Blog do Júlio Gomes

Arquivo : São Paulo

Humildade em falta nas análises de Rogério e sobre o Palmeiras
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No domingo, São Paulo e Palmeiras levaram chacoalhadas importantes. A classificação de ambos para a final do Paulistão ficou muito, muito difícil. Por mais que se fale que o Paulistão não vale nada, o fato é que o torcedor adora ganhar de seus maiores rivais. O São Paulo está na fila desde 2005, o Palmeiras só ganhou um dos 20 últimos estaduais que jogou, e o Paulista acaba sendo uma prova importante para técnicos “novatos”.

Rogério Ceni nunca se notabilizou na carreira de goleiro pelo excesso de humildade. Foram raras as falhas admitidas. Como treinador, apesar de ainda ser um estágio muito inicial, o caminho vai sendo parecido.

Mano Menezes, após a vitória cruzeirense no Morumbi na última quinta-feira, disse que “o futebol nos dá lições de humildade a cada dia”.

O jogo de quinta foi horrível. O resultado mais justo seria o 0 a 0, mas o Cruzeiro teve lá seus méritos ao achar dois gols de bola parada. No domingo, o São Paulo voltou a enfrentar um rival bem postado defensivamente. O mundo sabia que o Corinthians faria o que fez. E o time de Ceni voltou a levar um 0 a 2 na tampa.

Assistindo às coletivas de Ceni após o jogo, percebe-se uma dificuldade para admitir os problemas importantes do São Paulo. O discurso de quinta foi repetido no domingo.

As declarações do técnico sobre a postura de Cruzeiro e, depois, Corinthians, passam para alguns um tom de menosprezo. A impressão que muitos têm, ouvindo Rogério, é de que o São Paulo dominou ambos os jogos, massacrou e perdeu por puro azar, por lances fortuitos dos adversários.

Não foi bem assim. O São Paulo foi bem marcado por ambos e ofereceu pouca dificuldades para os sistemas defensivos bem postados de Mano e Carille. Apresentou futebol pobre. Foi um time de pouca movimentação, pouca velocidade, poucas associações, poucas jogadas, muito chuveirinho. Cássio ainda fez boas defesas para o Corinthians, já o Cruzeiro só precisou afastar cruzamentos.

O que Rogério Ceni quer implantar no São Paulo é louvável. Não é fácil! O Real Madrid, com o elenco que tem, vive sérios problemas de criação de jogo e é ultradependente de bolas paradas. Construir é dificílimo, ganhar com um estilo próprio é algo que requer tempo.

É muito bom que um técnico novo e inegavelmente influente e inteligente queira implementar um futebol ofensivo, de posse e qualidade. O Brasil precisa disso.

Os que acompanhamos mais de perto o futebol de altíssimo nível técnico e tático jogado na Europa estamos sedentos por algo assim no Brasil. Chega de resultadismo. Times precisam buscar identidade e desempenho, e é isso que Rogério tenta.

Mas não funcionou contra o Cruzeiro nem contra o Corinthians. É normal que não funcione. Falta tempo, faltam peças, faltou até sorte nos jogos. E faltou Rogério reconhecer, pelo menos de forma mais contundente, os méritos e virtudes das propostas adversárias, os erros e falhas da proposta dele. O discurso transparece certa arrogância, pouca humildade.

Como pouco humildes são os que colocam esse elenco do Palmeiras na estratosfera.

E aqui quero deixar claro que não vejo ninguém do próprio Palmeiras, nem técnico nem jogadores, adotar postura de arrogância e superioridade.

Mas é incrível como muitos colegas jornalistas e torcedores estão falando do Palmeiras como se fosse um Real Madrid ou um Barcelona. Calma lá!

Sim, é verdade que o elenco do Palmeiras é mais farto que outros. Fartura e quantidade não significam que haja esse abismo todo de qualidade. Eu não me espanto pelo Palmeiras ter sofrido tanto para vencer seus dois jogos em casa pela Libertadores e nem que tenha levado três da Ponte Preta.

Será que o 11 do Palmeiras é tãããão melhor assim que o da Ponte? Calma lá! Nada que um bom sistema defensivo, com contra ataques bem armados, não possa resolver. Já faz muito tempo que o futebol sul-americano está nivelado, sem um time dominante.

“Se o Barcelona conseguiu reverter contra o PSG, por que o Palmeiras não pode reverter contra a Ponte?”

Vocês duvidam que ouviremos a frase acima ao longo da semana?

Pois é.

Parece que querem criar um Palmeiras dominador que ainda está muito distante da realidade.

O risco é o torcedor acreditar mesmo que haja tal superioridade. E cobrar de time e técnico o que eles não poderão entregar. Talvez a sova de Campinas venha em boa hora para o futuro do Palmeiras no ano.

 


Palmas para Rodrigo Caio em um dia de tantas simulações
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O que Rodrigo Caio fez neste domingo não deveria ser notícia. Ele foi apenas… honesto. O árbitro havia mostrado cartão amarelo para Jô, por achar que o corintiano havia acertado o goleiro Renan na tentativa de chegar à bola.

Rodrigo Caio falou para o árbitro que ele – e não o rival – tinha tocado em Renan. O árbitro tirou o cartão amarelo de Jô.

Esse tipo de honestidade deveria ser o mínimo. Mas o mínimo está em falta no futebol brasileiro. Na sociedade brasileira.

Neste mesmo Campeonato Paulista, no dérbi centenário da fase de grupos, o Corinthians ficou com um jogador a menos contra o Palmeiras porque o árbitro confundiu dois jogadores. Mostrou o cartão e expulsou Gabriel, que não havia feito a tal falta.

Erro do árbitro, sem dúvida. Mas quantos jogadores do Palmeiras em volta perceberam o erro e aplaudiram e comemoraram, em vez de fazer o que fez Rodrigo Caio?

Erros acontecem. Mas precisamos de uma vez por todas extirpar da nossa sociedade a necessidade de “se dar bem” às custas de erros alheios. Chega de celebrar fins que justificam os meios.

O futebol é, como essência, um jogo de “engano”. Tentar enganar o adversário. Fingir que vai pra cá e vai pra lá. Fingir que vai chutar e dar um passe.

Mas fingir que um adversário te acertou no rosto quando o cotovelo dele atingiu o peito… isso está correto?

Ficar quieto ao ver um árbitro, um ser humano, cometer um erro que você sabe que ele cometeu e pode ser corrigido?

Zé Roberto, um grande nome da história do futebol brasileiro, de quem sou fã, fez isso hoje em Campinas. Simulou uma agressão no rosto que não houve. Fiquei surpreso. Aliás, vários jogadores fizeram o mesmo em Campinas. Simular agressões para que o adversário seja expulso.

É o ridículo do futebol brasileiro. O ridículo da sociedade brasileira.

Palmas para Rodrigo Caio. Que sirva de exemplo.


São Paulo impressionou pela personalidade na Vila
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Eram 16 clássicos paulistas seguidos sem vencer fora do Morumbi. Eram mais de sete anos sem vencer o Santos na Vila Belmiro, 11 jogos.

O São Paulo de Rogério Ceni já quebra tabus.

Mais do que isso ou até mesmo que os três pontos, o mais interessante para o torcedor são-paulino foi ver tanta personalidade em campo.

O São Paulo só se acuou quando já vencia por 2 a 1, Dorival fez uma substituição ofensiva (e arriscada) e o Santos pressionou bastante por alguns minutos.

Sidão fez uma grande defesa. Evitou o empate, logo depois ligou o contra ataque e, no primeiro que encaixou, o São Paulo matou o clássico.

Luiz Araújo, que entrou no intervalo, foi muito mais eficiente que Neílton. Fez dois gols e ameaçou o tempo todo. Está claro que vai se firmar como titular.

No primeiro tempo, após levar o 1 a 0, o São Paulo não sentiu o golpe. Colocou a bola no chão, trocou passes, rodou, rodou, rodou. É raro ver o Santos ser empurrado para trás na Vila. Faltava ao São Paulo o passe mais agudo.

O empate saiu em um pênalti infantil de Zeca sobre o Gilberto, anotado por Cueva. O Santos melhorou depois do empate, criou uma chance e chegamos ao intervalo.

No segundo tempo, a tônica foi a mesma. O São Paulo controlou a posse de bola. Mesmo longe da área, era quem ditava o ritmo do jogo. Mas foi em outro lance que nada teve a ver com isso que chegou à virada.

Lucas Lima perdeu bola no meio do campo, Gilberto deu rápido passe para Luiz Araújo, que avançou e marcou. Depois da pressão do Santos em busca do empate, vieram o 3 a 1 e chances para fazer até o quarto.

Ainda é início de temporada. Mas é daqueles jogos importantíssimos para a sequência de um trabalho inicial. O mito já é cada vez mais mito no coração do torcedor.


China e França protagonizam mercado de transferências em janeiro
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juliogomes

Real Madrid e Atlético de Madri nem podiam contratar na janela de transferências do inverno europeu, fechada nesta terça-feira. O Barcelona e o Bayern de Munique não se mexeram. Os ingleses pouco fizeram. Com a sombra da China pairando sobre o continente europeu, surpreendentemente foi a liga da França que realizou as transferências de maior impacto.

O Brasil não sofreu tanto como em outros anos – o que não significa que jogadores brasileiros não tenham sido alguns dos principais envolvidos em negociações.

A maior transferência do mercado foi Oscar, do Chelsea ao Shanghai SIPG, por algo na casa dos 60 milhões de euros. Outro time de Xangai, o Shenhua, não precisou desembolsar tanto para tirar Carlitos Tevez do Boca Juniors, mas pagará ao argentino o maior salário do mundo: 40 milhões de dólares por ano. Que tal, heim, ganhar 2 milhões de reais por semana de trabalho?

O Tianjin pagou 18 milhões de euros ao Villarreal e levou Alexandre Pato. Contratou também o ótimo volante belga Alex Witsel, após cinco longos anos no Zenit. Uma pena, dois jogadores jovens que parecem ter perdido a ambição de buscar espaço nos grandes do futebol europeu.

Gabriel Jesus chegou ao Manchester City agora, mas a negociação havia sido realizada no meio do ano. É o jogador que mais impacto promete trazer à Premier League.

Das cinco negociações no ranking de valores do inverno, depois de Oscar, quatro envolveram clubes franceses.

O PSG trouxe Draxler por 40 milhões de euros, tirando do Wolfsburg o jogador de 23 anos que pode ser titular da Alemanha na próxima Copa. A outra transação foi mais esquisita, chamada de “um mistério” pela imprensa em Portugal.

Gonçalo Guedes, atacante de 20 anos do Benfica e que ainda não fez nada demais (nem nas bases), custou 30 milhões de euros ao PSG. Investimento altíssimo. No verão, o PSG havia desembolsado 25 milhões de euros para tirar Jesé do Real Madrid. Não deu certo, e o atacante foi emprestado para o Las Palmas – apresentado nesta terça com pompa e circunstância pelo simpático clube das Ilhas Canárias. Guedes chega para ocupar o espaço de Jesé, mas não poderá atuar na Champions League por já ter jogado com a camisa do Benfica.

Foi apresentado também pelo PSG o meia argentino Giovani Lo Celso, que fez ótima Libertadores com o Rosario e havia sido contratado no meio do ano passado.

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O Olympique de Marselha é uma das histórias que merecem atenção nos próximos anos. O clube foi comprado por um magnata americano e promete fazer estragos no mercado, voltar a ser grande na Europa.

No fim da janela de transferências, o Olympique trouxe de volta o meia Dimitri Payet, do West Ham e da seleção francesa, por aproximados 30 milhões de euros. Repatriou também Evra, que estava na reserva da Juventus, e contratou o promissor meia Sanson, do Montpellier, de 22 anos, que estava na mira de outros clubes, como o Borussia Dortmund.

Até mesmo o Lyon, que não é mais dominador no país, mas segue frequentando o alto da tabela, se mexeu. Contratou o holandês Memphis Depay, do Manchester United, por 16 milhões de euros. Depay, de apenas 22 anos, chegara ao United em 2015 por aproximadamente 30 milhões, trazido por Van Gaal. Não caiu nas graças de Mourinho, perdeu espaço e se mandou para a França.

O Manchester City, que trouxe Gabriel Jesus por 32 milhões de euros, foi atrás de um jovem de 15 anos da base do Valencia, Nabil Touaizi. Projeto de futuro.

O futebol brasileiro sofreu três baixas relevantes – já tivemos janelas piores, convenhamos. O Ajax pagou 15 milhões de euros em David Neres, mas não conseguiu tirar Richarlison, de 19 anos, do Fluminense (teria oferecido 9 milhões de euros) – o atacante é um dos mais assediados do Sul-Americano sub-20, que está sendo disputado no Equador.

Neres também está com a seleção sub-20 e estava nos planos de Rogério Ceni. Um jogador criado na base do São Paulo, que se destacou e passava a aparecer no time de cima.

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Jorge, lateral revelação do ano passado, deixou o Flamengo para atuar pelo Monaco, que faz grande temporada e disputa o título francês. Walace, de 21 anos, deixou o Grêmio e foi para o Hamburgo por 9 milhões de euros.

Na Alemanha, foram mais de 90 milhões de euros gastos, recorde do país em mercados de inverno. Mas sem qualquer contratação de grande impacto – até porque, como já disse acima, o Bayern não se mexeu.

Se perdeu David Neres, Jorge e Walace, o futebol brasileiro repatriou Elias (Atlético-MG), Lucas Silva (Cruzeiro, emprestado de volta pelo Real Madrid), e Felipe Melo (Palmeiras). Três ótimos volantes. O Flamengo tirou Berrío, e o Palmeiras buscou Guerra no Atlético Nacional, melhor time do continente sul-americano em 2016.

A janela chinesa só fecha em fevereiro, então ainda pode vir bomba por aí. Mas a Europa só volta a incomodar no meio do ano.

 


Ganso cai no lugar ideal. Agora saberemos o real tamanho dele
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Paulo Henrique Ganso sempre me pareceu um jogador fora de seu tempo.

Seria craque anos atrás. Porque tem talento, tem passe, tem aquela jogada tirada da cartola, consegue pensar fora da caixa. Tem, como muitos técnicos gostam de dizer, “inteligência futebolística”.

Mas o futebol mudou. Jogadores como Ganso são raros, porque os defeitos de seu jogo comprometem as virtudes. Os que passam bem e dão fluência ao jogo hoje atuam mais atrás, como volantes ou até zagueiros. Mas cumprem funções defensivas que Ganso não cumpre. Os que, além do passe, tem o instinto matador, se transformam em meia-atacantes ou até atacantes. Ganso não faz tantos gols.

Ganso seria um número 10 das antigas. Mas hoje o número 10 praticamente não existe mais. Existem 5s, 8s e 11s. Ficou em um limbo que me impede de considerá-lo um craque.

As lesões tampouco ajudaram. Nem as negociações e exigências em excesso nos tempos de Santos, em que ele (além de tanta gente) realmente se achava tão ou mais importante que Neymar.

Mas o fato é que a carreira de Ganso foi ficando pelo caminho. Em vez de ir do Santos para um, digamos, Real Madrid, o máximo que deu foi para o São Paulo mesmo. Teve seus momentos. Mas nada do que se projetava seis anos atrás.

As portas da seleção brasileira pareciam fechadas para Ganso. Ele até esteve na Copa América após tantas lesões, mas não parece ser nada mais que um repique. Sem seleção e sem dinamismo, a consequência eram portas fechadas também no grande nível europeu.

Claro que dava para imaginar Ganso em uma Ucrânia da vida. Uma Turquia, até. Sem falar no “mundo chinês”, “mundo árabe”. Mas não em um clube importante de alguma das quatro grandes ligas domésticas. E nem as secundárias.

De repente, Ganso vai para o Sevilla. Atual tricampeão da Liga Europa. Um clube capaz de incomodar os grandes na Espanha. Um frequente nas ligas continentais. Clube importante, de torcida, de mídia. Um raro médio-médio. Médio em seu país, médio na Europa.

E mais. Para um Sevilla começando um projeto muito promissor, com o ótimo Jorge Sampaoli no comando. Ganso chega como um pedido do novo chefe. E que chefe! Um técnico campeão da América com o Chile. Que por onde passou implementou bom futebol, de posse e passe, com técnica e qualidade como condições essenciais de jogo.

Para mim, o argentino poderia tranquilamente ser técnico de uma seleção de peso. A brasileira ou a espanhola, por exemplo. Mas resolveu tentar a sorte na Europa. E está fadado ao sucesso, pois é muito bom no que faz.

É verdade que Sampaoli gosta também de dinamismo e intensidade. E é aqui a grande interrogação sobre o que Paulo Henrique consegue entregar.

O futebol na Espanha é incomparavelmente mais veloz e intenso que no Brasil. Mas bem menos que na Inglaterra ou Alemanha. É uma liga, a espanhola, que privilegia o talento, a ofensividade.

Além disso, Sevilha é uma cidade quente e acolhedora. Que gosta de brasileiros, até porque nos últimos anos muitos passaram por lá e só deixaram boas lembranças (Daniel Alves, Renato, Júlio Baptista, Ricardo Oliveira, Marcos Assunção, Edu, etc, etc, etc).

Time bom. Técnico ótimo. Cidade maravilhosa. Salário para lá de decente. Liga boa para se adaptar e de alta competitividade.

O que mais Ganso poderia pedir?

Muito se falou, muito falei, que Ganso era um bom jogador mas que, por características, não havia lugar na Europa para ele com o futebol jogado hoje em dia. O cara ainda tem 26 anos. E tem cabeça, além de talento. É claro que dá. Adoraria queimar a língua.

Agora veremos o verdadeiro tamanho de Ganso. Ou triunfa ou volta reclamando da sorte. Só depende dele.

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São Paulo fez Libertadores ‘guerreira’, sai de cabeça erguida
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juliogomes

Não seria fácil acreditar se alguém dissesse no começo do ano que o São Paulo estaria na semifinal da Libertadores. Menos ainda depois daquela derrota para o Strongest no Pacaembu.

Mas o fato é que chegou. E, se ficou bem clara a inferioridade no duelo contra o Atlético Nacional, o São Paulo se despede com um álibi. A discutível expulsão de Maicon selou o destino do primeiro jogo. O indiscutível pênalti não marcado sobre Hudson no final do primeiro tempo minou as possibilidades (já remotas) de classificação no segundo jogo.

O São Paulo tem uma relação interessante com a Libertadores, que me lembra muito a do Real Madrid com a Champions (guardadas as devidíssimas proporções). É como se clube e torcida “se apropriassem” da competição. Como se fosse dono dela, como se fosse o único vencedor apto.

É claro que há uma linha fina entre o tamanho (enorme) e a soberba. Aí vai da ação e da interpretação de cada um.

O são-paulino pôde ter novamente o gostinho de ser protagonista na Libertadores. Mas deve ter cuidado para não se empolgar demais. É uma semifinal bem diferente daquelas dos anos 90 e da “era Ceni” no meio da década passada. Difícil até ver o São Paulo se classificando para a próxima Libertadores, mas não dá para desprezar essa hipótese – a provável saída de Ganso certamente não ajuda.

Ganso foi um dos fatores de crescimento do time na competição e, sem dúvidas, a ausência dele foi um dos fatores que prejudicaram o São Paulo na semifinal.

Foi uma campanha que teve jogos grandes contra o River Plate. Que teve a sorte de o Strongest perder do Trujillanos. A partida heróica da classificação na Bolívia, com o surgimento do “xerife” Maicon. O ótimo jogo de oitavas contra o Toluca no Morumbi. E as partidas feias contra o Atlético Mineiro.

Resumindo, o São Paulo não mostrou tanta bola. Mas mostrou organização (mérito de Bauza) e, o principal, mostrou muito coração nessa Libertadores. Fazendo jus ao que pedem os torcedores. Foi aos trancos e barrancos. Mas foi até onde deu. Mais que isso, seria estranho.

O Atlético Nacional é um justo finalista. Pela campanha que fez e por ter mostrado, nos dois jogos, ser um time melhor e mais organizado que o São Paulo.

Vamos ouvir muito sobre arbitragem. O perigo disso é esquecer de olhar para os próprios erros. Aquela entrada inútil de Ganso em um jogo do Brasileiro. A infantilidade de Maicon, logo após um valor deveras exorbitante desembolsado para manter o zagueiro. Um Lugano que realmente não dá mais pra jogar. Enfim.

O grande grande erro de arbitragem foi o pênalti não marcado em Hudson no último minuto do primeiro tempo na Colômbia. Erro gigante. Mas nada garante que o pênalti seria convertido e nem que o São Paulo buscaria o terceiro gol no segundo tempo. Aliás, não teve chance alguma na etapa final contra o bom time colombiano.

Foi uma Libertadores guerreira. De resgate, de mostrar que a camisa tem peso, de mostrar que o trabalho de Bauza merece crédito para anos. O São Paulo merece palmas, caiu de cabeça erguida.

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Em um jogo horroroso, 1 a 0 é goleada para o São Paulo
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juliogomes

Cada vez sou mais crítico da regra do gol qualificado. Seja aqui, seja na Europa, cada vez mais os técnicos se apaixonam pelo 0 a 0 no jogo de ida de eliminatórias com a regra do gol fora de casa como critério de desempate.

É bom para todo mundo!

Pelo menos no papel. Para quem joga em casa, dá o direito de empatar o jogo de volta, fora de casa. Outro 0 a 0 leva a pênaltis, empate com gols classifica. E para o visitante também é bom, lógico. Empata fora e depois “só” precisa ganhar em casa.

Assim sendo, os jogos de ida estão mais e mais chatos.

O 0 a 0 no Morumbi, entre São Paulo e Atlético, estava escrito. E seria o resultado mais condizente para a partida.

Mas o Atlético Mineiro deu mostras de ter problemas na bola parada. O São Paulo só levou perigo assim no jogo inteiro. Na terceira bola perigosa alçada à área na etapa final, chegou ao gol.

Uma verdadeira goleada, dado o péssimo nível técnico apresentado no Morumbi.

Michel Bastos fez o gol. Ele, que entrara na etapa final e tinha o nome gritado pela torcida – como o tempo passa rápido, não é mesmo? Ah, o torcedor.

Com 15 minutos de jogo, cinco cartões amarelos. Foram sete no primeiro tempo. Carrinhos que não acabavam mais, tabefes, empurrões, entradas feias. O primeiro tempo foi de pancadaria, intensidade, bola sendo disputada como se fosse um pedaço de carne. Mas bola mesmo… nada.

Já não é de hoje que os times brasileiros jogam “ao estilo Libertadores”. Chutão, falta, “garra”… e pouca bola. Alguns vão culpar o fato de os times serem comandados por um técnico argentino e outro uruguaio. Acho que o buraco é mais embaixo.

Do jeito que dava para ouvir torcedor comemorando aquelas rachadas de bola para o mato. E que jogadores batem no peito gritando para comemorar lateral… é, acho que o buraco é mesmo bem mais embaixo.

No segundo tempo, os times voltaram menos pilhados. O que evitou que acabassem com vários expulsos. O Atlético teve alguns contra ataques, o São Paulo ameaçou em bolas paradas – e marcou na terceira. Mas o fato é que as limitações de Atlético e São Paulo ficaram para lá de expostas.

O Atlético não terá Rafael Carioca, Junior Urso e possivelmente Robinho para a volta. Desfalques sensíveis. O principal: não terá o gol fora levado para o Independência. Vai ter de construir uma boa vitória, contra um São Paulo que certamente irá a BH para se defender e tentar um golzinho qualificado.

Bauza, de novo aos trancos e barrancos, vai ficando perto de outra semifinal de Libertadores. Sair com um 1 a 0 de um jogo horroroso como este… é de se levantar a mão para o céu.


Trio-de-ferro começa a Libertadores do jeito que acabou o ano
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juliogomes

O trio-de-ferro paulista começou a Libertadores da América do jeito que acabou o ano passado.

O Corinthians sabe o que quer e acha resultados até quando não merece. O Palmeiras, no vai-não vai, cheio de incertezas. E o São Paulo, com rumo para lá de duvidoso.

O Corinthians fez um primeiro tempo horroroso no deserto de Atacama, Chile, no estádio em que cabe três vezes a população da cidade (!!). O Cobresal pressionou lá no alto a saída de bola corintiana. Resultado: chutão atrás de chutão. No segundo tempo, com André e Giovanni Augusto, o Corinthians melhorou – logicamente ambos terão de ser titulares.

Passou a rondar mais a área adversária, ameaçar minimamente. Ainda assim, não assustou. Pouco finalizou. Não mereceu ganhar. Mas ganhou. Foi um jogo horroroso, para 0 a 0, mas times campeões encontram maneiras de vencer – mesmo que a maneira seja um gol contra nos acréscimos. É o prêmio pela organização e o esforço coletivo.

O resultado é ótimo em um grupo complicado. O Cobresal não acabará sem pontos. Cerro Porteño e, principalmente, o Santa Fé são times de tradição em seus países e até no futebol sul-americano. É claro que 9 pontos em Itaquera resolvem tudo.

Preocupa a dificuldade incrível para jogar quando pressionado. Mas o Corinthians tem uma base de jogo, um treinador ótimo e só vai melhorar ao longo das semanas.

O Palmeiras empatou com o pior time do grupo, mas fora de casa. No entanto, não transmite a mesma segurança em relação a ganhar 9 pontos em casa. O técnico parece ameaçado, pelo menos de acordo com quem acompanha o clube de perto. E o time continua sem padrão de jogo.

O Palmeiras esteve duas vezes à frente, cedeu o empate e perdeu a chance de respirar e ganhar tranquilidade para trabalhar com menos pressão. Não foi pressionado como o Corinthians, não enfrentou a altitude. E não ganhou.

E o São Paulo, esse sim, precisa se preocupar.

Continua o mesmo time instável de 2015, capaz do melhor e do pior em pequeno espaço de tempo. Na pré-Libertadores, faz um ótimo jogo fora e um péssimo em casa. Tem a chance de começar a fase de grupos com tudo. E…. derrota, vaias, crise.

O The Strongest é o típico time forte em casa (altitude) e que literalmente não ganha de ninguém fora. Mas… ganhou. No Pacaembu.

O grupo do São Paulo tem um desenho nítido. Duas supostas forças, River Plate e São Paulo. Um time que “poderia” complicar, o Strongest. E uma baba, o Trujillanos. Ganhar do Strongest era um resultado básico. A consequência agora? Vai ter de ganhar na Argentina do River ou na altitude boliviana. O São Paulo coloca, sobre as próprias costas, uma pressão monstra para o resto da fase de grupos.

Na Libertadores, os prognósticos são mais complicados. A imprevisibilidade é maior. É apenas uma rodada, mas uma rodada de jogos com peso grande no papel.

O Corinthians ganhou onde talvez os outros não ganhem. Encaminhou a classificação. O São Paulo perdeu o jogo que não podia perder. Já coloca em risco a classificação. E o Palmeiras volta do Uruguai deixando no ar as mesmas interrogações que levou para lá.


No papel, sorteio bom para São Paulo e Galo, ruim para Palmeiras e Grêmio
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juliogomes

Finalmente, a Copa Libertadores teve um sorteio decente, bacana. Nada de Peru 3, Argentina 4, Venezuela 2. Times com nome, alguns até com sobrenome, e já sabemos os grupos da competição no ano que vem. Foi um pouco arrastado, o sorteio, com muita falação até a hora da definição dos grupos. Mas avançou, ficou mais legal.

Pelo menos no papel, o sorteio foi péssimo para Palmeiras e Grêmio. Ótimo para o São Paulo e para o Atlético Mineiro. E regular para o Corinthians.

Por que “no papel”?

copalibertadoresPorque a real é que conhecemos pouco da maioria dos times da Libertadores. É muito difícil ter acesso aos jogos dos campeonatos da Colômbia, Equador, mesmo do Uruguai. Aliás, é por isso que costumamos ter essa relação de medo e soberba ao mesmo tempo com a Libertadores.

Por um lado, todo mundo é “perigoso”. Por causa da camisa, da altitude, da viagem, do que seja. Por outro lado, poucos são verdadeiramente temidos e respeitados, porque brasileiro é assim mesmo com futebol. O desconhecimento costuma gerar petulância e às vezes medo exagerado.

Teoricamente, pois, Palmeiras e Grêmio estão em grupos complicadíssimos.

O Palmeiras, no grupo 2, encara um uruguaio de tradição, o Nacional, um argentino, o Rosario Central, e provavelmente a Universidad de Chile. O Nacional deu papelão na pré-Libertadores do ano passado, mas depois ganhou o campeonato nacional. O Rosario foi terceiro na Argentina, deve ser respeitado. E “La U” já mostrou força nos últimos anos – tem de passar do River Plate uruguaio no mata-mata de fevereiro antes.

Já o Grêmio, no grupo 6, também terá uma missão difícil. O San Lorenzo, vice-campeão argentino e campeão da América no ano passado, é o cabeça-de-chave. A LDU joga em Quito, tem a altitude a seu lado. E o quarto time é o Toluca, obrigando o Grêmio a fazer a longa viagem ao México.

Palmeiras e Grêmio não terão um jogo sequer para respirar. É batalha jogo sim, jogo também, para ficar entre os dois primeiros e sobreviver para o mata-mata.

O São Paulo encara o Cesar Vallejo, do Peru, na eliminatória. No papel, não terá problemas, e a eliminação, dado o tamanho dos clubes, seria vexaminosa. Passando, o São Paulo cai em um grupo com River Plate, o atual campeão, The Strongest, da Bolívia, e Trujillanos, da Venezuela.

O River, é bom lembrar, assusta no nome e na camisa, mas só se classificou da fase de grupos da última Libertadores na bacia das almas. Acabaria sendo campeão do torneio, já sabemos. Tem de ser respeitado, mas não temido, pois além de tudo perdeu jogadores importantes. Aliás, bom lembrar que todos os times sul-americanos ficam expostos na janela de transferências de janeiro e podem sofrer com a perda de peças-chave.

O Strongest tem a altitude a seu lado, o Trujillanos não mete medo. É um grupo, no papel, que deve ser tranquilo para o São Paulo. Tudo dependerá da adaptação rápido do novo técnico e um bom planejamento, daqui 40 dias já tem jogo decisivo.

O mesmo serve para o Atlético Mineiro, que encara Colo Colo, do Chile, o Melgar, campeão peruano, e ou o Independiente del Valle, do Equador, ou o Guaraní, do Paraguai, que surpreendeu ao eliminar o Corinthians e ir à semifinal da última Libertadores.

Com Javier Aguirre no comando, o Atlético não terá o problema de desconhecimento dos adversários. É um treinador sul-americano, experiente, estudioso e que não deixará a soberba tomar conta. Grupo bom para o Atlético ficar em primeiro e fazer uma das melhores campanhas da primeira fase, para depois ganhar o direito de decidir em casa nos mata-matas.

O Corinthians caiu em uma chave nem tão dura quanto as de Grêmio e Palmeiras, nem tão fácil (na teoria) como as de São Paulo e Atlético.

Favorito destacado do torneio ao lado do Boca Juniors – foram os dois melhores times do continente em 2015 -, o Corinthians encara Cerro Porteño, sempre um rival chato lá no Paraguai, o desconhecido Cobresal, que, no entanto, ganhou título no Chile, e possivelmente o Independiente Santa Fé, da Colômbia, se este passar da fase prévia.

Se fizer a lição de casa no alçapão de Itaquera, o Corinthians não terá problemas para passar.


Não deu para o River. Ganhar Mundial hoje é preparo, vontade e muita sorte
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juliogomes

“São Paulo e Corinthians deram MUITA sorte. Liverpool em 2005 e Chelsea em 2012 ganharam a Champions por sorte, não eram nem top-5 da Europa”.

Essa foi a “tuitada” que eu dei hoje em cedo, logo depois de dizer que “O Mundial virou uma coisa desnivelada demais nos últimos 15 anos. Os sul-americanos estão a anos-luz dos times europeus”.

Escrevia isso conforme o Barcelona destroçava o River Plate, sem nenhuma margem para zebra.

Infelizmente, na tuitada da “sorte”, pela limitação de caracteres, faltou dizer que São Paulo e Corinthians deram muita sorte “por enfrentar Liverpool e Chelsea”. E não nas vitórias sobre ambos. Mas, claro, corações apaixonados leem o que querem. A tuitada deu polêmica. E muita! E agora, com mais espaço, vamos desenvolver o raciocínio.

O Mundial de Clubes é o ponto fraco do brasileiro. Esse é um torneio que precisa ser relativizado. Mas como relativizar quando se pensa com coração e fígado? Como relativizar quando temos uma sociedade paranóica em querer ser “a melhor do mundo”, principalmente quando o tema é futebol?

O Mundial precisa ser relativizado por vários fatores.

Não necessariamente envolve os melhores de cada continente – há um mata-mata, com alto grau de imprevisibilidade, para definir Champions e Libertadores. Além disso, os times chegam, em regra, modificados em relação aos que ganharam o título continental. Às vezes mais fortes ainda, às vezes mais fracos, não raro com treinador diferente. A viagem, principalmente se for para o Japão, é longuíssima. E o nível de preparação varia demais.

Espanhóis, por exemplo, até dão certa importância. Capa de jornal, pelo menos. Ingleses não dão a menor pelota. Isso varia até mesmo dentro da Europa. E é dificílimo conseguir assistir ao jogo na Europa, a não ser que você esteja no país de um dos clubes envolvidos.

Hoje em dia, e cada vez mais, a preparação dita a história de um jogo de futebol. Programas de computador ajudam comissões técnicas que, se realizarem o trabalho de depuração com competência, passam tudo mastigadinho para jogadores. Vai marcar fulano? Analisa-se, com dados e estatísticas, a melhor maneira de combate os pontos fortes de fulano. Para onde corta, dribla, etc.

Times sul-americanos vivem, respiram o Mundial durante seis meses. Os europeus, por uma semana. Isso faz muita diferença. Aí é necessário colocar na mistura a vontade. E isso vai variar muito conforme a quantidade de jogadores sul-americanos atuando pelo time europeu em questão. Porque jogadores sul-americanos nascem e crescem ouvindo que o Mundial é a coisa mais importante que existe. Europeus, não.

E vontade, no futebol e em qualquer esporte ou profissão, conta muito. Quem quer mais amplia suas chances de vitória contra quem quer menos.

De 15 anos para cá, com a Lei Bosman e o livre mercado europeu consolidados, os clubes de lá viraram verdadeiras seleções. Enquanto os daqui, sujeitos a desmandos de federações corruptas e situação econômica instável em países emergentes (quando muito), foram ficando para trás. Criou-se um abismo.

Abismo que não existia quando Santos, Flamengo, Grêmio e São Paulo ganharam Mundiais lá atrás. Havia equilíbrio, havia, sim, duelos entre escolas. Naquele tempo, o Mundial era mesmo um tira-teima. O último sul-americano com nível mundial foi o Corinthians de 2000. De lá para cá, abriu-se o abismo.

Com verdadeiras seleções e se nada de significativo mudar, os times europeus vão perder “Mundiais” para os sul-americanos beeeeeem de vez em quando. E essa tendência já pode ser notada. De 1960 até o ano 2000, por quatro décadas, foram 22 títulos sul-americanos contra 18 europeus. Equilíbrio total. De 2001 até 2015, o placar está 11 a 4 para os europeus. Desequilíbrio.

Estou juntando Copa Intercontinental e Copa do Mundo de Clubes da Fifa, logicamente. Porque, salvo para mentes doentias, é a mesma coisa.

O River Plate, neste domingo, não teve qualquer chance contra o Barcelona. Em outros tempos, Messi, Neymar e Suárez, os três melhores jogadores sul-americanos da atualidade, talvez estivessem jogando pelo River (ou pelo menos um deles). Hoje, estão os três juntos. No time europeu.

Foi um passeio.

E é aí que está a questão. Não é apenas o fato de europeus estarem ganhando mais. É que os sul-americanos já entram em campo sem qualquer chance. Não é muito diferente, para o Barcelona, se impor contra o River Plate ou contra o Guangzhou Evergrande. Como não foi para o Real Madrid ano passado, Bayern de Munique no retrasado, etc.

Os times sul-americanos estão mais expostos a perder de algum africano ou asiático (Mazembe e Raja Casablanca que o digam) do que a ganhar de um europeu. O nível é mais próximo de quem está abaixo do que quem está acima.

O que pode fazer um sul-americano ganhar, então?

Um completo alinhamento de estrelas. Tudo tem que dar certo. E o legal do futebol é que, às vezes, dá.

Como eu já disse lá em cima, a preparação do sul-americano tem de ser muito mais bem feita, é necessário aproveitar o fato de conhecer o rival de baixo pra cima, de frente para trás, enquanto os do outro lado não têm o mesmo nível de conhecimento. A vontade de ganhar dos jogadores tem que ser maior – e é. Sul-americanos têm jogado em casa (20 mil argentinos para ver o River contra o Barça, 30 mil corintianos no Japão em 2012, etc).

E sorte, claro, conta muito em um duelo de partida única. Um goleiro inspirado, um impedimento mal marcado, um cartão vermelho, uma falha individual. Quanto menor o espaço para disputa, maior a chance de quem é pior.

Ajuda também enfrentar um europeu que não seja o melhor do momento.

E foi exatamente isso o que aconteceu com o São Paulo, em 2005, e o Corinthians, em 2012.

Os corintianos do Twitter ficaram menos exaltados do que os são-paulinos. Talvez por ser uma memória mais recente. O próprio Tite já disse que, tivesse o Corinthians enfrentado o Barcelona de Guardiola, muito dificilmente teria sido campeão no Japão.

O Chelsea estava longe de ser o melhor da Europa. Deu uma estrelada na Champions daquelas que fazem a gente amar o futebol. Na semifinal, contra o Barça, até Messi perdeu pênalti. Isso não é sorte? Da parte de Messi, não é azar, é incompetência. Da parte do Chelsea, é o quê? Quantos times tiveram a sorte de aproveitar um raríssimo momento de fraqueza de Messi? E na final, contra o Bayern? Achou um gol improvável de empate, depois ganhou nos pênaltis.

Não foi pouca sorte que o Chelsea teve para ser campeão europeu naquele ano. Foi muita. Mas MUITA. Claro que sorte, sem competência, coração, orgulho, etc, não leva ninguém a lugar algum. Mas ignorar os fatos subjetivos daqueles jogos é ignorar a própria essência apaixonante do futebol. Seis meses depois, quando foi enfrentar o Corinthians, o Chelsea já tinha outro técnico (Benítez, que coincidência) e havia sido eliminado na primeira fase da Champions League 2012-2013.

Isso está claro para qualquer pessoa que entenda de futebol. Que o Corinthians teve uma sorte danada de ter o Chelsea como rival no fim de ano. O que não tira, em nada, o mérito do título corintiano. As defesas de Cássio, o sistema tático montado por Tite, etc. Era um time inferior, mas que havia se preparado melhor, queria mais a vitória e enfrentou um rival ideal. As estrelas se alinharam.

Como se alinharam, ainda mais, para o São Paulo em 2005.

Porque hoje, com o futebol global, o abismo entre times europeus e sul-americanos diminuiu um pouquinho. No meio da década passada, estava no ápice.

O São Paulo deu uma sorte danada de enfrentar o Liverpool.

Aquela Champions 2004/2005 foi especial. O Barcelona de Ronaldinho já era um dos grandes times da Europa, foi eliminado de forma épica pelo Chelsea de Mourinho nas oitavas – o início da rivalidade Barça-Mou, que marcou a Europa nos anos seguintes. O Real Madrid galáctico de Luxemburgo ficou pelo caminho também.

Ao Liverpool, de Benítez, brilhou a estrela com gol espírita na semifinal contra o Chelsea. E depois, aquela final de Atenas, possivelmente a maior final europeia de todos os tempos. Um Milan 250 vezes superior já metia 3 a 0 no primeiro tempo. A superioridade era tanta, e tão rara em uma final europeia, que o Milan se deu o direito de achar que estava ganho no intervalo. E aí, carregado por sua linda torcida, o Liverpool foi buscar o empate e o título nos pênaltis.

Foi um dos títulos mais épicos e improváveis da história da Champions League – comparável ao do Chelsea em 2012, do Porto (Mourinho) em 2004 e da Inter (Mourinho de novo) em 2010.

Naquele ano, o Liverpool acabou em quinto o Campeonato Inglês, 37 pontos atrás do Chelsea. Teve uma polêmica na Europa, porque o campeão da Champions sempre joga o torneio seguinte. Mas ele também sempre é um time forte o suficiente para se classificar para a Champions seguinte via liga doméstica.

Pois aquele Liverpool não conseguiu a vaga via Premier League. Foi necessário aumentar o número de ingleses na Champions 05-06, e o Liverpool precisou passar pelas fases eliminatórias, jogando contra times de Gales, Lituânia e Bulgária. Caiu nas oitavas de final da Champions seguinte, para o Benfica.

E esse era o nível daquele Liverpool. Médio. Do nível do Benfica, inferior a 10 ou mais times europeus. Um time que ganhou a Champions porque as estrelas se alinharam e a energia de jogadores e torcida fez toda a diferença. Energia que times ingleses, especialmente os ingleses, não levam para o Mundial tão amado pelos sul-americanos.

Problema deles? Sim, problema deles. E problema do torneio também.

A sorte que o São Paulo teve foi de encarar um adversário que não era, nem de longe, o mais forte e interessado que podia enfrentar. E logo teve o jogo épico de Rogério Ceni, o bandeirinha acertando impedimentos milimétricos que acabariam em gols do Liverpool (outros times não têm essa “sorte” de acertos tão difíceis para a arbitragem). Enfim. Teve méritos, muitos méritos. E teve sorte, em boa dose.

Ninguém está aqui para tirar os méritos de São Paulo e Corinthians por aqueles Mundiais. Apenas para contextualizar.

O que aconteceu com o River Plate neste domingo ou com o Santos em 2011 é o normal de 15 anos para cá. Atropelamento sem dó. O que aconteceu em 2005 e 2012, e também em 2006 com o Inter, só é possível quando tudo conspira, tudo se alinha, é formada a tempestade perfeita.

E isso faz até ser mais bacana ver as esporádicas vitórias sul-americanas. Sempre é legal ver Davi derrubar Golias. O que não dá é para achar que essas vitórias eventuais simbolizam alguma coisa. Elas são pequenos milagres, nada muito além disso.

O Mundial deixou, faz tempo, de ser um duelo de escolas, um jogo aberto em que qualquer um poderia ganhar. Os sul-americanos ganharão de vez em quando. E, para isso, precisam de muita preparação, de muita vontade e, claro, de muita sorte.