mas, daqui a X anos, lembraremos do nome ''Real Madrid'', talvez secundado pelo nome ''Cristiano Ronaldo''. A década que se completa será para sempre a década de Guardiola.

Do Barcelona tão bom que nos fez compará-lo ao Santos de Pelé. De um Bayern de Munique destruidor de todos os recordes possíveis na ultracompetitiva Alemanha, que só não ganhou a Europa por obras do acaso. E de um Manchester City que fez a Premier League, a melhor liga doméstica do mundo, parecer coisa de amadores.

Em 2018, finalmente, Guardiola parece estar de volta ao mundo dos terráqueos. Pela primeira vez, acaba um ano e não digo que esse cara é o número 1.

Continua sendo um gênio. O City continua sendo um time espetacular, que daqui a seis meses pode ser campeão de absolutamente tudo. Mas, neste fim de 2018, o melhor técnico do mundo chama-se Jurgen Klopp, e o Liverpool é o time do ano.

Exatamente por combater o resultadismo, digo que isso nada tem a ver com as duas derrotas seguidas do City e a liderança absoluta do Liverpool na Premier. Isso é apenas consequência de algo que está sendo construído ao longo do ano. Os resultados deste mês de dezembro dão apenas uma forcinha a minha tese – que, aliás, já defendo neste espaço desde setembro. No dia 3 de janeiro tem aí um City x Liverpool, para eu quebrar a cara :-).

Se eu fosse um magnata, que comprasse a Portuguesa e tivesse todo o dinheiro do mundo à disposição, hoje meu alvo seria Klopp, e não Guardiola.

Aceito todas as disposições em contrário. Como sempre.

 


Mourinho não merece mais pegar superpotência europeia
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Julio Gomes

José Mourinho foi mandado embora do Manchester United. Era o clube de seus sonhos, por ser um clube que mostrou, ao longo da história, ser capaz de dar tempo (e que tempo!) aos poucos treinadores que ocuparam o cargo.

Entre 1932 e 2013, portanto um período de 81 anos, só 11 homens ocuparam o cargo. Tem time brasileiro que tem 11 técnicos em dois ou três anos.

A era pós-Alex Ferguson seria necessariamente tumultuada, difícil. Moyes e Van Gaal que o digam. Mas Mourinho assumiu o United já três anos após a saída de Ferguson e com um orçamento gigante. Nestes dois anos e meio no cargo, apontou o dedo para o clube e como a estrutura havia ficado ultrapassada.

Não duvido. Mas esse é justamente um dos problemas de Mourinho: tratar os problemas em público, em vez de ''ganhar'' seus pares, chefes e subordinados invisíveis dentro das instituições.

O cara é um monstro dos nossos tempos. Ganhou Champions League com o Porto e com a Inter de Milão, o que não é pouca coisa e nenhum outro técnico conseguiu no futebol globalizado e multimilionário (ganhar sem ter uma superpotência em mãos). Por onde passou, seja Chelsea, Inter ou Real Madrid, foi o grande rival do melhor Barcelona da história (talvez melhor time da história), conseguindo até o feito de ganhar uma Liga doméstica contra aquele time de Guardiola, Messi, Xavi, Iniesta e cia.

Mas Mourinho implodiu o clima no Real Madrid, brigando com meio mundo. A volta ao Chelsea e o período de United, com duas demissões, mostram que lá, como cá, tem gente que fica parada no tempo.

Mourinho não era o técnico retranqueiro em que se transformou justamente por ser a nêmesis do Barcelona. O que era uma necessidade virou uma marca. O futebol de hoje mudou, e Mourinho não soube se adaptar a ele.

Não é um caso muito diferente de Luxemburgo. Os tempos mudam, a motivação muda, as relações humanas mudam. Os caras foram monstros, mas se manter como monstro por 20 anos? Não é para qualquer um. Desaprenderam sobre futebol? Claro que não. Mas é necessário rever conceitos que, muitas vezes, são inegociáveis para a pessoa. É mais fácil, concordo, criticar daqui, por trás de um teclado – mas é nossa função.

Sempre fui um fã de Mourinho, de sua competitividade e capacidade de encontrar soluções. Foram poucos os jogadores, ao longo dos tempos, que fizeram críticas a seu trabalho. Mas foram muitos nos últimos poucos anos. Algo mudou.

É com tristeza que digo: perdemos um grande.

Quem vai contratar Mourinho?

Real? Barça? PSG? Juventus? Bayern? Algum top inglês? Esqueçam… Mourinho não terá mais chances em um gigante nesta era de superpotências. E nem merece.

Talvez seja a hora de começar a pensar em alguma seleção. Talvez seja a chance de se reinventar, saindo dos holofotes do dia a dia, e ainda fazer algo grande na carreira. Ou então vir a algum clube do Brasil, país que ele tanto gosta! Receberemos de braços abertos (e microfones fervendo).

 


São Paulo é o ‘azarado’ do sorteio da Libertadores
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Julio Gomes

No mesmo dia do sorteio das oitavas de final da Champions League, a Conmebol realizou o sorteio das fases preliminares e da fase de grupos da Libertadores da América 2019.

São muitos times brasileiros, e quem mais pode reclamar da sorte é o São Paulo. Quem não pode reclamar de jeito nenhum são Cruzeiro, Atlético Mineiro e Flamengo.

O São Paulo enfrentará o argentino Talleres, de Córdoba, na pré-Libertadores. Se passar, provavelmente terá como rival o Independiente de Medellín, que ficou com o vice-campeonato colombiano no último domingo. Dois mata-matas difíceis logo no começo do ano.

Na América do Sul, é sempre difícil saber quem vem pela frente. O time de Medellín sofrerá algum desmanche ou se manterá forte? De qualquer maneira, é uma camisa tradicional e uma viagem longa para a Colômbia.

O Talleres ocupa uma posição intermediária na Argentina, mas não é um rival muito diferente do Defensa y Justicia e do Colón, argentinos medianos que recentemente eliminaram o São Paulo da Sul-Americana.

Se passar dessas duas eliminatórias, o São Paulo cairá no grupo 1, com ''só'' o River Plate e o Internacional, além do Alianza Lima, do Peru. Pode ser o grupo da morte.

Neste ano, o Vasco passou pela pré para cair em um grupo com Cruzeiro e Racing (e ser eliminado). No ano passado, o Botafogo também caiu em um grupo da morte após passar pela pré-Libertadores, mas conseguiu carregar o momento e chegar ao mata-mata. Ou seja, já teve time se aproveitando do momento trazido pela eliminatória preliminar, já teve time que não conseguiu usar o embalo a seu favor. Vamos ver o que será do São Paulo.

Outro que tem um grupo complicadinho pela frente (no papel) é o Palmeiras, que tem pela frente o San Lorenzo, da Argentina, o Junior de Barranquilla, campeão colombiano e vice da Sul-Americana, e um time que vem da pré-Libertadores, possivelmente a Universidad de Chile.

Assim como o Inter, o Grêmio é outro em grupo que pode se mostrar difícil, com a Católica, do Chile, o Rosario Central, da Argentina, e um time que virá da fase preliminar e será, provavelmente, ou o Libertad, do Paraguai, ou o Atlético Nacional, da Colômbia.

O Atlético Paranaense está no grupo do Boca Juniors, mas os outros rivais são o Jorge Wilstermann, da Bolívia, e o Tolima, da Colômbia.

Os brasileiros que não podem reclamar da sorte, por outro lado, são o Flamengo e os dois grandes mineiros.

O Flamengo enfrentará o Peñarol, a LDU de Quito e um time da Bolívia. Nenhum bicho papão.

O Cruzeiro está no grupo com o Emelec, do Equador, o Huracán, da Argentina, e o Deportivo Lara, da Venezuela. O Cruzeiro é, desde já, o favorito a passar da fase de grupos com a melhor campanha da Libertadores.

O Atlético Mineiro está na pré-Libertadores. Primeiro, enfrenta o Danubio, do Uruguai, e depois, provavelmente, o Barcelona de Guayaquil, do Equador. Se passar, cai em um grupo acessível, com Nacional uruguaio, Cerro Porteño, do Paraguai, e Zamora, da Venezuela.

A vida do sexto colocado do último Brasileiro é, em teoria, mais fácil que a do quinto, o São Paulo.

A Libertadores não é a Champions. A América do Sul não é a Europa. Os times mudam demais, às vezes radicalmente, de um ano para o outro. No ano que vem, talvez os grupos que hoje parecem fortes sejam, na real, fracos. E vice-versa. Mas quem passará a virada de ano com mais dores de cabeça, sem dúvida, é o torcedor são-paulino.