Blog do Júlio Gomes

Argentina, com Bauza e sem Messi, dá mais um vexame. Tem salvação?
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juliogomes

Ganhar em La Paz não é fácil. Nas eliminatórias de pontos corridos, a Argentina só conseguiu uma vez em seis jogos. Por pior que esteja a Bolívia, ela costuma complicar muita gente por lá nas eliminatórias sul-americanas. São 3600 metros de altitude e isso não é desculpa, é um fator que beneficia – e muito – o time da casa. A Argentina levou 2 a 0 em La Paz nesta terça-feira. Só que o resultado não é o maior dos problemas.

Com a derrota, a Argentina deve acabar o dia na quinta colocação, que a levaria para a repescagem. Mas, mais do que a matemática da classificação, o problema argentino é a falta de jogo.

Os times de Edgardo ''Patón'' Bauza nunca primaram pela ofensividade. Sempre foi um técnico de empatar ou perder fora, vitórias magras em casa, sufoco. E isso nos clubes, com tempo de treino.

Talvez algum gênio da combalida Federação Argentina tenha achado que a seleção, com tantos talentos na frente, precisava de alguém para arrumar a casa atrás. Não só não aconteceu isso como há um nítido descompasso entre as ideias futebolísticas de Bauza e dos jogadores.

Beira o inacreditável a Argentina, que tem Simeone, Sampaoli e Pochettino, não conseguir encontrar um nome melhor que o de Bauza, à altura dos jogadores que tem.

Como uma seleção que pode convocar Messi, Higuaín, Aguero, Dybala, Pratto e Di María tem o terceiro pior ataque das eliminatórias, com 15 gols marcados em 14 jogos?

Talvez a explicação seja a escalação conservadora de Bauza em La Paz. Deixar Aguero no banco??

A Argentina não era uma coisa maravilhosa com Sabella ou com Tata Martino. Mas, quer queira quer não, chegou a três finais em três anos, perdeu uma na prorrogação (Alemanha), outras duas nos pênaltis (as Copas Américas para o Chile). Em todos esses jogos teve claras ocasiões de gol perdidas por Higuaín que poderiam ter mudado tudo.

Com Bauza, tudo piorou. Nas eliminatórias, foram três vitórias em casa (1-0 sobre Uruguai e Chile, este último de forma injusta, e 3-0 na Colômbia); uma derrota em casa contra o Paraguai; fora, um sacode levado para o Brasil; empates contra Peru e Venezuela, agora a derrota para a Bolívia. A Argentina fez dois pontos em nove possíveis contra as três piores seleções do continente fora de casa.

O time não joga nada, não cria nada, não há jogo coletivo, linhas de passe. Nada de nada de nada. E não terá Messi em três das últimas quatro partidas das eliminatórias, se a exagerada suspensão de quatro jogos não for revista.

A Argentina enfrenta em agosto/setembro: Uruguai em Montevidéu, é plausível imaginar uma derrota, e Venezuela em casa. Depois, em outubro, Peru em casa e Equador na altitude de Quito.

Se a Argentina ganhar da Venezuela e do Peru em casa, chega a 28 pontos. Até hoje, nas eliminatórias de pontos corridos com dez seleções, 28 pontos sempre foram suficientes para a classificação. Mas no limite. E desta vez as eliminatórias estão diferentes, pois o Brasil disparou, Bolívia e Venezuela fazem poucos pontos, há muito equilíbrio entre as seleções que ocuparão da segunda à sexta colocações.

Essa distribuição indica que segundo e terceiro colocados possam fazer menos pontos do que as seleções que ocuparam essas posições nos últimos anos. No entanto, quarto e quinto devem fazer mais pontos do que sempre fizeram. Talvez os 28 pontos não sejam suficientes.

A única boa notícia para a Argentina é o derretimento do Equador, a seleção que sempre se aproveitou tão bem da altitude e conseguiu vaga em três dos últimos quatro Mundiais. Depois de vencer os quatro primeiros jogos e disparar na liderança, o Equador ganhou só dois dos nove jogos subsequentes.

A Argentina deve acabar o dia em quinto, com 22 pontos, e o Equador em sexto, com 20. Se vencer Venezuela e Peru em casa, a Argentina chega a 28. Teria de torcer para o Equador fazer no máximo quatro pontos nos seus jogos seguintes: Brasil e Chile fora, com o Peru em casa no meio. Como o Brasil está impossível, o Equador deve fazer três ou quatro pontos contra Peru e Chile. Neste cenário, a Argentina chegaria ao jogo de Quito, na rodada derradeira, sem poder ser alcançada pelo Equador.

Nas três próximas rodadas, precisa tratar de fazer dois pontos a mais que o Equador – para evitar um jogo de vida ou morte na altitude.

Tratar de conseguir os pontos com ou sem Bauza?

Na minha visão, já é tempo e ainda é tempo de trocar.

Com Bauza e sem Messi tudo fica mais difícil.

 

 


Paulinho, as apostas e o recorde histórico de Tite
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juliogomes

Ser técnico da seleção brasileira é ser um pouco apostador. Fazer escolhas, acreditar que este ou aquele jogador vai dar a resposta necessária. Paulinho é uma aposta de Tite que vem rendendo altos dividendos. Neymar deixando de ser faz-tudo é outra. Alisson, uma aposta ainda a ser comprovada.

De aposta em aposta, acerto em acerto, Tite vai estabelecendo recordes e colocando o Brasil como maior favorito para a Copa do Mundo do ano que vem – lembrando que a Argentina está em viés de baixa, Alemanha e Espanha chegarão em transição à Rússia. No principais sites de apostas do mundo, só um título da Alemanha paga menos do que o título do Brasil. Pouco menos, já está quase a mesma coisa. Você nem imagina a capacidade que as casas de apostas têm de prever o futuro.

Cinco vitórias consecutivas era o máximo que havia sido conseguido por uma seleção nas eliminatórias sul-americanas de pontos corridos – uma competição de altíssimo equilíbrio e estádio complicados. A Argentina conseguiu duas vezes, o Equador, uma. Tite já conseguiu sete vitórias seguidas. Superou as seis seguidas de João Saldanha na campanha anterior à Copa de 70.

A goleada por 4 a 1 sobre o Uruguai, em Montevidéu, de virada, teve pouco de acaso. O Brasil dominou o primeiro tempo, não sentiu o gol sofrido logo no início, chegou naturalmente ao gol de empate e à virada. Suportou bem a pressão no segundo tempo, com compostura defensiva e sem abdicar da transição rápida para contra atacar.

A rotatividade alta da seleção não deveria ser regra, claro. A escolha de jogadores deveria ser mais constante e seguir certa coerência desde a base. Em tempos em que seleções se reúnem tão raramente e por tão pouco tempo, em tempos de futebol coletivo, em que individualidades contam menos, quanto mais os jogadores se conhecerem e o estilo for mantido, melhor.

Vivemos ao longo das décadas altíssima rotatitivade de treinadores. Cada um resolve jogar de um jeito, cada um tem seus jogadores prediletos ou de confiança, a imprensa pressiona por seus prediletos, e a cada mudança de comando o Brasil foi sofrendo revoluções. Nada a ver com a Alemanha, por exemplo, que mantém bases sólidas por anos e vai pontualmente acrescentando um jogador aqui, outro ali.

Tite foi o enésimo treinador a fazer a própria revolução. Algumas apostas eram óbvias, como trazer Marcelo de volta ao time ou dar espaço a Casemiro, voando no Real Madrid.

Outras, nem tão óbvias. Como dar a titularidade a um jovem Gabriel Jesus. Como bancar Alisson no gol. Ou resgatar Paulinho.

Nunca fui apaixonado pelo futebol de Paulinho. Ele teve um período fantástico no Corinthians com Tite. Mas sempre desconfiei de jogadores que aparecem tarde, não triunfam no futebol de altíssimo nível e vão parar em mercados como a China.

Talvez ele simplesmente não tenha a capacidade de se adaptar a um país como a Inglaterra, aprender idioma, superar competição. Mas, com confiança e espaço garantido, o cara seja um monstro.

Tite bancou um cara que ele conhecia e que se adaptava ao futebol de área a área que é jogado hoje em dia por meio-campistas. E Paulinho não só fez boas partidas até agora como foi o grande nome da virada no Centenário. Um golaço do meio da rua empatou o jogo, e um rebote típico de quem está bem colocado decretou a virada. Depois, veio a pintura de Neymar. E a cereja do bolo foi o quarto gol no finalzinho.

Hat trick de Paulinho. Um truque de tirar o chapéu, o de Tite.

Neymar funciona na seleção de forma parecida com a de Cristiano Ronaldo no Real Madrid e, claro, dele mesmo no Barcelona. Associa-se pela esquerda com Marcelo, tem liberdade para afunilar e tirar da cartola bons passes para os meias que infiltram. Quando consegue o um contra um ou a chance de finalizar – sua maior qualidade -, triunfa. É craque.

Não ter Neymar com a responsabilidade de resolver tudo o tempo todo é uma das grandes virtudes de Tite.

Ainda resta ver se a aposta em Alisson dará certo. Acho uma injustiça Diego Alves, do Valencia, não ser o titular da seleção há muitos anos. Mas quem sou eu para desconfiar das apostas de Tite!

Assim como não desconfio de apostadores. O título do Brasil no ano que vem está pagando entre 7 e 8 para 1. Está aí um bom investimento. Tão bom quanto os de Tite.


Sorteio da Champions: dois superclássicos e 40 finais frente a frente
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Bayern de Munique x Real Madrid e Juventus x Barcelona. As bolinhas do sorteio deixaram as quatro camisas mais pesadas frente a frente nas quartas de final da Liga dos Campeões da Europa.

São dois superclássicos, com 40 finais europeias somados os quatro clubes. São quatro dos cinco que mais chegaram a decisões na história.

O Real Madrid já chegou a 14 finais, com 11 títulos. O Milan, ausente da competição, é o segundo colocado na lista, com 11 finais e 7 títulos. O Bayern de Munique chegou a 10 decisões, com 5 títulos. Mesmos títulos do Barcelona, mas em 8 finais. A Juventus também chegou a 8 decisões, mas com aproveitamento menor de conquistas: 2.

Neste momento da temporada, Bayern de Munique e Juventus são dois times mais equilibrados e consistentes do que Real Madrid e Barcelona. São quatro timaços e quatro camisas pesadas, é impossível apontar qualquer favorito.

A última vez que nem Barcelona nem Real Madrid apareceram nas semifinais da Champions: temporada 2006/2007. A chance disso acontecer de novo dez anos depois é real.

O Barça venceu a Juventus na final de dois anos atrás, em 2015, primeira das três temporadas de Luís Enrique. O time do Barcelona é muito parecido com aquele, o trio Messi-Suárez-Neymar estava em seu primeiro ano junto. Porém, há uma diferença: Daniel Alves, tão importante no sistema tático do Barça ao longo de anos, agora está do outro lado. Veste a camisa da Juve.

Em relação a 2015, a Juventus, que já era treinada por Allegri, tem o mesmo sistema defensivo. Os mesmos nomes, a mesma solidez. Mas, do meio para frente, mudou tudo: saíram Pogba, Pirlo, Vidal, Morata e Tévez. Hoje, a Juve é o time de Dybala, Higuaín e Mandzukic.

Na teoria, são dois times menos fortes hoje do que eram dois anos atrás.

Mas como duvidar do Barcelona depois da virada épica para cima do PSG nas oitavas de final? E como colocar qualquer interrogação na Juventus, invicta há 47 partidas? São 21 jogos de invencibilidade em competições europeias.

Importante: para um time como a Juve, é muito melhor enfrentar o Barcelona em dois jogos do que em um só. Possivelmente adotará um plano de jogo de não sofrer gols em casa. E certamente jogará com muito mais intensidade e inteligência do que o PSG fez no Camp Nou.

O Real Madrid tenta quebrar a escrita de nunca um time ter vencido duas Champions League seguidas. Para isso, o desequilibrado time de Zidane, que sofre muito mais do que deveria nos jogos do Espanhol em 2017 e sobrevive das bolas aéreas e os milagres de Sergio Ramos, enfrenta o elenco mais poderoso e completo da Europa.

O Bayern de Munique é forte demais em todas as linhas e é treinado por Carlo Ancelotti, que foi inexplicavelmente mandado embora pelo Real Madrid ao final da temporada 2014/2015. Ancelotti foi o mentor de Zidane e era o técnico da Décima, quebrando o jejum do Real de 12 anos sem títulos europeus.

Ancelotti conhece de trás para frente as qualidades e defeitos do Real Madrid. Ao contrário do que fez Guardiola com o Bayern na semifinal entre eles, em 2014, não ficará tolamente exposto ao rápido contra ataque madridista.

Se excluirmos os clássicos regionais e nacionais, talvez o duelo Bayern-Real seja o maior da Europa (e do mundo). São duas instituições gigantes, antagônicas e que já se enfrentaram zilhões de vezes em competições europeias.

Eu sempre digo que a grande marca do Real Madrid é acreditar, a autoconfiança monstra, sempre achar que vai ganhar porque é maior que seu rival do outro lado. Só tem um clube europeu que o Real Madrid teme de verdade: o Bayern. O torcedor do Real odeia enfrentar o Bayern e tem motivos para isso.

O Bayern de hoje é mais sólido defensivamente do que nos anos de Guardiola. E o Real Madrid é um time, hoje, que joga pior e mostra menos alternativas de jogo, além de sofrer muitos gols.

Nos outros dois duelos, há dois favoritos claros.

O Atlético de Madri é o grande sortudo ao ficar frente a frente com o Leicester City. Sim, tem o conto de fadas, etc, etc, etc. Mas a diferença entre os times é brutal. E o Leicester é bastante previsível, só tem um jeito de jogar, confia nas bolas aéreas e contra ataques.

Um técnico como Simeone saberá tranquilamente anular as poucas armas do Leicester. Se tem um time que sabe neutralizar bolas aéreas e não fica exposto a contra ataques, porque tem uma incrível sincronia defensiva e joga de forma muito compacta, este é o Atlético de Madri, finalista de duas das últimas três Champions.

E o Monaco também é favorito contra o Borussia Dortmund, em um duelo de times ofensivos e que promete muitos gols. O Monaco é o melhor ataque da Europa, lidera na França e deu uma incrível demonstração de força e personalidade ao reverter a eliminatória contra o Manchester City. O Dortmund é um time instável. Tem tradição, tem um dos estádios mais quentes da Europa, mas terá de decidir a vida fora de casa. Não tem a solidez defensiva para segurar o Monaco, na minha visão.

Meus palpites: passam Bayern, Juventus, Atlético e Monaco. Mas até abril os momentos podem mudar, soluções podem ser encontradas, jogadores podem se machucar. Agora é esperar!


Faltou equilíbrio, e não Jesus, para o City de Guardiola
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juliogomes

É claro que Pep Guardiola eliminado nas oitavas de final da Champions pela primeira vez é um prato cheio para quem não gosta dele. Tem muito técnico brasileiro dando risada. ''Está vendo? Sem estar no Barça ou no Bayern, o buraco é mais embaixo''.

Acho desnecessário defender Guardiola. O homem é um idealista, um revolucionário, alguém que faz bem para o esporte e que comandou o melhor time que já vi (o Barcelona de 2009 a 2011). Ele mesmo sabe, até porque sempre disse, que os desafios no City serão outros. A liga inglesa é mais competitiva, tem mais times do mesmo nível e o elenco do City tem, de fato, buracos a serem preenchidos.

Na atual temporada, o City está fora da Champions, praticamente sem chances na Premier, sobra a Copa da Inglaterra (semi contra o Arsenal, eventual final contra Chelsea ou Tottenham). Seria importante para Guardiola ganhar um título no primeiro ano? Sem dúvida. Mas tampouco essencial. Não será mandado embora. Está lá para comandar um projeto de anos.

Leonardo Jardim, o ótimo português que comanda o Monaco, está há três anos no clube mesclando juventude, veteranos, encontrando fórmulas. A chave para Guardiola será atacar bem o mercado no meio do ano, principalmente para ampliar opções de banco e resolver os buracos defensivos.

No gol, Bravo não deu certo. Kolarov ou Fernandinho jogando na zaga? Não parecem grandes opções. Stones e Otamendi? Hummmm. Suspeitos. O erro de Kolarov no terceiro gol, em uma bola parada, determinou a classificação do Monaco.

O grande desafio de Guardiola daqui para frente é ser um técnico que encontre soluções defensivas. Na parte criativa do jogo, ele já mostrou seu valor. Se defender com a posse de bola, como fazia no Barça e no Bayern, não parece ser viável no futebol inglês, mais dinâmico e com menos faltas marcadas pelos árbitros. Times de Guardiola se darão bem quando defenderem melhor. Quando forem mais equilibrados.

Aguero perdeu dois gols contra o Monaco que Gabriel Jesus não perderia? Não sei. Tem que ver também se Jesus faria os gols que Aguero fez na ida, certo? O City fez seis gols na eliminatória contra o Monaco. Não foi um problema de falta de gols que eliminou o time de Guardiola. E, sim, um problema de excesso de gols sofridos.

O City não perdeu para qualquer um. O Monaco é o melhor ataque da Europa. Mesmo sem seu grande artilheiro, Falcao García, foi capaz de virar a eliminatória contra um forte rival. Fez os três gols que são sua média. Porque não é um ataque de indivíduos e, sim, um time que joga inteiro voltado ao ataque.

Os laterais sobem, os volantes sobem (foram deles o segundo e terceiro gols na volta), os meias afunilam, triangulam, abrem o jogo. Há muita movimentação, muito volume.

Quem vai segurar o ataque do Monaco? Barcelona e Real Madrid, por exemplo, são candidatíssimos a tomar um caminhão de gols desse time. Porque defendem mal. Assim como o City de Guardiola.

Por camisa, tradição, nomes e pelo que fizeram nas últimas Champions, Bayern, Barça e Real são os óbvios favoritos. Mas Juventus e Atlético de Madri seguem fortes, como nos últimos anos, e podem tranquilamente chegar à final de novo. Para Juve e Atlético, é melhor enfrentar um dos três em ida e volta do que em um jogo só.

O Monaco me parece a zebra que pode ser a grande surpresa da temporada. Borussia Dortmund e Leicester só chegam à semifinal se forem sorteados para um confronto entre eles nas quartas.

 


E agora, quem quer enfrentar o Leicester nas quartas?
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juliogomes

E o conto de fadas continua em Leicester. Quando todos davam os foxes como mortos na Champions League, o feitiço mostrou-se mais ativo do que nunca.

O Sevilla pegou um Leicester morto na partida de ida. Era a chance de goleada e classificação definida. E o jogo foi para goleada, mas acabou só em 2 a 1. Os jogadores conseguiram, afinal, derrubar Claudio Ranieri. E começaram a correr de novo.

Com o auxiliar Craig Shakespeare, ''amigão'' dos jogadores, assumindo o comando, o Leicester voltou a seu 4-4-2 bem britânico. Jogo forte na bola aérea e no contra ataque. Na vitória por 2 a 0, nesta terça, o Leicester teve 32% de posse de bola. Defende-se bem, não se incomoda com a bola nos pés dos outros.

O Sevilla começou o jogo passivo, levou o gol e só depois resolveu jogar. E aí Schmeichel, filho de peixe, que já havia defendido um pênalti na ida, defendeu outro na volta – o primeiro goleiro a fazer isso em uma eliminatória europeia.

Quando perdeu o pênalti, já no fim do jogo, o Sevilla estava com dez homens em campo após Nasri se desentender com Vardy no meio de um lance de ataque. Vardy ''brasileirou'' e fez um teatro danado após uma não cabeçada. Patético. Ou vermelho para os dois ou nada, pois o amarelo para ambos resultou na expulsão de um só.

Mesmo sem Nasry, que foi burrinho, burrinho, o Sevilla ainda arrumou o pênalti que levaria para a prorrogação. E perdeu de novo. Sampaoli só não perdeu cabelos porque não tem.

Não dá para dizer que o Sevilla mereceu. Teve todas as chances possíveis e imagináveis e fez questão de desperdiçá-las. E assim, a Espanha perde uma chance de ouro de colocar quatro times nas quartas de final pela primeira vez na história da máxima competição europeia.

O Leicester segue iluminado.

Quem quer enfrentá-lo nas quartas de final, após o sorteio de sexta-feira?

A resposta é simples. TODOS. O Leicester é o time mais fraco das quartas de final, mais previsível e mais fácil de ser batido. É o mais simpático também. Mas simpatia não ganha Champions.

Por outro lado, a Juventus ganhou por 1 a 0 do Porto, sem maiores problemas. São 47 jogos de invencibilidade no Juventus Stadium, um fortim. Está aí um time que, ao contrário do Leicester, ninguém quer enfrentar na Champions.


Neymar e Barcelona sobem a novo patamar após virada histórica
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juliogomes

O Barcelona virou um clube multicampeão nos últimos 14 anos. Antes, era uma força local. Depois da chegada de Cruyff, no banco e no campo, e contratações de impacto, um antagonista de verdade surgiu ao Real Madrid.

Em 20 temporadas, o Real ganhou cinco Champions, o Barça, quatro. O Real ganhou cinco Ligas espanholas, o Barça ganhou o dobro. Em Copas do Rei, cinco a dois para o Barça. Em Mundiais/Intercontinentais, quatro a três para o Real.

Mas faltava uma coisa ao Barcelona nesses anos todos: uma ''remontada''. Adoro a palavra. É como eles se referem, na Espanha, a uma grande virada.

Nos dias anteriores aos 6 a 1 do Barcelona sobre o PSG, vários ex-madridistas diziam que ''remontar'' era coisa do Real. Os gols no fim, viradas impossíveis, o ''hasta el final'' do cântico que ecoa no Bernabéu. Remontar é uma marca registrada do Madrid.

Mas, a partir de agora, não mais exclusiva. Faltava uma virada como essa nestes anos de sucesso do Barça. A maior havia ocorrido em 2013, na Champions – derrota por 2 a 0 para o Milan na Itália, vitória por 4 a 0 no Camp Nou. Convenhamos, não chegou nem perto da histórica contra o PSG. O torcedor culé já pode bater no peito, o Barça também tem a coragem necessária para concluir missões impossíveis.

Além do Barcelona, Neymar também mudou de patamar.

Finalmente, o papo tão falado há anos, de ser um candidato a melhor do mundo, ganhou corpo e a semente começou a se espalhar pelo planeta. Neymar oficializou seu posto de próximo jogador dominante, quando acabar a hegemonia de Messi e Cristiano Ronaldo. É o herdeiro.

Neymar foi o grande beneficiado pela mudança tática promovida por Luís Enrique após os 4 a 0 de Paris. Com Rafinha aberto pela direita neste 3-3-3-1, Messi flutua para o meio e atrai marcadores, além de estar mais próximo para se associar com Neymar. As dobras não ocorrem mais 100% das vezes quando Neymar recebe pela esquerda.

Por isso, e também por viver boa fase técnica (após, vamos lembrar, ele quebrar em janeiro um jejum de três meses sem gols pelo Barça), Neymar já havia sido destaque nas goleadas sobre Gijón e Celta, pelo Espanhol.

Ele passou a ter à disposição situações de um contra um e, assim, infernizou o lateral Meunier no jogo de volta com o PSG. Como o Barça espalhou o campo e acrescentou um homem no meio, os volantes parisienses não conseguiram ajudar muito a neutralizar Neymar.

Agora. Sejamos sinceros. Se o jogo tivesse acabado, digamos, 3 a 1. Estaríamos falando tanto de Neymar?

Não, não estaríamos. Não foi, até os 44min do segundo tempo, um jogo inesquecível dele. Não havia feito gols ou passes de gols, ameaçado Trapp, nada disso. Percebia-se que estava a fim de jogo. E havia tentado cavar dois pênaltis para cima de Meunier – um deles com sucesso. Dois minutos após o gol de Cavani, no momento de frustração e com a eliminatória com pinta de acabada, Neymar ainda deu um chute por trás, sem bola, em Marquinhos.

O árbitro mostrou amarelo, mas podia ter sido vermelho. O que estaríamos falando de Neymar se o juiz tivesse mostrado o vermelho pela agressão? Estava longe de ser o melhor jogo de sua carreira, como ele decretaria ao final da virada épica.

Aí, claro, a partir da falta sofrida e convertida de forma genial por Neymar mesmo, tudo mudou. Pegou a bola e chamou a responsabilidade ao bater o pênalti do quinto gol. E teve a frieza para picar a bola na área e dar o passe a Sergi Roberto para o sexto.

Neymar carregou o Barça não só à maior virada da história do futebol europeu, mas também à maior vitória do Barcelona em 10 anos sem participação fundamental de Messi. E esse simbolismo é muito relevante. Quando o bastão for definitivamente passado – e será -, lembraremos deste jogo como o marco zero.

Foram exatos 9 minutos entre a falta do quarto gol e o toque para a glória do sexto.

Em 9 minutos, Neymar ganhou, no mundo inteiro, o status que tanta gente já dava a ele aqui no Brasil. É na bola, e não no grito, que essas coisas acontecem. Não adianta falar tanto em prêmios. Tem que mostrar. E Neymar mostrou.

Talvez ele esteja exagerando ao considerar o ''melhor'' jogo de sua vida. Mas, certamente, foi o ''maior'' jogo de sua vida. O jogo que eleva seu nome a outra dimensão. A uma prateleira em que muita gente no Brasil achava que ele já estava. Mas não, não estava.

Em três anos e meio de Europa, o futebol de Neymar está evoluindo muito e ajuda o fato de, na seleção brasileira, deixar de ter a responsabilidade de resolver tudo sozinho – que lhe era injustamente imputada ou erroneamente assumida por ele ou as duas coisas juntas.

O futebol brasileiro é calcado no individualismo, e basta ouvir Neymar pai falar por 5 minutos para perceber como esta foi a educação futebolística dada ao filho. No futebol europeu e com Tite, Neymar vai se transformando em um jogador mais solidário. Não à toa, o número de assistências foi aumentando ano após ano. A tomada de decisões correta e que leva em conta o melhor para o time.

Neymar é nitidamente um profissional dedicado e de QI futebolístico elevado. É inteligente e obediente taticamente. Não é desagregador no vestiário, parece tratar seus colegas de profissão com afeto, sem esnobar. No campo, acredito que a tendência seja jogar cada vez mais com liberdade e perto do gol. Seu grande forte, eu sempre disse, não é driblar. É finalizar. Faz gols de todos os jeitos, como poucos no mundo.

Para mim, somente dois problemas de atitude persistem.

Dentro de campo, Neymar irrita seus adversários por se jogar muito e tentar ludibriar constantemente os árbitros e por sua atitude de deboche em muitos momentos. Neymar humilha, não só com dribles, mas com falas e gestos. Por isso, apanha muito mais do que outros craques. Ninguém gosta de se sentir humilhado. Isso só lhe fará mal. E árbitros marcam jogadores como ele e deixam de marcar faltas ''verdadeiras''.

Neymar (e outros) falam que gostam de críticas construtivas, e não destrutivas. No meu ponto de vista, ele (e outros) se irritam com qualquer tipo de crítica. E isso gera o segundo problema que persiste. Querer o tempo todo responder a todo mundo. É o pedir silêncio nas redes sociais, é a greve com a imprensa que cobre a seleção brasileira, é a resposta a Rabiot.

Não sei se é dele ou se é a pilha de seu entorno. Mas é incrível como Neymar parece se importar demais. Mania de perseguição.

Ele é uma figura pública, um famoso. Jogadores de futebol são celebridades. As pessoas têm direito de criticar a transação picareta, fraudulenta e secreta do Santos ao Barcelona. Alguns vão gostar do apoio a Aécio Neves na campanha eleitoral, outros vão criticar. Alguns vão gostar da tatuagem X, outros não. Alguns vão achar a amizade com Hamilton e Thiaguinho o máximo, outros vão achar motivo para piada. Alguns vão amar o namoro com Marquezine, outros vão invejar.

Me parece um desgaste tremendo se importar com tanta gente, ainda mais na era das redes sociais.

E parece um despropósito colocar nessa mesma caixinha, que ele considera a ''de invejosos que querem vê-lo fracassar'', jornalistas que criticam este ou aquele elemento de seu jogo.

Minha crítica, Neymar e fãs, não é nem construtiva nem destrutiva. Ela não tem a pretensão de querer fazer mudar algo na sua vida, ''construir'' um jeito novo de ser ou jogar bola. E muito menos, mas muuuuito menos, o objetivo de ''destruir'' algo. No caso, imagino, destruir sua imagem.

Minha crítica é apenas uma crítica de quem vive do e para o futebol. Mais do que crítica, são observações, análises, com o simples objetivo de compartilhar conhecimento e informar quem lê o tanto de linhas que eu escrevo.

Raros, raríssimos, foram os craques perfeitos. Eu, na vida, só vi Messi mesmo. Todos têm um defeitinho aqui ou ali, dentro ou fora de campo.

Considero Neymar um craque, um verdadeiro gênio. Depois de Pelé e companhia, Zico e companhia, Romário e companhia, Ronaldo e companhia, Ronaldinho, Kaká, hoje vivemos os tempos de Neymar e companhia. Já é um dos grandes jogadores brasileiros da história. Logo logo só estará atrás de Pelé na artilharia da seleção.

E, agora, depois de 9 minutos como estes da quarta-feira, começa a se transformar também em um dos craques mundiais. Conhecido e admirado não só por quem já acompanha futebol, mas também por aquelas pessoas que veem o esporte esporadicamente. Este é o efeito de Copas do Mundo e jogos grandiosos de Champions League, como este.

São os grandes acontecimentos de audiência global que criam uma imagem (para bem ou para mal) que depois é difícil de mudar.

Não são críticas ou elogios, e muito menos a resposta a eles, que construirão a imagem de Neymar no mundo. São os 9 minutos.

Neymar saltou para um seleto grupo em que muitos achavam que ele já estava. Mas que só adentrou agora.


Por que o Barcelona é tão ajudado pelos árbitros? Relembre os escândalos
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juliogomes

Quando cheguei à Espanha, onde vivi por mais de cinco anos, notei que havia um cântico de arquibancada sempre repetido nos jogos do Real Madrid. Não demorei muito para decifrá-lo. ''Así, así, así gana el Madrid''. Todos mostram as mãos abertas enquanto cantam. ''Assim ganha o Madrid''. Na mão grande. Institucionalizou-se, na Espanha, que o Real Madrid só era o maior dos campeões, seja no futebol ou no basquete, porque era ajudado.

Minha teoria é muito simples. Árbitros têm medo de errar contra os times grandes, mais populares, de mais mídia e poder. Suas carreiras são prejudicadas se eles erram contra os grandões. Na dúvida, melhor apitar a favor do que contra. As reclamações por toda a Espanha sobre o Real Madrid eram historicamente procedentes. Mas já está na hora de inventarem uma musiquinha para o Barcelona também, não está não?

O Barcelona virou um clube verdadeiramente global e campeão nos últimos 14 anos. O pontapé inicial foi a chegada de Ronaldinho. De lá para cá, foram quatro Copas da Europa (só uma antes de 2003), três Mundiais (zero antes), três Supercopas da Europa (duas antes), sete Supercopas da Espanha (cinco antes), oito títulos espanhóis (16 antes) e ainda mais quatro Copas do Rei (eram 24 antes, nisso sim eles já eram ótimos).

O Barça sempre foi grande, o representante de uma região, conhecido, especialmente após a chegada de Cruyff. Mas, multicampeão mesmo… isso é coisa recente. Virou grandão. E, como grandão que é, passou a ser muito ajudado pelas arbitragens.

O que aconteceu no Camp Nou na quarta-feira foi épico. Os 6 a 1 sobre o PSG, após o 0-4 da ida, são simplesmente históricos. Mas foi a enésima vez nestes últimos anos que o Barcelona foi altamente beneficiado por arbitragens. Ou a Uefa ama o Barça. Ou é tudo uma grande coincidência.

Quando José Mourinho listou nomes de árbitros naquela entrevista coletiva de 2011 – em que ele perguntava ''por quê?'', ''por quê?'', ''por quê?''…. por que sempre pró-Barça? -, eu confesso que saí indignado da sala de imprensa. O cara estava colocando na conta da arbitragem, de forma simplista, todas as conquistas recentes do clube. Sigo discordando de como Mourinho colocou a coisa. Mas o homem tinha um ponto. Senão vejamos.

Destas quatro Champions League vencidas pelo Barça recentemente, em três delas houve lances para lá de polêmicos nas semifinais.

Clique nos links abaixo e abra em outra janela para assistir aos lances.

2006. Barcelona 0 x 0 Milan

O Barça havia vencido o jogo de ida, em Milão, por 1 a 0. Na volta, em Barcelona, Shevchenko marcou um gol limpo de cabeça na metade do segundo tempo, o que igualaria a eliminatória. O árbitro alemão Markus Merk apitou uma falta em Puyol que só ele viu.

2009. Chelsea 1 x 1 Barcelona

Um escândalo em Stamford Bridge. Após empate por 0 a 0 em Barcelona, o time de Guardiola perdia por 1 a 0 em Londres e tinha dificuldades para chegar ao ataque. O árbitro norueguês Tom Henning Ovrebo deixou de dar alguns pênaltis para o Chelsea. Alguns falam em quatro lances claros, outros em cinco, outros em seis. Nos acréscimos, Iniesta acertou uma pintura, um golaço, e classificou o Barça para a final. O segundo e o terceiro pênaltis, em Drogba, são realmente inacreditáveis. O braço de Eto'o nos acréscimos, bloqueando o chute de Ballack, também.

2011. Real Madrid 0 x 2 Barcelona

Era o jogo de ida das semifinais. A expulsão direta de Pepe por uma solada em Daniel Alves condiciona a partida, que estava empatada. Um amarelo cairia bem para a jogada, mas o árbitro alemão Wolfgang Stark preferiu o vermelho direto. O Barça ganharia por 2 a 0 no Bernabéu. Na partida de volta, 1 a 1 no Camp Nou, Higuaín teve um gol mal anulado pelo belga Frank de Bleeckere.

Bom lembrar que antes de chegar àquela semifinal, contra o Real, o Barça havia passado pelo Arsenal nas oitavas. Perdeu o jogo de ida, em Londres, por 2 a 1. Na volta, no Camp Nou, o jogo estava empatado por 1 a 1 quando o árbitro suíço Massimo Bussaca resolveu expulsar Van Persie, então melhor jogador do Arsenal, porque ele tocou para o gol em um lance em que havia impedimento.

Decisão duríssima e para lá de polêmica. Entre o apito e o toque de Van Persie se passou apenas um segundo, foi uma jogada muito rápida. O Barça venceria o jogo com um homem a mais e conseguiria a vaga.

No meio dos dois títulos europeus de 2009 e 2011, o Barcelona de Guardiola ficou pelo caminho na semifinal da Champions League de 2010, contra a Inter de Milão de Mourinho.

A Inter venceu o primeiro jogo por 3 a 1. No jogo de volta, no Camp Nou, o Barcelona voltou a se beneficiar de uma expulsão para lá de polêmica. Thiago Motta foi expulso aos 27min de jogo por um suposto cotovelaço no rosto de Busquets. Na verdade foi apenas uma proteção, Motta toca no rosto de Busquets com a mão. Nunca deveria ter sido mostrado o vermelhor por De Bleeckere. Atenção para o teatro de Busquets no chão e a olhadinha para ver se o juiz cairia na dele.

Nas oitavas de final da Champions 2013/2014, o Barcelona empatava por 0 a 0 contra o City, em Manchester. O árbitro sueco Jonas Eriksson dá pênalti de Demichelis sobre Messi. O detalhe: a falta foi fora da área.

No ano passado, tivemos a absurda expulsão de Fernando Torres pelo alemão Felix Brych ainda no primeiro tempo do jogo do Camp Nou, quando o Atlético vencia por 1 a 0 – acabaria levando a virada, com Luís Suárez tendo vários vermelhos perdoados e dois gols feitos. O Atlético acabaria conseguindo a classificação em Madri.

E, agora, a escandalosa arbitragem do alemão Deniz Aytekin contra o PSG. A classificação do Barcelona foi épica e histórica, mas simplesmente não dá para ignorar o fato de o árbitro ter marcado dois pênaltis inexistentes para o Barça em momentos cruciais do jogo. E não ter marcado dois pênaltis para o PSG – um deles admitido pelo próprio Mascherano, com 40min do segundo tempo, com o placar em 3 a 1.

Sim, a virada foi magnífica, Neymar jogou muito, o PSG deu sopa para o azar. Tudo isso é verdade. Mas não haveria virada sem as decisões lamentáveis do árbitro.

Podemos ver, pelas nacionalidades acima, que alemães entendem muito de quase tudo. Menos de apito.

Sem dúvida, ao longo desses anos todos o Barcelona chegou a ser prejudicado por arbitragens aqui e ali. Recentemente, teve um gol legítimo não anotado contra o Bétis, pela Liga espanhola.

Mas, em jogos de Champions League, em jogos verdadeiramente grandes e decisivos, fiquei horas tentando puxar na memória algum jogo em que o Barça tenha sido escandalosamente prejudicado. Simplesmente não consegui encontrar.

O amigo e colega Mauro Cézar Pereira fez um levantamento interessante. Aytekin havia apitado dois pênaltis em 18 jogos na temporada toda. Não é exatamente um soprador costumaz. Mas foi contra o PSG.

Merk. Ovrebo. Stark. De Bleeckere. Bussaca. Brych. Aytekin. A lista aumenta.

Agora você deve estar esperando que eu dê a resposta ao título deste post. Eu não tenho essa resposta. Tenho apenas uma pergunta.

Por quê?

 


Apito amigo leva Barcelona ao milagre na Champions
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juliogomes

E o Barcelona conseguiu o milagre. De forma inédita, um time reverteu o 0-4 da ida e se classificou em uma competição europeia. Foi épico, foi fantástico, foi inesquecível. E foi um roubo.

O juiz alemão Deniz Aytekin roubou do Paris Saint-Germain a chance de se classificar para as quartas de final da Liga dos Campeões. Simples assim.

Com 1 a 0 para o Barça,  não deu pênalti de Mascherano, que saltou para bloquear um cruzamento de braços abertos. Correu o risco ao dar o carrinho, expandiu sua área de bloqueio. Pênalti não dado que já teria mudado completamente a cara da eliminatória.

É verdade que o PSG contribuiu com erros individuais. Os zagueiros praticamente deram os dois gols ao Barça no primeiro tempo. Thiago Silva perdidaço no lance do primeiro, Marquinhos passivo no segundo – permitiu a Iniesta brigar na jogada, cruzar de calcanhar e forçar o gol contra de Kurzawa.

Taticamente, o PSG fez o jogo que podia. Marcou bem, fechou espaços, obrigou o Barça a chutar de fora da área e deu algumas espetadas no contra ataque. O primeiro tempo acabou 2 a 0 para o Barça, mas não era um placar condizente com o volume de jogo em campo.

Depois, com 2 a 0, o árbitro Aytekin inventou um pênalti absurdo cavado por Neymar no início do segundo tempo. O jogador do PSG se desequilibra, cai no chão e Neymar é quem busca o contato e cai – sua enésima queda na área.

O script era o dos sonhos de Luís Enrique, dos torcedores e jogadores: 3 a 0 logo no início do segundo tempo. Mas o gol de Cavani, aos 17min do segundo tempo, ''matou'' a eliminatória para o PSG.

Depois dos 4 a 0 de Paris, o PSG sabia que para avançar no Camp nou bastaria isso: um gol. No início, no meio ou no fim, não importa. Com 0 a 0 ou 3 a 0 contra. Um gol mataria o Barcelona. E foi o que aconteceu (só que não).

Dos 17min aos 43min do segundo tempo, o Barcelona nada fez. A torcida se calou, Luís Enrique tirou Iniesta de campo (já pensando no futuro na Liga espanhola). O PSG teve dois contra ataques que seriam a pá de cal. Cavani perde um gol cara a cara com Ter Stegen, Di María perde o outro – fiquei em dúvida se houve pênalti de Mascherano no lance, mas infelizmente a geração de imagens da Uefa não mostrou o replay desta jogada uma vez sequer.

(atualização: rara honestidade no futebol, o próprio Mascherano admitiu que fez pênalti em Di María. O segundo, portanto, não dado para o PSG).

Aos 43min, Neymar faz um golaço de falta. Uma cobrança magistral. 4 a 1. Ainda faltavam dois gols para a classificação.

E aí o árbitro, aquele mesmo que não tinha dado um pênalti para o PSG no primeiro tempo e outro no segundo, inventou um segundo pênalti para o Barcelona. Marquinhos encosta em Luís Suárez, que desaba na área. Uma cavada de livro. Uma vergonha. Eram 46min do segundo tempo.

Neymar bateu o pênalti, 5 a 1. Aí virou aquele pega para capar, bola na área e, em uma delas, aos 50min, Sergi Roberto, vilão em Paris, virou o herói no Camp Nou. Fez o sexto gol.

Não acho que o PSG mereça ser tão criticado assim. Foi a Barcelona para conseguir a classificação. E estava conseguindo o objetivo até o derretimento dos minutos finais. É muito difícil jogar contra um Barça ligado na tomada e uma arbitragem tão nefasta.

O Barcelona mostrou raça, coragem e fé. Não desistiu até levar o gol. Com 3 a 1 no placar, todos já haviam desistido. Mas aí Neymar e o juiz resolveram dar outro destino à eliminatória.


Bola aérea, de novo, salva o Real Madrid. É o Zidanebol
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juliogomes

A coisa estava feia para o Real Madrid em Nápoles. O Napoli não só vencia ao final do primeiro tempo, mas havia perdido gols e dominava totalmente a partida. O Real estava sonolento, descompactado e distante.

Com os 3 a 1 do Real na ida, bastava ao Napoli ganhar por 2 a 0 para operar o milagre. Era meio caminho andado.

Mas aí veio o segundo tempo, vieram os escanteios, vieram os gols de Sergio Ramos. Assim como na final da Champions-2014, assim como no clássico do Camp Nou no fim do ano passado, assim como em tantas outras ocasiões.

A bola alçada na área virou a maior arma do Real Madrid de Zidane. O amigo Vítor Birner, também blogueiro aqui do UOL, apelidou de ''Zidanebol''. E está difícil discordar.

Não sou aqui um saudosista daqueles que ficam clamando pelo ''jogo bonito''. Apenas considero que um time como o Real Madrid precisa ter mais repertório. Um time que passa tão perto do desastre, como em Villarreal, como contra o Las Palmas, como em Nápoles, uma hora se encontra com ele.

Faltam opções, falta futebol. Os meio campistas estão distantes entre eles e também dos atacantes. Cristiano Ronaldo recebe bolas de menos para alguém importante demais. Em Nápoles, Sergio Ramos salvou de novo. Não sei se o bi da Champions virá com uma forma tão unidimensional de conseguir vitórias.

Real Madrid e Bayern de Munique são os ''nomões'' vivos na Champions, se considerarmos que o Barcelona dificilmente passará do PSG. Mas como colocar na mesma prateleira Real e Bayern neste exato momento?

O Bayern, depois dos dois 5 a 1 sobre o Arsenal e das goleadas na Alemanha entrou em uma fase sublime. É um time que tem craques em todas as linhas, um craque no banco (Ancelotti), todas as armas necessárias para voltar a ser campeão europeu.

E o Arsenal?

Até fez um primeiro tempo digno. Depois, com a expulsão e o empate, sucumbiu. Os primeiros 10 anos de Wenger mudaram o patamar do clube. Hoje, o Arsenal não mete medo em ninguém. São sete eliminações seguidas em oitavas de final, nenhuma mais humilhante do que esta. Já deu para o francês.

 


Mauro Silva estava na virada mais épica da Champions. E conta a receita
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juliogomes

Quando o Barcelona entrar em campo na quarta-feira para enfrentar o Paris Saint-Germain, estará tentando a maior reviravolta na história do mata-mata da Liga dos Campeões da Europa. Nunca um time derrotado por 4 a 0 na partida de ida conseguiu buscar a classificação na volta.

Mais para frente, neste post, falarei de reviravoltas de times que perderam por quatro gols de diferença na ida em outras competições europeias. Mas, na Champions League moderna, a maior virada até hoje foi protagonizada justamente em solo espanhol.

Era o dia 8 de abril de 2004. O campo era o Riazor, na Galícia. Naquela noite mágica, o pequenino Deportivo La Coruña fez 4 a 0 no todo poderoso Milan, que havia vencido a partida de ida por 4 a 1 e era o vigente campeão europeu.

Vejam a escalação daquele Milan, que era considerado o melhor time do mundo: Dida; Cafu, Nesta, Maldini e Pancaro (Rui Costa); Pirlo (Serginho), Seedorf, Gattuso e Kaká; Tomasson (Inzaghi) e Shevchenko. O técnico era Carlo Ancelotti.

O La Coruña, do técnico Irureta, teve Molina; Manuel Pablo, Naybet, Jorge Andrade e Romero; Mauro Silva e Sergio (Duscher); Victor, Valerón (Djalminha) e Luque (Fran); Pandiani.

''No futebol, acontecem coisas impensáveis, inimagináveis. Como preparar para uma goleada? Você não prepara. Saímos para ganhar o jogo de qualquer jeito, pela honra, pela dignidade. Ganhar por um, dois ou três. O plano era apenas ganhar o jogo. Conforme os gol vão acontecendo, você vai indo atrás, essa foi a receita0. Acabou o primeiro tempo 3 a 0 e o Milan tomou um susto'', contou Mauro Silva com exclusividade ao blog.

''O Milan teve um excesso de confiança. Se você sai segurando ao máximo o jogo, dando bicuda para o mato, vai minando o time que precisa da remontada. Se eles saem chutando tudo, rasgando por 20 minutos, segura 0 a 0, minaria muito o entusiasmo. Mas o Milan achou que o resultado da ida era suficiente, saíram a campo para administrar.''

O La Coruña fez 1 a 0 aos 5min, em um chute do uruguaio ''el rifle'' Pandiani. Foi a tempestade perfeita. O Milan teve dois contra ataques em que Shevchenko e Kaká ficaram mano a mano com o goleiro Molina. Ambos tomaram decisões erradas e perderam a chance do empate. Não acontece uma virada dessas se não der tudo certo para um lado, tudo errado para o outro.

Aos 34min, após um cruzamento da esquerda, Dida saiu de forma bisonha do gol e Valerón só tocou de cabeça para fazer 2 a 0. Aos 44min, Luque invadiu a área e chutou de esquerda, sem chance para Dida. Pronto, 3 a 0 e estrago feito. Em apenas um tempo, o La Coruña já conseguia o resultado que precisava.

No segundo tempo, o Milan teve poucas chances de gol. Fran ainda fez o quarto, e o Riazor veio abaixo.

Em sua biografia, o meia Pirlo insinua que o La Coruña poderia estar dopado naquele jogo. ''Não é uma acusação, é um pensamento indecente. Eles não conseguiam ficar quietos. Quando o árbitro apitou o fim do primeiro tempo, corriam como se fossem o Usain Bolt para o vestiário. Eram homens possuídos, correndo atrás de um objetivo que só eles viam ser possível atingir. Pela primeira e única vez, me perguntei se os homens contra quem jogava haviam tomado algo'', escreveu o italiano.

Mauro Silva conta que a correria do intervalo foi estratégia pensada justamente para causar esse efeito.

''Estava todo mundo correndo para caramba. Quando termina o primeiro tempo, estou no canto com o Pandiani, a gente combina e todo mundo sai correndo para o vestiário. E eles saem andando. Fizemos de propósito, para dar um efeito psicológico, mostrar que estávamos a toda, sem cansaço, e seguiríamos assim no segundo tempo'', disse o volante tetracampeão do mundo ao blog.

E o Barcelona? Conseguirá reverter.

Até hoje, foram três as ocasiões em que times perderam a ida por quatro gols de diferença e reverteram na volta. Mas em outros tempos, em outras competições europeias, em outros contextos.

Em 1961, pela extinta Recopa europeia, o Leixões, que havia de forma surpreendente sido campeão da Copa de Portugal, perdeu a ida contra o Chaux-de-Fonds, na Suíça, por 6 a 2. Ganhou por 5 a 0 na volta e foi para a segunda fase.

Outras duas remontadas foram na Copa da Uefa (que hoje é chamada Europa League). Em 84/85, o inglês Queens Park Rangers ganhou por 6 a 2 do Partizan Belgrado, da Sérvia (na época, Iugoslávia). O Partizan meteu 4 a 0 na volta. Na temporada seguinte, também pela Uefa, o Real Madrid levou 5 a 1 do Borussia Moenchengladbach na ida para depois reverter com 4 a 0 no Santiago Bernabéu.

Percebam que, nas três ocasiões, o time que perdeu por quatro gols na ida voltou para casa com algum gol feito fora de casa, o tal gol qualificado – que o La Coruña também havia conseguido em Milão em 2004, gol que o Barcelona não fez em Paris.

Por isso, se o PSG fizer um golzinho no Camp Nou, o Barcelona será obrigado a fazer pelo menos seis para não ficar fora das quartas de final da Champions pela primeira vez desde 2007.

''Se Barcelona fizer dois, três gols, é muito viável. Se o Paris marcar algum, porém, aí o baque é grande'', analisa Mauro Silva. ''O Camp Nou é um estádio ruim de defender. Ele é grande e muito rápido pelo gramado, é o pior campo em que eu já joguei na vida para se defender. Junta isso com Messi, Suárez e Neymar, é uma combinação ruim. Se eu estou no Paris, é segurar uns 10 minutos e sair para o jogo para marcar um gol, jogar uma ducha de água fria. Se o Paris quiser defender 90 minutos…''

Unai Emery já cansou de apanhar no Camp Nou. Foram 11 visitas pelos diversos clubes que treinou. 11 derrotas. Se tem um homem que sabe que só se defender no Camp Nou é um erro estratégico, esse homem é o treinador do PSG. Vamos ver qual será o tamanho da coragem para colocar em prática um plano de jogo agressivo, não apenas esperando o duelo acabar e a vantagem ser confirmada.