Blog do Júlio Gomes

Brasil mostrou a sua cara. Agora falta esporte virar questão de Estado
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juliogomes

O Brasil mostrou a sua cara para o mundo ao longo de duas semanas. Mais até do que na Copa, dois anos atrás.

A Copa, além de espalhada, recebe gente muito mais preocupada com sua seleção ganhar ou perder do que se a sede dos jogos é brilhantemente planejada e organizada. Os jogos em si, cada jogo, têm um peso muito grande no noticiário.

Na Olimpíada, é diferente. As competições são simultâneas, o interesse é difuso, olha-se muito para a sede. E o Rio é, a meu ver, o melhor exemplo de microcosmo brasileiro que temos. A mescla total, riqueza e pobreza, sujeira e beleza, o jeito de ser do brasileiro em cada esquina.

Mostramos o que somos. Quentes na hora de torcer pelos nossos, às vezes passando dos limites, mas certamente empurrando como poucos povos fazem. Calorosos para receber o estrangeiro, mas implacáveis com eles, dependendo do que eles nos digam e façam. Conseguimos fazer coisas funcionarem, mas somos péssimos em planejar e fazer com que elas funcionem sem sustos, atrasos ou parênteses. A vida na corda bamba.

Somos um povo habituado a conviver com a violência, com acidentes, com a mentira e com o colarinho branco. E tudo isso vimos na Olimpíada. Ciclistas sendo atropelados, roubos na Vila Olímpica, aqui e ali, máfia de ingressos e até uma rara investigação policial para provar que o americano bonitão estava mentindo. Vimos também, e não demos muita bola para isso, que seguranças particulares apontaram armas para nadadores embriagados e baderneiros. O exagero nosso de cada dia.

Somos também, além de tudo isso, apaixonados por competição. Por ganhar e perder.

Cultura esportiva é algo que pouquíssimos países têm. Gostar do esporte, independente de seu time ou país estar competindo. Independente de ganhar ou perder.

Vimos muitas arenas vazias. Os preços não eram baixíssimos. Mas tampouco altíssimos. Há gente suficiente no país para lotar ginásios. Vir para o Rio era impossível? Sim, quase. Mas arrisco dizer que há gente suficiente no Rio para lotar ginásios. E, se não há, era fácil para o poder público coordenar que pessoas que nunca mais terão essa oportunidade tivessem ganhado ingressos para o Parque Olímpico.

Me parece que o problema vai além dos preços. É, como eu disse, gostar de esportes.

Como gostar do que não se conhece? A mídia, especialmente a mídia de massa, TVs abertas, é diretamente responsável por esse desprezo do país por esportes. Só se passa futebol e qualquer esporte aleatório em que haja brasileiro ganhando ou perdendo. O vôlei, para estar na TV, precisou virar o esporte em que o país é um fenômeno.

De qualquer forma, por mais que tenha culpa no cartório, não é da televisão a missão de fomentar o esporte no país.

Isso é missão de governos. É, ou deveria ser, questão de Estado.

Estamos em uma época em que pessoas caem em um conto besta como a economia de contas públicas com cortes de ministérios. Como se fossem eles, os ministérios, e não a evasão fiscal, equívocos de direção, a sonegação, os responsáveis maiores pelo rombo.

Então ouvimos tranquilos quando o governo interino decide acabar com o Ministério do Esporte. Que vai ser juntado com turismo. Sabem o que esporte e turismo tem a ver? Somente uma coisa: ambos poderiam ser a salvação do Brasil. Mas são desprezados, descuidados, largados à própria sorte.

Se fosse para juntar esporte com alguma outra pasta, esta deveria ser a educação.

Não há forma melhor de inserir uma pessoa na sociedade. De “forçar'' uma criança a frequentar escola. De ensinar sobre o corpo, ganhar, perder, respeito ao próximo. Rafaela Silva e Isaquias Queiroz, meus medalhistas favoritos da Rio-2016, são provas vivas da diferença que o esporte pode fazer na vida de uma pessoa.

A educação pública brasileira é ruim, todos sabem. Entre os tantos passos que precisam ser dados, um deles é a inserção do esporte como coluna vertebral de todo o processo.

Não para ganhar medalhas! Isso tem que ser apenas consequência.

No futebol, já estamos habituados a ver dirigentes corruptos, irresponsáveis, mas que são idolatrados por alguns – ou até por muitos – dependendo do resultado que “obtiveram'' para os clubes. E até para a seleção.

Não podemos cair no mesmo conto em relação aos esportes olímpicos. Foi colocado em prática um modelo para fingir que o Brasil é potência olímpica. Uma potência olímpica não é forjada no alto rendimento. É forjada na base.

É claro que é necessário ter investimento no esporte de alto rendimento. Mas o dinheiro público, incluindo o arrecadado pelo Comitê Olímpico Brasileiro via loterias, tem que ir prioritariamente para a base. O dinheiro deveria ser usado para inserir o esporte nas camadas inferiores, como alicerce da educação.

A partir daí, se pinçarmos talentos e conseguirmos criar centros para lapidá-los e, depois, ganharem medalhas… que bacana! Mas isso é o fim, não pode ser um meio.

O Brasil bateu seu recorde de medalhas de ouro no Rio e também o total de medalhas. Mas por uma margem bem curta. A notícia é boa. Imaginem as groselhas que não estaríamos ouvindo dos chupins do esporte, tivesse o Brasil acabado no top 10 do quadro de medalhas. É melhor que seja como foi.

O fato de 12 modalidades diferentes terem recebido medalhas é muito bacana. Mostra diversidade.

Investimento público forte e consistente no esporte de base é o que cria cultura esportiva. É o ponto inicial para termos um ciclo virtuoso: pessoas que pratiquem diversos esportes, campeonatos, consequentemente interesse, criação de ídolos, mídia, patrocínios e investimento da iniciativa privada quando chegamos ao alto rendimento, o topo da pirâmide.

Diga não ao fim do Ministério do Esporte. Diga não a colocá-lo nas mãos de parceiros políticos aleatórios. Diga sim ao esporte como centro de uma política educacional consistente. Diga sim ao investimento em centros esportivos espalhados pelo país.

De uma vez por todas, o esporte precisa virar questão de Estado.

rio-olimpiadas

 

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Que cruéis somos
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UOL Esporte

O Brasil ganha o ouro no futebol. E os sorrisos demoram uma eternidade para aparecer.

Neymar chora. Micale chora. Renato augusto chora. Douglas Santos chora. Todo mundo chora.

O choro coletivo mostra o quê? Tem a ver com a carga bizarra, pouco humana de pressão que é colocada nesses homens.

Carga que vem da família, da imprensa, dos vizinhos, de todo mundo. Como povo, somos simplesmente cruéis demais com jogadores de futebol.

“Ah, eles recebem milhões para isso''.

Bom, primeiro que nem todos recebem milhões. Segundo, quase todos passaram por dificuldades tão grandes na vida que os tais milhões deveriam servir como compensação, não como justificativa para mais pressão.

Se eles ganham milhões é porque pagamos milhões para vê-los. Se hoje muitos são mimados e não sabem perder é pela redoma criada em volta, a falta de estrutura e cultura.

O fato é que se fala tanta bobagem sobre futebol que no fim a “análise'' fica em ganhar ou perder. E quando a coisa é assim binaria o “perder'' se transforma em algo gigantesco. Pois o “perder'' significa que todo o sacrificio feito para ganhar não valeu.

Sabem o que o choro coletivo mostra? Que esses rapazes estavam mais preocupados em não perder do que ganhar. E isso não é saudável.

Thiago Silva foi esculachado porque chorou ao ganhar. E esses medalhistas de ouro? Serão também? Espero que não.

E o que o ouro representa?

Muito para eles. Bacana para gerações futuras, que terão menos pressão. Mas não é sinal de nada.

O futebol é disparado o esporte que mais importa aqui. Sempre seremos fortes. Deveríamos, no entanto, ver o futebol de outra maneira.

Incluindo, preparando os quase jogadores ou jogadores não tão bons para trabalhar com esporte. Usando o amor das crianças pelo futebol para colocá-las em um universo mais amplo. Educá-los. Trazer as mulheres para o esporte.

Enfim, o que se faz na Alemanha.

(Crédito: Reuters)


A linha tênue entre o vira-latismo e o reconhecimento
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juliogomes

Não gosto do vira-latismo clássico. TUDO o que vem de fora é o certo, é o bom, nós não sabemos nada de nada, somos péssimos.Mas também ODEIO o vira-latismo ao contrário. Essa raiva de estrangeiros, de dizer que eles todos se acham superiores em tudo (será mesmo?), que não devemos nos curvar a nada, ouvir, não aceitamos outras visões. O vira-latismo ao contrário é não admitir quando um estrangeiro é mesmo melhor em alguma coisa ou tem razão no que fala.

Ele é latente quando brasileiro fala de futebol.

 

Gosto sempre do equilíbrio.

 

Por exemplo. Em relação à torcida, ao público espalhado pelos diversos locais de competição nessa Olimpíada.

 

É óbvio que temos algumas coisas a aprender sobre comportamento convencional em esportes específicos. Não temos cultura esportiva. Por que não aprender?

 

Todos sabemos que no tênis, durante os pontos, a convenção é fazer silêncio. O tênis é um esporte relativamente popular, jogos são transmitidos nas TVs daqui há anos. Mas o que sabemos sobre o tênis de mesa? Também se faz silêncio? Simplesmente não sabemos. E na esgrima? Em que hora a comemoração ou tentativa de empurrar está invadindo um espaço do atleta?

 

Por que não ouvir humildemente e conhecer as convenções de cada esporte?

 

Por outro lado, não temos que aprender nada nem ouvir nada sobre “jeito'' de torcer dentro dessas convenções. Gritar mais, menos, etc. Isso é de cada um, é cultural. Somos o que somos e isso deve ser respeitado.

 

No boxe, o barulho da torcida é para lá de comum. Se um gosta de urrar, o outro de aplaudir, o outro de gritar “uh, vai morrer''… oras… cada cidadão que faça do jeito que preferir. Idem para o basquete, o vôlei, a maioria dos esportes “de estádio''. Não gosto quando se critica excesso de barulho ou “paixão'' da torcida brasileira em modalidades onde haver barulho é normal.

 

É por isso que chamei de “mimimi'' o que fez o francês derrotado por Thiago Braz na final do salto com vara. Ao mesmo tempo, é preciso ter humildade para entender como funciona o esporte “normalmente''. Ter um pouco de empatia, vestir as sandálias dos outros.

 

Outro exemplo de vira-latismo versus vira-latismo ao contrário.

 

Técnicos estrangeiros.

 

Será que Thiago Braz e Isaquias Queiroz ganhariam medalhas, não fossem os técnicos estrangeiros?

 

Será que teríamos handebol e polo aquático ganhando jogos antes inimagináveis, não fossem os estrangeiros no comando das seleções brasileiras?

 

Precisamos nos curvar, sim, ao maior conhecimento. As federações de diversos esportes acertaram em cheio ao investir e trazer gente de fora. Não há nada no mundo mais frutífero que intercâmbio. Aprender com outras culturas, outras visões, outras técnicas.

 

Isaquias não estaria ganhando medalhas, talvez nem competindo em alto nível, não fosse o treinador espanhol Jesús Morlán. Foi ele mesmo quem disse.

 

Isso não é vira-latismo. É reconhecimento.

 

Vira-latismo seria dizer: nenhum esporte brasileiro vai conseguir alguma coisa sem técnicos estrangeiros. Vimos na ginástica, por exemplo, como a chegada dos ucranianos foi um divisor de águas. Mas, a partir disso, o esporte ganhou corpo e vida próprios. Entre os homens, Marcos Goto e Renato Araújo são dois dos grandes responsáveis pelos êxitos de Arthur Zanetti e Diego Hypolito.

 

O quanto eles aprenderam e absorveram dos estrangeiros? Certamente, muito.

 

No vôlei, possivelmente tenhamos mais a oferecer do que importar. Como foi com o futebol nos bons tempos (hoje, não mais).

 

Somos bons em algumas coisas, não tão bons em outras, péssimos em outras. O mesmo serve para todas as outras nacionalidades. Trocar informações e experiências faz a sociedade inteira evoluir. Menosprezar, não.

 

Tenho amigos que respeito muito e que não perdem uma chance de vestir uma incrível camisa nacionalista. “Quem são eles para virem nos dizer o que fazer?''. São discursos quase xenófobos, não conhecesse eu o caráter deles. Assim como conheço gente que despreza tudo que venha ou seja do Brasil. O verdadeiro exemplar do complexo de vira-latas.

 

Acho até que muitos achem que eu seja assim, por estar constantemente criticando o futebol brasileiro e mostrando como seria bacana copiar algumas coisas que funcionam na Europa.

 

Mas vejam. Assim como sou entusiasta da organização do futebol europeu e dos desenvolvimentos tático e de métodos de treinamento, eu não gosto do futebol asséptico do mundo das arenas ultramodernas de ingressos caríssimos (ou seja, copiamos justo o que não deveríamos copiar).

 

Me dá até medo ver a seleção feminina de futebol perder, para não ter que ouvir os verdadeiros vira-latas falando groselhas. Assim como me dá medo a seleção masculina ganhar o ouro, para não ouvir o cidadão no outro extremo, aquele com complexo de pitbull.

 

Como já disse aqui neste post, o importante é buscar o equilíbrio.

 

Falar só bem ou só mal de tudo e todos é fácil. Ouvir é uma arte.

 

vira_lata

Vaias ao francês do salto com vara na entrega de medalhas foram ridículas
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juliogomes

Depois da vitória de Thiago Braz no salto com vara, na noite de segunda-feira, o francês Renaud Lavillenie fez duras críticas à torcida brasileira, que vaiou seu último salto. Ele fez sinal de negativo antes de partir com a vara. A pressão entrou em sua cabeça. Errou. O recordista mundial e campeão em Londres-2012 precisou se contentar com a prata. Não respeitou o adversário que tinha pela frente.

Critiquei aqui no blog Lavillenie pelo mimimi, pela atitude.

Percebi ao longo do dia que muitas pessoas concordaram com meu ponto de vista. Li também outros pontos de vista, que respeito, especialmente de um grande amigo que disse:

“Torcer é algo que deve ser positivo. É a tua maneira de ajudar atletas. Vaiar é apenas uma expressão de intenções negativas para destruir o oponente. Esporte não é guerra, ainda mais em Olimpíadas. Desculpar a atitude do público dizendo que em outros países se faz o mesmo não é um argumento válido. Errado não vira certo só porque todos estão fazendo errado''.

Respeito muito o ponto de vista. Apenas não concordo com ele no caso específico da prova do salto com vara. É uma torcida pelo ouro, pelo atleta da casa, no calor da competição. É um estádio! Esporte não é guerra. Mas não considero o que foi feito no Engenhão algo próximo de uma guerra.

De qualquer maneira, todos tiveram horas para esfriar a cabeça.

A organização dos Jogos pediu desculpas ao francês pelo comportamento do público, que, quer queira quer não, certo ou errado, não é o de costume em provas de atletismo pelo mundo. Lavillenie pediu desculpas pelo exagero em suas críticas, por ter comparado (absurdamente) as vaias às recebidas por Jesse Owens pelos nazistas em 1936.

E eis que chegamos à hora do pódio, na noite de terça, no Engenhão.

E, no momento da entrega da medalha de prata ao francês, uma sonora vaia ecoou no Estádio Olímpico do Rio. Thiago Braz, que está longe de ser amigo do francês, fez um gesto de incredulidade, tentou consertar tudo pedindo aplausos. Funcionou mais ou menos, mas já era tarde.

Um absurdo completo. Um ridículo. A primeira vez na Olimpíada que senti vergonha do público brasileiro.

choro_frances

Foi um dia difícil para o Brasil. Boas notícias com o ouro no boxe e a prata na canoagem, ambas medalhas inéditas, de baianos resgatados do nada para brilhar no esporte. Heróis. Mas muitas más notícias também, com as derrotas das mulheres do vôlei, do handebol, do futebol, de Fabiana Murer, com o amargo quarto lugar de Scheidt na vela.

Nenhuma má notícia, no entanto, se compara com o que foi feito no Engenhão. Aquela sim, a pior das notícias.

Fizemos um atleta chorar. “Nunca pensei que me sentiria humilhado em um pódio olímpico'', lamentou-se Lavillenie no Facebook.

Feio. Muito mais feio do que as notícias de assaltos, a piscina verde ou as filas. Foi a pior derrota do Brasil na Olimpíada até agora.

O francês foi ridículo no calor da competição, segunda. O público foi ridículo no dia seguinte. De cabeça fria, o que é até pior.

Que pena.

 

 

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Críticas de francês à torcida no Engenhão são ridículas
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juliogomes

MI MI MI.

Não há outra maneira de definir a atitude do francês Renaud Lavillenie após perder o ouro para o brasileiro Thiago Braz no salto com vara, na noite de segunda-feira, no Engenhão.

Lavillenie ficou revoltado. No momento em que só sobraram ele e Braz na disputa, a torcida, que esquentou conforme a competição avançava, passou a vaiar as tentativas do francês.

Tudo transcorria normalmente antes. Enquanto saltava sem erros, o francês não reclamava de nada nem de ninguém. A vaia foi mais forte mesmo só na última tentativa, depois de Braz ter voado para saltar 6,03 m, melhor marca da carreira. O francês, além de campeão olímpico em Londres, é detentor do recorde mundial. Já saltou 6,16 m para tomar o lugar do lendário Sergei Bubka, dono de seguidos recordes ao longo de 30 anos (de 84 a 2014).

Um cara fera e experiente como Lavillenie não deveria se abalar com vaias. Ao fazer sinal de negativo antes mesmo de seu último salto, ele passou o recibo. A torcida ganhou dele antes mesmo de Thiago. Entrou em sua cabeça. Ele deu o último salto sabendo que ia errar e já sabendo que justificativa daria.

frances_mimimi

Comparar as vaias desta noite com as recebidas por Jesse Owens em 1936 é um descalabro. Em Berlim, sob as bandeiras do nazismo, as vaias não eram apenas esportivas.

Ninguém no Engenhão tinha nada contra a França, o fondue, a Peugeot, champagne, perfume ou Zidane. Não era nada pessoal contra o Monsieur Lavillenie. Era apenas uma torcida quente por uma medalha de ouro que um homem brasileiro não ganhava havia 32 anos.

Somos ignorantes no Brasil em relação à maioria dos esportes. Não sabemos se na hora H do salto com vara se deve ficar em silêncio ou não. Não faz parte de nossa cultura.

Désolé.

Adapte-se. É um estádio. Contra um brasileiro. O que ele queria?

Ninguém cuspiu na cara dele, não houve trapaça, raio laser no olho para atrapalhar, não houve perseguição por horas a fio, ninguém ia bater nele se ganhasse. Teve até aplauso quando ele se retirava do campo. Um tom acima, talvez? Tenho certeza que algo parecido ocorreria no Stade de France, fosse a situação inversa. Franceses não são exatamente os campeões universais dos bons modos.

Seria ótimo se nos habituássemos a ver mais esportes na televisão, não só em Olimpíadas. Aprenderíamos sobre regras, costumes, comportamentos.

Mas o que aconteceu no Engenhão foi longe de ser um absurdo.

Lavillenie perdeu. E não soube perder. Não imaginava perder, essa é que é a real.

Nada como o esporte. Do lugar mais inesperado, veio o segundo ouro do Brasil no Rio.

Viva Thiago BRAZileiro!

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Biles: a dois passos de superar mitos e ganhar peso de Phelps e Bolt no Rio
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juliogomes

É a terceira Olimpíada seguida dominada por Michael Phelps e Usain Bolt. Nos dois esportes que talvez sejam os mais “olímpicos'' de todos, estamos testemunhando história.

Em Pequim, em Londres, no Rio. Phelps e Bolt. Bolt e Phelps.

Dá até preguiça contar os feitos de Phelps. Esse lindo álbum de fotos resume tudo de forma bacana e prática. O cara nada todos os estilos, ganhou 28 medalhas, 23 delas de ouro, 13 dos 23 ouros em provas individuais. Um monstro. Ainda encerrou a carreira, no Rio, deixando de lado aquela imagem de máquina sem coração. Superou a depressão, beijou como nunca o filho de 3 meses (tem quem nem tire de casa um bebê desse tamanho!), vibrou, chorou. Ele é gente como a gente.

Bolt nunca teve problemas em se mostrar humano, simpático, especial. O carisma móvel. O carisma que corre como jamais alguém correu.

O primeiro tricampeão olímpico na história do atletismo de pista. O homem mais rápido de todos os tempos. Se confirmar também nos 200m e no 4x100m com a Jamaica, chegará a 9 ouros, se igualando a mitos dos livros olímpicos.

Não dá para se cansar de Phelps e Bolt, Bolt e Phelps.

Mas quero chamar a atenção para um terceiro nome: Simone Biles.

A pequena gigante americana. Menos de metro e meio. 19 anos de idade. Muita história já escrita em Mundiais. E linhas maiores que estão por vir.

biles_imponente

 

Biles conquistou no domingo o terceiro ouro no Rio, ganhando a prova do salto com vantagem assustadora. Já havia vencido no individual geral e por equipes. Nesta segunda-feira, é favorita a ganhar na trave. Na terça, encerra também como favorita no solo.

Prestem atenção a estes dados. Simone Biles pode ser a primeira ginasta a conquistar cinco medalhas de ouro em somente uma edição de Jogos Olímpicos.

Ela está prestes a superar as lendárias Larisa Latynina, ucraniana que competia pela União Soviética, e a tcheca Vera Caslavska. Já igualou o que fez a romena Nadia Comaneci 40 anos atrás com os três ouros no Brasil.

Latynina, para se ter uma ideia, detinha os recordes de medalhas e medalhas em provas individuais na história dos Jogos – até aparecer um tal Phelps. Caslavska é a mulher que mais ganhou medalhas de ouro na história olímpica: sete. Não estou falando apenas da ginástica, mas de todas as modalidades.

Pois bem.

Em Melbourne-56, Latynina ganhou 4 ouros (individual geral, equipes, solo e salto). No México-68, Caslavska repetiu a dose com 4 ouros (individual geral, solo, salto e barras assimétricas). Foi a única, até hoje, a ganhar as provas de três dos quatro aparelhos. Biles está prestes a superar esses números. As duas lendas chegaram a ganhar 6 medalhas em uma edição dos Jogos, coisa que Biles não repetirá. A americana não é espetacular nas barras assimétricas como é nos outros aparelhos. Em compensação, o domínio no solo, trave e salto é assustador.

A pequena gigante faz tudo o que faz em uma época em que a ginástica está globalizada. Se nos anos 60 era uma modalidade dominada pelos países do bloco soviético, hoje em dia está mais difundida e competitiva.

Se Biles conquistar os inéditos cinco ouros, fará História, com H maiúsculo, em uma modalidade de altíssima visibilidade e alcance mundial.

Não estou falando que imediatamente ela ganha o tamanho dos dois mitos. Ela ainda tem tempo para repetir doses e acumular vitórias nos próximos Jogos, como os outros dois, focados, preparados e gigantescos, fizeram.

Mas se segurem, Phelps e Bolt.

No pôster dos maiores atletas da Rio-2016, a nata da nata, parece que vocês vão ter companhia…

Simone Biles
Rio-2016
ouro – individual geral, equipes, salto
trave? solo?

Larisa Latynina (URSS*)
*ucraniana
 
Melbourne-1956
ouro – individual geral, equipes, solo, salto
prata – barras assimétricas

Roma-1960
ouro – individual geral, equipes, solo
prata – trave, barras assimétricas
bronze – salto

Tóquio-1964
ouro – equipes, solo
prata – individual geral, salto
bronze – trave, barras assimétricas

Vera Caslavska (Tchecoslováquia*)
*tcheca

Tóquio-1964
ouro – individual geral, trave, salto
prata – equipes

México-1968
ouro – individual geral, solo, barras assimétricas, salto
prata – equipes, trave

Nadia Comaneci (Romênia)

Montreal-1976
ouro – individual geral, trave, barras assimétricas
prata – equipes
bronze – solo

Moscou-1980
ouro – trave, solo
prata – individual geral, equipes

 

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Thiago Pereira tentou o impossível e pagou o preço. Palmas para ele
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juliogomes

A natação brasileira foi um fiasco na Olimpíada até agora. Não, não falo da ausência de medalhas. Falo da ausência de “melhores provas da vida''. Vimos, nos últimos dias, um show de declarações assim: “infelizmente, não fiz meu melhor tempo, mas estou muito feliz''.

Oras.

Não sou daqueles que critica atletas dos esportes olímpicos à toa. Não acho vexame chegar em 55º no que quer que seja. Cada esporte, cada competição tem um contexto. Só me sinto no direito de ser exigente com UMA coisa: eles e elas têm a obrigação de fazer o seu melhor. De superar o que já fizeram na vida. Estamos falando da Olimpíada. E no Brasil.

Se fazer o seu melhor significa medalhar ou chegar em 4º ou 24º, dá na mesma para mim.

Em alguns esportes, é mais subjetivo saber se o atleta “fez o seu melhor''. Na natação, é fácil. É só olhar para o relógio e comparar os tempos.

Vimos um show de declarações que nos mostram uma atitude errada. “Guardei energia, devia ter arriscado mais''. Sem comentários. “Estou feliz, mesmo sem ter baixado o melhor tempo''. Sem comentários. “O horário das provas não ajudou os brasileiros''. Sem comentários.

E aí chegamos a Thiago Pereira.

Thiago não fez o seu melhor. Mas tentou. Ao contrário de outros, fez um tempo ruim porque tentou o impossível: bater Michael Phelps.

Thiago Pereira cansou de fazer provas conservadoras, dentro de suas possibilidades, na vida. Assim, colecionou um monte de quartos lugares, dando o azar de ser contemporâneo não só de Phelps, mas de dois outros enormes nadadores que competiram as mesmas provas nos últimos três ciclos: o americano Ryan Lochte e o húngaro Laszlo Cseh.

Em Londres-2012, premiou a carreira com uma medalha de prata nos 400m medley. Atenção para este dado. Michael Phelps competiu em 17 provas individuais em cinco Olimpíadas. Ganhou 13 ouros, uma prata e um bronze. Somente duas vezes ficou sem medalha: em Sydney-2000, quando tinha 15 anos de idade, e na prova que Thiago medalhou em Londres.

Além de ter feito sua parte quatro anos atrás, o brasileiro teve uma bela pitada de sorte.

Se tivesse sido conservador nesta noite de quinta, Thiago possivelmente teria beliscado uma medalha de bronze. Mas ele quis mais. Ele atacou. Foi para cima. Quis bater Phelps. Em casa, com sua torcida empurrando, Thiago quis o que pouquíssimos conseguiram: derrubar um mito.

Lochte, eterno freguês (e amigo) de Phelps, quis o mesmo. Os três ficaram cabeça a cabeça durante os primeiros 150 metros da prova. Na última piscina, no entanto, o monstro continuou. E os outros dois perderam gás. Perderam tanto gás que foram atropelados pelos outros nadadores também. Lochte, dono de 12 medalhas olímpicas, 6 delas de ouro, acabou em quinto. O brasileiro acabou em sétimo.

Tentaram, não conseguiram.

Thiago disse que foi coisa “do cara lá de cima''. Eu vejo de outra forma. É coisa que temos sempre que fazer os “aqui de baixo''. Tentar.

Às vezes dá, às vezes não. Sempre baterei palmas para quem tenta. Nunca para quem vai para casa pensando que poderia ter feito mais.

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O que os papelões de Brasil e Argentina no futebol nos mostram
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juliogomes

A Argentina foi eliminada na primeira fase do torneio olímpico de futebol. O Brasil seguirá o mesmo caminho, se não vencer a Dinamarca. Este post independe do resultado desta quarta à noite. O time ainda não conseguiu fazer um gol sequer, após enfrentar África do Sul e Iraque. Já os argentinos ficaram fora por serem incapazes de ganhar de Honduras.

O que isso nos mostra?

Já sabemos há tempos que “não tem mais bobo no futebol''. Apenas não levamos a frase a sério. Também já sabemos da importância da parte tática, a organização em campo. Apenas não levamos a sério. Seguimos confiando na técnica, na individualidade.

Brasil e Argentina levaram catados para a Olimpíada. O time argentino era um time D. O brasileiro é um sub-23 com todos os tipos de desfalques. De machucados a não liberados por clubes.

Renato Augusto, tão criticado, seria naturalmente um dos três caras acima de 23 anos convocados? É claro que não. O cara chegou dois dias antes da competição. Não conhece praticamente ninguém – e isso que atua em uma posição crucial no meio de campo. Mas foi dos poucos liberados. Está na China.

As pessoas se enganam pela presença de Neymar. Não é porque tem Neymar que esse time é bom. Ninguém joga sozinho. Muito menos um jogador que acaba de sair das férias e que não tem, por característica, ser um criador que envolva todos os seus companheiros. Neymar é um finalizador. Um falso líder técnico.

Por mais que Micale tenha comandando um time sub-23 em alguns amistosos, percebemos nitidamente que o Brasil não tem um time.

Sim, pode ser que outras seleções tampouco tenham tido a possibilidade de treinar, juntar seus melhores jogadores, etc. Mas, para os que não têm entrosamento, defender é muito mais fácil do que criar jogo. A proposta de Micale é apenas uma proposta. Ela levo tempo para ser consumada. Não será na Rio-2016.

Não estou aqui defendendo ninguém. Apenas analisando à distância e sem tantas emoções. A seleção merece críticas por seu jogo. Mas parece também que estão jogando para cima desses jogadores todas as frustrações acumuladas ao longo de anos. Na vida e nos campos.

Os caras não estão jogando bem. Mas falta de vontade? Não vejo esse desprezo todos que dizem que os futebolistas têm pela Olimpíada ou pela camisa amarela.

Atitude deplorável? De Neymar fora de campo, sem dúvida. Ele virou o monstrinho que Dorival já alertava que viraria. Mas do resto do time?

Será que eles são culpados por serem ricos e os outros esportes serem tão abandonados? Oras, contingências da vida. Velejadores também são ricos. E o pessoal do hipismo então? Há jogadores e atletas humildes, há os que não são. Em todas as modalidades.

Me parece haver um exagero e uma dispersão das críticas. Estão orientadas para alguns fatores que pouco têm a ver.

O papelão está acontecendo e pode aumentar por algo muito mais simples. Futebol é coisa de equipe, não de indivíduos. Catados não ganham campeonatos.

argentina_olimpiada


Não precisamos da medalha de Rafaela. Precisamos de milhões de Rafaelas
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juliogomes

“A gente não tem nada o que fazer na comunidade''.

Pense nessa frase de Rafaela Silva. Medalha de ouro no judô, heroína nacional nos próximos anos.

Ele é da Cidade de Deus. Aquela mesmo do filme.

Pense agora na frase de Rafaela e no filme.

Pense agora na frase de Rafaela, no filme e nas remoções olímpicas promovidas pelas autoridades cariocas.

Pense agora na frase de Rafaela, no filme, nas remoções olímpicas e também no Congresso Nacional.

Pense bem.

E agora me diga que o crime é coisa de “gente ruim''.

O crime é a consequência imediata, rápida e fácil, de uma sociedade pobre e da ausência do Estado. Não há oportunidades. Não há, como nos conta Rafaela, “o que fazer''. E quem não tem o que fazer e cresce vendo sangue, tiro e porrada vai ser o quê da vida?

Na gigantesca maioria dos países pobres do mundo, é a religião que ocupa esse espaço. Não entrarei aqui em debates profundos sobre crime e religião. Terreno pantanoso.

Mas não tenho dúvidas de que o combo escola + esporte seja a grande solução para diminuir a violência e trazer sentido para a vida de muita gente.

Foi assim, com uma ação social do ex-medalhista olímpico Flávio Canto e seu técnico, Geraldo Bernardes, que surgiu o Instituto Reação. Uma escola de judô em comunidades carentes.

Já que o Estado nada faz, dependemos de ações assim para que as Rafaelas da vida saiam da rua e tenham o que fazer. Tenham um norte, uma razão de viver, aprendam a dar valor à vida.

O que seria de Rafaela, tida como uma menina “briguenta'' na primeira infância, sem o judô?

Pense na frase. Pense no filme.

Difícil imaginar uma juventude suave em um jardim florido. Teria sido um convívio diário com a violência. Inclusive a policial, a violência de quem deveria proteger, mas trata quase todos, especialmente os jovens negros, como Rafaela, como bandidos nas comunidades pobres de todo o país.

Sem dinheiro. Sem escola. Sem ter o que fazer. Convivendo diariamente com a violência. Sendo atacado e humilhado de todos os lados. Ora bandidos, ora bandidos fardados.

Agrida uma criança de 3 anos e veja o que ela fará com o amiguinho na primeira “bola dividida''. Grite e xingue uma criança e observe o que ela fará na segunda “bola dividida''.

Amor traz amor. Violência gera violência. É básico. Mas está cheio de gente cega para esta simples equação.

Um país não vira rico e cheio de oportunidades de um dia para o outro.

Neste cenário, não há NADA melhor que o esporte.

Gastamos bilhões para estar no top 10 do quadro de medalhas. Gastamos bilhões para a Olimpíada vir até a nossa casa. São gastos supérfluos se não tivermos um plano. Uma política educacional consistente que insira o esporte, os vários esportes (não só o futebol). Políticas públicas que coloquem o esporte no centro de tudo.

Muitas crianças sairão dos Jogos loucos para jogar uma bola na cesta, dar uma raquetada, remar na lagoa, jogar com uma espada. Onde elas farão isso? Com quem? Quem vai ensinar?

O esporte ensina a ganhar, a perder, a respeitar, a competir, a conhecer o próprio corpo, a dividir espaço, a compartilhar emoções e responsabilidades, a lidar com frustrações, a cumprir tarefas em equipe, a esperar uma próxima vez. O esporte ensina tudo o que está em falta por aqui. O esporte faz as pessoas saudáveis, o que significaria menos gastos com saúde no futuro.

Esqueçam o alto rendimento por um minuto. Estou falando do básico do básico do básico.

Abram a mente quando falo o que falo no título deste post. É lógico que a medalha de ouro de Rafaela ajuda, nos faz sentir bem. Mas ela deveria ser a cereja do bolo, não o ponto de partida, como fingimos que essas medalhas são, Olimpíada após Olimpíada.

Não precisamos da medalha de ouro de Rafaela. O que precisamos é de milhões de Rafaelas.

Pensem na frase. Pensem no filme.

Pensem, pelo amor de Deus, em uma política pública de verdade centrada no esporte.

Chega da frase. Chega do filme.

rafaela_abraca

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Torcida de verdade: a grande notícia do início da Olimpíada
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juliogomes

O brasileiro foi perdendo o hábito de torcer nos últimos anos. Quando falamos de “torcida'' ultimamente ou é para destacar a violência ou para soltar aquela triste frase: o torcedor paga, então tem direito de vaiar.

Oras, o que é torcer, afinal? Torcer é querer que alguém ganhe. Empurrar, fazer esforço para que alguém ganhe. E ficar triste quando este alguém perde. Se todas as vezes que estivermos tristes ganharmos o direito de vaiar ou xingar… onde vamos parar? Nos habituamos com premissas erradas.

Na Europa e nos Estados Unidos, não se torce como na América Latina. Não há o mesmo fervor. Mas há mais respeito com quem compete. É verdade que muitas vezes os estádios de lá se parecem com teatros. E nós aqui, com o aumento bizarro dos preços dos ingressos e com a disseminação da cultura de “só ganhar importa'' acabamos incorporando o pior dos dois mundos aos estádios, ginásios e arenas: comportamento de teatro mesclado com total falta de respeito (xingamentos, violência verbal e física de quem se sente no direito de fazer o que quiser).

Vimos muito bem isso na Copa do Mundo. Para quem a seleção brasileira jogou? Para que tipo de público? Aquele que rarissimamente levanta o bumbum do sofá para qualquer coisa. Mimado. Irritado. Se ganha, beleza, “sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor''. Se perde, nem chorar mais chora. Vaia, xinga, despreza. O público acompanhou a empáfia, a arrogância que o futebol daqui transborda.

Vimos de camarote argentinos, chilenos e colombianos fazerem uma festa muito mais bacana e contagiante (em tempo, não considero musiquinhas criativas e provocativas uma falta de respeito do nível xingar com sangue nos olhos e saliva pulando da boca).

Eis que começam os Jogos Olímpicos. A maior festa do esporte. Em um país monocultural esportivamente. E o que vimos até agora?

Alta venda de ingressos, setores mais baratos sendo esgotados rapidamente. E uma atmosfera fantástica nos locais de competição, especialmente quando algum atleta brasileiro está em ação.

Não vimos isso nas últimas Olimpíadas. Possivelmente, nunca tenhamos visto isso na história dos Jogos. Tanto que alguns já andam reclamando (clique aqui para ler).

A reportagem da brava equipe do UOL Esporte no Rio de Janeiro mostra também aquela ironia fina para incomodar o “grandão'', o apoio ao mais fraco, ao mais simpático, ao que não tem chance de vencer, ao peculiar. Isso não deixa de ser uma celebração à diversidade, ora pois. E ao bom humor, cada vez mais ausente do mundo. Um público interessado e antenado.

O que vimos neste domingo no jogo de basquete masculino entre Brasil e Lituânia foi fenomenal. Um resgate. Uma aula de como se pode e se deve torcer. A torcida que realmente faz a diferença, emociona e empurra.

A seleção não jogava nada. Um atuação lamentável, com 29 pontos abaixo no intervalo. Vaias? Xingamentos? Resignação? Nada disso. O torcedor que foi ao ginásio gritou mais alto, mais forte. Foi maior que o time. Forçou o adversário ao erro, ao descontrole emocional. O barulho foi muito mais eficiente do que o próprio time brasileiro – que melhorou, mas seguiu cometendo erros capitais até na emocionante reta final.

A torcida pegou o time de basquete no colo e levou até a uma diferença de 4 pontos no minuto final. Não deu. Mas há derrotas que pouco importam. Essa é uma delas. A notícia estava fora da quadra.

torcida_basquete_menor

No judô, na esgrima, o ambiente é de MMA. Aquele ruído constante, nada do silêncio que marca esse tipo de competição. Aplausos para os que perdem, participação até em lutas alheias a brasileiros. Na ginástica, foi nítido como o apoio do público empurrou os atletas brasileiros. As meninas estavam focadas, emocionadas, felizes.

Deixar atletas felizes é o primeiro passo para que eles tragam os resultados pelos quais as pessoas torcem.

Somos um país que adora a competição. Somos privados de um leque tremendo de esportes por várias razões: TV monotemática, falta de estímulo, de espaço para as práticas, ausência de políticas públicas.

O povo, representado por quem está indo aos ginásios da Rio-2016, está se manifestando. Queremos mais esporte.

E que bom que tal manifestação está se dando como uma torcida “de verdade''. Só de trocar o “com muito orgulho'' (chatérrimo) para o velho e bom “le le le ô, Brasil!'' já é um avanço tremendo.

Os atletas que souberem canalizar isso estarão em ótima posição nas próximas duas semanas.

Não foi o fim de semana dos sonhos de Nuzman, o dirigente eterno que quer muitas medalhas para provar que ele é o supra sumo do planejamento esportivo. Não vieram tantas medalhas.

Mas foi o fim de semana dos sonhos para quem quer se identificar de novo com algo que temos em comum: sermos brasileiros.

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