Blog do Júlio Gomes

Iniesta e Modric, gênios do clássico e do futebol total
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Quem esperava ver Messi e Cristiano Ronaldo no superclássico deste sábado, em Barcelona, viu mesmo Andrés Iniesta e Luka Modric. Dois jogadores exemplares, símbolos do futebol total que se joga hoje em dia nos quatro cantos do mundo.

Não, não quero aqui tirar os méritos de Messi, Suárez e Neymar, três gênios da bola. Apenas colocar um asterisco. Como funciona melhor o badalado trio de ataque do Barcelona quando Iniesta está em campo!

Iniesta não é um jogador subestimado, eu diria. Sim, ele é valorizado. Mas talvez mais por aquele gol de Johanesburgo, da final da Copa de 2010, do que pela bola que joga há mais de dez anos, semana sim, semana também.

Uma lesão no joelho deixou Iniesta fora dos gramados desde 22 de outubro. No período, coincidência ou não, o Barcelona viveu seu pior momento em dois anos e meio de Luís Enrique. Tropeços em casa na Liga, derrota na Champions, seis pontos abaixo do líder na tabela. Em 12 anos, desde o início da ''era Ronaldinho'' e a subsequente fase de títulos, a maior da história do Barça, nunca o clube catalão chegou para um clássico contra o Real Madrid tão contra a parede.

Se perdesse hoje, adeus Liga. Em dezembro?? Sim, em dezembro. Nove pontos abaixo… esqueçam. Até mesmo o empate é horroroso para o Barça, principalmente com um gol sofrido aos 44min do segundo tempo. Gol de Sergio Ramos que fez justiça ao que foi o jogo todo, o 1 a 1 ficou de bom tamanho no Camp Nou.

E o fato é que o primeiro tempo e o início do segundo refletiram exatamente o momento dos clubes.

O Real Madrid foi bastante melhor que o Barcelona, tinha as ideias claras em campo, sabia melhor o que fazer para seu plano de jogo triunfar. O Real marcou atrás, com linhas bem juntas e sem deixar o trio de ataque do Barça receber bolas com espaço ou sem ajudas de marcação.

Aos 2min de jogo, a arbitragem prejudicou o Real ao não marcar pênalti tão claro como bobo de Mascherano em Lucas Vázquez. O erro não abalou o líder. Modric só não fez chover no meio de campo. Futebol total, essa talvez seja a melhor definição. Box to box. Cortando as linhas de passes de Messi, infernizando o argentino sem dar um carrinho sequer, se associando com todos os setores, participando de tudo. Modric é o Iniesta do Real, o motorzinho. Não tão absurdamente genial com a bola nos pés, mas incrivelmente eficiente de área a área, com ou sem a posse.

O domínio não foi traduzido em chances claríssimas de gol, mas o Real teve finalizações perigosas com Cristiano Ronaldo e Varane, de cabeça. O Barça nada fazia. Aos 40min, um cruzamento de Alba foi cortado com o braço por Carvajal. Outro pênalti não marcado. Claro que a história do jogo teria sido totalmente outra se o Real abrisse o placar aos 2min de jogo, mas ficou uma sensação de ''elas por elas'', com um pênalti não marcado para cada lado.

No segundo tempo, a história era a mesma. Até que saiu o gol. Como sempre, o gol muda tudo. Não foi uma grande partida de Neymar, mas ele sofre a falta e cruza para Suárez marcar de cabeça. Na construção de jogo, nada funcionava para o Barça. Na bola parada, tudo se resolveu.

Logo depois, entrou Iniesta. E aí virou um desfile em campo de um jogador que tem tudo. Classe, inteligência, velocidade, visão, noção de espaço.

Tivemos então um gol perdido por Neymar e outro por Messi (após passe genial de Iniesta, tipo tacada de bilhar, quebrando todas as linhas de marcação possíveis). Messi, maior artilheiro da história dos clássicos, está há seis jogos sem marcar contra o Real. Devia ter feito o 2 a 0, o empate vai para a conta dele.

Ficou aquela sensação de que o Barça havia perdido a chance de matar o jogo. E foi exatamente isso. Zidane colocou Casemiro em campo, ausente da Liga por dois meses. Entrou um volante por um meia. Em um time que estava perdendo. A substituição foi perfeita. Casemiro conseguiu dar mais equilíbrio ao meio de campo, e Modric se aproximou mais do ataque.

Nos dez minutos finais, o Real foi para cima do Barcelona e chegou ao empate também na bola parada. Cruzamento perfeito de Modric, quem mais seria? Com Sergio Ramos em campo, amigos, é melhor nunca fazer uma falta perto da área nos minutos finais. Ele está sempre lá para ser herói. O Atlético de Madri sabe bem disso.

Para o Barcelona, fica o gosto da derrota. Em vez de colocar fogo na Liga, segue seis pontos atrás com quatro empates em seus últimos cinco jogos. Por outro lado, a melhor notícia é a volta deste gênio chamado Iniesta. Um sopro de esperança.

Paremos de falar do trio MSN. É justo começar a citar sempre o quarteto MSNI.

Para o Real Madrid, é um empate com gosto de vitória e título. Placar justo, dada a atuação do primeiro tempo e o pênalti não marcado no início. Recuperando machucados e com esta vantagem, o Real de Zidane, invicto há 33 partidas, está cada vez mais forte. A maior invencibilidade da história do Real? 34 jogos. Tem algo grande acontecendo no Bernabéu.


Clássico com Barça tão atrás do Real? É preciso voltar 12 anos no tempo
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Para o Barcelona, o clássico deste sábado contra o Real Madrid é uma espécie de final antecipada na Liga espanhola. Ou ganha o jogo ou o título começa a virar missão quase impossível.

Sim, todo clássico Barça-Madrid é encarado como uma final. Sim, ainda estamos em dezembro. Mas o fato é que os seis pontos que o Real tem de vantagem na tabela geram este ambiente de ''ou ganha ou adiós, Barça''. E um cenário como este é raridade no superclássico, pelo menos desde 2004, início dos melhores anos da história do clube catalão.

Com 13 rodadas no Campeonato Espanhol, o Real Madrid soma 33 pontos, contra 27 de Barça e Sevilla, 24 do Atlético de Madri. Se vencer no Camp Nou, abrirá nove pontos para o maior rival e é importante lembrar que  jogará, logicamente, a partida do segundo turno em Madri. Nem o empate serve para o Barça. É vencer ou vencer para acalmar as coisas e se recolocar na briga pelo campeonato.

É preciso voltar 12 anos no tempo para encontrarmos um Barcelona em situação (delicada) parecida antes de um clássico.

Em abril de 2004, no fim do primeiro ano da ''era Ronaldinho'', o Barça ganhou no Santiago Bernabéu por 2 a 1, com um gol de Xavi no finalzinho. Faltavam cinco rodadas para o fim do campeonato, e o Barça estava sete pontos atrás dos líderes Real e Valencia. Se não vencesse, estaria fora da briga pelo título. Venceu e cortou para quatro a desvantagem na tabela. O Barça acabaria passando o Real nas rodadas finais, mas o título ficaria com o Valencia.

De todas as maneiras, o Barça fizera um primeiro turno tenebroso naquele campeonato e ficar sem a conquista não havia sido exatamente um fracasso. Não era um Barça ''contra a parede'', como neste sábado. Era um time em construção, que seria bicampeão nos anos seguintes e voltaria a brilhar na Europa.

Desde aquele jogo, em 2004, foram realizados 24 superclássicos válidos pela Liga espanhola. Em 16 ocasiões (dois terços dos jogos), o Barça chegou à partida com mais pontos no campeonato do que o Real Madrid.

A maior vantagem que o Real detinha nestes anos todos era a de 2008. Já campeão, o Real tinha 14 pontos de diferença – o jogo (que acabou 4 a 1 para o time de Madri) não tinha importância para o campeonato e ficou marcado pelo ''pasillo'', o corredor feito pelos jogadores do Barça para aplaudir o time campeão nacional, uma tradição na Espanha. Portanto, não era um Barça pressionado pela vitória, era um Barça já derrotado e humilhado no campeonato. Humilhação que gerou a aposta em um certo Guardiola e a dispensa de Ronaldinho. Começava de vez a ''era Messi''.

Em outras duas ocasiões nestes anos todos, o Barça chegou ao clássico contra a parede. Mas a desvantagem era de quatro pontos, não de seis, como ocorre no momento.

Em março de 2014, o Barça chegou ao Bernabéu quatro pontos atrás e venceu por 4 a 3, mantendo-se na briga. O técnico era o argentino Tata Martino. Depois daquela rodada, o Barça foi a 69 pontos, um a menos que Real e Atlético – que acabaria sendo campeão naquela temporada.

Já dois anos antes, em abril de 2012, o Barça recebeu o rival no Camp Nou precisando ganhar, com quatro pontos a menos e cinco rodadas para o fim. Perdeu por 2 a 1, no jogo em que Cristiano Ronaldo marcou e pediu ''calma'' para o estádio, em um gesto no estilo ''baixem a bolinha''. O Real abriu sete pontos e ganhou, logo depois, seu único título da Liga com Mourinho. Por sinal, o único título nacional do gigante de Madri em oito temporadas.

O fato é que desde a era Ronaldinho, passando depois por Messi-Xavi-Iniesta, Guardiola e, agora, com o trio Messi-Suárez-Neymar, o Barcelona muito mais ganhou do que perdeu contra o Real Madrid.

Desde 2004, foram muitos clássicos com o Real contra a parede. Poucos, como já vimos, com o Barça desesperado pelo resultado. Ainda mais tão cedo na temporada.

Nos últimos dez jogos no Camp Nou pelo Campeonato Espanhol, incluindo a temporada passada, o Barça ganhou cinco, empatou dois e perdeu três. Um desempenho ruim, o estádio não tem sido mais uma fortaleza. Somando todas as competições na atual temporada, são apenas duas vitórias nos últimos seis jogos, uma minicrise.

Pelo menos volta ao time Iniesta e o sistema defensivo se recompõe com Piqué, Umtiti e Alba.

Já o Real Madrid joga sem Casemiro, Kroos e Bale, desfalques importantes para o time de Zidane. Apesar de tantas baixas desde o início da temporada, o clube branco ganhou 10 de seus últimos 11 jogos, marcando 43 gols (quase 4 por jogo) no período. A sangria defensiva foi estancada, com três gols sofridos nos últimos cinco jogos. Casemiro, após dois meses, voltou no meio de semana pela Copa do Rei e pode até ser uma novidade neste sábado.

Em sites que orientam apostadores e analisam as probabilidades dos esportes mundo afora, como o Oddshark, o Barcelona é considerado favorito (1,85 para 1). O Real Madrid (4 para 1), no entanto, está invicto na Liga e tem jogado melhor no campeonato local do que na Champions. Façam suas apostas.

Curiosidades do superclássico:

– Último empate pela Liga foi em 7/10/12. Desde então, quatro vitórias do Barça e três do Real.

– Nos últimos 10 anos de campeonato (20 jogos), foram apenas três empates. Somando todas as competições, foram 8 empates em 38 jogos (período de 13 anos). Empatam pouco!

– Também nestes últimos 13 anos, neste mesmo período, o mandante ganhou 14 clássicos, o visitante ganhou outros 14. Fator casa??

– Nos últimos 20 jogos entre eles, só um destes jogos teve um dos times sem marcar gols. O último 0 a 0 foi em novembro de 2002, há 14 anos. Zidane ainda jogava.

 

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Palmeiras, Argentina, 2016: o ano das conquistas “impossíveis”
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Muitos gostaram de 2016, algumas milhões de pessoas. Outros tantos milhões detestaram e não veem a hora de o ano acabar. O que é quase unânime, no entanto, é que 2016 foi o ano das conquistas que não achávamos que veríamos na vida.

No futebol europeu, tivemos a história mais surreal desde a lei Bosman, a União Europeia e o futebol globalizado: Leicester campeão inglês. No meio do futebol milionário dos elencos estrelados, o pequenino Leicester chegou lá.

O Atlético de Madri bateu na trave na Champions League, perdeu nos pênaltis para o Real Madrid a grande decisão.

Entre as seleções, em uma Eurocopa com a campeã do mundo Alemanha, a anfitriã França e as camisas pesadas da Itália e da Espanha, o título acabou com Portugal. O primeiro título da história da seleção portuguesa e ainda por cima sem Cristiano Ronaldo durante quase toda a partida final.

O título chileno na Copa América só não foi daqueles ''impossíveis'' porque repetiu o que ocorrera em 2015. Mas o futebol sul-americano teve a seleção brasileira conquistando a medalha de ouro olímpica pela primeira vez na história, em pleno Maracanã. O título que faltava.

A Copa Libertadores da América teve uma final sem um brasileiro ou um argentino pela primeira vez em 25 anos. O Atlético Nacional deu o primeiro título e um clube da Colômbia desde 2004, batendo o incrível Independiente del Valle, do Equador, na decisão. O Atlético Nacional de Medellín ainda pode ganhar a Sul-Americana e ser o primeiro clube a fazer o doblete no continente.

Se não for campeão, terá sido a Chapecoense, um título não menos ''impossível''.

No futebol brasileiro, o domingo consagra o Palmeiras, campeão brasileiro pela primeira vez desde 1994. Eram 22 anos de fila e, com rebaixamentos no caminho, eliminações humilhantes para times minúsculos e até goleadas para clubes do naipe do Mirassol, parecia que o Palmeiras não voltaria a ser o gigante que é.

Mas voltou.

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Além do Palmeiras, o domingo nos reservou também o título da Argentina na Copa Davis. Inédito. Na Croácia, fora de casa, com 2 jogos a 1 contra e 2 sets a 0 para o croata Cilic contra o argentino Del Potro no jogo 4. Del Potro virou seu jogo para 3 a 2, Delbonis ganhou o quinto ponto e o milagre foi consumado diante dos olhos de Maradona e milhares de argentinos em plena Croácia.

Não foi só no tênis, entre os outros esportes, que milagres aconteceram.

Na NBA, o Cleveland Cavaliers, de Lebron James, foi campeão com uma virada inacreditável na série final contra o Golden State Warriors. Cleveland era a cidade americana havia mais tempo sem um título das grandes ligas do país: 52 anos. Lebron fez o impossível para sua cidade.

No beisebol, o maior tabu da história dos esportes caiu. O Chicago Cubs, após 108 anos, rebateu para longe todas as maldições escritas ao longo de mais de um século. Quantas gerações nasceram e morreram sem ver os Cubs campeões?

Felizes ou tristes, os fãs de esportes, dos mais variados esportes, não podem negar: 2016 foi o ano mais surreal de todos até hoje.


Rosberg e o título de quem não topou ser apenas um escudeiro
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Quando, de repente, a Mercedes se viu como o melhor carro da F-1 (disparado), todos pensaram que começava ali a ''era Lewis Hamilton''. Um pilotaço, já campeão em 2008, e com um companheiro de equipe com toda a pinta de ser o futuro-escudeiro-número-dois-que-não-incomodaria.

No primeiro ano, Hamilton ganhou 11 corridas contra 5 de Rosberg. Levou o campeonato com 67 pontos de vantagem. No segundo ano, domínio parecido. Hamilton ganhou 10 corridas contra 6 de Rosberg – sendo que o alemão venceu as últimas três, com o campeonato já decidido. A vantagem foi de 59 pontos.

Mas Rosberg não aceitou. Se recusou a aceitar. No fim do ano passado, com as três vitórias acima citadas para encerrar o campeonato, já se preparava para mostrar que não estava disposto a se resignar com algumas vitórias, algumas disputas, alguns vices.

No Brasil, vimos os tais ''escudeiros'' com olhos diferentes. Gerhard Berger era louvado, pois não enchia a paciência de Ayrton Senna. Mas Rubens Barrichello e Felipe Massa foram desprezados por não terem acompanhado (e muitas vezes terem trabalhado para) Michael Schumacher e Fernando Alonso na Ferrari. A história teve também Riccardo Patrese, o número dois de Nigel Mansell. Mark Webber, o número dois de Sebastian Vettel.

Rosberg se recusou a ser como esses caras. Caras que, não tenho dúvidas, nunca quiseram ser apenas escudeiros. Nunca quiseram ser o segundo melhor. Mas não conseguiram mudar essa história e, em algum momento, sucumbiram à situação.

Rosberg não sucumbiu.

ABU DHABI, UNITED ARAB EMIRATES - NOVEMBER 27: Nico Rosberg of Germany and Mercedes GP celebrates after finishing second and winning the World Drivers Championship during the Abu Dhabi Formula One Grand Prix at Yas Marina Circuit on November 27, 2016 in Abu Dhabi, United Arab Emirates. (Photo by Clive Mason/Getty Images)

Começou o ano ganhando quatro corridas seguidas. E depois, quando ganhou apenas uma de oito, vendo Hamilton ganhar seis corridas e tomar a liderança do Mundial, tinha tudo para desmoronar. Resignar-se. Mas não. Simplesmente não.

Rosberg passou as férias do verão europeu ouvindo que ''nunca seria''. Mas mostrou uma força psicológica que poucos tiveram na história de um esporte como a F-1. Ganhou quatro das cinco corridas pós-férias, retomou a liderança e se colocou em posição de apenas administrar a liderança nas quatro corridas finais.

Nos Emirados Árabes Unidos, na última corrida, viu Hamilton adotar uma honesta estratégia de ser lento. Deixar as Ferraris e Red Bulls terem a chance de tirar Rosberg do pódio. Não jogou o carro para cima de ninguém, não freou forçando acidente, não colocou a vida de ninguém em risco. A Mercedes não gostou, Rosberg não gostou, mas não vejo como Hamilton possa ser criticado. Perdeu de pé. E ainda pode se gabar de ter vencido mais corridas no ano.

Rosberg teve muita coragem de fazer uma ultrapassagem de alto risco contra o jovem e arrojado Max Verstappen. Segurou Vettel nas voltas finais. Fez uma corridaça, em função da estratégia de Hamilton.

E conquistou o título. Título que também conquistaram outros pilotos que não ficarão para a história com um dos dez melhores de todos os tempos, gente como Jenson Button, Damon Hill, Jacques Villeneuve. Título ''solto'' que poderia ter caído para o lado de Massa ou Barrichello, mas não caiu. Paciência.

Não sei se Rosberg se aposentará ''somente'' com esse título, pois a F-1 deve mudar no ano que vem e o domínio da Mercedes não será tão brutal como nestas três temporadas. Mas o fato é que, ao contrário de outros, ele se recusou a ser um número dois. E conseguiu! Palmas para Rosberguinho.

Tags : Fórmula1


Tirar final sul-americana de Chapecó é um crime
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Já aconteceu várias vezes. Seguirá acontecendo. E seguirá me indignando. Depois da linda e heróica campanha, a Chapecoense será obrigada a jogar fora de seu estádio, de sua cidade, de seu Estado, a grande final da Copa Sul-Americana.

Isso porque a Arena Condá não tem a capacidade mínima, para 40 mil torcedores. Nenhum estádio em Santa Catarina tem.

Nunca entendi a exigência da Conmebol, que já fez, por exemplo, o Atlético Paranaense ter de mandar a final da Libertadores contra o São Paulo no Beira-Rio. Oras, ou um estádio serve para receber a competição ou não serve. Por que somente na final?

O que importa é um estádio ter conforto, segurança e condições de trabalho.

Se o mandante de uma final tem estádio pequeno, o azar é dele. Deixará de faturar.

Mas onde está a justiça esportiva? E, neste caso específico, a justiça com toda uma cidade? Chapecó respira os anos inesquecíveis da Chapecoense e, na hora do filet mignon, verá tudo pela TV.

O que é melhor para o espetáculo? Um lindo ambiente com 15 mil pessoas nas arquibancadas ou um estádio grande e vazio, sem graça, sem alma?

É de uma falta de sensibilidade atroz.

Muitos criticam os clubes por ''assinarem o regulamento''. O que teria de fazer a Chapecoense? ''Olha, Conmebol, não vou jogar essa Sul-Americana não, por causa desse item do regulamento aqui sobre as finais, viu''. A Conmebol daria risada, do alto de sua arrogância.

Clubes são reféns de uma instituição podre.

É por essas e outras que nunca seremos.

E só nos resta torcer para que a Chapecoense seja. Mesmo criminosamente levada para longe de sua casa.


Bayern pós-Guardiola sofre; Lucas brilha no PSG e bate na porta da seleção
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Tem gente que cai nesse papinho que nos contam invejosos. ''Guardiola é marketing''. ''Guardiola só ganhou títulos porque tinha timaços nas mãos''. ''Queria ver Guardiola na Série C, no Estadual''. Blá, blá, blá, blá.

Guardiola é um técnico que extrapola o simplismo dos resultados e isso incomoda o status quo. ''Ganhou, é gênio. Perdeu, é uma besta''. O simplismo que dita análises e ações em nossa sociedade. O fins justificam os meios de toda nossa vida.

O que me faz (e a muita gente) admirar tanto o trabalho de Guardiola não é o simplismo do tamanho de sua sala de troféus. E, sim, a mensagem que ele manda e que pode ser extrapolada do futebol para a vida: os meios importam. É possível atingir objetivos, chegar lá, sem abrir mão de suas convicções. É importantíssimo fazer as coisas do modo como preferimos, como idealizamos.

É impossível não lembrar de Guardiola quando observamos a semana do Bayern de Munique.

No sábado, perde o clássico para o Borussia Dortmund por 1 a 0. Na quarta, perde do Rostov (!!!) na Rússia por 3 a 2, o que relega o clube à segunda posição no grupo D da Champions League.

Na Bundesliga, o Bayern soma 24 pontos em 11 jogos – ganhou sete, empatou três, perdeu uma. Está em segundo lugar. Na Champions, ganhou três e perdeu duas, está classificado, mas em segundo lugar, atrás do Atlético de Madri, e terá de jogar a partida de volta das oitavas de final fora de casa.

Na temporada 15/16, com Guardiola, o Bayern ganhou as dez primeiras na Bundesliga e só foi tropeçar (empatar) pela primeira vez na rodada 11. Era líder com 31 pontos.Em 14/15, nos 11 primeiros jogos foram oito vitórias e três empates, 27 pontos, 27 gols marcados. Em 13/14, nos 11 primeiros jogos foram nove vitórias e dois empates, 29 pontos. Guardiola foi campeão com 19 pontos de vantagem no primeiro ano, 10 no segundo e 10 no terceiro.

Na Champions League, nos três anos de Guardiola o Bayern ganhou seu grupo com facilidade, sempre com cinco vitórias e uma derrota.

O substituto de Guardiola no Bayern é um dos grandes técnicos da história do futebol europeu, Carlo Ancelotti. Um treinador com três Champions no currículo, incluindo a ''Décima'' do Real Madrid, quebrando jejum de 12 anos.

O início claudicante do Bayern na temporada, ainda assim com bons números, não fala mal de Ancelotti. Apenas serve para nos lembrar que os feitos de Guardiola no clube bávaro não seriam repetidos ''por qualquer um que estivesse ali'', como gostam de falar seus detratores.

Com Pep, o Bayern passou a jogar outro futebol, o futebol que Guardiola considera o mais atraente e eficiente para se chegar à vitória. Uns gostam, outros não gostam. É direto de todos. O que não não para discutir é que o fim não é o único objetivo. O jeito importa. E, do jeito que Pep idealizou, amassou seus adversários na Alemanha, nunca sendo ameaçado. Foi fortíssimo na Champions League e acabou caindo em três semifinais seguidas para times espanhóis.

Contra o Real (14) e o Barça (15), o Bayern de Guardiola foi destruído nos contra ataques. Contra o Atlético (16), o problema foi resolvido. Mas aí Thomas Muller perdeu aquele pênalti…

Guardiola não é perfeito. Ancelotti não é um lixo. Mas o elenco estrelado do Bayern, que está ainda melhor nesta temporada, parece encontrar dificuldades para se des-Guardiolizar e voltar ao ''normal''. Acabará se encontrando, sem dúvida. Deve ganhar a Bundesliga. E ainda acho um dos favoritíssimos na Champions League.

Mas o caminho será mais tortuoso. Como Guardiola, tudo foi mais fácil. E mais belo.

O que mais rola na Champions

O grupo do Bayern foi vencido pelo Atlético de Madri, com os 2 a 0 sobre o PSV. O Atlético já ficou para trás na Espanha, mas não se enganem. É um elenco forte, um timaço e com um técnico espetacular. O Atlético, vice em 14 e 16, é candidato novamente. Agora é torcer por um sorteio amigável nas oitavas

No grande jogo da rodada, Arsenal e PSG ficaram no 2 a 2. O gol de empate do PSG, no final, foi de Lucas Moura, que fez uma partida fantástica. Tite deve estar de olho, logo logo Lucas voltará à seleção. Está jogando demais.

Lucas, à priori, joga aberto no PSG. Mas, ao contrário dos tempos de Blanc, se movimenta, cai pelos dois lados, volta para armar, se associar com meio-campistas e municiar Cavani, bate faltas (acertou o travessão antes de fazer o gol de empate), ajuda na marcação. Tem muita concorrência para a seleção, com Philipe Coutinho também brilhando, por exemplo. Mas Lucas faz uma temporada consideravelmente superior às de William (Chelsea) e Douglas Costa (Bayern).

Foi um grande jogo de futebol, destes que só a Champions nos proporciona. Times que tratam bem a bola, buscam a vitória, não praticam antifutebol, não apelam. O PSG pós-Ibra e pós-Blanc parece um time mais solidário, que vai se acertando com Emery e será uma ameaça real a qualquer um no mata-mata. Será que supera a barreira das quartas?

Aos franceses, basta uma vitória por qualquer placar contra o fraco Ludogorets, em casa, para garantir o primeiro lugar do grupo. O Arsenal – novidade – será segundo.

Primeiro lugar que o Barcelona já garantiu com os 2 a 0 sobre o Celtic, na Escócia, com assinatura de Messi. O Manchester City, de Guardiola, empatou com o Borussia Moenchengladbach na Alemanha e está classificado, mas em segundo lugar.

Primeiros colocados já definidos matematicamente: Barcelona, Atlético de Madri, Monaco e Leicester. Serão primeiros também PSG e Juventus.

Segundos colocados já definidos: Manchester City, Bayern de Munique e Bayer Leverkusen. Será segundo também o Arsenal.

O que resta definir na última rodada:

– Real Madrid x Borussia Dortmund. Empate deixa os alemães na primeira posição, Real precisa vencer para não ser segundo.

– Porto precisa vencer em casa o classificado Leicester para entrar em segundo. Se tropeçar, pode perder a vaga para o Copenhagen.

– Lyon x Sevilla decidem em duelo direto a segunda vaga no grupo da Juventus. Franceses precisam vencer por dois ou mais gols de diferença, Sevilla pode empatar ou até perder por um.

– Napoli e Benfica deveriam ter vencido e se classificado nesta quarta, mas ambos bobearam feio. O duelo direto entre eles, na última rodada, em Lisboa, deve definir apenas um classificado. Quem vencer, ganhará o grupo. Empate classifica o Napoli. Ambos podem entrar juntos, caso o Besiktas não vença o eliminado Dynamo, em Kiev. Mas o time turco só depende de uma vitória para entrar.


Real Madrid mantém chances de ser primeiro. Mas será que vale?
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juliogomes

Real Madrid e Borussia Dortmund fizeram o básico nesta noite de terça-feira na Champions League: ganharam. O Real fez 2 a 1 no Sporting, em Lisboa, apesar de nova atuação fraca na Europa. E o Borussia fez 8 a 4 (oi-to-a-qua-tro) no Legia. Os dois agendaram uma disputa direta pela primeira colocação no grupo F, daqui a duas semanas, em Madri.

Ambos estão classificados. O Borussia, com 13 pontos, precisa só de um empate no Bernabéu contra o Real, que tem 11. Ao time de Madri, uma vitória simples basta para ser primeiro. Mas será que vale à pena para o Real Madrid ganhar o grupo?

Ao longo dos anos, muitas vezes vimos times grandes da Europa pagarem o preço por subestimarem a importância de ser primeiro na fase de grupos. Os primeiros colocados cruzam com os segundos nas oitavas de final, ano que vem, e decidem a segunda partida em casa. Times do mesmo país não podem se enfrentar, então o sorteio das oitavas é dirigido.

Na atual edição da Champions, temos cinco grupos com dois claros favoritos a ficarem com as vagas – e, aparentemente, todos passarão sem problemas. E três grupos sem qualquer bicho papão, com times fora da lista de favoritos ao título.

Se o Real Madrid ficar em segundo no grupo, o ''risco'' seria enfrentar uma espécie de ''final fora de hora'' contra o primeiro colocado de um dos outros quatro grupos, digamos, mais fortes. No entanto, destes quatro grupos tudo indica que em dois deles um time espanhol ficará em primeiro lugar (Barcelona e Atlético de Madri).

De pedreira para o Real, sobraria um confronto contra a Juventus ou contra o vencedor do grupo que tem Arsenal e PSG (estão empatados em pontos e se enfrentam nesta quarta, em Londres).

A chance seria de 40% de enfrentar Juve ou Arsenal ou PSG nas oitavas. Os outros possíveis rivais seriam o Monaco (já ganhou grupo E), o Leicester (já ganhou grupo G) e o primeiro colocado no grupo ponteado por Benfica e Napoli. Convenhamos, difícil imaginar que um desses quatro traga problemas para o Real Madrid nas oitavas.

Já se for primeiro colocado de sua chave, o Real Madrid aumentaria as possibilidades de enfrentar uma pedreira de verdade. Bayern de Munique e Manchester City, que devem ficar atrás de Atlético e Barça em suas chaves, poderiam ser rivais nas oitavas, além, claro, do segundo colocado entre Arsenal e PSG. Seriam três rivais duríssimos entre seis possíveis (os outros três possíveis rivais seriam Porto, Bayer Leverkusen e Napoli/Benfica/Besiktas).

Já o Borussia Dortmund, se for primeiro no grupo, não poderia pegar nas oitavas nem Real nem Bayern nem Bayer. Sobraria o City como pedreira e outros rivais menos complicados. Já se for segundo, o Dortmund poderia ser emparelhado com Barcelona, Atlético, Juventus, enfim, todos os primeiros colocados fortes (pois nenhum será alemão).

Para o Dortmund, é muito mais importante ser primeiro do grupo do que para o líder do Campeonato Espanhol.

É difícil imaginar um Real Madrid entrando em campo contra o Borussia para não ganhar. No DNA do Real Madrid, na história do clube, está a vitória – e não jogar com o regulamento embaixo do braço, como fazem frequentemente os clubes italianos.

Por outro lado, o duelo será realizado quatro dias depois do clássico contra o Barcelona, um jogo sempre muito desgastante física e psicologicamente. Além de todos os desfalques ao longo da temporada, Bale e Marcelo saíram de campo com problemas. Jogar com o freio de mão puxado é um cenário difícil de imaginar. Mas será que Zidane não irá resolver poupar algumas peças chave do elenco?

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Outros grupos

O grande jogo da terça-feira foi Sevilla 1 x 3 Juventus. O Sevilla abriu o placar e dominava a partida quando teve Vázquez expulso aos 35min de jogo. O árbitro inglês Mark Clattenburg acertou na expulsão, mas mudou o destino do jogo marcando um pênalti ridículo para a Juve no finalzinho do primeiro tempo. Aquele empurra-empurra na área, falta que, na minha visão, não pode ser marcada.

No segundo tempo, com um a mais, a Juventus foi pouco a pouco tomando conta do jogo contra um Sevilla com a cabeça em pressionar a arbitragem para arrumar uma compensação. Sampaoli foi expulso e levou as mãos à cabeça quando Bonucci, com um golaço, decretou a virada. Mandzukic fechou o placar.

Árbitro à parte, vitória enorme da Juve, sem Higuaín e Dybala. Com 11 pontos, a Juve está classificada e será primeira no grupo, pois pega o fraco Dinamo Zagreb em casa na última rodada.

O Sevilla agora joga a classificação contra o Lyon, fora de casa, podendo empatar ou até perder por um gol de diferença. O Lyon só se classifica se vencer por dois ou mais gols de diferença.

O grupo E já está definido. O Monaco, que vive grande temporada, fez 2 a 1 no Tottenham, chegou aos 11 pontos e já ganhou o grupo. O Tottenham, uma das decepções da fase de grupos, está eliminado precocemente. O Bayer Leverkusen já se garantiu em segundo lugar, pois tem três pontos de vantagem para o time inglês e a vantagem no confronto direto.

Se o Tottenham decepcionou, o Leicester venceu o Brugge por 2 a 1 e transferiu seu conto de fadas para a Champions League. Com 13 pontos, já garantiu a primeira posição no grupo F.

Na Premier League, o Leicester fez até agora 12 pontos em 12 jogos. Um ponto a menos do que na Champions em cinco rodadas.

O Porto empatou sem gols em Copenhague e chegou aos oito pontos contra seis dos dinamarqueses. O Porto se classifica caso vença o Leicester, em casa, na última rodada. Se tropeçar, no entanto, o Porto terá de torcer para o Copenhagen não ganhar do Brugge na Bélgica – o Brugge perdeu cinco de cinco, no entanto.

 


Que Real Madrid veremos na Champions?
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juliogomes

Depois do surpreendente empate por 3 a 3 contra o Legia, em Varsóvia, muitas interrogações apareceram sobre o sistema defensivo do Real Madrid. Mesmo descontados os desfalques, que são muitos, o Real de Zidane estava simplesmente levando gols demais – eram já dez partidas seguidas sendo vazado.

Depois daquele tropeço, o Real encaixou 3 a 0 no Leganés e no Atlético de Madri, com parada Fifa no meio destes jogos. No dérbi contra o Atlético, apesar do pênalti mal marcado que resultou no segundo gol de Cristiano Ronaldo e matou a partida, o Real teve uma de suas melhores atuações com Zidane.

Além da defesa segura, a boa notícia foi a atuação de Isco, que pode ser titular nesta terça contra o Sporting, em Lisboa.

No Campeonato Espanhol, o Real Madrid está voando. Ganhou cinco seguidas, com 18 gols marcados no período e uma vitória contundente sobre o rival da cidade. Possivelmente ganhará também do Gijón, em casa, no fim de semana, chegando embalado para o superclássico do dia 3/12 contra o Barcelona.

Após 12 rodadas, o Real lidera a Liga com quatro pontos de vantagem para um Barça que não parece tão firme como nas temporadas passadas. São seis para o Sevilla, que não disputará o título, nove para o Atlético, que está em sexto lugar e já ficando longe demais.

No entanto, a campanha avassaladora no campeonato doméstico contrasta com uma Champions League claudicante.

Na primeira partida, vitória de virada dramática, nos últimos minutos, contra o Sporting. Depois, empate em Dortmund, uma goleada básica em casa sobre o Legia e o surpreendente tropeço contra o mesmo (fraco) rival, na Polônia.

No grupo, o Borussia tem 10 pontos, o Real tem 8, o Sporting tem 3 e o Legia, 1. O Borussia, que vem de uma vitória gigante no clássico contra o Bayern, atropelará o time de Varsóvia, chegando a 13 pontos. E isso significa que, se o Real Madrid não vencer o Sporting em Lisboa, não terá chance de ser primeiro colocado no grupo.

Ao longo dos anos, já vimos em muitas ocasiões como não ser primeiro na fase de grupos pode ser um problemão.

Se perder do Sporting, até a vaga do Real fica ameaçada. Se ganhar, logicamente, chegará à última rodada precisando bater o Dortmund no Bernabéu para ser primeiro. Convenhamos, situação pouco usual para o Real Madrid, que costuma garantir a primeira posição no grupo nas fases iniciais das Champions com mais facilidade.

O detalhe deste ano é que, com Barcelona, Atlético e Sevilla perto de garantir a primeira posição em seus grupos (confrontos entre times do mesmo país são proibidos nas oitavas), o Real tem mais chances de enfrentar uma pedreira se for primeiro colocado do que segundo. Difícil imaginar que alguém esteja pensando nisso em um clube em que vencer não é objetivo, é obrigação.

Os retornos recentes de Modric e Sergio Ramos dão ao Real Madrid segurança defensiva. São jogadores que fazem parte da espinha dorsal do time. Veremos se Isco dá sequência à boa fase. De resto, Cristiano Ronaldo resolve ali na frente – dó do ex-clube ele não terá, apenas respeito.

A tendência é que o Real Madrid passe por cima de um Sporting que empatou três de seus últimos quatro jogos no Campeonato Português e já está a cinco pontos do líder Benfica. Não tem um ano tão bom quanto o passado. Mas o mesmo se achava do duelo entre os times no Bernabéu, na primeira rodada…

A terça-feira tem também um enorme Sevilla x Juventus em disputa direita pela primeira posição do grupo H. O Sevilla tem dois pontos de vantagem e, se vencer, será primeiro.


Brasil de Tite é, no momento, a melhor seleção do mundo
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juliogomes

Como o futebol é dinâmico, não? Quem imaginaria, seis meses atrás, que eu estaria falando que a seleção brasileira é a melhor do mundo? Ou pelo menos que ''está'' a melhor do mundo.

Depois dos 7 a 1, de Dunga, dos jogos com o Haiti, Peru, as Copas Américas… A seleção brasileira vivia a maior depressão de sua história. E, de repente, tudo mudou com a chegada de Tite. Que deveria estar lá, no mínimo, no mínimo, desde 2014.

O melhor técnico do Brasil, atualizado, moderno, que domina todas as facetas da profissão. Tática, física, análise dos adversários, comportamento, alterações ao longo do jogo. Tite é bom em tudo. E faz um trabalho incrível em tão pouco tempo – ele não quer os louros e destaque o trabalho coletivo. Sem dúvida, é um trabalho coletivo. Mas liderado por você mesmo, Tite.

A seleção brasileira é recheada de grandes jogadores em todos os setores, ainda que tenha rolado o papinho de ''geração ruim''. Não necessariamente melhores do mundo em suas posições, mas suficientemente bons. Bastou que se parasse de olhar para o indivíduo e que começasse a ser priorizado o coletivo, que é o que o esporte é. E tudo mudou.

A seleção do Brasil não É a melhor do mundo, mas ESTÁ.

Nenhuma seleção europeia mostra, hoje, o futebol que o Brasil mostrou nos últimos meses com Tite (e não mostrou tal futebol em amistosos patéticos mas, sim, em jogos de alta competitividade. Contra Argentina, Colômbia, na altitude do Equador, enfim).

Alemanha e Espanha, as mais fortes das últimas competições, vivem transição. Testam novos jogadores, buscam opções. Serão fortes na Copa-2018, sem dúvida. Mas, hoje, não mostram a bola que o Brasil mostra. E vimos isso na Eurocopa. A França, que parecia a melhor da Europa no meio do ano, tampouco empolga nas eliminatórias. Sofre. Assim como Itália e Inglaterra. A Bélgica sofre por falta de competitividade nos jogos grandes.

Chile e Portugal, os campeões de meio de ano, não têm essa bola toda. A Argentina, melhor seleção sul-americana dos últimos anos, caiu. Por Bauza, pela defesa ruim, por problemas extra-campo, pela solidão de Messi, crise jogadores-imprensa, enfim.

Com 27 pontos, o Brasil está a um ponto (em seis jogos) da Copa da Rússia. E pensar que correria sério risco se Dunga continuasse. É incrível como, com trabalho bem feito e resultados aparecendo, a tranquilidade transforma a seleção brasileira em um timaço. Basta ver a finalização de Gabriel Jesus no primeiro gol contra o Peru. Sem medo de errar, basta aos jogadores fazer o que sabem muito bem fazer desde crianças.

gabrieljesus_peru

Se a Copa começasse amanhã, o Brasil seria o favorito, sim senhor. Hoje, nenhum time joga mais bola ou está mais azeitado.

Outra coisa é o que acontecerá daqui a um ano e meio. Assim como em seis meses tudo mudou para o Brasil, em pouco tempo tudo pode mudar para todo mundo. Faltam muitos testes ainda, muitas situações. Mas o caminho está claramente certo.

Não é euforia gratuita. É apenas constatação de momento. MO-MEN-TO.


Fórmula 1 fez a justiça que muitos não fazem a Massa
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juliogomes

Felipe Massa bateu sua Williams debaixo de chuva e abandonou o último GP que faria em Interlagos. Até aí, tudo certo. Mas o fato ganhou uma dimensão enorme, já que o acidente ocorreu na reta principal de Interlagos, a algumas dezenas de metros dos boxes. Safety car na pista, disputa interrompida. Foi a senha para uma das cenas mais emocionantes da história da Fórmula 1.

Felipe Massa pegou uma bandeira do Brasil e caminhou aos prantos rumo ao box de sua equipe. Foi ovacionado pela torcida. Aplaudido por todos os mecânicos da Mercedes (equipe que nunca defendeu). Abraçado por todos os mecânicos da Ferrari (equipe pela qual quase conquistou um título). E, claro, aclamado pelos mecânicos da Williams, que fizeram um corredor glorioso para ele. Tudo isso ao lado de mulher e filho.

massa_ferrari

A circunstância da corrida permitiu que a transmissão oficial mostrasse tudo isso por muitos minutos.

Já escrevi aqui neste blog sobre como Felipe Massa é um cara legal. Mas não vou me ater à experiência profissional que tive com ele.

A cena levou muita gente às lágrimas, inclusive este escriba. Mas, quando compartilhei deste sentimento no Twitter, recebi algumas respostas na linha: ''nunca ganhou nada, não vai deixar saudades''.

Esse ''nunca ganhou nada'' é bem discutível. Massa ganhou 11 corridas na carreira. Somente 26 pilotos na história ganharam mais que ele. Curiosamente, ganhou as mesmas 11 que Jacques Villeneuve e Rubens Barrichello.

Jacques Villeneuve ganhou um título e era tido como um piloto corajoso. Filho de Giles, que morreu na pista e será para sempre lembrado como um piloto hiperarrojado, um dos grandes. Já Barrichello, pelo contrário, será lembrado pelo complexo de perseguição. Um cara bacana, mas que acredita mesmo que era tão bom quanto Schumacher e só não ganhava títulos porque a Ferrari não deixava.

Massa não é nem Villeneuve nem Barrichello.

Não vai entrar para a história como um piloto super arrojado e apaixonante de se ver dirigindo. Tampouco passou anos e anos chorando, reclamando, considerando-se melhor do que realmente era.

No Brasil, temos a péssima mania de valorizar somente o extraordinário, o campeão, o melhor. Ayrton Senna foi um dos maiores, mas, entre as besteiras que falou na vida, está o negócio do ''segundo lugar é o primeiro dos últimos''. Uma frase infeliz que só fez confirmar uma cultura que despreza os que são bons, ótimos até, trabalhadores, mas que nunca chegaram ao topo.

Felipe Massa, nesta visão tosca e curta, é um m*** para muitos. Quantas pessoas você conhece são as melhores do mundo no que fazem? E quantas são boas o suficiente para ganhar seu respeito?

Felipe Massa foi um muito bom piloto de F1, a categoria que reúne a nata da nata da nata do automobilismo. Chegou à equipe mais famosa da história sem costas quentes, somente com trabalho. E não conquistou carinho e respeito de TODOS no circuito promovendo festas, orgias para os mecânicos ou dando chocolates e sorrisos gratuitos. Mas, sim, com trabalho, perseverança, ética, respeito mútuo.

Em 2007 e 2008, seus grandes anos na categoria, correu de igual para igual com qualquer um, sem ter um carro superior. Ficou a um ponto de um título mundial. Ganhou corridas em Interlagos. Disputou com Lewis Hamilton, Fernando Alonso e Sebastian Vettel, três dos maiores pilotos da história. Seus rivais na pista eram melhores que os rivais dos anos de Barrichello, por exemplo (exceto, claro, Schumacher). Nunca vimos um discurso de ''coitadinho'' de Massa ou de adversários falando dele.

Sofreu um acidente que quase lhe tirou a vida. Ninguém me convence que isso não tenha afetado os anos seguintes na carreira. Do auge à quase morte, compreensível. Aí vieram os anos com Alonso, um companheiro de equipe insuportável. Fez o trabalho que a Ferrari pediu, sem ficar de mimimi. Aceitou, aceitou. Em vez de aceitar e ficar reclamando. Vieram algumas boas corridas com a Williams.

E é isso aí. O mundo do esporte, de qualquer esporte, é formado por gênios, ótimos, bons, médios, ruins e péssimos. Para que um Schumacher ganhe uma corrida, é necessário que outros 20 não ganhem. Para que um Messi meta 50 gols na temporada, é necessário que outros milhares de jogadores levem seus dribles e gols. Para que um Lebron James ganhe um título, outros precisam perder e levar suas enterradas na cabeça. Não há ganhador sem (muitos) perdedores.

Massa não foi gênio e nem figurante. Foi um muito bom piloto por alguns anos. Mas, muito mais que isso, foi um ótimo profissional. E nada é mais simbólico do que receber tal reconhecimento de quem realmente conviveu com ele, na mesma equipe ou não, ao longo dos anos. Aplaudido por quem faz a Fórmula 1, não por quem faz churrasco aos domingos e se sente no direito de chamá-lo de ''um bosta''.

Massa vai deixar saudades? Não sei.

Sei que deixa um exemplo a ser seguido. Ser o melhor piloto é bacana. Ser uma ótima pessoa é mais ainda.

 

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