Blog do Júlio Gomes

Chapecoense não é só vítima. Olho aberto para o futuro das famílias
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juliogomes

Esta é a primeira vez que escrevo algo sobre a tragédia absurda que matou tanta gente em Medellín. Jogadores, dirigentes, jornalistas. Um crime, uma tragédia para lá de evitável.

Desde o primeiro momento, me incomodou um pouco como a Chapecoense passou a ser tratada como única – ou maior – vítima. Nos estádios mundo afora, vimos luto, #forçaChape, cânticos de homenagem.

Mas e as famílias?

Esta reportagem (mais uma da ótima Luiza Oliveira) mostra que algumas mulheres de jogadores que morreram na queda do avião da LaMia reclamam de abandono e cobram apoio financeiro.

Acredito que seja um pouco cedo para tratar a Chapecoense como vilã. É um clube destruído, que perdeu todo o seu corpo diretivo e é preciso de tempo para reconstruir a estrutura de gestão e tomada de decisões.

Mas pergunto novamente. E as famílias?

A Chapecoense, assim como as empresas de mídia que tinham profissionais no voo, não vai morrer. Ela é uma instituição, não uma pessoa. Aliás, no longo prazo, com a atenção nacional e internacional recebidas, a Chapecoense deve até ganhar um tamanho maior do que tinha.

Mas e as famílias?

Havia jogadores e pessoas ali que tinham uma carreira longa no futebol, suficiente para fazer o tal pé de meia. Mas havia também gente sem um grande contrato na profissão.

Qual o tamanho da indenização que as famílias deveriam receber? Vamos lembrar que estamos falando de famílias (a maioria) absolutamente dependentes dos jogadores que morreram. Algumas com dívidas feitas em função do que se esperava receber. E os profissionais do futebol menos ''midiáticos''? Preparadores físicos, fisiologistas, diretores da Chape que estavam no voo e que não são o presidente ou alguém tão importante assim…

Com o seguro do clube mais o da CBF, foram pagos para as famílias dos jogadores 40 salários. O equivalente a três anos e pouco com contratos no mesmo valor. Mas aí já surge a primeira crítica. Salários CLT. Não deveria ser pago o salário integral, considerando também direito de imagem? Todos sabemos que no futebol os salários sob CLT ficam BASTANTE abaixo dos salários acordados entre clubes, empresários e atletas.

Aparentemente, as famílias dos jogadores não reclamam das indenizações, mas cobram o pagamento da premiação pelo título da Sul-Americana e o dinheiro de jogos beneficentes. Isso deverá ser resolvido em uma reunião nos próximos dias (esperamos).

Funcionários do departamento de futebol, comissão técnica e diretoria teriam recebido uma indenização de R$ 40 a 54 mil do clube – e zero da CBF. Me parece uma quantidade irrisória para o tamanho da perda, famílias que precisarão se reconstruir. Vamos lembrar que nem todos ali (quase ninguém) tinha construído uma carreira como a do técnico Caio Júnior.

Não seria justo que a Chapecoense arcasse com 40 salários destas pessoas também?

Ainda temos a questão da LaMia.

Aliás, por que mesmo a Chapecoense escolheu fazer um voo bizarro, saindo da Bolívia, com uma empresa picareta e nebulosa, em vez de pegar um voo de carreira até Bogotá e depois Medellín?

Especialistas dizem que dificilmente algo será pago por alguma seguradora. Funcionários da LaMia morreram no acidente e a conclusão das investigações foi de queda em razão de pane seca. Seguradoras não cobrem acidentes causados pela irresponsabilidade de seres humanos gananciosos.

No meu ponto de vista, qualquer que seja a indenização que deveria ser paga pela cia aérea às vítimas, a Chapecoense deve assumir esse custo junto às famílias de seus funcionários. E depois, em um segundo momento, com a força de uma instituição e o apoio que recebe do mundo inteiro, ir atrás de ressarcimento. Que a bilionária Fifa ajude! O que não pode é deixar as famílias anos e anos sem ver a cor desse dinheiro.

Quero colocar aqui um comentário que encontrei na postagem do UOL Esporte no Facebook sobre o tema.

''Mt gente ignorante,se o clube for pagar o que estao pedindo essas encostadas ai o clube vai acabar de falir de vez e se for o caso so declararem falencia e nao da nada pra essas vagabundas..vao caçar um serviço ate la cambadaa,uma faxina,um mercado pra trabalhar criar os filhos,ou dao o golpe en outro jogador otario ai..''

Esse comentário nos mostra várias coisas. O nível atual de muita gente com quem ''convivemos'' em sociedade, com o machismo arraigado até a tampa.

Mostra também com o clube é visto como a maior das vítimas. Muita gente tem tanta pena da Chapecoense que a considera vítima até mesmo no momento de indenizar as pessoas que morreram. Pessoas. PES-SO-AS.

A Chape é uma exemplo. Antes todos os clubes fossem como ela. Já na Copinha SP Júnior percebemos como todos querem o bem do clube. Será assim no Brasileiro, com simpatia e apoio em todos os estádios. Eu torcerei pela Chape para sempre. Muitos farão o mesmo.

Mas ela não é apenas vítima. Ela escolheu a LaMia. Precisa mostrar uma grandeza ainda maior do que já mostrou em relação a suas vítimas integrais. Não foram elas que escolheram entrar naquele avião. E são elas que perderam o arrimo familiar.

chape_familias


Sergio Ramos redefine a “lei do ex”. Sevilla derruba o Real!
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juliogomes

Sergio Ramos jogou muito bem no Sevilla, em uma época de renascimento do clube. É um filho da cidade. Com 19 anos, o Real Madrid foi até o Sul contratar o zagueiro que seria o ''novo Hierro''. Na época, falou-se daqui, dali e não pegou muito bem a saída de Ramos lá na Andaluzia.

Acelera a fita e chegamos ao meio da semana, quando Sevilla e Real Madrid se enfrentavam pela Copa do Rei. Com os 3 a 0 da ida, a eliminatória estava morta. Mas o Real defendia uma invencibilidade de 39 jogos oficiais, marca histórica e igual à conquistada pelo Barcelona nas duas temporadas anteriores.

O Sevilla ganhava por 3 a 1 até o 38min do segundo tempo. Foi quando Sergio Ramos bateu um pênalti com cavadinha. Deu aquela humilhada. Comemorou, meio que com raiva da torcida. E, claro, foi vaiado. Depois, disse que não tinha comemorado nada e que, quando morresse, seria enterrado com uma bandeira do Sevilla e outra do Real sobre o caixão. Disse que não entendia por que Daniel Alves (um brasileiro) era aplaudido no estádio Ramón Sánchez Pizjuán, enquanto ele era xingado.

Nos acréscimos daquele jogo, Benzema decretaria o 3 a 3, e o Real chegaria ao recorde do país, 40 jogos de invencibilidade. E Sergio Ramos se transformou no personagem da semana.

Chegamos a este domingo, jogo válido pela liga espanhola. Líder contra vice-líder, para se ter uma ideia de quão bons são o time do Sevilla e seu técnico, Jorge Sampaoli.

Após um bom primeiro tempo do Sevilla, o Real tomou conta do jogo no segundo, chegou ao gol e parecia a ponto de jogar um balde de água fria na liga espanhola. Criava chances para matar a partida.

Foi quando, aos 40min do segundo, Sergio Ramos apareceu. E fez um gol… contra!

Não dava para ter deixado o torcedor do Sevilla mais feliz. O personagem da semana tirava a vitória importantíssima do Real. Como disse um seguidor no Twitter. ''A lei do ex se superou''.

A ''lei do ex'', todos sabem, é evocada sempre que um ex-jogador de um clube marca quando reencontra o time que defendia. Sergio Ramos redefine a lei do ex ao meter um gol contra o Sevilla na quarta para depois, no domingo, fazer contra o atual, em favor do ex. Uau!

Mas tinha mais. O Sevilla cresceu no jogo, e o Real ficou atordoado. Jovetic, que chegou agora ao clube, meteu o 2 a 1 aos 45! E foi pelos ares a história invencibilidade de 40 jogos do Real Madrid de Zidane.

Êxtase total no Sánchez Pizjuán, onde o Sevilla derruba o todo poderoso Madrid pela segunda temporada consecutiva, quebra a série invicta e coloca fogo no campeonato.

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Na Espanha, são poucos os jogos em que você olha para a tabela e imagina um tropeço de Real Madrid ou Barcelona. O tropeço pode acontecer, vira e mexe acontece. Mas é difícil prevê-lo. Salvo pouquíssimas exceções, os dois grandões entram sempre em campo com um favoritismo destacado. Neste domingo, tínhamos um desses jogos-chave para o campeonato. Um jogo em que poderia acontecer o que, de fato, aconteceu. Gracias, Sergio Ramos!

O Real Madrid fica com 40 pontos, apenas 1 de vantagem para o Sevilla e 2 para o Barcelona. O Atlético está 6 atrás. Tem um detalhe: o Real tem um jogo a menos que essa turma toda. Ainda está no controle. Mas…

Esquenta na Itália, esfria na Inglaterra

A Juventus levou 2 a 1 da Fiorentina, em Florença, ao mesmo tempo que o Real caía em Sevilha. E a liga italiana também esquentou. A Juve tem agora só um ponto de vantagem para a Roma e quatro para o Napoli – apesar de, assim como o Real, ter um jogo a menos.

Já na Inglaterra, foi o contrário.

O Chelsea foi até a casa do atual campeão, o Leicester, e meteu 3 a 0 sem suar muito no sábado. Isso com uma semi crise se desenhando, após Antonio Conte barrar Diego Costa do jogo – falou-se de tudo, mas parece que tiveram um bate boca e o centroavante está balançado pela absurda proposta que recebeu da China.

Não bastasse a demonstração de foco e força, o Chelsea ainda viu de camarote, no domingo, Manchester United e Liverpool empatarem um ótimo jogo por 1 a 1. E o Manchester City levar 4 a 0 do Everton – Guardiola já até ''jogou a toalha''.

O Chelsea lidera a Premier League com 52 pontos, 7 a mais que Liverpool e Tottenham, 8 a mais que o Arsenal, 10 a mais que o City e 12 a mais que o United. Faltam ainda 17 rodadas, mas é difícil ver o time de Conte perdendo pontos bobos – e o Chelsea tem a vantagem de não estar envolvido na Champions League, o foco é total na liga doméstica.

No dia 31 de janeiro tem Liverpool x Chelsea. Logo depois, no dia 4 de fevereiro, tem Chelsea x Arsenal. Ou a liga inglesa esquenta de novo nesses dois jogos ou o Chelsea já pode ir preparando a festa e nos restará acompanhar uma bela briga pelas vagas na Champions – hoje, os dois times de Manchester, de Pep e Mou, estariam fora.

Na sexta-feira, volta a Bundesliga. Olho no Bayern de Munique de Carlo Ancelotti. Começou a temporada claudicante, mas engatou no fim do ano e é um dos grandes favoritos a conquistar a Champions League.

 


Invicto há 40 jogos, Real Madrid tem maratona em busca de recordes
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juliogomes

Um grande amigo meu costuma me mandar whatsapps quase diários pedindo a opinião sobre jogos, principalmente na Europa. Ele tem conseguido uma grana em sites de apostas. Na terça-feira, me perguntou: ''e esse Sevilla x Real Madrid, heim, o que você acha?''.

Eu disse que achava que o Sevilla iria quebrar a invencibilidade de 39 jogos do Real Madrid. Tinha tudo para acontecer. O Sevilla é um time forte em casa. Os 3 a 0 da ida deixaram o Real praticamente classificado. Consequentemente, Cristiano Ronaldo e Modric nem viajaram. E nada mais irônico que Real e Barcelona ficarem empatados na tal maior sequência invicta da história dos dois gigantes.

Ele me contou que a vitória do Sevilla estava pagando 2,87 para cada real apostado, o que é um valor altíssimo. Estava pagando mais do que empate ou vitória do Real Madrid. Eu disse que o jogo tinha cara de vitória do Sevilla, mas que o Real Madrid faria o gol fora de casa, matando a eliminatória. O amigo percebeu então que uma vitória do Sevilla com ambos os times marcando pagava 4,33 para 1. Meu conselho foi ''mete ficha''.

Acelere a fita para chegar à tarde de quinta-feira. O Sevilla fez 1 a 0 sobre o misto do Real. Levou o empate no começo do segundo tempo, gol que praticamente matou a eliminatória por ter sido marcado fora de casa. E logo o Sevilla fez 2 a 1.

Apita o whatsapp. ''Julião, está vendo o jogo? 2 a 1 para o Sevilla. 15 minutos do segundo tempo. Apostei 20 reais na vitória do Sevilla com ambos marcam. Retorno de 86 reais. Neste momento, o site está oferecendo 55 para eu encerrar a aposta. O que eu faço??''.

Eu não estava vendo o jogo. Mas imaginei que dificilmente não sairia outro gol. O Sevilla iria para cima sonhando com a vaga improvável. O Real teria o contra ataque à disposição. Respondi. ''Cancela! Pega o dinheiro. O Real sempre acha esses empates aos 40 e tantos…''

Ele cancelou. Alguns minutos depois, o Sevilla fez 3 a 1. Lamentamos. Poderia ter deixado a aposta correr até o fim! Ou então, possivelmente àquela altura o site estaria oferecendo uns 70, 75 reais pelo cancelamento. É sempre assim. Você cancela a aposta com medo de uma coisa e acontece a outra. A Lei de Murphy é uma nuvem constante na cabeça dos apostadores.

Alguns minutos depois, pula o whatsapp. ''Ufa! Foi 3 a 3. Benzema empatou aos 48. Valeu pela dica''. Não pude deixar de dar aquela esnobada. ''Fez bem. Conheço o Real Madrid''.

Se tem uma coisa que deve ser difícil nesse mundo é torcer contra o Real Madrid.

Há algo realmente especial neste clube. O jogador que veste a camisa branca parece que ganha automaticamente a confiança para acreditar que sempre conseguirá. Depois, vendo na TV o gol de empate de Benzema… totalmente fora de suas características, enfileirando defensores, bola que bate na canela, volta, sobra, desvia, sai do goleiro, entra no canto…

karim-benzema

Quando as coisas estão dando certo para o Real Madrid, amigos, sai de baixo.

A última derrota do Real em jogos oficiais foi aquele 2 a 0 em Wolfsburg, que precisou ser revertido no mata-mata da Champions League. Depois disso, foram 31 vitórias e 9 empates. Com títulos da Europa e do mundo, com gols nos acréscimos de Sergio Ramos, agora esse de Benzema, com partidas em que a defesa estava toda remendada, vários lesionados no caminho, Bale fora por meses, Cristiano Ronaldo poupado, clássico no Camp Nou.

É surreal, mas o Real do ainda novato Zidane, o ultracampeão, clube mais vencedor da história, encaixa pela primeira vez uma série invicta de 40 jogos, superando os 39 do Barcelona de Messi-Suárez-Neymar-Iniesta.

Considerando as quatro grandes ligas da Europa, a maior série invicta (somando jogos oficiais de todas as competições) é da Juventus de Conte, que ficou 43 jogos sem perder entre 2011 e 2012 (mas sem jogar competições europeias). O super Milan de Capello ficou 42 jogos sem perder entre 92 e 93. O Real igualou o Nottingham Forest de 78-79.

Se considerarmos a liga de Portugal, o Benfica ficou 56 jogos sem perder entre 76 e 78, e o Porto ficou 55 jogos invicto entre 2010 e 2012. A maior marca, disparado, é do Steaua Bucareste, da Romênia, que ficou 106 jogos invicto entre 1986 e 1989 – com direito a título da Copa dos Campeões em 86.

Quem poderá parar o Real Madrid de Zidane?

O Sevilla tem mais uma chance no domingo, às 17h45, pela 18a rodada do Campeonato Espanhol. O Sevilla é o vice-líder do campeonato, apenas quatro pontos atrás do Real e, se vencer, dá um calor no ponteiro – ainda que o Real tenha um jogo a menos, adiado por causa do Mundial.

O sorteio da Copa do Rei, na manhã desta sexta, colocou o Real frente a frente com o Celta de Vigo, que está em nono no Campeonato Espanhol.

Se sair vivo de Sevilha novamente, é difícil imaginar que o Real Madrid não vá superar a marca de 43 jogos da Juventus. Fevereiro pode reservar uma semifinal da Copa do Rei contra Barcelona ou Atlético de Madri. O Atlético pega o Eibar e deve avançar na Copa. O Barça tem um duelo bem mais complicado contra a Real Sociedad. A outra eliminatória reúne os fracos Alavés e Alcorcón.

Veja abaixo a tabela de jogos do Real nos próximos dois meses. Repare que, se o Real avançar na Copa do Rei, jogará 17 vezes no período. Tem compromissos em todos os meios de semana, pois faz em Valência o jogo atrasado da 16a rodada (por causa do Mundial de Clubes) e já enfrenta o Napoli pelas oitavas da Champions. É uma maratona e tanto! Faça suas apostas. Onde cairá a invencibilidade do time de Zidane?

(Se é que cairá…)

15/1 Sevilla x Real Madrid (Espanhol)
18/1 Real Madrid x Celta (Copa do Rei)
21/1 Real Madrid x Málaga (Espanhol)
25/1 Celta x Real Madrid (Copa do Rei)
29/1 Real Madrid x Real Sociedad (Espanhol)
1/2 possível ida da semifinal da Copa do Rei
5/2 Celta x Real Madrid (Espanhol)
8/2 possível volta da semifinal da Copa do Rei
11/2 Osasuna x Real Madrid (Espanhol)
15/2 Real Madrid x Napoli (Champions League)
19/2 Real Madrid x Espanyol (Espanhol)
22/2 Valencia x Real Madrid (jogo atrasado do Espanhol)
26/2 Villarreal x Real Madrid (Espanhol)
1/3 Real Madrid x Las Palmas (Espanhol)
4/3 Eibar x Real Madrid (Espanhol)
7/3 Napoli x Real Madrid (Champions League)
12/3 Real Madrid x Betis (Espanhol)


Duas razões para não gostar da Copa do Mundo com 48 seleções
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juliogomes

Muito se falou e está se falando sobre a Copa do Mundo com 48 seleções, uma decisão que a Fifa já anunciou e será colocada em prática a partir de 2026. Em regra, são críticas e mais críticas.

Temos de levar em conta que geralmente as pessoas reclamam de mudanças. Reclamam sem antes ler, pensar, ouvir opiniões. Mudou, reclamou. O conservadorismo impera. No entanto, neste caso específico da Copa, creio que o incômodo geral tem razão de ser.

Começamos pelo motivo principal: a Fifa ganhar (mais) dinheiro. Não dá para cair na ladainha toda, na retórica dos dirigentes. A Copa inchou para a Fifa ganhar dinheiro. Ponto. Rentabilizar seu produto. Sim, ficará mais ''democrática'', dará a chance para países que nunca participariam de um Mundial. Isso é legal. Mas não é a razão verdadeira.

São dois, a meu ver, os grandes problemas deste novo formato de Copa do Mundo. Duas coisas que me incomodam muito mais do que o argumento de ''vai cair o nível técnico''.

Eu entendo o argumento do nível técnico, mas creio que não vá cair para muito abaixo do que já está. A Copa já perdeu quando foi ampliada de 24 para 32 seleções, com mais seleções pouco competitivas da Ásia, África e Concacaf. Já temos jogos ruins – ou pelo menos jogos entre quem não chegará a lugar algum. Na verdade, o nível do futebol de clubes está muito acima do de seleções há bastante tempo.

O que sim é um problema muito maior é, na prática, o fim das eliminatórias. Porque, convenhamos, praticamente todo mundo vai estar em uma Copa com 48 países. São 211 federações que compõem a Fifa e tem umas 50 e tantas ali que nem como todo intercâmbio do mundo terão um time competitivo um dia.

Basta ver o que aconteceu nas eliminatórias europeias para a inflada Eurocopa-2016. Perdeu nível. Deixou de exigir dos times mais fortes.

As eliminatórias são muito importantes para termos uma noção do nível em que se encontra cada seleção. Com amistosos, não é possível fazer essa avaliação. Tampouco será com eliminatórias de competitividade quase zero.

Na Europa, onde já é muito raro as grandes potências passarem apuros, possivelmente veremos o mesmo acontecer com seleções médias. Na América do Sul, onde as eliminatórias são ultracompetitivas, haverá vagas para 6 ou 7 entre 10! Tipo, Brasil e Argentina podem jogar com o time Z. Não terão problemas. E o mesmo acontecerá nas outras confederações, onde os ''grandes'' nem precisarão se esforçar mais. Isso se não juntarem Conmebol com Concacaf, aí é capaz que todas as seleções sul-americanas se classifiquem.

Isso gera perda de competitividade e, claro, de interesse. Em nome de uma Copa do Mundo com mais países envolvidos, a Fifa estará fazendo o já cada vez mais escasso interesse pelo futebol de seleções ir bueiro abaixo ao longo do ciclo entre um Mundial e outro.

E isso, claro, agrada aos clubes europeus e Uefa. Menos espaço para seleções, mais peso para as competições de clubes.

A segunda razão pela qual detesto a decisão da Fifa ainda é extra-oficial: o formato de competição com 16 grupos de 3 seleções.

Horroroso. Que entre três seleções, duas passem de fase? Pouca competitividade e gigantescas chances de resultados combinados, que interessem aos dois envolvidos na última rodada. Grandes chances também de empates triplos. Que serão decididos como? Sorteio? Ranking? Cartões? Sério mesmo?? Isso sem contar na vantagem esportiva que terá a seleção que fará o primeiro e o terceiro jogos, com um descanso no meio que as outras não terão.

José Mourinho é um que diz preferir grupos com três, em vez de quatro times. Dizem os defensores deste formato que há também muitos jogos ''combináveis'' em grupos de quatro. E há jogos que não valem nada, o que não acontece com grupos de três.

Ficou uma imagem de jogos amarrados, com ''ônibus estacionados'' na fase de grupos da Eurocopa. Só que ali havia um detalhe: alguns terceiros colocados se classificavam. Isso foi horrível para a fase inicial da competição. Portugal, que seria campeão, passou de fase com três empates.

Todo mundo que já montou tabela de alguma coisa na vida – campeonato de botão, torneio escolar, o que seja – sabe que grupo de três times é problema. É simplesmente ruim. Assim como grupos de quatro em que alguns terceiros colocados avançam.

Ventilaram a hipótese de 16 seleções classificadas para a Copa e outras 16 saindo de um mata-mata. Seria muito menos pior do que 16 grupos de 3.

Não quero aqui dramatizar demais, não acho que estejam matando a Copa do Mundo. Mas estão matando, sim, as eliminatórias. E criando um formato bizarro para que a Fifa agrade os parceiros e ganhe mais dinheiro. Sem ir mais além, razões suficientes para não gostar da decisão dos cartolas.

infantino


Marcelo comemora 10 anos de Real com brilho. Maior que Roberto Carlos?
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juliogomes

Não me lembro exatamente a data. Acho que era fim de 2007, começo de 2008, por aí. Tocou meu telefone e apareceu o nome ''Paco''. Era um assessor de imprensa do Real Madrid. No início, achava uma mala sem alça. Depois, foi parecendo mais gente boa. Estranhei. Por que Paco estaria me ligando?

Atendi e ele logo saiu falando. ''Olha, sei que você é brasileiro e tradutor e estamos precisando de alguém para ajudar em uma entrevista coletiva do Real Madrid com um jogador chamado Marcelo. Você está disponível?''.

Achei muito estranho. Paco me conhecia, sabia que eu era repórter, não tradutor. E que eu estava dia sim, dia não no CT do clube, em Valdebebas, sentado junto com os outros jornalistas, fazendo perguntas aos jogadores e muitas vezes filmando as coletivas – eu era correspondente da Band na época. Havia uma porta ali na sala de imprensa por onde chegavam os jogadores. Eu nunca havia passado por aquela porta. Era estranha a sensação de estar sendo convidado para entrar na sala junto com o jogador.

Notei que Paco não tinha percebido que aquele Julio-brasileiro era o único que ele conhecia, não outro. Esclareci. E o assessor do Real Madrid de repente se viu em uma encruzilhada. Estava desesperado, a coletiva começaria em horas. As coletivas do Real nunca tinham tradutor, exceto quando Beckham falava (raríssimo). E, claro, não queria que eu estivesse lá sentado na bancada. Seria esquisito. E se tem uma coisa que esses caras não gostam é de dever favor.

Eu me adiantei. ''Paco, não se preocupe. Estou indo para Valdebebas e ajudo vocês nessa''.

Marcelo era uma criança. Um garoto acanhado, que, mesmo em português, mais murmurava do que falava. Eu achava um bom menino, talentoso, mas não via como ele poderia triunfar em um clube como aquele, um demolidor de pessoas tímidas. Para jogar no Real Madrid, não bastava ser bom de bola. Era preciso ter uma atitude à altura do clube.

A coletiva foi um fiasco para quem dependia daquela entrevista para o noticiário do dia. Marcelo jogava pouco, quase não conhecia o clube, não havia nenhuma crise em curso. Não havia o que perguntar para ele, em resumo. E as poucas perguntas que eram feitas eram respondidas com frases de no máximo umas cinco ou seis palavras. E ele respondia olhando de lado para mim, murmurando em português, sem ficar de frente para as câmeras.

Eu lembro que as minhas traduções se resumiam a ''sí'' e ''no''.

O Real seria campeão naquela temporada com Schuster. Roberto Carlos havia deixado o clube, e Marcelo passou a ter mais minutos do que tivera em seu primeiro ano, com Fabio Capello.

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Poucas vezes encontrei Marcelo depois daquilo. Sempre foi um rapaz simpático, pelo menos comigo. Mas, mesmo à distância, foi fácil perceber como ele cresceu, amadureceu, ganhou personalidade. Ganhou o tamanho do Real Madrid e do futebol dele. Me parece mais vítima do que vilão nos problemas com Dunga e hoje exerce a justa titularidade absoluta na seleção brasileira de Tite.

Marcelo estreou no Real Madrid em 7 de janeiro de 2007. Portanto, 10 anos atrás. Nas tribunas do Bernabéu, neste sábado, estavam alguns nomes históricos do clube. Isso porque Cristiano Ronaldo recebeu e mostrou sua Bola de Ouro. Mas serviu também como uma homenagem a Marcelo. Que prestou sua auto homenagem ao fazer uma jogada linda e cruzar na cabeça para que Cristiano Ronaldo deixasse o dele nos 5 a 0 sobre o Granada.

O Real Madrid só perde esse Campeonato Espanhol se quiser. Se consumado, será o quarto título nacional de Marcelo no clube – para acompanhar duas Champions (com Mundiais), duas Copas do Rei, duas Supercopas da Espanha e outras duas da Europa.

É inevitável comparar Marcelo com Roberto Carlos. Ambos brasileiros, ambos laterais esquerdos, ambos com uma linda carreira no clube mais vencedor da história. Roberto Carlos também chegou ao clube quando Fabio Capello era o técnico e ficou 11 anos no Real. Conquistou quatro títulos espanhóis, três Champions, dois Mundiais, três Supercopas da Espanha e uma da Europa.

Percebemos, pois, que em termos de conquistas Marcelo já está no mesmo nível de Roberto Carlos em um período parecido dos dois no clube.

Mas quem foi maior ou melhor? Quem foi mais relevante nessas conquistas todas?

Eu ainda colocaria Roberto Carlos acima de Marcelo na história do clube e do futebol.

Roberto Carlos foi, durante todo seu período no Real Madrid, titular absoluto, indiscutível. O melhor do mundo na posição durante praticamente todo esse tempo, sendo também peça importante em muitos títulos da seleção brasileira. Não à toa, é o estrangeiro com mais partidas com a camisa do Real. Não se machucava nunca, jogava sempre.

Roberto fez parte de um Real Madrid que, em 1998, quebrou um jejum de 32 anos sem títulos europeus. E em uma época em que não havia supertimes, como hoje. As coisas eram muito mais equilibradas na Europa.

Já Marcelo chegou a jogar com um meia ou ponta esquerda por muito tempo com Juande Ramos e Manuel Pellegrini. Depois, com José Mourinho, era basicamente titular nos jogos em que o Real tinha a obrigação de atacar (na liga doméstica, por exemplo) e dava lugar ao português Coentrão nos jogos grandes, quando Mou se preocupava mais em defender.

Foi só nos últimos dois anos que Marcelo assumiu, de vez, a condição de titular absoluto e incontestável do clube na lateral esquerda. Ainda com alguma falha defensiva, mas essencial para a construção do jogo ofensivo do time pelo lado esquerdo. Fez até gol na final da Champions de 2014, quebrando jejum de 12 anos sem títulos europeus – em tempo, foi reserva de Coentrão naquela final, Ancelotti mandou o brasileiro a campo no segundo tempo, quando precisava buscar o resultado.

Não estou, de forma alguma, minimizando Marcelo. Pelo contrário. Um grande jogador, estabelecido no clube, parte da história, parceiro de Cristiano Ronaldo e caminhando para sua segunda Copa do Mundo como titular.

Roberto Carlos não tinha o mesmo talento para a construção com a bola nos pés. Os tempos também eram outros. Mas, por ser um ''cavalo'' fisicamente, conseguia compor melhor o sistema defensivo. E suas patadas, em faltas ou com bola rolando, eram uma arma e tanto do Real Madrid ao longo dos anos.

Roberto fez muito mais gols que Marcelo no Real, mais que o dobro (68 a 26). No entanto, Marcelo deu muitas assistências (54 em 382 jogos).

Imagino que na cabeça do torcedor brasileiro lendo esse texto, relembrando dos anos de Roberto Carlos na seleção, a comparação seja esdrúxula. Mas é preciso sair da caixa ''Brasil''.

Eu acho a comparação justa e válida. Acho um ótimo debate de mesa de bar. No fim, ainda dou meu voto a Roberto Carlos. Tanto no peso histórico com a camisa do Real Madrid, pelos muitos mais anos de consistência e titularidade, quanto como jogador de futebol.

Mas Marcelo ainda tem tempo. Está no auge, jogando bola demais. Ee merece todas as palmas do mundo por completar 10 anos em clube exigente como o Real Madrid.

 


Gabriel Jesus na Europa estará mais para Neymar ou Gabigol?
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juliogomes

Em uma análise do respeitado jornal inglês ''The Guardian'', ainda em agosto, a contratação de Gabriel Jesus pelo Manchester City foi comparada à chegada de Mirandinha ao Newcastle, em 1987. Lembram dele?

Dez anos antes de Gabriel Jesus NASCER, chegava o primeiro jogador brasileiro ao futebol inglês. A comparação, claro, só se deu porque Mirandinha vinha do Palmeiras, assim como Gabriel.

Mais vale especular se o novo garoto prodígio do futebol brasileiro terá um impacto parecido com o de Neymar ou com o de Gabigol na Europa. Ambos talentosos, jovens, que despertaram muito interesse e verdadeiras batalhas extra-campo de grandes clubes europeus por eles.

Neymar não chegou para ser o salvador da pátria. Chegou ao Barcelona de Messi. Um clube que tentava se acertar após a era Guardiola e a infelicidade de Tito Vilanova, que vivia a transição para um futebol mais ''comum'', como o que joga hoje. Ainda assim, um clube campioníssimo, forte.

Quando Messi faltou, Neymar não deixou a peteca cair – é verdade que ter Suárez ao lado ajuda um tanto. Se nunca ameaçou o reinado do argentino, Neymar ganhou protagonismo, foi importante em temporadas vitoriosas e é claramente o futuro do clube. Ninguém duvida de Neymar em Barcelona.

Gabigol, por outro lado, vive situação inversa. Foi para a Inter de Milão (péssima escolha), ganhou poucos minutos até agora e vai ter de ganhar a vida em uma liga, a italiana, difícil demais para atacantes. Ainda mais para jogadores com as características que ele tem.

Talvez alguém tenha comprado o discurso de ''novo Neymar'', discurso que eu nunca engoli. Dá para perdoar. As fornadas costumam ser boas na Baixada Santista.

Os ''Gabrieis'' acabaram tendo a chance de, ao lado de Neymar, conquistar a sonhada medalha de ouro olímpica. Mas aí chegou Tite na seleção principal e os destinos foram traçados de forma distinta: enquanto um virou titular, o outro perdeu espaço.

neymar_gabriel

Gabigol tem uma carreira de respeito na base, tem dois títulos paulistas no curriculum, chegou ao time principal do Santos aos 16 anos. Mas parece, à distância, ter aquela mentalidade comum entre os jovens jogadores brasileiros com mídia em excesso. Achar que tem um futebol muito maior do que verdadeiramente tem. Há campo para evolução, sem dúvida. Batalhar para triunfar em um clube difícil, em território hostil, como a Itália, talvez fosse mais louvável do que voltar logo para o Brasil (infelizmente, já começam a surgir especulações plantadas por empresários).

Gabriel Jesus, por outro lado, mostra muita maturidade. Chega à Europa com um título brasileiro no bolso, destaque em um clube que não ganhava o campeonato havia 22 anos. Não teve uma trajetória tão longa aqui como a de Neymar, poderia ter passado mais alguns anos em um clube grande como o Palmeiras, sendo elogiado e criticado, louvado e xingado. Poderia ter criado mais casca. Perdido e ganhado. Ainda assim, não saiu ''sem jogar'', como aconteceu com muitos jovens que fizeram a transição sem escalas por nossa combalida elite.

Chega a um Manchester City com muitas interrogações no ar. Guardiola reclama das arbitragens, é criticado nas mesas redondas, começa a ser tratado na Inglaterra com um ''bebê chorão''. Seu time perdeu tanto terreno para o Chelsea que o título inglês parece missão impossível.

Como Conte também chegou ao Chelsea no meio do ano, fica meio difícil justificar pela ''falta de tempo de trabalho'' o início claudicante do técnico mais badalado do mundo.

O que fará Guardiola com Gabriel Jesus? Vai jogar logo o menino na fogueira da Premier League ou vai dar tempo ao tempo? Como justificar um hipotético ''pouco uso'' do atacante diante da crise de resultados? Como ele será usado? Competindo com Aguero para jogar no comando do ataque ou com os ''pontas'', transformando-se em Douglas Costa-2, ''A Missão''?

O grande problema do City de Guardiola não tem sido a falta de gols – nos últimos 14 jogos oficiais, só não marcou em um. Mas, sim, o excesso de cartões vermelhos, erros de saída de bola e gols sofridos – nos últimos 22 jogos, só passou três sem levar pelo menos um gol. O jovem atacante brasileiro não é a solução para o principal buraco de Guardiola no momento.

Gabriel desembarcou nesta terça em Manchester e já se especula que ele possa jogar sexta-feira, pela Copa da Inglaterra. É um jogo secundário para o City. Se ele jogar, já teremos uma ideia do que pretende Guardiola.

Nunca é fácil chegar no meio da temporada, sem dominar o idioma, na liga doméstica mais competitiva do mundo, onde árbitros não protegem talentos e jornalistas preferem gastar tinta criticando atacantes que se jogam do que elogiando os que driblam.

Talvez, para este restante de temporada, a resposta à pergunta proposta por este post seja ''nem Neymar, nem Gabigol''. Possivelmente Gabriel Jesus tenha muitos minutos, mas sem um impacto imediato. Nem vai ficar encostado, como Gabigol, nem ''chegar chegando'', como Neymar.

Para os próximos anos, eu apostaria algumas fichas em Jesus como o Gabriel mais importante pelas bandas de lá.

Após uma curta pausa de fim de ano, aqui estamos de volta para debater futebol e esporte em alto nível. Sem histeria, sem interesses escusos ocultos, sem bordões, sem preconceitos. Queremos cada vez mais tratar o futebol como ele merece. E queremos uma sociedade menos agressiva e violenta, física ou verbalmente.

Agradeço muito aos que deixaram comentários construtivos (a maioria!) ao longo do ano passado e sejam todos e todas bem vindos para participar também em 2017. Sempre com educação e respeito à opinião do próximo. Não deixem de opinar, concordar, discordar, compartilhar o que vocês leem por aqui. Não deixem de acompanhar o melhor noticiário aqui nas páginas do UOL Esporte.

Aproveitem para me seguir também no Twitter e no Facebook. É só clicar nos links. E um feliz ano novo para todos nós!


O segredo de Zidane para levar o Real da humilhação ao Mundial em um ano
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juliogomes

Com a vitória dramática na prorrogação por 4 a 2 sobre o Kashima Antlers, neste domingo, no Japão, o Real Madrid tornou-se o primeiro a conquistar cinco títulos mundiais. Nada estranho para o clube mais vitorioso da história. Ainda assim, incrível imaginar, 13 meses atrás, que tudo isso aconteceria.

Em novembro do ano passado, o Real Madrid levava 4 a 0 do Barcelona em pleno Santiago Bernabéu, mais uma humilhação em casa para o maior rival. Poucos meses após a inexplicável demissão de Carlo Ancelotti e a contestada contratação de Rafael Benítez, o técnico já balançava. Caiu 45 dias depois, com o time em terceiro lugar no campeonato.

Zinedine Zidane assumiu em 4 de janeiro. Em menos de um ano, levou o Real Madrid ao título da Champions League, o Mundial da Fifa e estabeleceu a maior sequência sem derrotas da história do clube – já são 37 jogos sem perder, somadas todas as competições.

É preciso bater palmas de pé para o Kashima Antlers, que foi melhor do que o Real Madrid durante todo o jogo e não se limitou a uma retranca, como vêm fazendo os times sul-americanos de uns 15 anos para cá. O Real foi beneficiado pelo árbitro, que afinou quando ia expulsar Sergio Ramos no segundo tempo. Levou sufoco nos minutos finais do jogo e levou bola no travessão na prorrogação. Mas aí Cristiano Ronaldo decidiu – apesar dos três gols dele, foi Benzema o melhor em campo. O mesmo Benzema que muitos na imprensa de Madri queriam ver no banco – preferem o ''local'' Morata.

2016 foi o ano em que o futebol ficou de pernas para o ar. Teve Leicester, Portugal, Palmeiras e Grêmio quebrando longos jejuns por aqui, seleção olímpica. Só não teve zebra mesmo para os lados do Real Madrid. Nos pênaltis, na Champions, e na prorrogação, no Mundial, o clube mais vencedor de todos os tempos fez valer a máxima do ''no fim, o grande sempre ganha''. A sorte não para de sorrir para Zinedine Zidane. Mas a sorte também precisa ser merecida, não cai no colo de qualquer um.

Zidane não tinha experiência alguma como técnico. Foi alçado à condição em janeiro muito mais como um recurso de defesa do presidente Florentino Pérez, como contei neste mesmo blog à época. Vaiado pelas arquibancadas, Pérez se blindou chamando um dos maiores ídolos do clube, que, quando jogador, era a encarnação do jeito de ser madridista em campo.

Poderia ter dado muito errado. Poderia ter jogado um ídolo na fogueira. Deu certo. Muito certo. A lenda só aumenta.

Costumo dizer que não há um modelo ideal de técnico de futebol, que sirva para qualquer situação. Há diferentes situações, que exigem mais ou menos do cardápio de qualidades e virtudes de treinadores. Às vezes, o melhor que um técnico pode aportar a um clube é sua capacidade de entender e atacar o mercado. Às vezes, conhecimentos tático, técnico e físico. Muitas vezes, a capacidade de motivar jogadores.

No caso dos gigantes clubes europeus, com elencos estrelares, e especificamente no caso do Real Madrid, creio que a principal virtude de um técnico é saber fazer os jogadores estarem felizes e comprometidos. São craques em todas as posições, gente de países diferentes, culturas diferentes. Não é necessário inventar rodas taticamente. O Real Madrid passará a temporada inteira ganhando jogos antes até de entrar em campo.

Não estou aqui falando que qualquer um pode ser técnico lá e que não é preciso conhecer tática, métodos de treinamento, etc. Estou falando que o que Zidane trouxe, como técnico, é o mais importante que um técnico pode trazer a um clube com essas características.

O francês trouxe calma ao ambiente, diálogo. Trouxe simplicidade, não complicações. Ele foi jogador até outro dia, sabe o que os caras querem e precisam. Sabe a linguagem necessária para motivar e formar um grupo unido e coeso. Sabe como dar bronca, como valorizar, como massagear egos – e em vários idiomas.

A característica de Zidane no comando não é a de ''paizão'', como gostam de atuar os treinadores brasileiros de uma ou duas gerações atrás. Estrelas do futebol mundial não querem um paizão e nem treinadores que deem pitis na beira do campo ou mandem recadinhos em entrevistas coletivas. Zidane é um colega, um cara que entende o que eles sentem e passam, porque também era uma superestrela.

Empatia é a palavra chave aqui.

Quando um gênio, com toda essa história na bagagem e um jeito calmo e comedido de falar resolve te chamar para uma conversa…. você ouve!

E aí, claro, entra a parte tática – que o cara não precisa resolver sozinho, pois há uma equipe de trabalho.

Nos melhores anos de Zidane no Real Madrid, que desembocaram no título da Champions de 2002, havia uma carregador de piano que limpava a barra para todo mundo. Chamava-se Claude Makélélé. No fim da temporada 2003, Florentino Pérez não só dispensou Vicente del Bosque, amado pelos jogadores, como não valorizou Makélélé, que se mandou para o Chelsea.

Zidane sabe bem que ali foi o começo do fim da era ''galáctica''. Um craque sabe muito bem valorizar quem faz o trabalho sujo para ele.

Quase dois meses após a estreia como técnico, em fevereiro, Zidane perdeu no Bernabéu o dérbi para o Atlético de Madri. E, a partir daquele jogo, Casemiro virou titular do time. As características são diferentes, mas ele encontrou ali o seu Makélélé. Um jogador para trazer equilíbrio a um time cheio de gente capaz de desequilibrar na frente.

Isso já estava nos planos de Benítez. E Ancelotti já fazia isso com Xabi Alonso em 2014. Não foi uma genialidade de Zidane, mas ele foi humilde para realizar o ajuste após o mau início.

Três meses após a estreia, veio a vitória sobre o Barcelona, no Camp Nou – eram 39 jogos de invencibilidade dos catalães, recorde histórico do futebol espanhol que está com pinta de cair em breve. Logo depois, a derrota por 2 a 0 para o Wolfsburg nas quartas de final da Champions – seria a última de Zidane, em 6 de abril. Desde então, nove meses sem derrotas. Os 3 a 0 para cima dos alemães logo depois e a classificação no jogo de volta acabaram por consolidar Zidane no cargo. Viria, então, a ''undécima'' e, agora, o ''Mundialito'', como eles chamam lá.

Zidane fez o arroz com feijão tático. Com Casemiro, a defesa fica mais segura, o jogo aéreo ganha força, Modric e Kroos ganham liberdade, a ligação fica mais fluida com o trio de ataque. E fez o arroz com feijão também no vestiário, trazendo as estrelas de volta a um ambiente de comprometimento com a instituição.

O Real Madrid de Zidane sofre muitas vezes, como sofreu contra o Kashima Antlers. Precisou da sorte em muitos momentos, precisou de pênaltis para ganhar a Champions, encontrou gols milagrosos em minutos derradeiros. Zidane ainda parece ter um longo caminho tático a percorrer. Na decisão do Mundial, por exemplo, quando se viu 1-2 abaixo, adiantou o posicionamento de Marcelo – nada mais ousado foi feito para buscar o resultado. Mas, para variar, ele veio.

Quando eu morava em Madri, no fim de cada ano minha esposa recebia da empresa em que trabalhava uma peça de jamón ibérico. O tal ''pata negra'', o melhor presunto cru do mundo, uma coisa espetacular. Íamos ao mercado municipal, entregávamos o jamón e ele voltava fatiado e embalado a vácuo. Dava para o ano inteiro. Mas a cereja do bolo era um saquinho que o cara do mercado me entregava com os ossos.

Um dia, inventei de, ao cozinhar uma feijoada, colocar alguns dos ossos durante o cozimento. Eu apelidei de ''feijoada ibérica''. Era, sem dúvida, a melhor coisa que eu fazia na cozinha. Um desbunde.

Fazer arroz com feijão não é difícil. E quando você tem nas mãos ingredientes espetaculares, até um básico arroz com feijão, se bem conduzido, torna-se um prato para lá de maravilhoso.

2016 foi um ano triste para muita gente. Um ano horroroso em muitos aspectos. Para o torcedor do Real Madrid, porém, foi só de alegrias. O Real de Zidane não brilha como poderia, mas vence como deveria.

 


Vinte anos atrás, a final que poderia ter mudado tudo para os lusos
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juliogomes

15 de dezembro de 1996. O dia em que aquilo não podia ter acontecido. O dia em que Rodrigo Fabri deveria ter sido menos fominha. O dia em que César tinha que ter cabeceado para o lado. O dia em que Aílton não podia ter acertado aquele chute. O dia que era o melhor da minha vida, até virar o pior.

Hoje, faz 20 anos que a Portuguesa perdeu o título brasileiro para o Grêmio. Aquele gol aos 39 do segundo tempo, quando o jogo estava morto, o estádio calado, o Grêmio, perdido. O dia em que vimos que nunca seríamos.

Eram outros tempos do futebol brasileiro. Saudoso mata-mata entre os melhores times, sistema que permitia aos pequenos e médios sonhar com o título nacional.

A Portuguesa se encontrou com uma classificação improvável, adquiriu a ''sorte de campeã'' naquele fim de ano, ganhou a torcida do país inteiro (velhos tempos em que o país via futebol, não só o próprio time). Esteve a 5 minutos de conquistar o título que faria jus ao tamanho do clube, ao que a Lusa havia representado para o futebol do país ao longo do século.

Tivesse sido campeã do Brasil em 1996, a Portuguesa poderia deixar seus torcedores morrerem em paz. Ela própria poderia morrer em paz.

Hoje, o clube definha. Está quebrado, largado, sem perspectivas. Ser campeã em 96 teria mudado esse destino? Sinceramente, acredito que não. Mas tudo teria sido diferente para os sofridos torcedores lusos, fiéis, chatos, poucos, apaixonados. Nenhuma discussão na mesa de bar ou no churrasco entre amigos teria sido igual. O ''orgulho de ser Lusa'', como andou escrito na camisa, seria outro.

Entre 1995 e 1998, a Portuguesa foi grande de novo, como no meio do século. Foi um repique que, bem aproveitado, teria mudado a história do clube. Mas, claro, nunca algo foi bem aproveitado pelos administradores da Lusa, que variaram entre burros e bandidos.

A volta de Candinho, no fim de 1994, forjou um time que seria o melhor do Estado em 1995, apesar de ter ficado sem título. E cimentou as bases para o digno campeonato feito em 96.

Foi um campeonato em que a Portuguesa flertou com o G-8. Até que perdeu mandos de campo na reta final. Isso porque, após um empate contra o Vitória no Canindé, no comecinho do campeonato, em um jogo em que o time foi estuprado por um árbitro carioca chamado Léo Feldman, a torcida jogou o diabo para o campo quando a partida acabou. Eu nunca fui de subir no alambrado. Naquele dia, havia subido. Bom, eu tinha 17 anos, a gente fazia essas coisas erradas.

A coisa degringolou nas últimas rodadas, e a Portuguesa jogaria a última em Curitiba, contra o Botafogo. Precisava ganhar e que pelo menos três times que estavam à frente na tabela tropeçassem.

Eu fazia a primeira prova da primeira fase da Fuvest. Um momento importante da minha vida, digamos, pois a partir dali eu consegui uma vaga para estudar jornalismo na USP, onde conheci a mãe das minhas filhas e mulher da minha vida, além de alguns dos melhores amigos que alguém pode ter.

Quando saí da prova, feliz com o desempenho, nem me lembrava mais do Brasileirão. Liguei de um orelhão para meu velho pai, ex-jogador aspirante da Lusa e um torcedor desiludido fazia tempo, para avisar que havia acabado a prova. Mas ele não queria saber da prova. ''Você não acredita! Está todo mundo perdendo e a Lusa ganhando!''.

Quando cheguei em casa, o Sport levava um saco, o Inter perdia do rebaixado Bragantino, a Lusa metia 4 no Botafogo e faltava somente o São Paulo não ganhar do Paraná (obrigado pelos que me corrigiram aqui!). Parreira era o técnico do São Paulo. Ouvi os minutos finais em um radinho de pilha, como se fazia nos bons tempos. Muller, acho, perdeu um gol feito no final. E a Lusa entrou. Surreal.

Clemer; Walmir, Emerson, César e Zé Roberto; Capitão, Gallo, Caio e Zinho; Tico e Rodrigo Fabri. Este era o time da Portuguesa no campeonato.

Eu considerava Walmir o pior lateral do mundo. Zé Roberto era ''minha'' descoberta. Eu que havia visto aquele moleque subir para o time principal em 94 e falava para todo mundo. ''O lateral-esquerdo da Portuguesa é um craque, é o melhor lateral que já tivemos''. Eu achava Zé Roberto tão bom que em todos os jogos fazia questão de ir atrás do banco de reservas gritar para Candinho. ''Bota o Zé no meio, seu burro! Bota ele no meiooooooo''.

Eis que na véspera do mata-mata, Zinho, aquele que era do Sport de Recife, se machucou. E Candinho colocou Zé Roberto no meio de campo. A simples mudança que quase fez a Portuguesa ganhar o campeonato.

Carlos Roberto entrou na lateral esquerda. Walmir, o grosso, fez uma partida de gênio nas quartas de final contra o Cruzeiro, o primeiro da fase de pontos corridos. E Zé Roberto comeu a bola. Alex Alves, o baianinho, que Deus o tenha, havia feito um campeonato ridículo. mas entrou no lugar de Tico e meteu dois gols. A Portuguesa foi obrigada a jogar no Morumbi, por uma daquelas ridículas regras de capacidade mínima de estádio.

Em vez de 15 mil pessoas no Canindé, foram 7 mil ao Morumbi. Meu primo Renatinho, torcedor do Palmeiras (isso me lembra que ainda nem dei parabéns a ele), me pegou no cursinho e fomos ao Morumbi. No meio do primeiro tempo, acabou a energia. Era um breu só. Gritávamos ''é, é, é, estádio é o Canindé!!''.

zeroberto_96Foi um dos três maiores jogos que eu já vi da Portuguesa. O jogo perfeito. 3 a 0 naquele timaço do Cruzeiro. Êxtase. Esperança. Zé Roberto. O único ídolo que tive no futebol. Que grande é Zé Roberto.

O jogo de volta foi num sábado, eu vi na Globo. Nunca passava jogo da Portuguesa na Globo. Mas o mata-mata passava para o Brasil inteiro, isso que era legal no mata-mata. O Cruzeiro fez 1 a 0. Eu tinha certeza que seríamos eliminados. Mas não fomos.

Na semifinal, contra o Atlético Mineiro, o Galo tinha 478 jogadores pendurados para a partida de volta. Bateu impiedosamente o jogo todo. Me lembro do árbitro, Sidrack Marinho, dizer ao fim do jogo que havia economizado nos cartões para ''não estragar a semifinal''. Sim, minha memória não me deixa na mão. Léo Feldman. Sidrack. Castrilli. Já xinguei muito nessa vida.

O Atlético havia vencido todos os jogos no Mineirão naquele campeonato. Todos, exceto o clássico com o Cruzeiro. Ganhar só por 1 a 0 no Morumbi parecia fim de linha. O jogo de volta é o que meu irmão, Flavio, considera o jogo de sua vida. Outro irmão, Fernando, morava em Belo Horizonte. Eles foram juntos. Havia 100 e tantas mil pessoas. Eu fazia a segunda prova da primeira fase da Fuvest. E estava difícil demais pensar na prova. A carteira em que eu fiz o vestibular tinha escudos da Portuguesa e a escalação do time por todas as partes.

Quando acabei, corri para saber quando estava o jogo. Intervalo, 1 a 0 Atlético. Já era. Peguei carona com uma amiga para voltar para casa. Pedi o favor de uma vida para a mãe dela. ''Tia Rosa, será que eu posso ouvir o jogo da Portuguesa no rádio?''. No caminho, saíram os dois gols da virada. Eu gritava como um louco com metade do corpo para fora do carro. As amigas não entenderam nada. Quando cheguei em casa, liguei a TV e o Atlético empatou. Desliguei a TV. Ouvi o resto no rádio. Manias.

Era surreal demais ver a Portuguesa, a minha Portuguesinha, na final do campeonato.

Na segunda-feira, eu fiquei seis horas em uma fila debaixo de Sol no Canindé para conseguir ingresso para a final. Havia gente com camisas de todos os times. Não consegui os ingressos. Fiquei puto. Me parecia injusto um monte de gente estranha ir e eu não ver a final. Mas o Flavio conseguiu ingressos sei lá como, acho que com alguém na Jovem Pan, onde ele trabalhava na época. Foi um daqueles dias de chuva absurda em São Paulo. Não sei como cheguei ao Morumbi. No intervalo do jogo, chegava gente e mais gente no estádio. A cidade estava alagada.

Quando Gallo meteu o gol de falta, o primeiro, Flavio chorava copiosamente. Eu nem lembro direito daquele jogo. Era tudo realmente muito surreal.

No Terceiro Tempo da Pan, Milton Neves perguntava a cada um da equipe qual era a chance de título da Portuguesa. Wanderley Nogueira respondeu: ''100%!''. Aaaa, Wanderley… você não podia ter feito isso comigo! Eu acreditei em você. Como era boa, a Jovem Pan.

Quando acabou a partida, meu irmão me levou para casa e falou. ''Domingo, vamos a Porto Alegre''. Mas domingo eu tinha vestibular da PUC. Me lembro de ter chegado para o meu pai no dia seguinte, ele estava na sala. Eu expliquei que haveria a prova domingo, mas queria saber o que ele achava de eu ir a Porto Alegre para a final e perder a prova…

''PUC?? Que PUC o quê, rapaz… domingo é final de campeonato, porra! Depois a gente vê esse negócio de faculdade.''

E chegamos ao 15 de dezembro de 1996. Vinte anos.

Vinte anos.

Meu irmão me pegou em casa com um Karmann Ghia vermelho que eu não sei se ele ainda tem. O avião sairia de Cumbica, não tinha Waze, estava um trânsito de lascar. Ele dirigiu como um alucinado, subiu em calçada, fez o diabo. Chegamos em Cumbica e o saguão do aeroporto estava abarrotado de torcedores e bandeiras. Era a coisa mais linda que já tinha visto. Não era um avião partindo para Porto Alegre. Eram muitos!

No avião, um rapaz veio cumprimentar meu irmão e se apresentou. ''Oi Flavio, meu nome é Eduardo Affonso, sou repórter da rádio Bandeirantes''. Edu, Edu, grande Edu. Ele também estava indo para o jogo de sua vida. Os dois trabalhariam juntos muitos anos depois na falecida rádio Eldorado/ESPN.

Quando chegamos em Porto Alegre, os taxistas fizeram carreata atrás dos nossos ônibus. Fiquei com a impressão de que todos os taxistas da cidade eram torcedores do Inter. Fomos a uma churrascaria. Não comi muito, estava nervoso. Mas foi divertidíssimo. Era o melhor dia da minha vida. Um sonho. Nunca havia tido nada igual.

Não eram tempos de celular e smartphone. Eu não tenho uma foto sequer disso tudo ou do jogo. Nada. Zero. Eu não tenho nem aquela camisa da Lusa, com o patrocínio dos Armarinhos Fernando.

Já no Olímpico, as coisas começaram a mudar. Um homem negro entrou na área da torcida da Lusa com a camisa do Inter. Do outro lado da grade, a poucos metros dele e de mim, uma mulher, loira, branca, com um filho de uns 7 ou 8 anos ao lado dela, imitava um macaco e gritava ''macaco, macaco'', fazendo aquele tradicional som de chimpanzé. Eu nunca tinha visto aquilo. Me deu vontade de vomitar. Me pergunto o que virou aquele garoto. Vi também uma bandeira azul clara com o símbolo da Luftwaffe, a aviação nazista de Hitler. Não quero aqui generalizar ou rotular a torcida do Grêmio. Mas foram coisas que me marcaram.

Vi o gol de Paulo Nunes logo no começo, o Olímpico urrava. Meu pai fala até hoje que estava impedido, mas nunca houve uma tomada lateral para vermos. Eu acho que não estava. Eram escanteios e mais escanteios.

Mas o jogo acalmou no segundo tempo. Nada acontecia. Eu só fui ver de novo aquela partida cinco anos depois, quando fazia meu TCC, o trabalho de conclusão de curso para me formar na época. Foi uma espécie de documentário em vídeo que, mais ou menos, previa tudo o que está acontecendo agora com a Portuguesa. Na banca do meu TCC, Paulo Calçade e Helvídio Mattos, dois monstros com quem eu teria o prazer de trabalhar anos depois, na ESPN.

Ao rever aquele jogo, chorando, logicamente, foi possível perceber como, à parte os vários escanteios no primeiro tempo, o Grêmio não jogou nada. A Portuguesa teve dois contra ataques claríssimos no segundo tempo, de dois contra um, e Rodrigo Fabri preferiu tentar o drible nos dois lances, com Alex Alves livre a poucos metros de distância. O segundo gol nasce em um chutão desesperado de Carlos Miguel para a área.

A Lusa jogou melhor em Porto Alegre do que em São Paulo. Mas na hora, no estádio, você não percebe nada disso. Sonho ou pesadelo? Sonho ou pesadelo? Olhei no meu relógio e o cronômetro marcava 39 minutos. Olhei para frente, a bola estava passando rente ao corpo de Capitão e estufando a rede de Clemer. Eu estava atrás do gol. Eu acho que já sonhei com Clemer espalmando aquela bola. Com Capitão dando um passo para o lado. Com Alex Alves bloqueando o lançamento despretensioso de Carlos Miguel. Com Aílton chutando a bola ali onde estava nossa brava torcida, recheada também de atleticanos e cruzeirenses, vítimas da Lusa no mata-mata, mas que tinham abraçado o clube quando torciam pela Lusa contra o rival.

Eu sentei e chorei. Chorei, chorei, chorei, chorei, chorei. E, claro, agora choro enquanto escrevo.

Nunca seremos?

Meu irmão resistiu bravamente naqueles minutos finais, que eu acabei nem vendo. Uma meia hora depois do jogo, sentou em uma cadeira do Olímpico e chorou. Chorou, chorou, chorou, chorou.

Uma hora depois do jogo, estádio vazio, começaram a voar garrafas do lado de fora do Olímpico para dentro, onde estávamos. O ser humano deu errado.

A imagem que tenho é de muitos velhinhos sentados, encostados nas colunas de concreto do estádio, desolados. E eu pensava. Eles nunca mais verão a Lusa em uma final. Àquela altura, tinha dó deles, não de mim. Vinte anos. Daqui a muito pouco, o velhinho serei eu.

Um dia, em Portugal, acho, eu falei para Felipão. A única coisa que você não podia ter feito na vida era ter ganhado aquela final contra a Lusa. Ele bufou. ''Que é que eu vou fazer, tchê?''

A volta para casa foi terrível. Ao chegar em casa, minha mãe, sensibilidade zero, disse: ''essa Lusa não tem jeito mesmo, não vai ganhar nunca''. Fiquei muito bravo com ela. Devo ter ficado uns três dias de luto, comendo mal, dormindo mal. O futebol não deveria fazer essas coisas com a gente. Mas com 17 anos… saindo da escola, onde havia sido tripudiado a vida inteira pelo time por quem torcia…

Me lembro de ter sido um dos oradores da turma na formatura do colegial. De ter pego uma enorme bandeira da Portuguesa e, ao final da cerimônia, subido com ela no palco. Alguns dos presentes ali aplaudiram.

Vinte anos depois, Zé Roberto finalmente ganhou seu Brasileiro, com a camisa do Palmeiras. Vinte anos depois, o Grêmio finalmente voltou a disputar uma decisão em casa e ser campeão diante de sua torcida.

Me lembro de tudo. Não precisei pesquisar nada para escrever este enorme texto. Me lembro das faces, das expressões, das frases, das cores. Me lembro do que era torcer apaixonadamente, coisa que não faço mais faz tempo. Me lembro da maior tristeza que já tive na vida – graças a Deus, nunca passei por qualquer tragédia familiar. Me lembro de achar, pouco depois, que aquela tinha sido a única e última chance. Lamento estar com a razão.

15 de dezembro de 1996. O dia da cicatriz mais profunda, entre as tantas cicatrizes dos torcedores da Portuguesa.

O dia que poderia ter mudado tanta coisa.

O dia do ''nunca seremos''.

lusa

Tags : Portuguesa


Gol sofrido no fim mais ajuda que atrapalha o Real Madrid
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juliogomes

O Real Madrid levou um gol de Reus aos 43 do segundo tempo, empatou por 2 a 2 com o Borussia Dortmund e acabou ficando em segundo no grupo F da Champions League.

Má notícia? Na minha visão, longe disso. O Real atinge 34 jogos de invencibilidade com Zidane no comando, igualando uma marca história estabelecida em 1988-89, e deve superar o recorde no fim de semana, em casa, contra o La Coruña.

De quebra, ao ser segundo, diminui as chances de enfrentar uma ''pedreira'' nas oitavas de final. É verdade que decidirá fora de casa a vaga nas quartas, mas isso é muito relativo. Se fizer um bom resultado na ida, no Bernabéu, decidir fora nem é mau negócio.

Sendo segundo colocado no grupo, o Real Madrid será sorteado contra um dos primeiros colocados – não pode, no entanto, enfrentar times do mesmo país ou do mesmo grupo em que jogou a fase inicial.

Portanto, o Real enfrentará nas oitavas um destes cinco times: Arsenal, Juventus, Napoli, Monaco ou Leicester. Se colocarmos Arsenal e Juve na lista de favoritos ao título, o Real tem 40% de chances de pegar uma pedreira, contra 60% de chances de pegar um rival mais fraco. Não digo que Napoli, Monaco e Leicester sejam galinhas mortas, mas é difícil imaginar um destes três eliminando o Real de Zidane na Champions.

Se não tivesse levado o gol do Dortmund no fim, o Real enfrentaria um destes seis: Bayern de Munique, Manchester City, PSG, Benfica, Porto ou Bayer Leverkusen. Ou seja, 50% de chances de enfrentar um favorito ao título. E Bayern, City e PSG, creio, são mais fortes que Arsenal e Juventus.

Não acredito que levar um gol no fim tenha sido estratégia – não foi o que o jogo nos contou, e o Real colocou os titulares em campo. Apenas que há males que vêm para bem.

Como não houve nenhuma grande zebra na fase de grupos, não há nenhuma ''baba'' nas oitavas. Os segundos colocados como Porto, Benfica, Sevilla ou Napoli são clubes que, se não têm o mesmo orçamento dos gigantes e não devem brigar por título, têm camisa, bons jogadores e podem fazer alguma graça no mata-mata contra algum desavisado.

O Barcelona pode enfrentar Bayern, PSG, Porto, Benfica ou Bayer Leverkusen.

sorteio_champions

Vamos agora aos classificados para as oitavas na Champions e quais os possíveis adversários que podem sair do sorteio de segunda-feira:

Grupo A
Arsenal – Benfica, Bayern de Munique, Bayer Leverkusen, Real Madrid, Porto, Sevilla
PSG – Napoli, Barcelona, Atlético de Madri, Borussia Dortmund, Leicester, Juventus
*Ludogorets na Liga Europa

Grupo B
Napoli – PSG, Manchester City, Bayern de Munique, Bayer Leverkusen, Real Madrid, Porto, Sevilla
Benfica – Arsenal, Barcelona, Atlético de Madri, Monaco, Borussia Dortmund, Leicester, Juventus
*Besiktas na Liga Europa

Grupo C
Barcelona – PSG, Benfica, Bayern de Munique, Bayer Leverkusen, Porto
Manchester City – Napoli, Atlético de Madri, Monaco, Borussia Dortmund, Juventus
*Borussia Moenchengladbach na Liga Europa

Grupo D
Atlético de Madri – PSG, Benfica, Manchester City, Bayer Leverkusen, Porto
Bayern de Munique – Arsenal, Napoli, Barcelona, Monaco, Leicester, Juventus
*Rostov na Liga Europa

Grupo E
Monaco – Benfica, Manchester City, Bayern de Munique, Real Madrid, Porto, Sevilla
Bayer Leverkusen – Arsenal, Napoli, Barcelona, Atlético de Madri, Leicester, Juventus
*Tottenham na Liga Europa

Grupo F
Borussia Dortmund – PSG, Benfica, Manchester City, Porto, Sevilla
Real Madrid – Arsenal, Napoli, Monaco, Leicester, Juventus
*Legia Varsóvia na Liga Europa

Grupo G
Leicester – PSG, Benfica, Bayern de Munique, Bayer Leverkusen, Real Madrid, Sevilla
Porto – Arsenal, Napoli, Barcelona, Atlético de Madri, Monaco, Borussia Dortmund, Juventus
*Copenhagen na Liga Europa

Grupo H
Juventus – PSG, Benfica, Manchester City, Bayern de Munique, Bayer Leverkusen, Real Madrid, Porto
Sevilla – Arsenal, Napoli, Monaco, Borussia Dortmund, Leicester
*Lyon na Liga Europa


Última rodada da Champions: pouco em jogo e Real atrás de marca histórica
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juliogomes

A Uefa Champions League chega à última rodada da fase de grupos com poucos jogos realmente importantes. Nenhum dos favoritos ao título está contra a parede – pelo contrário, estão todos já classificados para as oitavas de final antecipadamente.

Barcelona e Atlético de Madri (um time finalista de duas das últimas três edições precisa entrar na lista de favoritos) garantiram a primeira posição de seus grupos. Paris Saint-Germain e Juventus precisam apenas de vitórias que devem acontecer sem problemas, sobre Ludogorets (Bulgária) e Dínamo de Zagreb (Croácia), respectivamente.

O Real Madrid é quem ainda depende de uma vitória sobre o bom time do Borussia Dortmund para se garantir em primeiro.

O Manchester City ficou em segundo no grupo do Barça. O Bayern de Munique ficou em segundo no grupo do Atlético. E, se tudo ocorrer normalmente, o Arsenal será o segundo do grupo do PSG.

Para o Real Madrid, portanto, ser primeiro significa uma chance grande de pegar um destes três logo nas oitavas. Já se ficar em segundo, o Real pode pegar Juve ou PSG, é verdade, mas pode também enfrentar Monaco ou Leicester ou o primeiro do grupo de Benfica e Napoli.

Além de decidir o mata-mata das oitavas em casa, ser primeiro muitas vezes é a garantia de fugir de uma pedreira logo na primeira fase eliminatória. Desta vez, não é o caso. Isso se deu pela formatação dos grupos, muitos com duas forças.

Com isso, não quero dizer que o Real poupará jogadores ou atuará com o freio de mão puxado. A história madridista não permite isso. Por falar em história, o Real está a um jogo de chegar a 34 partidas de invencibilidade, igualando a maior marca já estabelecida pelo clube, em 1988-89 (geração de Butragueño e companhia, a ''Quinta del Buitre'').

Se não perder na Champions, o Real Madrid terá outro jogo no Santiago Bernabéu, no fim de semana, contra o La Coruña, para chegar a 35 jogos invicto e quebrar o recorde. Este é o assunto principal para a imprensa de Madri nos últimos dias, mais do que a chance de ser primeiro ou segundo no grupo.

Depois do empate na bacia das almas em Barcelona, o Real vive em um mar de rosas. Recupera machucados e Zidane pode ser, em menos de um ano como técnico, campeão europeu e dono de uma marca histórica como esta. Não é qualquer coisa.

Veja o que será jogado em cada grupo da rodada final. Os grupo A, B, C e D têm jogos na terça-feira. Os outros, na quarta.

Grupo A

PSG e Arsenal empatam em pontos, mas o PSG tem a vantagem no critério de desempate (nos confrontos diretos entre eles, fez mais gols fora). Por isso, basta uma vitória sobre os búlgaros. O Arsenal joga na Basileia, e o Basel deve conseguir, com um empate, vaga na Europa League.

Grupo B

Este está embolado. Benfica e Napoli têm 8 pontos, o Besiktas tem 7 e o Dynamo Kiev está eliminado. O Besiktas precisa vencer em Kiev para se classificar. Neste caso, Benfica e Napoli jogam pela vaga em Lisboa – o empate é do Napoli. Quem ganhar, logicamente, fica em primeiro. Empate classifica os dois caso o Besiktas não ganhe. Caso perca ou empate, o Benfica ainda entra se o Besiktas não ganhar. Já o Napoli, se perder, só entra se os turcos também perderem.

Grupo C

Tudo já definido. Barcelona em primeiro, Manchester City em segundo e Borussia Moenchengladbach em terceiro (Europa League). Barça e City (contra o Celtic), em casa, devem ganhar – e também poupar jogadores.

Grupo D

Bayern de Munique x Atlético de Madri, a semifinal do ano passado, tinha tudo para ser um jogaço – só que ele não decide absolutamente nada. O Atlético, mal na Liga espanhola, já garantiu o primeiro lugar do grupo porque ganhou o duelo entre eles em Madri e viu o Bayern tropeçar contra o Rostov, na Rússia. O Bayern de Ancelotti não é firme como o de Guardiola, ainda que o potencial esteja lá. Ganhar é importante para elevar o espírito do clube, dar confiança. PSV Eindhoven e Rostov se enfrentam na Holanda, e os russos jogam pelo empate para ir à Europa League.

Grupo E

Bayer Leverkusen e Monaco se enfrentam na Alemanha, mas já sabemos que o Bayer será segundo e o bom time de Mônaco, o primeiro. O Tottenham, uma decepção desta fase de grupos, recebe o CSKA Moscou e joga pelo empate para pelo menos ir à Europa League – não que clubes ingleses liguem muito para isso.

Grupo F

Real Madrid e Borussia Dortmund, classificados, decidem o primeiro lugar no Bernabéu – o empate é dos alemães. O Sporting de Lisboa precisa de um empate contra o Legia, em Varsóvia, para jogar a Europa League.

Grupo G

O Leicester, mal na Premier, já garantiu o primeiro lugar. O Porto recebe o Leicester precisando ganhar para entrar em segundo. Se não vencer, o Porto será eliminado caso o Copenhagen ganhe do Brugge (que perdeu todas), na Bélgica.

Grupo H

A Juventus depende só de uma vitória contra o eliminado Dínamo de Zagreb para ser primeira. Lyon e Sevilla jogam na França, e o Lyon precisa vencer por dois gols para avançar. Para o Sevilla, voltar para a Europa League não tem muita graça. Seria uma grande decepção ser eliminado pelo Lyon. Se passar, no entanto, é um time que ninguém vai querer enfrentar nas oitavas.