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E agora, quem quer enfrentar o Leicester nas quartas?
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E o conto de fadas continua em Leicester. Quando todos davam os foxes como mortos na Champions League, o feitiço mostrou-se mais ativo do que nunca.

O Sevilla pegou um Leicester morto na partida de ida. Era a chance de goleada e classificação definida. E o jogo foi para goleada, mas acabou só em 2 a 1. Os jogadores conseguiram, afinal, derrubar Claudio Ranieri. E começaram a correr de novo.

Com o auxiliar Craig Shakespeare, “amigão” dos jogadores, assumindo o comando, o Leicester voltou a seu 4-4-2 bem britânico. Jogo forte na bola aérea e no contra ataque. Na vitória por 2 a 0, nesta terça, o Leicester teve 32% de posse de bola. Defende-se bem, não se incomoda com a bola nos pés dos outros.

O Sevilla começou o jogo passivo, levou o gol e só depois resolveu jogar. E aí Schmeichel, filho de peixe, que já havia defendido um pênalti na ida, defendeu outro na volta – o primeiro goleiro a fazer isso em uma eliminatória europeia.

Quando perdeu o pênalti, já no fim do jogo, o Sevilla estava com dez homens em campo após Nasri se desentender com Vardy no meio de um lance de ataque. Vardy “brasileirou” e fez um teatro danado após uma não cabeçada. Patético. Ou vermelho para os dois ou nada, pois o amarelo para ambos resultou na expulsão de um só.

Mesmo sem Nasry, que foi burrinho, burrinho, o Sevilla ainda arrumou o pênalti que levaria para a prorrogação. E perdeu de novo. Sampaoli só não perdeu cabelos porque não tem.

Não dá para dizer que o Sevilla mereceu. Teve todas as chances possíveis e imagináveis e fez questão de desperdiçá-las. E assim, a Espanha perde uma chance de ouro de colocar quatro times nas quartas de final pela primeira vez na história da máxima competição europeia.

O Leicester segue iluminado.

Quem quer enfrentá-lo nas quartas de final, após o sorteio de sexta-feira?

A resposta é simples. TODOS. O Leicester é o time mais fraco das quartas de final, mais previsível e mais fácil de ser batido. É o mais simpático também. Mas simpatia não ganha Champions.

Por outro lado, a Juventus ganhou por 1 a 0 do Porto, sem maiores problemas. São 47 jogos de invencibilidade no Juventus Stadium, um fortim. Está aí um time que, ao contrário do Leicester, ninguém quer enfrentar na Champions.


Gol sofrido no fim mais ajuda que atrapalha o Real Madrid
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O Real Madrid levou um gol de Reus aos 43 do segundo tempo, empatou por 2 a 2 com o Borussia Dortmund e acabou ficando em segundo no grupo F da Champions League.

Má notícia? Na minha visão, longe disso. O Real atinge 34 jogos de invencibilidade com Zidane no comando, igualando uma marca história estabelecida em 1988-89, e deve superar o recorde no fim de semana, em casa, contra o La Coruña.

De quebra, ao ser segundo, diminui as chances de enfrentar uma “pedreira” nas oitavas de final. É verdade que decidirá fora de casa a vaga nas quartas, mas isso é muito relativo. Se fizer um bom resultado na ida, no Bernabéu, decidir fora nem é mau negócio.

Sendo segundo colocado no grupo, o Real Madrid será sorteado contra um dos primeiros colocados – não pode, no entanto, enfrentar times do mesmo país ou do mesmo grupo em que jogou a fase inicial.

Portanto, o Real enfrentará nas oitavas um destes cinco times: Arsenal, Juventus, Napoli, Monaco ou Leicester. Se colocarmos Arsenal e Juve na lista de favoritos ao título, o Real tem 40% de chances de pegar uma pedreira, contra 60% de chances de pegar um rival mais fraco. Não digo que Napoli, Monaco e Leicester sejam galinhas mortas, mas é difícil imaginar um destes três eliminando o Real de Zidane na Champions.

Se não tivesse levado o gol do Dortmund no fim, o Real enfrentaria um destes seis: Bayern de Munique, Manchester City, PSG, Benfica, Porto ou Bayer Leverkusen. Ou seja, 50% de chances de enfrentar um favorito ao título. E Bayern, City e PSG, creio, são mais fortes que Arsenal e Juventus.

Não acredito que levar um gol no fim tenha sido estratégia – não foi o que o jogo nos contou, e o Real colocou os titulares em campo. Apenas que há males que vêm para bem.

Como não houve nenhuma grande zebra na fase de grupos, não há nenhuma “baba” nas oitavas. Os segundos colocados como Porto, Benfica, Sevilla ou Napoli são clubes que, se não têm o mesmo orçamento dos gigantes e não devem brigar por título, têm camisa, bons jogadores e podem fazer alguma graça no mata-mata contra algum desavisado.

O Barcelona pode enfrentar Bayern, PSG, Porto, Benfica ou Bayer Leverkusen.

sorteio_champions

Vamos agora aos classificados para as oitavas na Champions e quais os possíveis adversários que podem sair do sorteio de segunda-feira:

Grupo A
Arsenal – Benfica, Bayern de Munique, Bayer Leverkusen, Real Madrid, Porto, Sevilla
PSG – Napoli, Barcelona, Atlético de Madri, Borussia Dortmund, Leicester, Juventus
*Ludogorets na Liga Europa

Grupo B
Napoli – PSG, Manchester City, Bayern de Munique, Bayer Leverkusen, Real Madrid, Porto, Sevilla
Benfica – Arsenal, Barcelona, Atlético de Madri, Monaco, Borussia Dortmund, Leicester, Juventus
*Besiktas na Liga Europa

Grupo C
Barcelona – PSG, Benfica, Bayern de Munique, Bayer Leverkusen, Porto
Manchester City – Napoli, Atlético de Madri, Monaco, Borussia Dortmund, Juventus
*Borussia Moenchengladbach na Liga Europa

Grupo D
Atlético de Madri – PSG, Benfica, Manchester City, Bayer Leverkusen, Porto
Bayern de Munique – Arsenal, Napoli, Barcelona, Monaco, Leicester, Juventus
*Rostov na Liga Europa

Grupo E
Monaco – Benfica, Manchester City, Bayern de Munique, Real Madrid, Porto, Sevilla
Bayer Leverkusen – Arsenal, Napoli, Barcelona, Atlético de Madri, Leicester, Juventus
*Tottenham na Liga Europa

Grupo F
Borussia Dortmund – PSG, Benfica, Manchester City, Porto, Sevilla
Real Madrid – Arsenal, Napoli, Monaco, Leicester, Juventus
*Legia Varsóvia na Liga Europa

Grupo G
Leicester – PSG, Benfica, Bayern de Munique, Bayer Leverkusen, Real Madrid, Sevilla
Porto – Arsenal, Napoli, Barcelona, Atlético de Madri, Monaco, Borussia Dortmund, Juventus
*Copenhagen na Liga Europa

Grupo H
Juventus – PSG, Benfica, Manchester City, Bayern de Munique, Bayer Leverkusen, Real Madrid, Porto
Sevilla – Arsenal, Napoli, Monaco, Borussia Dortmund, Leicester
*Lyon na Liga Europa


Chelsea e PSG, o sortudos. United e Arsenal, os ameaçados
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juliogomes

No ano passado, Manchester City e Chelsea. No ano retrasado, City e Manchester United. Clubes ingleses eliminados na fase de grupos da Champions League, está aí algo “impossível” poucos anos atrás, mas que ocorreu com frequência inesperada nas últimas temporadas.

Após o sorteio da fase de grupos, nesta quinta, podemos dizer que Manchester United e Arsenal são os que mais correm riscos de repetir os vexames recentes. Foram os dois cabeças-de-chave “agraciados” com adversários difíceis no caminho rumo ao mata-mata do torneio europeu.

O sorteio tinha 32 times divididos em 4 potes, de acordo com o coeficiente Uefa de cada um. No pote 1, só time grande. No pote 2, algumas forças misturadas com outros times menos potentes. Nos potes 3 e 4 é onde deveriam estar as “babas”, o problema é que havia clubes fortes no meio delas. No pote 3, o temido Manchester City e duas forças da Bundesliga: Borussia Dortmund e Bayer Leverkusen. No pote 4, dois times de ligas fortes: Napoli e Real Sociedad.

Esses cinco poderiam ter ido um para cada grupo. Mas qual graça teria o sorteio, não fosse pela formação usual de grupos da morte?

Bayer Leverkusen e Real Sociedad caíram no Grupo A, encabeçado pelo Manchester United. O outro time do grupo é o Shakhtar Donetsk, que no ano passado eliminou o Chelsea na fase inicial. O Shakhtar é um ótimo time, com bons jogadores brasileiros e já muita experiência am Champions League, pois tem jogado o torneio todo ano. Sem dúvida, o United é o favorito para passar, deixando para os outros três a disputa da segunda vaga. Mas olho aberto, não é o United de Alex Ferguson, é o United de um técnico novo, com quase nenhuma experiência em competição europeia.

Nas três primeiras rodadas, são dois jogos em Manchester, contra Bayer e Real. É aqui que o United tem de ganhar pontos e tranquilidade, senão pode viver um drama para se classificar.

O Arsenal, que é menos forte do que o United, pegou as duas maiores carnes de pescoço dos potes 3 e 4: Dortmund e Napoli. O Borussia é o favorito neste grupo, e o Napoli montou um ótimo time sob o comando de Rafael Benítez, é a segunda força da Itália – só atrás da Juventus. O grupo ainda tem o Olympique de Marselha, que tem tradição, torcida, estádio complicado e começou muito bem a temporada.

Dois anos atrás, Arsenal e Marselha passaram de um grupo que tinha o Dortmund e o Olympiacos (em vez do Napoli). Apenas coincidência que o grupo da morte deste ano seja quase idêntico a um grupo de pouco tempo atrás. Meu palpite é que Borussia e Napoli passam, deixando o Arsenal pelo caminho – salvo reforços de verdade até segunda-feira, quando se fecha a janela.

Se United e Arsenal deram azar, o mesmo não podem dizer os outros dois ingleses. O Chelsea, de José Mourinho, caiu no grupo mais fraco, o E, com Schalke 04, Basel e Steaua Bucareste. O Manchester City, que caiu dois anos seguidos em grupos da morte, vai ter de encarar o Bayern de Munique. Mas os outros rivais são CSKA Moscou e Viktoria Pilsen, que representam pouco perigo. A questão é: entre Bayern e City, que vai ficar em primeiro e ganhar o direito de decidir em casa nas oitavas?

Este confronto, entre o campeão alemão e o vice inglês, entre Guardiola e Pellegrini, tem tudo para se repetir mais à frente nesta mesma Champions. Nas quartas, semis ou, por que não?, até mesmo na final.

Outro ricaço que deu sorte foi o Paris Saint-Germain, que caiu no grupo do pior time entre todos os cabeças-de-chave, o Benfica. E foi acompanhado de Olympiacos e Anderlecht. Grupo baba para o PSG.

Real Madrid e Barcelona, os dois maiores da Espanha, têm pela frente Juventus e Milan, os dois maiores da Itália. Não vejo ninguém ameaçando a classificação dos quatro, ainda que o Milan possa sofrer contra Ajax e Celtic. A questão é quem passa em primeiro nestes grupos.

Por fim, o grupo equilibradíssimo com Porto, Atlético de Madrid e Zenit, além do debutante Austria Viena. Os dois que passarem aqui podem criar problemas para grandes nas oitavas de final. Abaixo, minhas previsões para os oito grupos, na ordem de classificação:

Grupo A
Classificados: Manchester United (ING) e Real Sociedad (ESP)
Liga Europa: Shakhtar Donetsk (UCR)
Eliminado: Bayer Leverkusen (ALE)

Grupo B
Classificados: Juventus (ITA) e Real Madrid (ESP)
Liga Europa: Galatasaray (TUR)
Eliminado: Copenhagen (DIN)

Grupo C
Classificados: Paris Saint-Germain (FRA) e Benfica (POR)
Liga Europa: Anderlecht (BEL)
Eliminado: Olympiacos (GRE)

Grupo D
Classificados: Manchester City (ING) e Bayern de Munique (ALE)
Liga Europa: CSKA Moscou (RUS)
Eliminado: Viktoria Pilsen (TCH)

Grupo E
Classificados: Chelsea (ING) e Basel (SUI)
Liga Europa: Schalke 04 (ALE)
Steaua Bucareste (ROM)

Grupo F
Classificados: Borussia Dortmund (ALE) e Napoli (ITA)
Liga Europa: Arsenal (ING)
Eliminado: Olympique de Marselha (FRA)

Grupo G
Classificados: Atlético de Madrid (ESP) e Porto (POR)
Liga Europa: Zenit (RUS)
Eliminado: Austria Viena (AUT)

Grupo H
Classificados: Barcelona (ESP) e Milan (ITA)
Liga Europa: Ajax (HOL)
Celtic (ESC)

Atlético de Madrid e Napoli são, para mim, os “médios” que podem aprontar para os grandes nesta Champions. O Arsenal, como eu já disse, é o maior candidato a fracassar. Bayern, Barcelona, Real Madrid, Chelsea, Juventus e Manchester City. Esta é minha ordem de favoritismo para o título, e não vejo o título nas mãos de algum time que não seja um destes seis.

E para vocês, quem vai levar a “orelhuda” em Lisboa, no ano que vem?

(obrigado aos que me corrigiram… a final é na Luz, não em Wembley)


Fica, Bernard! A Ucrânia é uma gelada…
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juliogomes

Quem me acompanha há meses, talvez até anos (deve ter algum louco), não deve estar entendendo nada. Como assim o Julio Gomes, “baba ovo dos europeus”, crítico ferrenho do futebol jogado no Brasil, está dizendo para Bernard ficar?? Tem coisa errada aqui.

Posso explicar, posso explicar. Vou tentar, pelo menos.

Sim, sou crítico ferrenho do futebol brasileiro e da maneira como se vê e analisa futebol no Brasil. Somos resultadistas, reféns do fim, sem preocupação com o meio. Encaro o jogo como um jogo de estudos, conhecimento teórico, não somente os métodos empíricos que dominam por aqui. Acredito que o futebol deva ser jogado em cima de filosofias técnicas, táticas e morais, não em busca do resultado pelo resultado. Interpreto o esporte com o mesmo peso de importância para as facetas ofensiva e defensiva, baseado em conceitos coletivos, não individualistas. Acredito que o esporte, e o clube, tenham responsabilidades sociais relevantes. E lamento muito termos categorias de base que estão largadas e, em regra, dominadas por preceitos equivocados. Os jogadores e técnicos brasileiros são mal formados, simples assim.

Dito tudo isso, de forma bastante resumida, acredito que os jogadores importantes do Brasil precisam sair daqui para conhecer e evoluir no mais alto nível de competição, e este nível não está aqui. Está nas ligas europeias. Não estou aqui vomitando uma opinião. Isso é consenso entre os próprios jogadores, os profissionais brasileiros envolvidos com o futebol – ainda que muitos deles mantenham um discurso oposto para não “se queimarem” por essas bandas.

E aí chegamos ao caso Bernard.

Eu não tenho dúvidas sobre a necessidade de Bernard ir para a Europa para dar um passo além em seu jogo, em sua carreira. Os problemas são o momento e o destino.

Bernard é, hoje, um nome certo na Copa do Mundo do ano que vem. E um jogador importante na cabeça de Luiz Felipe Scolari, aquele garoto para revolucionar partidas complicadas, para colocar velocidade, para dar a opção de explorar contra ataques. E um nome muito pouco conhecido, praticamente um anônimo para jogadores e técnicos de outras seleções. Ou seja, pode realmente ser um fator surpresa no Mundial.

Por mais globalizado que esteja o futebol, pouca gente na Europa perde tempo vendo partidas do Brasileirão ou Libertadores. Não concordo com ela, mas é uma realidade. Um treinador de uma seleção importante saberá exatamente quem é Bernard, eventualmente poderá mostrar vídeo em alguma preleção. Mas o efeito é muito diferente. Se Bernard jogar na Europa, ele será visto pelos próprios colegas de profissão, seu jeito de jogar será conhecido, trejeitos, seu ponto forte, o fraco, etc. Ele estará exposto.

Pensando em seleção brasileira, o fator surpresa representa algo mais positivo do que a evolução tática que ele terá jogando na Europa por uma temporada apenas.

Há, também, o fator risco. Onde ele vai parar? Em que time? Com que técnico? Quantos minutos terá? Vai conquistar rapidamente espaço ou vai esquentar banco por muitos minutos? Será uma temporada de transição e falta de ritmo?

Vejamos os cenários. Se ficar no Brasil, Bernard jogará em sua cidade, com sua torcida, em um time que (infelizmente) não terá pressão no Campeonato Brasileiro. Tranquilidade para trabalhar, tentar, arriscar, fazer gols. A imagem, perante o mercado, só tende a melhorar, pois o bom rendimento é quase uma garantia.

Um cenário que não seria ruim seria o Porto. É um clube gigante de Portugal, um grande da Europa, que não fará feio e irá a fases agudas da Champions League. Um país em que o idioma é o mesmo, o clima não é um fator de relevância, muito menos a culinária. Um clube super acostumado a brasileiros, vencedor, que jogará a maioria das partidas com a boa responsabilidade da vitória. O Porto é comprador e também vendedor, vive disso, não seria a coisa mais complicada do mundo dar um salto maior na Europa daqui a um, dois, três anos. Tantos outros o fizeram.

Pensando em Copa do Mundo, o melhor seria Bernard ficar. Pensando na carreira, ir para o Porto está longe de ser má ideia.

O problema é que a opção mais forte, que está se desenhando, é o embarque para o Shakhtar Donetsk. E aí, amigos, seria ruim para a seleção e para a carreira. Bom mesmo, só para o Atlético e o monte de intermediários que colocarão dinheiro no bolso.

Jogar na Ucrânia tem algumas vantagens. Menor pressão é uma delas, dirão alguns. Você é comandado por um homem do futebol e está rodeado de brasileiros no time, isso minimiza um pouco o abismo cultural que é viver na Ucrânia. A exposição não é pequena, se o clube repetir passos importantes em competições europeias.

Mas os pontos negativos, para mim, existem em maior número. A evolução futebolística é mais lenta, porque ela ocorre muito mais em raros jogos europeus do que na liga doméstica. Como já citado, o fator surpresa na Copa acaba. As chances de lesões aumentam pelo fator climático, a dureza da competição e o fortalecimento obrigatório para aguentar tudo isso, o que pode mudar o formato corporal de maneira sensível e comprometedora.

E o principal. O Shakhtar é comprador, como o Porto. Mas não é vendedor. O clube pertence a um multibilionário que não está nessa de futebol para ganhar dinheiro e, sim, para se divertir. As leis de mercado não se aplicam tanto assim, não é uma instituição conhecida por atender corações e facilitar a saída de jogadores. Que o digam Elano, Fernandinho, Willian… Bernard não pode considerar o Shakhtar um trampolim. Pode até ser, mas dar o salto ali para um grande europeu não é tarefa fácil. Muito pelo contrário.

Para o Atlético, talvez o dinheiro seja necessário neste momento. Mas é difícil imaginar qualquer tipo de desvalorização no período de um ano, o mais provável é que ocorra o contrário. Que o Galo venda Bernard mais tarde por mais dinheiro.

A impressão que eu tenho é que Bernard quer ficar. Sair ano que vem ou, pelo menos, não sair para a Ucrânia. Seria importantíssimo, para ele e para o futebol do país, ficar neste momento. E fazer as malas só depois do Mundial.

 


José está de volta para casa e com a namorada com quem foi mais feliz
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juliogomes

José era um gajo muito inteligente e emotivo. Estudioso desde a adolescência, não hesitou, como muitos em seu país, ao tomar a decisão de viver fora junto com um tio bem mais velho e aprender, absorver conhecimento, agregar idiomas e experiência.

Conheceu uma moça linda na escola, ela chamava-se Núria. De forte personalidade, muito apegada a seus valores locais e conhecida por todos. Apaixonou-se e fez uma promessa a si mesmo. Um dia, ela seria sua.

Foi-se embora quando o colégio técnico lhe chamou, a ansiedade era grande, era preciso voltar à sua terra. A batalha interna entre razão e emoção sempre foi muito intensa, um verdadeiro cabo de guerra que só José conhece. A razão quase sempre ganha, no entanto.

José teve outras namoradas. Duas delas, as meninas mais famosas do bairro. Uma, Luz, passou rápido por sua vida. O outro namoro, com Lourdes, foi intenso e feliz. A família toda adorava José e muitos pensavam que o namoro seria para sempre, mas o garoto ainda era muito novo, havia concluído seu curso com êxito, e o bairro ficara pequeno. A fama, pela incrível competência, já se espalhava pelo mercado.

Partiu José para a universidade – uma instituição antiga, mas que só agora estava fazendo investimentos importantes. Lá, ele fez chover. As coisas davam certo, o reitor e os outros colegas eram quase devotos. Namorou a mais rica das moças, Elizabeth, o casamento parecia inevitável. Ela era perfeita para ele: de família milionária, dava suporte a todos os seus projetos. Famoso e admirado, podia arriscar e até errar. Levou o nome da universidade para o mundo. Era o verdadeiro dono do pedaço.

José, inquieto, começou a deixar que a emoção tomasse conta da razão. Estava tão certo de si que pouco ouvia o que os outros falavam. Alguns de seus seguidores e pupilos lhe deram as costas. Como todas as relações na vida, a dele com sua amada começou a ficar desgastada. Já não havia mais dinheiro para as experiências, jantares, festas e compras. As brigas se sucediam. Ele fez as malas e foi embora com o coração partido.

Era tempo de rever amigos da escola, se apoiar no passado para superar o momento difícil. José sempre havia sido dono de seu destino, aquele pé no traseiro desferido por Elizabeth havia sido um duro golpe.

Um amigo de infância contou que aquele seu primeiro amor, Núria, de tantos anos atrás, estava em um momento difícil. Havia perdido o namorado de anos, fora abandonada por amigas, estava depressiva. Era a grande chance para José. Ele mandou flores, convidou para jantar no melhor restaurante, mostrou todos os projetos de sucesso.

Mas Núria não queria José e tinha uma maneira curiosa de dispensá-lo. “Vete al teatro”, dizia ela. Núria era apaixonada por Pep, um velho amigo de José dos tempos de escola. Eles eram muito diferentes, realmente. Se davam bem, mas eram pessoas distintas. Pep, um garoto popular desde cedo, de uma família local, enquanto José nunca havia deixado de ser o menino de fora, o estrangeiro. Pep, mais bonitão, filósofo, um apaixonado. José, um prático, competitivo demais, até. Núria sempre havia tido uma queda por Pep, mas naquela época de criança eram todos muito inocentes.

Agora, não. José era um homem feito, enquanto Pep mal havia saído do bairro. Ser esnobado daquela maneira por Núria doía como a morte de alguém querido. José jurou vingança.

Botou o pé na estrada novamente e fez seu mestrado. Conheceu uma moça experiente, teve um lindo caso de amor com Francesca. Rápido, mas inesquecível. A sintonia era total, os projetos deram certo, ganhou o prêmio máximo europeu. Era uma tese estranha, relacionada a estacionamentos específicos de grandes veículos, como ônibus. Teve sucesso, apesar da desconfiança geral. Mas aquele não era seu lugar. Deu um longo beijo em Francesca, que ficou destroçada e nunca mais se recuperou. Guardou uma foto com carinho. E foi-se embora, pois era a hora da vingança.

Dias antes, recebera uma carta de Sofia. Inimiga número um de Núria desde os tempos de escola, até mesmo as famílias se odiavam. Pep, finalmente, havia decolado em sua carreira profissional, estava tocando projetos importantes e reconhecidos no mundo inteiro. Tudo ia bem entre Pep e Núria, até que José voltou e tudo ficou conturbado.

O romance de José com Sofia foi cheio de altos e baixos e eles logo se casaram. Foi muito mais um acordo do que paixão verdadeira. Muito rica, ela financiou todos os seus caprichos e o mestrado, que tinha uma tese final com enunciado estranho: “como avançar 100 metros em quatro toques”. No início, as coisas foram bem. José fez a empresa do pai de Sofia assumir a liderança do mercado, deixou Pep em parafuso e ele até terminou o namoro com Núria. Era uma vitória pessoal de José, mas ao mesmo tempo tudo ficou estranho, sem a presença do grande inimigo na concorrência. Núria nem olhava em sua cara. A amizade de infância virou ódio puro.

Com o passar do tempo, José e seus planos mirabolantes começaram a causar preocupação em alguns familiares. Custava muito caro, o novo namorado de Sofia! A família se dividiu. O pai de Sofia, Dom Pérez, até que gostava de José. Mas ele havia arrumado problemas com primos, tios, até os netinhos e médicos da família. Nem mesmo o porteiro da casa ele conseguia trocar! Os funcionários da fábrica, que não faziam parte da família, gostavam muito dele. Mas não havia mais condições de ficar naquele lugar.

José não aguentava ter que passar por tantos crivos familiares. Ele era mestre em sua área, um profissional renomado e de sucesso. Em um mundo moderno e competitivo, aquela família era um verdadeiro atraso. José nem mesmo se reconhecia em alguns momentos. Aquele garoto animado, empolgado e espirituoso havia se transformado em um homem carrancudo, amargurado, raivoso. José não estava feliz e começou a pensar no divórcio.

Plim. Mensagem no celular.

“José, my love. Nunca te esqueci. Não sou mais rica. Percebi que o dinheiro não é tudo na vida. Meus outros homens foram efêmeros, apelei até para o garçom espanhol, lembra dele? Nada deu certo. Você não quer voltar para casa? Estamos todos de braços abertos. Você é muito importante para nós, a empresa do papai ganhou aquele prêmio que você não conseguiu, mas está tudo bagunçado e a gente precisa de toda essa experiência que você adquiriu. Você é o special one. Assinado: Yours, Elizabeth.”

José não pensou duas vezes. Elizabeth não tem o charme de Sofia. Nem a experiência de Francesca. Não é bela como Núria. Mas ele nunca havia sido tão feliz. Vai poder trabalhar em paz, do jeito que ele gosta. Com mais razão e menos emoção, sem aqueles chatos com microfones, blocos e canetas fazendo perguntas idiotas. Ali não tem primo para encher o saco. É só não se queimar com o pai, chamado de Russão pelos íntimos, e ele pode fazer as coisas à sua maneira. Era a hora de ganhar o prêmio de novo.

Menu do celular. Mensagens. Nova. Digitar.

“Elizabeth, nunca te esqueci e nunca deixarei de te amar. O endereço é o mesmo? A Internet está funcionando? Estou chegando amanhã. Mande um abraço para o teu pai. Marque o casamento. Beijos, José”.

José, finalmente, vai poder trabalhar do jeito que gosta. Tem mais uma chance para ser feliz onde mais se sentiu à vontade na vida, no lugar que mais gostou, com a mulher que mais lhe fez feliz. Sofia e Núria seguem se odiando. Francesca não sai da depressão. Lourdes continua arrumando namorados melhores do que Luz. Pep foi trabalhar em outra empresa, que hoje é a melhor do mundo.

Em agosto, José e Pep têm um novo encontro marcado. Esse mundo realmente é uma bola.

 


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